Reflexões acerca da conferência
Pico Petrolífero: Desafios e oportunidades para os países do CCG
– Doha, Qatar, 2-4/Abril/2013

por Robert L. Hirsch [*]

Tive a sorte de estar entre os poucos ocidentais convidados a comparecer e falar nesta conferência sobre o "pico petrolífero" (PP) – a primeira desta espécie num país do Médio Oriente. O facto de um grande exportador de petróleo do Médio Oriente promover uma conferência sobre um até agora assunto proibido foi bastante notável e uma mudança dramática em relação a décadas de negação do PP. Os dois dias e meio de reunião foram bem participados por pessoas do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) bem como outros países da região.

O pressuposto inicial era que o "pico petrolífero" ocorrerá no futuro próximo. O prazo temporal do início iminente do declínio da produção do petróleo mundial não estava em causa na conferência, ao invés disso o foco principal era o que os países do CCG deveriam fazer a curto prazo para assegurar um futuro próspero a longo prazo. Para muitos de nós que há muito sofre a negação vociferante do PP por partes de países do CCG-OPEP, esta conferência representou uma enorme mudança. Nas palavras de Kjell Aleklett, que resumiu os pontos altos da conferência, a reunião foi "um evento histórico".

Se bem que muitos adeptos do PP tenham-se centrado nos impactos e na mitigação do "pico petrolífero" nos países importadores, a maior parte dos que compareceram a esta conferência estava preocupada com o impacto que reservas finitas de petróleo e gás terão no futuro a longo prazo dos seus próprios países exportadores. Eles encaram o esgotamento das suas grandes mas limitadas reservas como a permitir aos seus países um período de tempo no qual ou transformam seus países em entidades sustentáveis capazes de continuar no futuro a longo prazo ou decaem outra vez para a situação pobre e nómada que existiu antes da descoberta do petróleo/gás. Consequentemente, grande parte do foco da conferência era sobre como os países do CCG podem utilizar sua riqueza actual e a curto prazo para construir futuros económicos e governos sustentáveis.

Um sabor da conferência pode ser obtido a partir das seguintes citações aleatórias, livremente traduzidas:



  • - Isto é uma conferência pioneira.

  • - Os organizadores foram corajosos ao organizar esta conferência.

  • - O pico petrolífero proporciona um incentivo para a consideração de importantes questões nacionais e regionais. O CCG actualmente está a trabalhar novos problemas com velhas soluções.

  • - A receita petrolífera representa cerca de 93% do orçamento saudita. Tudo agora é importado – perícia estrangeira e a maior parte do trabalho. Os sauditas não podem continuar na rota actual, porque levaria a um "mau futuro". Precisamos mudança radical.

  • - Após o pico petrolífero, haverá grandes cidades ou as do Médio Oriente acabarão como as cidades fantasmas da mineração de ouro no velho Oeste dos EUA?

  • - Até agora temos desperdiçado a nossa oportunidade.

  • - O petróleo de xisto (shale oil) nos EUA é uma grande loucura e não invalidou o pico petrolífero. Nós definitivamente temos de nos preocupar acerca do pico petrolífero.

  • - As reformas políticas fracassaram em corrigir adequadamente nossa falta de democracia e responsabilidade.

  • - Quando as pessoas são excluídas da política, elas ficam incontroláveis.

  • - Cidadãos no Médio Oriente preferem empregos no sector público porque eles pagam melhor do que empregos no sector privado.

  • - Os estrangeiros são a maioria das nossas populações, tipicamente 80%.

  • - As escolas estão a ensinar "coisas velhas" às crianças. As escolas são um desastre.

  • - A cultura actual é do desperdício.

  • - Há empregos vagos na Arábia Saudita, mas as pessoas locais não estão preparadas para ocupá-los. Os sauditas para o estrangeiro a fim de obter licenciaturas avançadas mas não se qualificam para empregos sauditas, de modo que a Arábia Saudita deve importar trabalho estraneiro. A Aramco não fez um bom trabalho no treino de nacionais sauditas.

  • - O CCG deve educar mulheres e dar-lhes maiores direitos e igualdade.

  • - Em muitos países dominadores absolutos obtêm os rendimentos e receitas e não deixam muito para o povo. Um ditador egoísta não desenvolve o seu país.

  • - A globalização está agora a ser encarada amplamente de modo mais negativo. Quando o pico petrolífero chegar, será extremamente difícil manter.

  • - Preços altos do petróleo terão impacto sobre o mundo mesmo antes do início do pico petrolífero.

  • - O sistema legal árabe está em maus lençóis e precisa de atenção.

  • - O pico petrolífero é a questão mais importante nesta parte do mundo.

    - Pessoas lêem literatura religiosa quando deveriam estar a ler literatura técnica.

  • - A região tem riqueza, pessoas ricas e pobres, pessoas pobres.

  • - Os governantes devem entender que o povo deve ser parte do futuro.

  • - As gerações futuras devem ter direitos.

Ao encerrar, quero exprimir minha apreciação aos nossos hospedeiros qataris. Eles foram hospitaleiros, cálidos, amistosos e mostraram a espécie de determinação tranquila para fazer do seu país um lugar melhor. Doha é uma cidade notavelmente bela. Finalmente, do que pude ver, o emir está a tomar passos positivos e agressivos para construir um vigoroso futuro esclarecido para o seu país.

[*] Antigo conselheiro sénior sobre energia da Science Applications International Corporation, e conselheiro sénior em energia no MISI e consultor em energia, tecnologia e gestão. Participou de numerosos comités relativos ao desenvolvimento energético e é o autor principal do relatório Peaking of World Oil Production: Impacts, Mitigation, and Risk Management, escrito para o Departamento de Energia dos EUA.

O original encontra-se em http://aspousa.org/wp-content/files/por130415.pdf

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
17/Abr/13