A primeira base de dados da indústria petrolífera
A história da Petroconsultants
Uma companhia de petróleo tem, naturalmente, todas as razões para
rastrear as actividades dos seus competidores, as quais podem ter significado
comercial. Outrora, nos Estados Unidos, elas costumavam contratar pessoas
conhecidas como "scouts" a fim de manter as sondas
(rigs)
sob observação, por vezes com binóculos. Eles podiam,
por exemplo, contar os bocados de tubagem que estavam a ser removidos para
avaliar a profundidade do furo. Também podiam vagabundear pelos bares e
conversar com perfuradores diante de uma cerveja. No princípio da
exploração do Mar do Norte, algumas companhias de petróleo
colocaram observadores em traineiras para observar sondas e se possível
ouvir rádio comunicações, nas melhores
tradições das patrulhas.
Isto mais ou menos significa o que hoje seria chamada espionagem industrial.
Um geólogo americano chamado Harry Wassall trabalhou para a Gulf Oil e
foi transferido para Cuba na década de 1950, onde casou-se com uma bela
senhora cubana chamada Gladys. Quando a Gulf Oil chamou-o de volta, ele
preferiu permanecer em Cuba, e fundou um pequeno boletim para informar acerca
de actividades petrolíferas na ilha, expandindo posteriormente a sua
cobertura à América Latina. Ele designou um agente em cada
país para informar acerca de desenvolvimentos com o petróleo,
incluindo a localização de novos poços pioneiros
(wildcats)
e os resultados. Grande parte disto não constituía
informação particularmente confidencial.
Quando Fidel Castro chegou ao poder, ele já não podia dirigir
este negócio a partir de Cuba e mudou-se para a Espanha, abrindo um
escritório em Genebra a fim de expandir a cobertura a todo o mundo,
denominando-o Petroconsultants. Ao logo dos anos ele construiu uma rede de
contactos, muitas vezes incluindo antigos homens do petróleo com
conhecimento e experiência de um país particular, que permitiu
construir a base de dados com continuidade e fiabilidade.
As principais companhias de petróleo apoiavam informalmente o
esforço pois preferiam não falar directamente umas com as outras,
mas queriam saber o que cada uma delas estava a fazer. Elas queriam boa
informação e também a davam. Naqueles dias isto
não era um assunto particularmente sensível. Além disso a
Petroconsultantes foi uma das primeiras a utilizar computadores para a base de
dados e, durante algum tempo, as grandes companhias de petróleo
consideraram conveniente sub-contratar as suas próprias bases de dados a
fim de serem administradas em Genebra numa base confidencial.
A companhia envelheceu juntamente com o seu proprietário e tornou-se uma
encantadora organização à moda antiga recheada de antigos
homens do petróleo que haviam construído relacionamentos a longo
prazo, e tinham o conhecimento e experiência para reunir e validar
informação.
Harry Wassall ganhou interesse na questão do Pico Petrolífero,
vendo o seu significado mais vasto. A Petroconsultants leu o meu primeiro
livro,
The Golden Century of Oil,
o qual cotinha muitos erros porque nessa altura eu ainda não havia
avaliado quão inconfiáveis eram os dados públicos. A
empresa convidou-me a efectuar um estudo semelhante mais baseado nas suas bases
de dados e eu foi coadjuvado por Jean Laherrere, que se havia reformado da
Total. Fizemos um grande estudo baseado na informação abrangente
que nos fora disponibilizada. O resultado acabou por se suprimido sob a
pressão de uma companhia de petróleo, mas a Petroconsultants
co-publicou o meu segundo livro,
The Coming Oil Crisis,
e também estimulou Jean e eu a escrever o artigo "The End of Cheap
Oil", publicado em 1998 na
Scientific American.
Harry Wassal morreu em Novembro de 1995 e a Petroconsultants foi vendida
à IHS, que era uma companhia americana de bases de dados, fundada penso
eu por um membro da família Krupp da Alemanha, que não tinha
qualquer perícia particular em petróleo.
O escritório de Genebra foi então colocado numa base muito mais
comercial, e a maior parte da antiga equipe deixou-o, levando consigo os seus
anos de continuidade, amizade, relacionamento especial e longa
experiência.
Consequentemente, tornou-se muito mais difícil reunir
informação válida, e a tarefa tornou-se muito mais
difícil porque as principais companhias petrolíferas já
não dominavam o negócio devido ao crescimento de companhias
estatais e de muitas pequenas companhias promocionais. Em muitos casos
não era possível fazer mais do que assegurar
informação pública, parcialmente a partir da Internet, e
tentar compilá-la tão bem quanto possível.
O CERA era uma consultora de petróleo, dirigida por Daniel Yergin, que
é bem conhecido pelo seu excelente livro,
The Prize,
o qual descreve a história da indústria petrolífera. Ele
próprio não tem experiência na indústria do
petróleo, mas a companhia naturalmente podia aconselhar sobre
desenvolvimentos petrolíferos e garantir consultorias sem tem qualquer
particular conhecimento pormenorizando das reservas de campos
específicos ou de países. O CERA por sua vez por adquirido pela
IHS, e agora tem acesso à sua base de dados, no que ela tem de valioso.
Como consultora, o CERA naturalmente tem todas as boas razões para
tentar agradar aos seus clientes e evitar questões polémicas.
Assim, no que se refere ao estudo do Pico Petrolífero, a melhor
abordagem é retornar à base de dados primitiva da
Petroconsultants como ponto de partida, e rastrear as mudanças,
revisões e acréscimos subsequentes, descontando quaisquer
anomalias e inconsistências. Apesar das dificuldades que tornam
virtualmente impossível assegurar informação abrangente,
é factível determinar e rastrear os padrões gerais de
esgotamento.
[*]
Fundador da
ASPO
.
Nota do actual presidente da ASPO, Kjell Aleklett:
Nós que trabalhamos com a modelação da
produção futura de petróleo sabemos a importância
das reservas. Colin Campbell, fundador da ASPO, conta-nos aqui uma
história interessante acerca da origem da base de dados que o CERA
utiliza e afirma ser a melhor. A história indica que o IHS e o CERA
estão a administrar dados que podem ter sido coleccionados por aliados
escuros em salas cheias de fumo. Isto é a história da
Petroconsultants.
O original encontra-se em
www.peakoil.net
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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