O Pico Petrolífero e a nova corrida desesperada promovida por Obama

Um segundo olhar sobre a realidade

por Roger Blanchard [*]

Cartoon de Ed Stein. Na semana passada o presidente Obama anunciou que abriria as águas federais da costa atlântica desde o Delaware Sul, porções do Golfo do México oriental e porções do Oceano Árctico a Norte do Alasca à exploração e desenvolvimento do petróleo e do gás.

Um objectivo declarado desta medida é reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação ao petróleo estrangeiro. Está implícito no mesmo que a abertura destas áreas offshore à perfuração petrolífera levaria a um aumento a longo prazo da taxa de produção de petróleo dos EUA. Mas a possibilidade de que isto aconteça é zero. A melhor hipótese que se pode esperar é de uma ligeira diminuição na taxa do declínio anual da produção de petróleo nos Estados Unidos.

Ao ouvir entrevistas na rádio e alguns políticos nestes últimos anos, fica-se com a impressão de que quaisquer novas explorações e perfurações nos EUA foram impedida durante longo tempo devido à influência de extremistas ambientais. Embora isso possa ser uma retórica popular, a realidade é que nos últimos 15 anos foram abertas grandes áreas das águas profundas do Golfo do México (GOM) e da Reserva Nacional de Petróleo do Alasca (NPR-A).

O que é importante em relação à abertura das águas profundas do GOM e da NPR-A é que estas duas áreas estavam entre as três mais geologicamente favoráveis dos EUA ainda não desenvolvidas, sendo as águas profundas do GOM de longe as mais favoráveis. Ao longo dos últimos 15 anos tem havido intensa exploração e desenvolvimento nestas duas áreas.

Quanto desse desenvolvimento teve impacto sobre a produção de petróleo dos EUA ao longo dos últimos 15 anos? Em apenas um ano dos últimos 15 a taxa de produção de petróleo aumentou, em 2009, e para isso foram preciso os cinco maiores projectos de águas profundas no GOM (produção de pico >50 mil b/d) dentro do lapso temporal de um ano e meio. Aqueles cinco projectos somaram uma produção de pico de ~750 mil b/d. Penso ser seguro dizer que conseguir cinco projectos de dimensão comparável no espaço de tempo de um ano e meio nunca acontecerá outra vez.

Um ponto a destacar acerca do aumento da taxa de produção de petróleo nos EUA é que provavelmente leva pelo menos 250 mil b/d de nova produção por ano, e talvez mais, só para impedir o declínio da taxa de produção de petróleo nos Estados Unidos. Isso se deve ao facto de a maioria dos campos petrolíferos dos EUA estarem em declínio.

Em termos de águas federais da costa Leste, considero que a região está entre as menos geologicamente favoráveis nos EUA para a geração e retenção de petróleo. Nenhum estado da costa Leste desde Delaware Sul produziu qualquer petróleo excepto a Florida, e a Florida nunca foi mais do que um estado de pequena produção. Nada vejo na geologia a sugerir que as águas do Atlântico serão significativamente mais favoráveis do que tem sido o onshore.

Novos relatórios que tenho ouvido e lido declaram que as águas federais do Delaware Sul têm cerca de 2 mil milhões de barris. Quão realista será esse número? Ele provém do Minerals Management Service e representa uma quantidade de petróleo tecnicamente recuperável. A minha experiência é de que os volumes tecnicamente recuperáveis do U.S. Geological Survey (no onshore) e do Minerals Management Service (no offshore) são altamente exagerados em relação aos volumes reais de petróleo produzível.

A minha impressão é de que aquelas agências governamentais adoptam o cenário mais optimista possível para projectar a geração do óleo e a retenção para estimar os volumes tecnicamente recuperáveis. Adoptar a possibilita mais optimista funciona bem com os políticos, os media e o público em geral mas não representa o que será finalmente produzido.

A National Petroleum Reserve-Alaska (NPR-A) é um exemplo de avaliação exagerada. A administração Clinton abriu 4,6 milhões de acres [18.616 km2] da NPR-A na década de 1990 e a exploração começou em 1999. A administração Bush abriu outros 9 milhões de acres [36.422 km2] em 2003. Os 4,6 milhões de acres originais deveriam ser a parte mais geologicamente favorável da reserva, mas até à data só ouvi falar de pouco mais de 400 milhões de barris de petróleo descoberto na NPR-A.

MENOS DE 5% DO ESTIMADO

O USGS estimou a quantidade média de petróleo tecnicamente recuperável na NPR-A em 9,3 mil milhões de barris. Após 11 anos de exploração, foram descobertos menos de 5% dos 9,3 mil milhões estimados. A produção começou há vários anos atrás em alguns dos campos nos 4,6 milhões de acres. A subida na produção não foi sequer suficiente para travar o declínio da produção de petróleo do Alasca.

O GOM Oriental é ligeiramente mais favorável ao petróleo em comparação com as águas federais da costa Leste, mas não muito mais favorável. Segundo o governo, aquela região tem 4 mil milhões de barris tecnicamente recuperáveis. Com sorte, ela pode produzir 1 mil milhões de barris de petróleo.

Um mil milhões de barris soa como muito petróleo, mas se ele for produzido ao longo de 30 anos, a taxa média de produção é de apenas pouco mais de 90 mil b/d. Num país que actualmente consome cerca de 19 milhões de b/d de hidrocarbonetos líquidos, 90 mil b/d é menos de 0,5%.

O GOM Oriental pode ter uma quantidade considerável de gás, mas não está em vias de ser uma região produtora de petróleo significativa.

Vários campos de petróleo foram descobertos na plataforma marítima da costa Norte do Alasca e um campo, o Northstar, está a produzir. O geólogo do petróleo Colin Campbell enfatiza que as águas no Oceano Árctico ao Norte do Alasca serão mais tendentes ao gás do que ao petróleo. Pessoalmente espero uma recuperação final de petróleo do Oceano Árctico de menos de 5 mil milhões de barris e provavelmente um bocado menos, com desenvolvimento dificultado pelas condições brutais e despesas excepcionalmente elevadas.

Outra questão a considerar que o desenvolvimento do petróleo no offshore, particularmente no offshore remoto, pode ser muito caro. As companhias de petróleo provavelmente não estão a considerar desenvolver campos no offshore da costa atlântica ou no GOM Oriental a menos que um campo tenha uma dimensão de pelo menos 25 milhões de barris. No Oceano Árctico, pode ser preciso um campo de 100 milhões de barris ou de dimensão ainda maior se for no offshore remoto. O petróleo que está em muitos campos pequenos e amplamente espalhados poderá nunca ser desenvolvido.

Pessoalmente não me importo que estas áreas offshore sejam ou não abertas ao desenvolvimento do petróleo e do gás. Estou certo de que faremos o melhor para sugar a última gota de petróleo do território dos EUA e que podemos fazer isso tão rapidamente quanto possível de modo a que as futuras gerações nada tenham dele. Do lado positivo, quanto mais cedo abrirmos todas as áreas para o desenvolvimento do petróleo, mais cedo poderemos aceitar os limites dos nossos recursos petrolíferos. Do lado negativo, poderia haver algumas consequências ambientais, particularmente no Oceano Árctico. Mas já é tempo de descartarmos o optimismo ingénuo e reconhecermos que a abertura destas áreas não será uma panaceia para a nossa dependência do petróleo estrangeiro.

[*] Professor de química na Lake Superior State University e autor de The Future of Global Oil Production: Facts, Figures, Trends And Projections, by Region .

O original encontra-se em Peak Oil Review , Vol. 5, Nº 14, April 5, 2010


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
06/Abr/10