E se ele estiver certo?

por James Howard Kunstler [*]

Barreira frágil. Exactamente quando a América estava a celebrar o fim provisório do jorro de petróleo Macondo da BP, e a retornar a questões tão importantes como a colecção de fatos de Kim Kardashian, surge Matthew Simmons com um estranho e alarmante protesto acerca de acções no Golfo do México. Os seus protestos contradizem este ambiente de festividade renovada e as reportagens dos media de referência e demais.

A companhia de Matt Simmons, com sede em Houston, tem sido desde há muito o principal banco de investimento da indústria petrolífera americana, financiando a exploração e perfuração em lugares como o Golfo do México. Simmons, 68 anos, retirou-se recentemente da administração do dia-a-dia da companhia. Durante grande parte desta década foi o que muitos descrevem como um activista do Pico Petrolífero. O seu livro de 2005, Crepúsculo no deserto (Twilight in the Desert), advertia o público de que a produção de petróleo da Arábia Saudita havia alcançado os seus limites e, mais genericamente, que um mundo dependente do petróleo estava a entrar numa zona de perturbação séria quanto ao seu recurso primário. Ele tomou esta posição agressiva apesar de ser arriscar à ira das pessoas com quem fazia negócios.

Matt Simmons é um indivíduo sóbrio e muito simpático (encontrei-me um par de vezes com ele nos últimos anos), um executivo empresarial que está há quarenta anos no negócio de petróleo. O seu conhecimento é profundo e abrangente. Desde o princípio do incidente da explosão do BP Macondo, em Abril, ele adoptou a posição incomum de que o furo está fatalmente comprometido e de que a BP tem estado a mentir sistematicamente acerca das suas operações para travar o fluxo de petróleo. Talvez mais radicalmente, Simmons afirma que um "jorro" de petróleo está a ser vertido no Golfo há alguma distância do próprio sítio da perfuração.

Na semana passada Simmons compareceu ao show financeiro de Dylan Ratigan, na MSNBC, mas deu uma entrevista mais longa no sítio web King World News (clique aqui para a entrevista de Simmons a Eric King). A presente advertência de Simmons acerca da situação centra-se sobre o gigantesco "lago" de petróleo bruto que jaz sob grande pressão a 4000 a 5000 pés [1219 a 1524 metros] no "subsolo" das águas do Golfo. Mais particularmente, ele preocupa-se em que uma tempestade tropical traga este petróleo para cima – como fazem habitualmente tempestades e furacões com águas frias mais profundas – e com nuvens de gás metano que se moverão rumo às costas do Golfo e matarão um bocado de pessoas. (Eu realmente não conheço a ciência disto e agradeço a qualquer leitor que me corrija, mas suponho que o "lago" profundo de petróleo sob as águas do Golfo contém um bocado de gás metano dissolvido sob pressão e que quando o petróleo ascende rumo à superfície do oceano, e a temperaturas mais baixas, o gás borbulhará para fora da solução.)

Crescem os protestos. Simmons apresenta dois pontos adicionais que são quase radicais: diz ele que vários estados junto ao Golfo devem começar agora evacuações sistemáticas de municípios junto à costa. Com sua experiência em Houston com o Furacão Rita (2005), ele diz que uma evacuação no último minuto está destinada a ser um desastre – com auto-estradas irremediavelmente congestionadas, condutores sem gasolina e a seguir postos sem combustíveis. Com base no estado de espírito colectivo em que está o país nestes dias, não posso imaginar que qualquer governador de estado do Golfo ou presidente de municipalidade dê atenção a esta advertência e comece a preparar uma evacuação desde já. (Os problemas práticos são óbvios para os proprietários de casas, mas e se for realmente uma questão de vida ou morte?)

Em segundo lugar, Simmons sustenta – como o tem feito desde o começo da explosão – que os militares dos EUA deveriam tomar o comando das operações da BP e poderiam por a funcionar um "pequeno" dispositivo nuclear junto ao furo para fundir a rocha transformando-a em vidro e assim selar o sítio permanentemente. Simmons afirma, com base na sua experiência de ter sido criado no Utah próximo dos sítios de testes nucleares subterrâneos do governo, na vizinhança de Nevada, onde grande número de bombas atómicas muito grandes foram disparadas durante anos sem consequências mensuráveis acima do solo, que uma pequena explosão nuclear no furo Macondo é improvável que tenha qualquer efeito acima da rocha da superfície debaixo do mar. Não faço ideia, pessoalmente, se isto é verdadeiro.

Matt Simmons está a tomar uma posição tão "extraordinária" que mesmo o sítio web radical do Pico Petrolífero, TheOilDrum.com , não comentará as suas observações (pelo menos não até à manhã de segunda-feira 19 de Julho). Não sei como avaliar as alegações de Simmons por mim próprio, excepto dizer que não acredito que Simmons seja um tolo, ou que tenha perdido o seu juízo. Também devemos supor que alguém na sua posição é capaz de conversar com uma terrível quantidade das melhores pessoas na indústria petrolífera. Simmons colocou a sua reputação em jogo. Um bocado de espectadores e comentadores estão a tratá-lo como um louco. O próprio Simmons está penosamente consciente da sua posição solitária e parece, nas suas intervenções públicas, ser um mensageiro muito pesaroso.

Nas últimas 24 horas, a BP relatou algumas possíveis fugas vindas do leito do mar a alguma distância do furo. Ainda ninguém foi capaz de confirmar exactamente o que está a acontecer lá em baixo. Outra coisa que Simmons diz é que a BP deveria ser banida dos media uma vez que, afirma ele, tem mentido sistematicamente a fim de encobrir a sua negligência e culpabilidade criminosas. A própria companhia não pode ser salva porque as reclamações contra ela são muito maiores do que o valor dos seus activos – mas as pessoas que a dirigem podiam ser enviadas para a cadeia, de modo que o incentivo para continuar a mentir permanece alto.

Jesse no sítio web Jesse's Café Américain faz uma excelente demonstração de que se Matt Simmons estiver correcto e se se constatar que o governo dos EUA tem sido enganado pela BP, então o que resta da confiança do público quanto à competência e legitimidade do governo poderia evaporar-se. Não é satisfatório ver isto no momento em que o estado do país e da sua economia estão tão frágeis. O que se seguiria podia fazer a actual situação política parecer como pouco mais do que, bem, do que um tea party, em comparação com a política que ocorreria.

Os leitores do Clusterfuck Nation provavelmente estão bem conscientes das minhas declarações passadas de ser alérgico a teorias da conspiração e a ideias loucas em geral. Eu realmente não estou apto a avaliar as advertências de Matt Simmons acerca da natureza exacta do jorro do Macondo e do que pode acontecer nos próximos meses. Mas, tendo-me encontrado, trocado correspondência com ele e lido os seus livros, estou confiante de que é um atirador de primeira. Estou certo de que é sincero ao proclamar o seu extremo desconforto com a posição que tomou. Ouçam e decidam por si mesmos. ( entrevista de Simmons a Eric King )

19/Julho/2010

Ver também:
  • Golfo do México: A opção nuclear no furo da BP
  • A Critical Examination of Matt Simmons’ Claims on the Deepwater Spill , de 29/Julho/2010 (uma resposta aos argumentos de Simmons, posterior ao artigo acima)

    [*] Autor de World Made by Hand

    O original encontra-se em http://kunstler.com/blog/2010/07/what-if-hes-right.html


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 26/Jul/10
    Actualizado em 29/Jul/10