O declínio mundial das reservas cambiais estrangeiras
Se alguém somar as reservas cambiais estrangeiras de todos os
países do mundo, incluindo no termo "reservas" o que estes
países mantêm na forma de ouro, US dólares, outras divisas
de reserva, Direitos Especiais de Saque do FMI e também ativos
líquidos tais como Títulos do Tesouro
(Treasury Bills)
a curto prazo do governo estado-unidense, então a soma total em Agosto
de 2014 chega a US$12,03 milhões de milhões. Aproximadamente dois
terços deste montante é detido por países em
desenvolvimento, cuja acumulação de reservas começou a
aumentar após a crise financeira asiática do fim dos anos
noventa. De facto, em grande medida devido a este aumento, a magnitude das
reservas cambiais estrangeiras aumentou cinco vezes entre 2004 e 2014 para o
mundo como um todo. Entretanto, desde então tem havido um
declínio na magnitude total das reservas cambiais estrangeiras. Em
Março de 2015 esta magnitude declinou para US$11,6 milhões de
milhões, o que, embora de modo algum uma gota insignificante, ainda
assim representa uma gota. E além disso esta gota não é
alguma ocorrência acidental, um mero acaso; representa uma
tendência que tem implicações muito graves para a economia
capitalista mundial.
Uma parte do declínio deve-se sem dúvida a um puro
"efeito-preço". Uma vez que o valor do Euro e outras divisas
de reservas está a declinar em termos de dólar US, haveria algum
declínio no valor das reservas totais quando medimos tudo em termos de
dólar. Mas isto não explica todo o declínio observado.
Além disso, a própria queda no valor do Euro e de outras divisas
de reservas em termo de dólar revela-se o resultado do mesmo fator que
também explica, independentemente do "efeito-preço", o
declínio em reservas. O que é este fator?
Considere-se, para clareza de entendimento, um mundo muito simples onde haja
somente dois segmentos: um país com divisa de reserva e o
"resto". Num mundo assim há dois meios pelos quais a magnitude
das reservas pode aumentar: um, se o país da divisa de reserva tiver um
défice em conta corrente na balança de pagamentos com o
"resto" a qual paga proporcionando documentos de dívida
(IOUs)
que são mantidos por estes últimos como reservas. Agora, o
principal país da divisa de reserva do mundo, os EUA, tem na verdade
estado a incorrer um persistente défice de conta corrente na sua
balança de pagamentos o qual tem contribuído para o crescimento
das reservas de cambiais do mundo. Mas o recente
declínio
nas reservas cambiais estrangeiras não pode ser explicado por este
fator, uma vez que os EUA não desenvolveram subitamente um
excedente
da conta corrente. Por outras palavras, o comércio ou
explicações com base na conta corrente simplesmente não
funcionam neste caso.
A outra razão pela qual as reservas de câmbio estrangeiro podem
elevar-se ou cair fica a dever-se a movimentos privados
transfronteiriços de capital. No nosso caso simples, se os detentores da
riqueza das reservas de divisas do país disserem: ao invés de
manter esta divisa em casa como depósitos nos seus próprios
bancos decidirmos trocá-las pelas divisas do "resto", as quais
o banco central destes permite a uma taxa de câmbio fixa, e mantivermos
esta divisa do "resto" como depósitos nos bancos da primeira,
então as reservas mundiais de câmbio estrangeiro teriam de subir.
A divisa de reserva que era mantida em bancos privados do país da divisa
de reserva, e assim não era contada como reservas de câmbio
estrangeiro, agora passa a ser detida pelo banco central do "resto" e
conta como reserva de câmbio estrangeira, em virtude das decisões
de detentores de riqueza privada. Em exata analogia, se detentores de riqueza,
quer sejam ou não pertencentes ao país da divisa de reserva,
decidirem mudar a sua riqueza para fora do "resto" e, em vez disso,
passarem a ser detentores de títulos no país da divisa de
reserva, então a magnitude das reservas de câmbio estrangeiras
à escala global cairia.
O súbito declínio das reservas de câmbio estrangeiras
é o resultado desta decisão de escolha de ativos por parte dos
detentores de riqueza mundiais. É uma consequência não
daquilo a que os economistas chamam decisões de "fluxo",
relativas a défices e/ou excedentes comerciais ou de balança
corrente, mas de decisões de "stock", atinentes à
escolha, por parte dos detentores de riqueza, da forma como preferem manter a
sua riqueza.
REGRESSO MASSIVO DOS INVESTIDORES AOS EUA
Mais especificamente, o que se está a passar na economia mundial hoje em
dia é que os detentores de riqueza estão a transferir esta para
os EUA, mantendo-os sob a forma de ativos denominados em dólares,
enquanto antes aqueles estiveram a mudar para ativos espalhados pelo mundo,
fora dos EUA. Na Índia sabemos bem disso através do aumento
massivo das nossas reservas de câmbio estrangeiras, as quais foram
construídas não em virtude de quaisquer excedentes de
balança corrente, como aconteceu na China (porque de facto, e pelo
contrário, nós tivemos défice), mas por causa das chegadas
de fluxos financeiros à Índia através dos Investidores
Estrangeiros Institucionais (IEIs), atraídos pelos retornos elevados
(inclusive ganhos financeiros) que a economia indiana tem vindo a oferecer.
Em suma, estamos perante uma mudança no padrão dos fluxos de
capital autónomos, com os detentores de riqueza regressando aos EUA.
Todos os fenómenos que observamos no presente, como por exemplo um
declínio na magnitude nas reservas de câmbio mundiais; uma
apreciação do valor do dólar relativamente a outras moedas
importantes à escala mundial (a ponto de o governador do Banco de
Reserva da Índia poder consolar-se com base no facto de a Rupia
não se ter comportado tão "mal" como várias
outras moedas); o "efeito-preço" nas reservas de câmbio
que mencionámos acima, o que faz o valor daquelas descer ainda mais
quando medido em dólares; as atribulações do Euro, que
está a perder severamente para o dólar; o colapso do preço
dos ativos na China na Índia e alhures; todos estes fenómenos
são explicáveis em termos da escolha de ativos por parte dos
detentores mundiais de riqueza, nomeadamente o facto de eles estarem a refluir
em massa para os EUA. Mas a questão permanece: porque é que
ocorre o referido refluxo para os EUA?
Uma razão óbvia para isso é o fim anunciado do
"facilitamento quantitativo" ("
quantitative easing
") por parte da Reserva Federal norte-americana (Fed). Aquela andou a
bombear enormes montantes de dólares na economia dos EUA, com o
propósito de manter próximas de zero não apenas as taxas
de juro de curto prazo, mas também as de longo prazo, de forma a
estimular a economia. E estes dólares espalharam-se por todo o mundo,
à procura de oportunidades de "investimento" lucrativas. Agora
o Fed decidiu acabar com este "facilitamento quantitativo" e sugeriu
mesmo que as taxas de juro nos EUA iriam aumentar nos próximos dias, o
que torna o refluxo em massa dos investidores aos EUA fácil de
compreender.
É necessário acrescentar a isto um fator que é
simultaneamente uma causa e uma consequência do mencionado refluxo
massivo. No caso das bolhas do preço dos ativos, à medida que
elas vão crescendo o crescimento torna-se causa de maior crescimento
subsequente, o que aliás faz delas precisamente "bolhas". Da
mesma forma, se por alguma razão ocorre um colapso, então este
tende a reforçar-se a si mesmo. Um crescimento esperado das taxas de
juro nos EUA, por exemplo, estimulando umas quantas saídas iniciais de
fundos da Índia, induz mal-estar nos mercados bolsistas neste
país, levando a descidas no preço dos ativos. E isto, por sua
vez, estimula uma subsequente fuga de fundos das bolsas indianas, os quais se
escapam para investimentos nos EUA, o que por sua vez induz uma descida
subsequente dos preços dos ativos bolsistas indianos, e assim
sucessivamente. Os colapsos das bolhas de preços na Índia e na
China são ambos uma causa da deslocação dos detentores de
riqueza para ativos nos EUA, mas são igualmente gerados
inter alia
pela dita deslocação.
Esta deslocação, todavia, irá agravar ainda mais a crise
capitalista mundial. Pode pensar-se que, em virtude do declínio das
outras divisas face ao dólar, os países respetivos seriam
ajudados através da expansão das suas exportações;
mesmo sendo isso uma verdade, dado que a referida expansão das
exportações ocorreria à custa dos EUA, não
existiria qualquer aumento necessário na procura mundial como um todo e
portanto não haveria alívio para a crise do mundo capitalista
tomado em bloco. Adicionalmente, e por muito que no passado esses efeitos das
desvalorizações cambiais se tenham realmente feito sentir, a
saída de fundos especulativos estimulada pela dita
desvalorização (e antecipando desvalorizações
ulteriores) pode tornar-se uma torrente impetuosa, induzindo uma aguda crise
financeira nestes países. Para evitar as consequências de tal
eventualidade, os países adotariam então medidas de
contração, não apenas na esfera fiscal, onde em todo o
caso a "austeridade" campeará, mas mesmo na esfera
monetária, onde as taxas de juro serão drasticamente elevadas
para impedir a fuga de fundos. Uma desvalorização cambial, nesse
caso, paradoxalmente gera uma resposta tal ao nível das políticas
económicas que induz uma contração na economia. E se isto
ocorre no resto do mundo como um todo, então ocorrerá uma
contração geral deste segmento, por causa da fuga em massa dos
detentores de riqueza para os EUA.
Simultaneamente, nos próprios EUA o aumento da taxa de juro que o Fed
promete efetuar aniquilará qualquer recuperação que tenha
ocorrido. Considerado o mundo na sua totalidade, por conseguinte, a perspetiva
é de um aprofundamento da crise. Noutros termos, a subida das taxas de
juro nos EUA provocará necessariamente uma subida das taxas de juro no
resto do mundo, o que tenderá a acentuar a recessão mundial. Dado
que os meios fiscais visando o estímulo à economia mundial
estão postos de lado na corrente era de "austeridade",
não existem fatores obstaculizando a tendência para o acentuar da
recessão.
CONSERVADORISMO IDEOLÓGICO
Mas então defrontamos uma questão que tem de ser respondida:
porque é que essa atitude política é adotada? A
"esquerda" norte-americana (isto é, os chamados "
American radicals
" para usar o jargão ianque) tende a acusar o Partido Republicano
por esse facto, atribuindo a tal atitude política à alegada
estupidez e aos preconceitos daquele partido. E é verdade que o aumento
da taxa de juro que o Fed anunciou ir levar a cabo, oficialmente como medida de
prevenção da inflação, é bastante
indesejável neste momento, até porque a inflação
nos EUA está muito abaixo dos 2 por cento correspondentes ao
"objetivo-inflação" do próprio Fed. Existe aqui,
portanto, inquestionavelmente um elemento de conservadorismo ideológico
subjacente às medidas que estão a empurrar a economia mundial
para o aprofundamento da recessão.
Ao mesmo tempo, porém, não devemos limitar a
acusação ao tal conservadorismo ideológico. O facto
é que a enorme acumulação de riqueza sob a forma
financeira, a qual alguns autores designaram como
"financeirização", o poder dos interesses prestamistas,
cresceu duma forma tal, sem precedentes em toda a história do
capitalismo, e com ele também o poder da fobia da
inflação, que faz descer o valor "real" do dinheiro e
dos ativos financeiros denominados em termos monetários. Atribuir-se a
importância que se atribui à redução da
inflação é um reflexo disto mesmo. E a truncagem da
recuperação que mal arrancou, por medo de que ela possa causar
inflação, também é um reflexo disso mesmo.
10/Junho/2015
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2015/0607_pd/declining-world-foreign-exchange-reserves
. Tradução de JCG.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|