Sobre o marxismo e a questão da casta
A efervescência intelectual levando ao surgimento de um discurso
da nova esquerda incorporando a questão da casta que se tem
verificado em vários campuses por todo o país na sequência
do ataque das forças [da ideologia]
Hindutva
a instituições de ensino superior, traz à tona mais uma
vez o relacionamento entre a abordagem marxista e a questão da
opressão de casta. Uma discussão acerca deste relacionamento pode
não ter muita influência prática imediata sobre lutas
actuais, mas não pode ser negado o facto de que despertou o interesse
para a agenda teórica.
Tem havido um debate duradouro sobre este relacionamento devido à
acusação feita por muita gente, especialmente intelectuais
dalit
, contra o marxismo dizendo que ele privilegia a categoria "classe" em
relação a "casta", que a sua percepção
primária da sociedade é em termos de divisões de classe ao
invés de divisões de casta, e que por isto tende a menorizar a
significância desta última. Neste debate distingue-se
frequentemente a tomada de três diferentes posições
intelectuais (as quais naturalmente não são de todo exaustivas).
Uma posição declara, sem dúvida com considerável
justificação, que a opressão de classe e de casta na
Índia mais ou menos se sobrepõem, que as castas oprimidas
não são apenas um subconjunto das classes oprimidas, mas muito
substancialmente constituem estas últimas, pelo que vários
autores argumentando de acordo com estas linhas empregam um hífen na
expressão "casta-classe" ao descrever o processo de
exploração no país.
Uma segunda posição sublinha a significância da
distinção entre os dois conceitos, mas encara um dos dois como
sendo mais importante do que o outro como o foco primário da
intervenção política a fim de transformar a sociedade.
Alguns dão prioridade a lutas organizadas de acordo com linhas de
classe, ao passo que outros dão prioridade a lutas organizadas em torno
da opressão de casta.
Uma terceira posição pertence metodologicamente a um
género
que foi inspirado pelo trabalho teórico de Louis Althusser, o
filósofo comunista francês que deu uma interpretação
"estruturalista" ao marxismo. Mas este
género
é crítico de Althusser por não ter avançado mais a
sua filosofia do que o fez. Esta terceira posição declara que na
sociedade há várias contradições que coexistem a
qualquer momento e que não está em causa privilegiar qualquer uma
delas em relação a outra. Qualquer uma delas pode vir à
tona num momento particular e as forças progressistas têm de
centrar as suas energias sobre a mesma. Através de um processo assim,
estes autores visualizam a possibilidade da emergência de uma conjuntura
em que a estrutura como um todo possa ser transformada.
O que este último argumento significaria no nosso contexto é que
casta, classe e género podem emergir em diferentes momentos de tempo
como os terrenos primários de luta e as forças progressistas
têm de empenhar-se na luta seja qual for o terreno que venha ao primeiro
plano. A questão de privilegiar de qualquer modo a
"contradição de classe" sobre as outras
contradições não se levanta.
VISÃO INSTANTÂNEA DA SOCIEDADE
Todas estas três posições intelectuais têm um
elemento básico em comum: elas parecem-se a uma visão
instantânea da sociedade quando discutem qual contradição,
se é que alguma, deveria ser privilegiada. Por outras palavras, discutem
a questão da contradição dentro da estrutura congelada de
uma sociedade. Mesmo a última destas três posições
intelectuais, a qual fala de diferentes contradições a assumirem
primazia em diferentes momentos do tempo dentro de uma sociedade em termos
gerais não transformada, adopta uma visão da sociedade como
estrutura congelada. Pode parecer à primeira vista que assim não
é, que devido a discussões de diferentes
contradições a adquirirem primazia em
momentos diferentes,
está a falar acerca de uma sociedade cambiante e não de uma
estrutura congelada mas esta mudança na primazia que ela antecipa
é uma
mudança através de estruturas congeladas.
Numa estrutura congelada particular da sociedade uma contradição
pode ter primazia para ela, ao passo que em outra estrutura congelada
particular uma outra contradição pode adquirir primazia.
Em suma, a discussão sobre "classe" e "casta" na
Índia muitas vezes tem sido conduzida dentro do contexto de uma
visão instantânea da sociedade e a posição marxista
tem sido erroneamente interpretada como privilegiando "classe" em
relação a "casta" dentro desta estrutura congelada.
Isto é errado porque o marxismo não está preocupado com a
questão de privilegiar uma categoria sobre a outra
dentro de uma estrutura congelada.
Sua preocupação é
como nos movemos de uma estrutura para outra.
Dito de modo diferente, dentro de qualquer estrutura dada há um
conjunto de relacionamentos de classe, casta, género e outros, os quais
constituem uma
totalidade
(para utilizar o conceito do filósofo marxista Georg Lukacs). Esta
totalidade, ou, especificamente no contexto da nossa discussão, o
conjunto casta-classe, muda ao longo do tempo. A questão que o marxismo
levanta é: como e porque isto muda? Por outras palavras, o ponto central
não é qual elemento no conjunto é
per se,
ou intrinsecamente, mais importante (isto em si mesmo seria considerado uma
questão árida); o ponto central é o que impele o
avanço do conjunto. E a resposta que o marxismo apresenta a esta
questão tem a ver com a interpretação materialista da
história a qual é demasiado bem conhecida para recontar aqui e
que G.V. Plekhanov na sua obra
The Development of the Monist View of History
sublinhou como a
differentia specifica
do marxismo. Entretanto, o que vale a pena tentar aqui resumidamente é
uma discussão, dentro desta perspectiva geral, dos tempos
contemporâneos caracterizados pelo capitalismo.
Ao discutir o capitalismo, o qual foi o centro principal do seu trabalho
analítico, Marx enfatizou a
espontaneidade
deste sistema, o facto de que é um sistema auto-conduzido
(self-driven)
sujeito a um conjunto de tendências imanentes. Estas tendências
são independentes da vontade e da consciência humana (exemplo:
ninguém queria que a Grande Depressão da década de 1930
ocorresse, ou a crise actual do mundo capitalista a qual ainda persiste apesar
de todos os esforços conscientes para dela sair). E mais ainda: o
comportamento humano que entra na constituição destas
tendências imanentes é ele próprio não uma
matéria de vontade por parte dos agentes (económicos) humanos.
Eles são coagidos a actuar de modos particulares porque se não o
fizessem isso lhes custaria o seu lugar dentro do sistema económico. Os
capitalistas, por exemplo, acumulam capital não necessariamente porque
gostem de assim fazê-lo, mas porque se não actuassem assim isso
lhes custaria o seu lugar no sistema e teriam de se dar por vencidos devido
à competição. Por outras palavras, os capitalistas
também são agentes alienados dentro do sistema capitalista.
O desenvolvimento do capitalismo, consequentemente, pode manter mutável
a natureza do conjunto casta-classe, mas a liberdade humana é
impossível sem ultrapassar a "espontaneidade" do sistema
e portanto do próprio sistema. Tal superação
é tanto uma condição para o fim da
exploração de classe como da opressão de casta, uma vez
que, na sua ausência, mesmo se algumas pessoas das castas oprimidas
"ascenderem" do seu status de classe trabalhadora para se juntarem
às fileiras da burguesia ou dos estratos profissionais superiores (como
era a visão do Banco Mundial e outros em relação aos
negros na África do Sul), o facto de o grosso das castas oprimidas
permanecerem atoladas na opressão de casta, assim como permanecem
atoladas na exploração de classe, dificilmente pode ser alterado.
IMPORTÂNCIA DE TRANSCENDER O SISTEMA CAPITALISTA
A realidade da opressão de casta como um fenómeno existente
dificilmente pode ser suplantada dentro do sistema actual por uma realidade
alternativa em que a opressão de casta tenha desaparecido totalmente e a
exploração de classe prevaleça de alguma forma
incólume. Segue-se portanto que aqueles que lutam para por fim à
opressão de casta não podem ter êxito na sua luta sem a
transcendência do sistema capitalista. A aniquilação da
casta, em suma, exige a transcendência do sistema capitalista. Na
verdade, tal transcendência não é uma
condição
suficiente
para o fim da opressão de casta mas é uma
condição
necessária.
Esta é a conclusão primária do marxismo.
A questão do primado entre as categorias de "classe" e
"casta" tem de ser discutida
nesta
perspectiva
e não
no contexto de uma fotografia instantânea da sociedade
per se,
dentro da qual de qualquer modo tem pouco significado. Agora,
a transcendência do capitalismo não pode ser uma
reivindicação de casta.
O conhecimento do capitalismo como um sistema que precisa ser transcendido, a
concepção da alternativa que tem de ser posta no seu lugar no
caso da sua transcendência, são todas elas questões que
vão para além de qualquer análise baseada na categoria da
casta. Certamente alguém chegará a estas saídas se honesta
e firmemente buscar o objectivo da aniquilação da casta. Mas, ao
assim fazer, esse alguém teria de ir para além da própria
perspectiva de casta. Dito de modo diferente:
se alguém permanecesse exclusivamente dentro da estrutura de uma
perspectiva de casta nunca teria êxito em superar a própria
opressão de casta.
O privilegiar da perspectiva de classe de que o marxismo é acusado
decorre do entendimento da necessidade de transcender o capitalismo, não
apenas para a superação da exploração de classe mas
para a superação da casta e também de outras formas de
opressão. Mesmo a transcendência do capitalismo não
fará desaparecer a opressão de casta; o que entretanto só
enfatiza a necessidade de não reduzir a opressão de casta
simplesmente à exploração de classe, mas ao invés
reconhecer seu carácter
sui generis.
A opressão de casta está tão arraigada na nossa
sociedade, tão profundamente enraizada, que não seria
possível o seu desaparecimento ou mesmo a obtenção de
melhorias dentro do capitalismo, isto é, antes do seu derrube
não seria possível sem uma luta prolongada mesmo após um
derrube do capitalismo. A opressão de casta, em suma, constitui uma
contradição profundamente enraizada na nossa sociedade que
não é fácil ultrapassar.
Mas dar esta primazia é diferente de reconhecer a sua durabilidade ou
sua importância. O marxismo dar primazia à luta de classe e
à contradição de classe é apenas uma outra forma de
dizer que a chave para a resolução de todas as outras formas de
opressão, incluindo a opressão de casta, repousa na
superação do sistema capitalista.
Entretanto, dar primazia à luta contra o capitalismo não
significa ignorar a opressão de casta ou tratá-la como
matéria secundária. Ao contrário, uma vez que a luta
contra o capitalismo é prejudicada por qualquer desconhecimento da
opressão de casta, tal desconhecimento, longe de ser um resultado
inevitável da ênfase na luta de classe, realmente prejudica a
própria luta de classe. O primado da categoria "classe" no
marxismo significa apenas que todas as lutas contra a opressão,
incluindo as lutas contra a opressão de classe, não devem perder
de vista a necessidade primordial do derrube do capitalismo e sim, ao
invés, deve situar-se dentro da mesma.
03/Abril/2016
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2016/0403_pd/marxism-and-caste-question
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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