Dias estranhos
"O pico petrolífero significa o fim da capacidade de
suportar o serviço da dívida, a todos os níveis: pessoal,
corporativo e governamental."
No mesmo momento em que uma onda de náusea inundava a América, na
semana passada, e os registos do desemprego inchavam com um acréscimo
muito superior a meio milhão, a maior corrida de especuladores do
mercado de acções em 70 anos arrastava o último dos
crédulos. Estes são dias estranhos. A terra está a
tremer e esses sujeitos incham outra vez pelo menos ao Norte do
equador, onde decorre a maior parte da acção e a economia
global, que parecia ser o novo complemento permanente da condição
humana, cospe escarros horrendos. Mas ninguém responsável por
alguma coisa parece acreditar nisso. O fiasco bancário introduziu tanto
ruído no sistema que as lideranças mundiais já não
podem pensar direito.
O que eles estão a omitir é a simples realidade:
o pico
petrolífero significa o fim da capacidade de suportar o serviço
da dívida, a todos os níveis: pessoal, corporativo e
governamental.
Fim de história. Todos os esforços efectuados que
ignoram este facto básico da vida
equivalem ao sapatear convulsivo diante da cortina de fumaça
que esconde um mundo de prejuízos. Se a "facilidade
quantitativa" (criação de dinheiro) e a
prestidigitação fiscal (TARP's, TARFs, etc) porventura elevasse a
"velocidade" deste novo
funny-money
[1]
e o mundo retomasse ao seu nível anterior de utilização
do petróleo, o preço deste dispararia outra vez desta vez
astronomicamente porque o crash anterior dos preços do petróleo
esmagou o desenvolvimento de novos projectos petrolíferos destinados a
compensar o esgotamento e a economia global entrará em crash mais
uma vez. Só a fase seguinte da doença pode ir além do
financeiro e entrar na esfera do social e do político. A desordem de
vários tipos dominará derrube de governos,
inquietação civil, tensão e conflito internacional.
Os EUA estão a fazer todo o possível para evitar estas
terríveis realidades, mas provavelmente o pior auto-engano é a
ideia de que tudo estaria bem se pudéssemos simplesmente
"recomeçar a emprestar". Isso é exactamente o que
não vai acontecer. Não há mais capacidade para o
serviço da dívida que já acumulámos. Os americanos
tomaram demasiado emprestado e os banqueiros que fizeram fortunas obscenas em
taxas, comissões e bónus através de empréstimos
fraudulentos conseguiram alavancar esta dívida impagável na maior
trapaça colectiva que o mundo alguma vez experimentou. A trapaça
injectou veneno em cada célula do organismo macro
sócio-económico e é improvável que novas
trapaças o ressuscitem.
A corrida às acções, as financeiras em particular, pode
perdurar mais um mês ou dois. Nesse ínterim, os bancos
estão a esforçar-se desesperadamente para evitar cancelar mais
maus empréstimos especialmente no imobiliário comercial,
centros comerciais porque não querem mais perdas nos seus
balanços. Isso pode continuar só por mais algum tempo. Mais cedo
ou
mais tarde o encadeamento de credibilidade nas transacções
fundamentais do negócio perde legitimidade e algo tem de ceder.
A minha estimativa é que terá lugar, em algum momento após
o Memorial Day
[2]
(mas talvez antes), na forma de liquidações maciças de
tudo sob o sol da América do Norte: companhias, casas, bens
móveis, papéis do Tesouro dos EUA de toda espécie e,
naturalmente, o S&P 500. Logo descobriremos se num organismo da dimensão
dos Estados Unidos pode funcionar uma economia baseada na venda do
conteúdo da garagem de uma família para a família da porta
ao lado. A minha suposição é que este tipo de economia
não suportará os padrões de vida antes desfrutados em
lugares como Dallas e Minneapolis.
O resultado sócio-político da ira e decepção
inerente a tudo isto pode ser severo. O público já está a
aquecer-se para isso, com vedetas tais como Glen Beck na Fox TV a apelar
à formação de milícias e armas a desaparecerem das
lojas. Um erro que a elite banqueira e os seus paladinos juristas cometeram na
última década foi a ostentação de
aquisições visíveis especialmente casas em
lugares nos quais podem ser facilmente incomodados, onde podem ser vistos por
todos, como por exemplo multidões iradas em Fairfield County,
Connecticut, ou Easthampton, New York. Ao contrário das elites sitiadas
da África do Sul (que visitei recentemente), as quais vivem por
trás de camadas de fortificações, os executivos do
Citibank, Goldman Sachs, J.P. Morgan e de uma longa lista de hedge funds
serão encontrados encolhidos nas suas adegas por trás de uma
miserável cerca viva quando indivíduos tatuados açulados
por Glen Beck
[3]
vierem buscá-los.
Isto talvez pudesse ser evitado se alguém com autoridade, como o
Procurador Geral Eric Holder, tomasse um interesse agressivo pelas
múltiplas trapaças da última década e principiasse
alguns processos. Mas a janela de oportunidade para este tipo de
acção de melhoria pode encerrar-se mais cedo do que o governo e
os media de referência acreditam. A mudança de fase social, como
nas formações de multidões, não está fixada.
Uma vez partida a primeira janela, desaparecem todas as apostas de estabilidade
social. Minha conjectura é que os vários salvamentos-prenda para
os banqueiros foram demasiado longe aos olhos deste público cada vez
mais inflamável.
Não tivemos nenhuma experiência anterior com este tipo de
inquietação social. A violência da era do Vietname
parecerá muito limitada e razoável em comparação
no sentido de que era um levantamento no terreno dos princípios,
não da sobrevivência. E a Guerra Civil foi um assunto totalmente
arregimentado entre duas facções rivais. Desta vez, pessoas com
pouco interesse em princípios, para além de uma ténue
ideia de justiça económica, estarão a brandir ferros em
brasa como resultado desta absoluta má-fé e malícia. No
momento em que Lloyd Blankfein
[4]
tiver visto as tochas a tremularem no seu canteiro de flores será
demasiado tarde para defender a honra da sua máquina de cappuccinos.
O presidente Obama terá de mudar drasticamente o seu plano de jogo
actual se quiser evitar este desenlace. Penso que ele é capaz de anular
o crime organizado de impedir os gafanhotos de se transformarem em
nuvens mas será preciso um extraordinário exercício
de autoridade para isso, tal como a verdadeira (não a pretensa)
nacionalização dos grandes bancos, planear a saída de Ben
Bernanke da Reserva Federal, engolir a ignomínia de ter de substituir o
regulador fracassado Tim Geithner no Departamento do Tesouro e lançar os
cães sobre os trapaceiros que tiveram a ousadia de jogar o seu
país por um rebuçado.
Como declarei mais de uma vez neste espaço, o padrão de vida na
América terá de vir abaixo. Nós hipotecámos o nosso
futuro e o futuro começou agora. Duros carolos para nós. Mas a
generalidade do público não aceitará a realidade disto
enquanto os grandes das finanças e os seus seguidores incondicionais
ainda aparentarem desfrutar a boa vida. Eles terão de ser duramente
rebaixados, talvez mesmo desgraçados e humilhados nos tribunais e
certamente apartados de algo das suas fortunas ainda que seja só
com honorários de advogados. O sr. Obama quase deu a notícia
disto na semana passada, ao contar a uma delegação de banqueiros
na Casa Branca que ele era a única coisa que se postava entre eles e
"os forcados". É possível que esteja a entender a
situação.
06/Abril/2009
[1]
Funny Money:
dinheiro falsificado; dinheiro que foi inflacionado ou deflacionado de modo
artificial por razões políticas; dinheiro fabricado por meios
desonestos.
[2]
Memorial Day:
feriado nos EUA comemorado na última 2ª feira de Maio
(25/Maio/2009).
[3]
Glenn Beck:
um apresentador reaccionário da TV estado-unidense, com grande
audiência.
[4]
Lloyd Blankfein:
Actual CEO e presidente do banco Goldman Sachs.
[*]
Autor do romance
World Made by Hand
, acerca do futuro pós petróleo
O original encontra-se em
jameshowardkunstler.typepad.com/clusterfuck_nation/2009/04/strange-days.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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