Crescimento através da redistribuição
Há duas posições sobre o desenvolvimento, fundamentalmente
diferentes e mutuamente excludentes, que estão em disputa no
período actual. Uma, a posição neoliberal, declara que o
desenvolvimento exige crescimento rápido do produto interno bruto; que
ainda que tal crescimento não melhore automaticamente as
condições dos pobres através do "efeito
gotejamento" ele permite ao Estado obter maiores receitas as quais podem
então ser utilizadas para tal melhoria; que para alcançar altas
taxas de crescimento o que é necessário é maior
investimento; e que portanto todo o propósito das políticas de
Estado deve ser gerar o referido maior investimento através da
concessão de "incentivos" àqueles que podem melhor
empreende-lo, nomeadamente as grandes corporações internas e
corporações multinacionais.
A partir disto, segue-se que seja o que for que obstrua o caminho da
realização do investimento, tal como a falta de acesso à
terra necessária, fardos burocráticos de várias
espécies e a ausência de liberdade para "despedir"
trabalhadores à vontade deve se removido. A lei de
aquisição de terra do governo Modi que procurava desapropriar
camponeses para "projectos de desenvolvimento", as emendas propostas
a leis trabalhistas para introduzir "flexibilidade no mercado de
trabalho" e as concessões fiscais às
corporações que sucessivos orçamentos na Índia tem
distribuído fazem parte desta estratégia.
Contra isto, a segunda posição, que é essencialmente a
posição da esquerda, argumenta que mesmo se tais
concessões às corporações e multinacionais geram
alta taxa crescimento, não só não há efeito
"gotejamento" com este crescimento como também a receita
potencialmente maior que poderia ser arrecadada pelo Estado a partir do mesmo
para gastos com os pobres é ela própria dissipada na forma de
concessões fiscais às mesmas corporações e
multinacionais a fim de manter este crescimento em curso. Por outras palavras,
tal crescimento ao invés de ser um meio destinado a um fim, nomeadamente
a melhoria as condições dos pobres, torna-se necessariamente um
fim em si próprio. Além disso, proporcionar-lhes incentivos
não só exige recursos orçamentais com também
implica uma extorsão e a desapropriação de camponeses e
pequenos produtores (um processo de "acumulação primitiva de
capital") e restrições a direitos dos trabalhadores (e
portanto do nível de salários reais) os quais realmente pioram as
condições dos trabalhadores pobres. Este crescimento é
portanto acompanhado por um aumento da pobreza ao invés de uma
redução da mesma.
Além disso, mesmo concessões crescentes às
corporações e multinacionais só por si não podem
manter tal crescimento em curso, o qual é necessariamente baseado em
"bolhas", tanto na principal economia capitalista, os Estados Unidos,
as quais criam booms globais que estimulam exportações, como na
economia interna que gera maiores gastos pelos ricos. Nos períodos que
se seguem a tais "bolhas", como agora, esta estratégia
anti-pobres nem sequer provoca crescimento. Mas tal falta de crescimento,
dentro dos contornos desta estratégia, torna as condições
dos pobres ainda piores, uma vez que mais concessões são dadas
às corporações internas e às multinacionais
às suas expensas numa fútil tentativa de estimular crescimento.
É NECESSÁRIA INTERVENÇÃO DO ESTADO PARA MELHORAR A
CONDIÇÃO DOS POBRES
Esta segunda posição sobre o desenvolvimento advoga portanto a
intervenção directa e imediata do Estado para melhorar a
condição dos pobres. Esta não só procura melhorar a
sua condição como, ao aumentar o seu poder de compra,
também expande o mercado interno e dá origem a maior investimento
para atender este mercado, não necessariamente pelas
corporações multinacionais, mas por um conjunto de
negócios pequenos e dispersos. Isto por sua vez tem "efeitos
benéficos de segunda e terceira ordem" em termos de maior
geração de emprego, expansão ulterior do mercado interno,
uma nova redução da pobreza e assim por diante. Por outras
palavras, esta segunda posição advoga o crescimento
através da redistribuição a qual simultaneamente tem um
impacto imediato sobre os padrões de vida dos trabalhadores pobres e,
também, gera crescimento que é mais alto, mais sustentado (por
ser independente de "bolhas"), mais igualitário, associado ao
"ciclo virtuoso" da erradicação da pobreza e em
consonância com a visão de uma Índia livre que inspirou a
luta anti-colonial.
Porta-vozes neoliberais, não surpreendentemente, fazem todas as
tentativas possíveis para deturpar esta segunda posição.
Eles apresentam um quadro em que crescimento e redistribuição
igualitária de rendimentos e activos seriam fundamentalmente
antitéticos um com ou outro. E a seguir prosseguem argumentando que uma
redistribuição dos escassos meios à
disposição da sociedade assegura apenas uma
distribuição mais vasta da pobreza ao invés da sua
eliminação. Eles falam de "crescimento versus
redistribuição", isto é, postulam uma
contradição entre crescimento e redistribuição.
Sugerem eles que a estratégia de esquerda que dá prioridade
à redistribuição detém o crescimento e portanto
mantém a dimensão do bolo nacional, o que está
disponível para distribuição entre todo o povo, pequena
para sempre, ao passo que a sua estratégia que dá prioridade ao
crescimento ampliará a dimensão do bolo de modo a que
amanhã mais possa estar disponível para todos.
Entretanto, isto é uma falsa apresentação da
posição de esquerda. Esta posição não aceita
a dicotomia do crescimento versus redistribuição, mas assevera ao
invés que o crescimento pode ocorrer de uma maneira mais rápida,
mais sustentada e mais certa através da introdução de
medidas redistributivas.
Dada a hegemonia da posição neoliberal, a qual não resulta
do seu maior poder persuasivo pois é simplesmente a expressão da
hegemonia na vida social da entidade que está a impulsioná-la
persistentemente, nomeadamente o capital financeiro internacional com o qual a
oligarquia corporativa-financeira interna está integrada, na
Índia a posição da esquerda ainda não foi testada
ao nível nacional. Temos entretanto, quase como um experimento de
laboratório, dois diferentes estados na Índia que buscam estas
duas diferentes trajectórias, uma a neoliberal e a outra aquela
favorecida pela esquerda. Estes dois estados são Gujarat e Kerala.
Quando comparamos a experiência dos dois não devemos esquecer um
facto crucial, nomeadamente que a estratégia de Gujarat é
precisamente aquela aprovada e advogada pelo governo central e esta ser seguida
ao nível nacional, ao passo que a estratégia de Kerala, porque
vai contra a preferência do governo central, tem enfrentado numerosos
obstáculos, tais como escassez de recursos que deveriam estar a fluir
para o estado a partir do centro, negação do centro de alimentos
ao estado (sob a distinção acima/abaixo da linha de pobreza) e
outras formas de pressão esmagadora vindas do centro. Isto, por outras
palavras, é uma estratégia a que nem mesmo remotamente foi
permitido actuar de modo pleno precisamente porque a economia como um todo
está prisioneira do neoliberalismo. No entanto, a
comparação entre Kerala e Gujarat é altamente instrutiva.
COMPARAÇÃO INSTRUTIVA
Entre 2004-05 e 2011-12, período de alto crescimento na economia indiana
e que antecede a desaceleração do crescimento, Kerala teve uma
taxa anual de crescimento per capita do PIB que foi quase a mesma daquela de
Gujarat, 7,91 por cento em oposição a 8,19 por cento, muito
embora não tenha estendido tapetes vermelhos ao
big business
e às multinacionais nem encorajado qualquer acumulação
primitiva de capital. Mas em termos do Índice de Desenvolvimento Humano
continuou a ocupar a primeira classificação entre todos os
estados indianos. Contudo, durante este mesmo período Gujarat
experimentou um crescimento não significativamente mais elevado do
rendimento per capita em comparação com Kerala e sua
classificação entre estados em termos do índice de
Desenvolvimento Humano declinou. Em 1981, Gujarat estava no quarto lugar entre
os estados; declinou para o sétimo em 2001 e para o oitavo em 2008. Em
termos do aumento de valor no Índice de Desenvolvimento Humano (HDI)
entre 2000 e 2008, Gujarat estava no décimo oitavo lugar entre todos os
estados! Uma vez que o HDI atribui um peso significativo ao próprio
rendimento per capita, segue-se que nos demais componentes do índice
Gujarat deve ter caído abissalmente.
Em 1981 Gujarat classificava-se em quarto lugar em literacia, deslizou para
quinto em 2001 e sexto em 2011. Em termos da taxa de crescimento da literacia
ao longo da década 1991-2011, classificou-se em 16º entre os 20
maiores estados do país. Da mesma forma, sua classificação
em termos de expectativa de vida ao nascer em 1992 estava em nono lugar entre
os maiores estados; deslizou para décimo em 2006. E em termos do
declínio da Taxa de Mortalidade Infantil ao longo do período
1991-2009, o estado classificou-se em décimo lugar entre os vinte
maiores estados.
Deve-se recordar que examinámos apenas o período de alto
crescimento estimulado por "bolhas" quando a estratégia
neoliberal aparecia a uma luz particularmente favorável. No entanto, a
conclusão é óbvia.
Naturalmente, comparações entre estados dentro de uma estrutura
geral neoliberal têm de ser interpretadas cuidadosamente. A
estratégia redistributiva não significa que estados não
deveriam tentar atrair investimento em grandes projectos a fim de produzir para
o mercado nacional. Numa situação em que a estratégia
neoliberal está a ser seguida ao nível nacional, eles podem ser
deixados sem quaisquer outras opções. Mas isto não deve
ser nem à custa de camponeses e pequenos produtores através da
imposição da acumulação primitiva de capital, nem
fazer tais exigências sobre os magros recursos orçamentais do
Estado de modo a que o prosseguimento de medidas de bem estar social para os
trabalhadores pobres fique restringida.
Analogamente, quando se abre a possibilidade de seguir uma estratégia
redistributiva ao nível nacional, deve-se recordar que tal objectivo
também exigiria medidas complementares como controles sobre fluxos de
capital (para impedir a fuga) e restrições comerciais (para gerir
a balança de pagamentos que os países capitalistas
avançados se esforçariam arduamente por minar), medidas cuja
essência jaz em recapturar a autonomia do Estado-nação em
relação ao capital financeiro internacional. Mas a esquerda deve
persuadir o povo da superioridade da estratégia alternativa ao
neoliberalismo, uma vez que este está a bombardeá-lo com a ideia
de que não há alternativa ao mesmo.
17/Janeiro/2015
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2016/0117_pd/growth-through-redistribution
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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