Brexit: Uma revolta contra a hegemonia da finança globalizada
Quase todos os comentaristas que dissertaram acerca do voto do eleitorado
britânico a favor do abandono da União Europeia, quer da direita
quer da esquerda, deixaram de captar o ponto essencial do mesmo: que se trata
de uma revolta maciça contra a hegemonia da finança globalizada.
Na verdade, o facto de não terem percebido este ponto é em si
mesmo indicativo da omnipresença desta hegemonia entre os
literati,
dos quais o eleitorado britânico, de modo interessante, parece ter-se
libertado substancialmente.
Sem dúvida, alguns, incluindo o presidente Barack Obama, foram
suficientemente antecipativos para ver o Brexit como uma rejeição
da globalização. Mas eles atribuíram-na a um medo
ilegítimo da globalização, o qual precisa ser apaziguado,
ao invés de uma cólera legítima contra ele, resultante
daquilo que a hegemonia da finança globalizada fez à economia
britânica. Eles em suma defendiam a globalização, a qual
sustentam ser benéfica, enquanto ignoravam sua principal
característica, nomeadamente a globalização do
capital financeiro,
cujas consequências perniciosas preferiram ignorar.
ATITUDE DA ESQUERDA EUROPEIA
Esta tendência de destacar os benefícios da
globalização ("traz maior aproximação à
espécie humana"), enquanto se minimizam as
implicações da hegemonia do capital financeiro sobre este
processo, caracteriza, infelizmente, a atitude de grande parte da
própria esquerda europeia. Grande parte desta esquerda tem sido uma
forte apoiante da União Europeia, como corporificação da
transcendência de conflitos "nacionais" que infestaram a Europa
na primeira metade do século XX, muito embora a própria UE tenha
sido dominada pelo capital financeiro alemão. A referida esquerda procurou ultrapassar
esta contradição óbvia com a esperança irreal, a
qual não é senão uma mera suposição, de que
dentro da UE a hegemonia do capital financeiro alemão pode ser
neutralizada
(negated)
através de pressão democrática.
Esta suposição foi aceite pelo Syriza na Grécia e sua
invalidade foi revelada no caso da própria Grécia, deixando o
Syriza sem outra opção dentro da UE senão a de aceitar
ainda outro lancinante pacote de "austeridade" imposto pelo ministro
alemão das Finanças Wolfgang Schauble, a actuar como
representante do capital financeiro. Este processo também incapacitou a
esquerda como um todo de se tornar uma força coerente, deixando assim o
caminho aberto para partidos de extrema-direita, racistas, fascistas ou
semi-fascistas aproveitarem o descontentamento do povo com a crise engendrada
pela globalização sob a hegemonia do capital financeiro.
Isto também ficou claramente evidente no caso da Grã-Bretanha.
Jeremy Corbyn, o líder do Labour que é um acérrimo
oponente da "austeridade" que o capital financeiro impôs
à UE, e portanto à Grã-Bretanha, ao invés de
liderar a luta contra uma UE dominada pelo capital financeiro, pediu ao povo
que votasse pela "permanência" na UE, reflectindo portanto o
primeiro-ministro Tory David Cameron e seguindo alinha da "City of
London" (o sítio do capital financeiro britânico). Embora um
segmento da esquerda (a chamada "Lexit") fizesse campanha por uma
saída britânica da UE, ela naturalmente foi enfraquecida pela
fragmentação da esquerda. A iniciativa de exprimir a
cólera popular nesta situação foi capturada pela
ultra-direita do United Kingdom Independent Party (UKIP) e uma
secção dos Tories liderada pelo antigo presidente da
municipalidade de Londres, Boris Johnson.
O facto de o voto "exit" ter sido aparentemente influenciado pela
retórica contra a imigração (as regras da UE impõem
que todos os países membros aceitem imigrantes dos outros países
membros) e portanto tingida por uma visão racista do mundo, foi
mencionado pelos seus oponentes como argumento para rejeitar a
opção da "saída". Não está claro
em que medida esta acusação é verdadeira. Mas, qualquer
que tenha sido o matiz racista atado ao campo do "exit" ele
verificou-se precisamente porque a esquerda e o centro-esquerda (incluindo
acima de tudo o Partido Trabalhista) preferiram ignorar a cólera do povo
contra o alto desemprego e a crise imposta pelo capital financeiro e
pediram-lhe que votasse pela "permanência".
A cólera popular, ao invés de assumir implicações
racistas, podia ter sido dirigida conscientemente contra a hegemonia do capital
financeiro e a sua dominação sobre a UE e um
cenário de acção alternativa podia ter sido apresentado se
a esquerda se houvesse empenhado seriamente para pressionar por um
"desligamento" de uma globalização dominada pela
finança. Mas ao invés disso foi permitido que a
votação fosse explorada pelas forças da ultra-direita
(não irrevogavelmente, esperemos) devido à pusilanimidade da
esquerda ao não pressionar pelo "desligamento". Os motivos da
esquerda para não actuar assim, baseados sem dúvida num desejo de
transcender o passado "nacionalista" destrutivo da Europa, podem ser
louváveis. Mas a sua suposição para não actuar
desse modo, nomeadamente de que alguém pode controlar o capital
financeiro mesmo sem o "desligamento" do fenómeno da
globalização financeira, foi claramente errado. No caso, o voto
Brexit representou uma
revolta não auto-consciente contra a hegemonia da finança,
com aqueles que sozinhos podiam ter conduzido a uma revolta
auto-consciente,
a optarem por não desempenhar tal papel.
A sua culpabilidade é ainda maior do que sugeri. Tenho até agora
utilizado a palavra "povo", mas claramente o grosso do voto anti-UE
veio da classe trabalhadora inglesa. Segundo um relatório, até 63
por cento dos eleitores do Labour votaram contra a permanência na UE. Uma
vez que o grosso dos eleitores do Labour, mesmo nos dias de hoje apesar dos
anos de blairismo, pertencem à classe trabalhadora, claramente a classe
trabalhadora inglesa rejeitou esmagadoramente a UE, na qual, tristemente, o
grosso da esquerda e centro-esquerda aconselhava a votar. Dificilmente se pode
imaginar um caso mais rematado de desconexão
(disjunction)
entre uma classe e aqueles que afirmam representá-la. Enquanto a classe
revoltava-se contra a hegemonia do capital financeiro, aqueles que supostamente
a lideravam seguiam a linha da finança.
Quando digo revolta contra o capital financeiro, não me refiro apenas ao
capital alemão. Quero dizer acima de tudo contra o próprio
capital financeiro britânico. (Para dizer de modo diferente, é o
capital financeiro globalizado, não importa quais as suas origens
nacionais, o qual opunha-se ao Brexit). A City sempre foi resolutamente a favor
da Europa, a fim de frustrar a ambição de Frankfurt de substituir
Londres como centro financeiro do continente, o que seria o caso se a
Grã-Bretanha se afastasse. A City foi instrumental na
promoção da entrada da Grã-Bretnha na Europa. Ela
também foi instrumental em livrar-se de Margaret Thatcher como
primeiro-ministro quando ela começou a exprimir sentimentos
anti-europeus. Mesmo neste referendo, a City fez campanha vigorosa contra o
Brexit. E não deveria ser surpresa que além da Escócia e
Irlanda do Norte, onde sentimentos pró-europeus podem ter sido
fortalecidos por um nacionalismo anti-inglês (o que mais uma vez
testemunha uma leitura totalmente errada da situação por parte da
esquerda que de outra forma poderia ter acalmado suas
preocupações), a única outra região do país
que apoiou a "permanência" fosse a cidade de Londres (apesar de
Boris Johnson). Sem dúvida o facto de Londres ter uma
população imigrante apreciável que estaria inclinada a
opor-se ao Brexit foi um factor por trás da sua votação no
"remain". Mas a influência do capital financeiro
britânico também desempenhou um papel significativo.
IMPLICAÇÕES CRUCIAIS
Os próximos tempos vão ser extremamente difíceis para o
povo britânico, por várias razões. A primeira é que
qualquer "desligamento" da hegemonia do capital financeiro
globalizado acarreta necessariamente sérios problemas de
transição. Estes incluem fuga de capitais, um colapso da divisa,
um agravamento da balança de pagamentos e uma aceleração
da inflação, todos os quais prejudicam o próprio povo que
optou pelo "desligamento". Isto no momento devido afectará a
Grã-Bretanha e com particular severidade porque é uma economia
altamente aberta.
Em segundo lugar, a Grã-Bretanha já tinha problemas sérios
antes do referendo do Brexit devido a um grande défice em conta corrente
(que monta até a 7 por cento do PIB). Sustentar um tal défice
é extremamente difícil, mesmo nos melhores tempos. Mas fazer isso
num período de antagonismo em relação à
finança globalizada é duplamente difícil.
Em terceiro lugar, o capital financeiro está em vias em tomar todos os
passos concebíveis para tornar difícil a vida do povo
britânico devido ao seu voto pelo Brexit. Tendo perdido a batalha, o que
nunca esperara, ele tentará agora vencer a guerra pela
manipulação da situação de um modo que o povo
desobediente será forçado a prostrar-se diante dele.
E em quarto lugar, no preciso momento em que o povo provavelmente
enfrentará imensas dificuldades, ele está destituído de
lideranças das forças de esquerda. Os Nigel Farages (chefe do
UKIP) e os Boris Johnsons do mundo são particularmente incapazes de
liderá-los em qualquer luta contra a finança globalizada (de
facto, como todos os fascistas, o UKIP estaria à espera de ser cortejado
pelo capital financeiro e o mesmo seria verdadeiro em relação a
Johnson). A esquerda sozinha tinha a visão de assim fazer mas preferiu
abandoná-lo. O povo está, em suma, empenhado numa luta de classe
contra a hegemonia da finança em que as probabilidades de êxito
acumulam-se contra si e foi abandonado pela sua liderança tradicional.
A menos que o Labour Party (actualmente sob uma liderança supostamente
de esquerda) rectifique o seu erro e aprenda a ouvir e respeitar a voz da sua
própria base de apoio, o povo descobrirá ser difícil
sustentar uma luta que lançou contra a finança. O Labour Party
deve cumprir o resultado do referendo (o que foi feito mesmo por David
Cameron), pedir novas eleições gerais imediatas e abordar o
eleitorado com um programa
novo
crível. Tal programa deve incluir o fim da "austeridade",
a conexão a outras formações de esquerda como o Podemos que
estão à beira do poder
[NT]
e a tomada disposições imediatas para financiar o défice
em conta corrente de maneira a que isso não implique
"austeridade" e simultaneamente passos para reduzir
este défice através de, se necessário, de medidas directas.
Mas aconteça o que acontecer na Grã-Bretanha no futuro
próximo, o voto britânico para abandonar a UE tem duas
implicações cruciais para a economia capitalista mundial como um
todo. Primeiro, ele sublinha e agrava a crise na qual o capitalismo mundial
está actualmente submerso: a revolta contra essa crise assinalada pela
votação britânica só solapará ainda mais o
"estado de confiança" dos capitalistas e, mais uma vez,
desmentirá todas as afirmações superficiais de uma
recuperação iminente. Segundo, este mesmo facto por sua vez
encorajará ainda mais outros países a seguirem o exemplo dos
britânicos e isto acontecerá mesmo que as dificuldades
transicionais da economia britânica se demonstrarem formidáveis.
Permanecer fincado numa crise, em suma, doravante será
inaceitável para o povo trabalhador. Agora que a primeira pedra foi
lançada contra o ninho de vespas, voltar ao
status quo ante
será impossível. Estamos portanto a testemunhar um
descarrilamento do fenómeno da globalização que
caracterizou o mundo até agora.
03/Julho/2016
[NT] O Podemos espanhol é tão de "esquerda" quanto o
Syriza grego pois ambos os partidos defendem a submissão dos seus
países à UE e à NATO, assim como o apoio a agressões
imperialistas a outros povos. As últimas eleições
espanholas desmentem que o Podemos esteja "à beira do poder".
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/...
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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