Para onde vai a produção de petróleo? Um cenário adverso

por Gail o Actuário

Muitos de nós têm gravada na mente a imagem do Pico de Hubbert. Com base neste pico, assumimos que a produção de petróleo declinará em grande medida com o mesmo padrão com que ascendeu. Por exemplo: numa análise efectuada anos atrás, Luís de Sousa mostra este gráfico, baseado na aplicação do modelo de Hubbert aos dados disponíveis até 2004. Com base nesta análise, ele concluía que a produção de petróleo deveria atingir o pico em torno do Solestício de Verão de 2006.

Figura 1.
Figura 1. Curva de Hubbert ajustada para dados até 2004

O referido gráfico é amedrontador, mas é também algo confortante. Uma pessoa fica com a ideia de que, apesar do declínio, a produção não desaparecerá demasiado rapidamente. Devido à taxa de declínio aparentemente lenta, fica-se com a ideia de que seríamos capazes de nos safarmos bem apenas com umas poucas adaptações – talvez alguns carros eléctricos.

Preocupa-me que o declínio real da curva possa ser muito diferente do perfil imaginado por Hubbert. O problema é que o factor limitante provavelmente não é a geologia, mas sim o fracasso de complexos sistemas em rede, particularmente o sistema financeiro. Abaixo mostro uma visão daquilo com que a futura produção de petróleo se poderia parecer, assumindo que a actual desestruturação da dívida mundial desestabilize todo o sistema financeiro e torne necessário reconstruí-lo quase a partir do zero.

Obviamente, não sei precisamente o que aconteceria à produção mundial de petróleo bruto se o sistema financeiro do mundo entrasse em crash. Mas aqui está uma possibilidade:

Figura 2.
Figura 2. Visão da produção de petróleo bruto expectável no futuro, após um crash financeiro mundial

A curva de Hubbert dá-nos uma ideia de que o máximo de produção de petróleo poderá dever-se a constrangimentos geológicos. A minha previsão vai no sentido oposto – que é o pior caso, se a actual desestruturação da dívida resultar num grande colapso financeiro à escala mundial. É impossível assinalar uma probabilidade para este tipo de acontecimento, mas mesmo que a probabilidade seja muito baixa – digamos 1% – ela afectaria modelos de planeamento que consideram um conjunto de possibilidades.

Antecedentes

O nosso sistema financeiro é baseado na dívida. Desde 1971, o sistema financeiro não tem ligação ao ouro ou a qualquer outro padrão físico. Ao invés disso, no nosso sistema bancário com reserva fraccionária, o dinheiro é formado através da emissão de dívida. Quanto mais dívida for emitida, mais dinheiro há e mais procura haverá por bens e serviços. Enquanto o sistema está a crescer funciona bem, porque reembolsar dívidas com juros não coloca demasiada tensão no sistema.

Figura 3.

Quando o sistema económico cresce é possível reembolsar dívidas com juros, porque mesmo depois de pagá-los resta bastante dinheiro para outras coisas. Para um negócio ou governo que está a girar dívidas, o fluxo de caixa continua a aumentar.

Figura 4.

Quando a economia atinge limites, tal como uma oferta de petróleo que não pode crescer suficientemente rápido para suportar o crescimento necessário a fim de manter as fábricas em andamento, reembolsar a dívida com juros torna-se um fardo enorme. Temos estado a atingir esse ponto nos últimos anos, quando a produção de petróleo permaneceu aproximadamente constante e os seus preços ascenderam. Os preços dos alimentos também cresceram, mas os salários reais não subiram bastante rápido para manter o tecido produtivo em andamento. Logo começaram os incumprimentos das dívidas.

Uma vez iniciados os incumprimentos de dívidas, entrámos subitamente num novo ciclo:

Pico petrolífero –>  preços mais altos do petróleo, mas pouca produção adicional –>  salários estagnados –>  incumprimentos de dívidas –>  bancos não em posição de conceder empréstimos devido a perdas sobre os mesmos –>  dívida mais difícil de cobrar –>  procura mais baixa –>  preços mais baixos do petróleo –>  despedimentos colectivos e menos investimento.

Se se tratasse de problemas apenas na indústria petrolífera, poder-se-ia pensar que eles se auto-corrigiriam, uma vez que menos investimento deveria conduzir a menos produção, e finalmente os preços recuariam, e pelo menos parte do ciclo seria reparado.

Mas os problemas provocados pelo pico petrolífero e os limites de recursos são muito mais generalizados do que apenas em relação ao petróleo. Além do ciclo acima, temos também um ciclo mais geral:

Pico petrolífero –>  preços mais elevados do petróleo, mas pouca produção adicional –>  salários estagnados –>  pouco rendimento discricionário –>  cortes na compra de muitos ítens discricionários –>  despedimentos colectivos (restaurantes, jornais, muitos negócios) –>  mais incumprimentos de empréstimos –>  bancos não em posição de conceder empréstimos devido a perdas sobre os mesmos –>  dívida mais difícil de cobrar –>  procura mais baixa –> preços mais baixos de outras mercadorias, como alimentos –>  mais incumprimentos e despedimentos –>  bancos em situação ainda pior –>  etc.

Estes ciclos estão a conduzir a um enorme "descosturar" de dívida que mal começou. Há um grande número de contratos derivativos em curso e alguns destes podem gerar enormes pagamentos (como já aconteceu com a AIG). Isto também mal começou a desandar.

Não é demasiado difícil imaginar uma situação em que o sistema bancário mundial entra em colapso e venha a ser necessário recomeçar, talvez quase do zero, com novas divisas e novos tratados internacionais. Em resultado de tais mudanças, há pelo menos a possibilidade de que o sistema financeiro mundial possa funcionar apenas a um nível mínimo, e nesse caso a produção mundial de petróleo terá lugar apenas a um nível muito baixo.

Algumas ideias sobre aquilo que pode estar pela frente

Neste momento, há muito mais de dívida do que há de activos para reembolsar dívidas. Muitas vezes, duas ou três ou quatro pessoas ou organizações pensam que têm direitos sobre os mesmos activos. Pense de uma casa. Um investidor compra a casa e arrenda-a. O arrendatário paga a sua renda e tem um direito sobre a casa. O investidor é o "proprietário", de modo que ele tem um direito sobre o lugar. A hipoteca sobre a propriedade é provavelmente acrescentada a um pacote de outras hipotecas e dividida em fatias e sorteada e revendida a outros investidores. Cada um deles indirectamente acredita que tem alguma espécie de direito à propriedade. Pode haver também um segurador a garantir a dívida que também tem algum tipo de direito. O governo federal, através de um dos seus empréstimos ou programas de garantia de dívida pode também depender dos activos subjacentes. Além disso, se o proprietário não pagar os seus impostos, o governo local também pode sentir que tem um direito sobre a propriedade.

Com todos estes incumprimentos de dívida e a incapacidade para regularizar todas as dívidas equitativamente, alguma espécie de jubileu da dívida pode ser necessária. Isto pode começar com alguns pequenos países, como a Islândia e talvez a Ucrânia a incumprirem suas dívidas. Gradualmente, cada vez mais países entrarão em incumprimento e as suas divisas afundarão cada vez mais baixo.

Após um certo ponto, pode ficar claro que virtualmente toda a economia do mundo está junta nesta confusão. Não haverá meio para que possa ser emitida mais dívida como "estímulo" a fim de livrar o mundo do problema. A única coisa que poderá ser feita é começar a cancelar dívida, em alguma espécie de jubileu da dívida, e começar outra vez.

O problema com um jubileu da dívida é que haveria demasiados reclamantes a grande parte dos activos mundiais. Se a dívida do proprietário de uma turbina eólica for cancelada através de um jubileu da dívida, quem então "possui" a turbina — o proprietário original ou o que concedeu o empréstimo cuja dívida foi cancelada? Se a dívida de uma fábrica que faz peças de reposição para a turbina eólica for cancelada, quem dirige a fábrica – o proprietário original da mesma ou o investidor cuja dívida foi cancelada?

As dívidas que são canceladas provavelmente atravessam fronteiras de países, dando lugar a disputas internacionais. Além disso, alguns países podem querer retaliar por uma perda de um dos seus investimentos além-mar apropriando-se de um negócio localizado no seu próprio país que tenha proprietários além-mar. Em pouco tempo, as relações entre países provavelmente afundarão até deteriorar-se e o comércio internacional será a níveis muito mais baixos do que no passado. Podem mesmo desencadear-se guerras, ou disputas de fronteiras.

A "procura" estará a novos níveis de baixa, porque provavelmente haverá muito pouco comércio transfronteiriços, excepto com uns poucos parceiros confiáveis. Sem este comércio, não será possível manufacturar outros bens além daqueles que utilizam apenas produtos locais. Nesta espécie de cenário, os preços (na medida em que o sistema monetário continuar a funcionar) continuariam muito baixos, devido à baixa procura. (Uma fábrica que não está a operar não precisa de matérias-primas!)

O mercado de crédito seria quase não existente, porque os credores esperariam que qualquer dívida emitida poderia ser facilmente cancelada. O novo investimento seria limitado ao que pudesse ser financiado pelo fluxo de caixa. Com preços baixos, este fluxo de caixa seria muito baixo, limitando mais uma vez o investimento.

É possível que em algumas partes do mundo todo o sistema monetário venha a cessar de funcionar e a permuta (barter) tornar-se-ia necessária. Como a permuta é demasiado difícil e complicada, isto provavelmente terá um novo impacto limitante sobre o comércio.

Num tal cenário, era de esperar que a produção de petróleo fosse significativamente mais baixa do que o recurso físico disponível. No mínimo, será difícil para toda a cadeia desde o local da produção, ao pipeline, à refinaria, à distribuição por pipeline e ao consumidor funcionar adequadamente. Países que anteriormente exportavam petróleo verificarão que as suas probabilidades de serem pagos são inferiores a 100% e podem reduzir a sua produção só àquilo que puderem vender através de acordos com parceiros confiáveis.

A produção de muitos outros bens pode igualmente declinar, quando a falta de um sistema monetário a funcionar adequadamente limitar a capacidade de longas linhas de abastecimento cumprirem o seu papel correctamente. A produção de gás natural e carvão pode declinar, bem como a produção de petróleo. Os alimentos através da agricultura mecanizada podem declinar, como mostra a Lei do Mínimo de Liebig.

Na Figura 2, mostro apenas um ligeiro declínio na produção em 2009, mas a seguir apresento grandes diminuições em 2010, 2011 e 2012 até um nível não muito acima dos 20 milhões de barris por dia. Se for atingido um nível tão baixo, em consequência de um fracasso generalizado do sistema financeiro, seria de esperar que a electricidade fosse afectada em muitos lugares e, devido à electricidade, também a água e os sistemas de saneamento básico. Algumas grandes cidades podem tornar-se inabitáveis.

Sob um tal cenário, suponho que tudo levaria algum tempo para ser reordenado. Se houver um fracasso generalizado do sistema monetário é possível que muitos governos sejam substituídos. Alguns países podem partir-se em bocados, como a União Soviética após o seu colapso em 1991. Os governos não poderão ter muita fé nos outros governos – excepto talvez com uns poucos parceiros comerciais/estratégicos. Novos sistemas monetários provavelmente serão estabelecidos, mas muitos não serão melhores do que os anteriores, de modo que bolhas e novos colapsos poderão ocorrer.

Num tal ambiente, os negócios internacionais considerarão virtualmente impossível sobreviver. Os negócios provavelmente tornar-se-ão muito mais pequenos e mais locais. Como mostrei na Figura 2, podem passar muitos anos antes de a produção de petróleo começar a levantar-se outra vez. De facto, poderá nunca mais levantar novamente se o comércio internacional permanecer num nível baixo.

Eu suporia que o renascimento, quando vier, começaria com necessidades humanas básicas, em comunidades locais e agricultura local. As pessoas cultivarão o seu próprio alimento e comerciarão com outras na sua comunidade. Haverá pequenas lojas que farão sapatos, vestuário, utensílios de cozinha. As pessoas podem começar a criar animais para o transporte.

Ainda será necessária energia para o aquecimento dos lares e para cozinhar. O impulso inicial será deitar árvores abaixo para estes fins, mas com a grande população do mundo isto tenderá a produzir desflorestação. Os neo-ambientalistas podem exortar as pessoas a utilizarem outros produtos para isto – tais como carvão ou petróleo, se puderem ser obtidos. Poderá haver alguma electricidade produzida localmente, particularmente a hidráulica, se os sistemas de transmissão puderem ser mantidos bem conservados.

Se este cenário acontecer, é difícil para mim ver um futuro para grandes sistemas complexos que exigem peças especializadas provenientes de toda a parte do mundo. Portanto, eu esperaria que as grandes turbinas eólicas caíssem em decadência nuns poucos anos e os painéis solares fotovoltaicos tornarem-se de difícil obtenção após um tal cenário de crash. Moinhos de vento mais pequenos, semelhantes ao que se vêm em antigas quintas, podem voltar a ser de utilização popular, assim como motores a vapor operados com carvão (pelo menos nos EUA, onde este ainda é abundante).

Se tem estado a seguir a cadeia interconectada do que está a acontecer no nosso sistema, estará consciente de que o cenário acima pelo menos é possível. Devido às complexidades envolvidas, é impossível estimar uma percentagem de probabilidade desta trajectória particular, mas ela está a aumentar.

Se tal cenário acontecesse, isto poderia resultar em que o nosso mundo se tornasse um lugar muito diferente num curto espaço de tempo. Se as probabilidades disto acontecer são mais do que muito ligeiras, qual deveria ser a nossa resposta? Deveríamos dedicar todos os nossos esforços para evitar este cenário, ou reservar alguns recursos para a ele nos adaptarmos?

04/Março/2009
O original encontra-se em http://www.theoildrum.com/node/5160#more .

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
10/Mar/09