por Miguel Urbano Rodrigues
Os resultados das eleições portuguesas favoreceram o Partido
Socialista, atribuindo-lhe uma ampla maioria absoluta. Seria uma ingenuidade
esperar que a mudança de rumo por ele prometida se concretizará.
Pode-se desde já afirmar que o futuro governo de Sócrates
dará continuidade à política de direita dos governos
anteriores. E isso era antecipadamente uma certeza.
Para se avaliar a complexidade da crise portuguesa é útil
lembrar que na actual conjuntura europeia o desfecho de qualquer
eleição legislativa, independentemente de diferenças
importantes no desenvolvimento económico e cultural dos povos,
não apaga uma evidência não assimilada pela grande maioria
dos eleitores.
A afirmação de que na União Europeia há um
défice de democracia adoça e oculta uma realidade preocupante.
O panorama não é uniforme, mas isso não impede o
funcionamento da engrenagem do sistema. Nos 15 países da Europa que se
assume como Ocidental (contrariando a geografia) é identificável
um denominador comum. Em todos impera um regime que na prática é
uma ditadura da burguesia com fachada democrática. Nos países
ex-socialistas agora integrados na UE a faceta mais saliente é a sua
relação de submissão a Washington e a tendência
para autoritarismos de cariz fascizante.
Estou consciente de que a caracterização que faço do tipo
de governos existentes nos 15 choca inclusive muitos companheiros de luta.
Mas creio não exagerar ao utilizar a expressão ditaduras da
burguesia. O que define um sistema de governo hoje, na Europa, é, em
primeiro lugar, a sua atitude perante o capitalismo.
Em Portugal os dois partidos que têm estado no governo nas últimas
décadas praticaram políticas neoliberais, em intima
ligação com o capital financeiro e as transnacionais. É
entretanto simplista a conclusão de que são iguais. Diferem pelo
núcleo das suas bases sociais, pela postura adoptada na defesa do
capitalismo e, naturalmente, pelo discurso que serve o seu manobrar
táctico.
O PS insiste em apresentar-se como socialista, mas mesmo aqueles que nele dizem
ser de "esquerda" não contestam o capitalismo.
Propõem-se contribuir para a sua "humanização",
o que é uma impossibilidade absoluta pela própria essência
desumanizante da sua lógica e funcionamento. Como o alemão
Bernstein no inicio do século passado, proclamam que, através de
reformas graduais, a injustiça social tenderá a desaparecer,
eliminando desigualdades afrontosas da condição humana. O
discurso é farisáico; os dirigentes utilizam-no como instrumento
eleitoral, mas tratam apressadamente de engavetar os seus próprios
projectos formalmente orientados para tímidas reformas. Com os
dirigentes que ele tem e nada indica que mudem nos tempos mais
próximos
apresentar o PS como um partido de "esquerda" é uma
fonte de confusões.
O PSD esconde cada vez menos o seu desejo de levar adiante uma politica que
aprofunde as clivagens sociais, um capitalismo ainda mais cruel, que aumente
o fosso entre os trabalhadores e a classe dominante.
Admitir que na Europa maastrichiana está aberta a porta, no
âmbito das instituições impostas pela burguesia, a
mudanças estruturais rumo a uma democracia avançada é
sublinho alimentar ilusões. Sem que ocorram grandes
convulsões sociais, resultantes da luta dos povos, as mudanças,
cosméticas, não evitarão o agravamento da crise.
O sociólogo húngaro-britanico István
Mészáros alerta para uma realidade esquecida por milhões:
Na pratica da social-democracia europeia (que engloba os partidos mal chamados
socialistas) todas as reformas em debate pressupõem "a
necessária exclusão de qualquer mudança estrutural
radical, por qualquer meio (repressivo ou não) que a ordem
constitucional imperante tenha à sua disposição".
É também Mészáros que nos chama a
atenção para outra realidade: em décadas de
permanência do poder os partidos social-democratas escandinavos tal
como os da França, da Alemanha e da Grã-Bretanha não
conseguiram, nem pretenderam, introduzir mudanças estruturais na ordem
económica capitalista. Todos, sem excepção, se comportaram
como dóceis administradores do sistema. Convêm alias recordar que
o PS português se situa muito à direita dos partidos
social-democratas da Suécia, da Noruega e da Dinamarca.
GRANDES LUTAS NO HORIZONTE
A crise global da humanidade é uma resultante da crise do capitalismo
uma crise perante a qual, pelo seu carácter estrutural, o imperialismo,
sem soluções, tenta atrasar a derrocada do sistema, desacadeando
guerras "preventivas" e saqueando os recursos do Terceiro Mundo.
A União Europeia é parte do sistema e nos diferentes
países cumpre com zelo o seu papel.
É inocultável que o futuro da humanidade depende do desfecho da
actual crise de civilização.
Seria portanto natural que o debate dos grandes problemas do mundo
contemporâneo merecesse uma atenção permanente na campanha
eleitoral portuguesa, porque a própria continuidade da vida se acha
directamente ameaçada por uma politica imperial exterminista que pode
levar inclusive à extinção da humanidade.
Entretanto, isso não aconteceu. O PCP foi a excepção.
Tanto o PS como o PSD evitaram deliberadamente aprofundar a discussão
sobre as grandes questões ligadas à integração na
União Europeia, e ignoraram praticamente temas como a Palestina, o
Iraque, e as tensões criadas dos EUA na América Latina, na
Ásia Central e na Ásia Oriental .
Sócrates e Santana Lopes quase se limitaram a fazer a defesa
entusiástica da Constituição Europeia.
A desinformação em Portugal atingiu tais proporções
que a grande maioria dos eleitores desconhece que a Europa de Maastricht
é uma construção contra-revolucionária. Nenhuma
política progressista é possível no quadro de uma
constituição que, pela primeira vez na historia, institucionaliza
o capitalismo. Uma política
única
é predeterminada pela ordem constitucional. A tese segundo a qual a
Constituição, a ser referendada pelos parlamentos, pode ser
melhorada mediante emendas adequadas é enganadora.
Para as forças progressistas do Continente, a opção
correcta implica uma luta difícil para quebrar a couraça
supranacional e travar a caminhada suicida para o estado federal imperial.
É difícil porque isso somente será viável no
âmbito de um combate continental. Por ora, nos 25 o nível da
solidariedade internacionalista dos trabalhadores é, sejamos realistas,
muito baixo.
Falar por exemplo, da possibilidade, na actual conjuntura, de um projecto
social europeu é semear ilusões. Fora de uma
planificação socialista do desenvolvimento, sem que na Europa se
implante o socialismo num grande pais, não pode sequer concretizar-se a
reivindicação de um "salário mínimo
continental" que não seja um caramelo envenenado. Como sublinha o
filosofo marxista francês Georges Gastaud, "o IV Reich do capital
esconde um punho de ferro na sua luva de veludo".
Mas como abater então a política económica imposta de
Bruxelas e Frankfurt?
Seria romântico admitir que um pais pequeno e atrasado como Portugal
está em condições de, isoladamente, desafiar a estrutura
pré-federal da União Europeia.
As montanhas de obstáculos que surgem no horizonte não
justificam, porem, atitudes pessimistas que conduzem na prática a
renunciar ao combate. Os objectivos imediatos ao alcance dos trabalhadores
podem funcionar como plataforma para ambições maiores. Um
exemplo é a ascensão das lutas contra "o pacto da
estabilidade" ligado à moeda única, autêntica
polícia dos salários que destrói as conquistas sociais e
reduz os gastos em todos os países sob tutela de Bruxelas.
O Partido Comunista Grego mobiliza-se cada vez mais contra a ditadura da
União Europeia. Sair desta parece hoje uma utopia. Mas quase todas as
rupturas revolucionárias se cumpriram contra a lógica aparente da
história, desmentindo previsões.
A crise de civilização é anunciatória de grandes
lutas. O fim do capitalismo senil não tem data no calendário, mas
apresenta-se como uma certeza.
A Revolução Francesa de 1789 não principiou com a tomada
da Bastilha. As suas sementes germinaram quando o despotismo dito esclarecido
estava no auge. A Revolução Russa de Outubro não teria
mudado a vida se na Rússia autocrática e atrasada Lenine e os
seus companheiros não tivessem desde o final do século anterior
previsto a sua inevitabilidade e trabalhado para a concretização
do que parecia impossível.
A classe dominante francesa utiliza a palavra "catástrofe"
para qualificar a situação que resultaria, num quadro
caótico, da saída da França da União Europeia. Mas
cito mais uma vez Georges Gastaud "uma saída da
França da União Europeia somente seria uma catástrofe para
a grande burguesia e os seus homólogos e mentores europeus. Os
trabalhadores dos serviços públicos, os operários
deslocalizados, os beneficiários da segurança social, os pequenos
e médios agricultores
respirarariam, aliviados. Na Europa os
trabalhadores sentir-se-iam encorajados".
O compromisso de um revolucionário, sobretudo de um comunista,
não implica ser contemporâneo das transformações
sociais pelas quais vive e luta. A vitória dos seus ideais pode ser
posterior à sua morte. Ou ser adiada durante muitas
gerações.
O inadmissível é o desalento, a capitulação numa
época como a nossa de crise civilizacional em que um sistema monstruoso,
o capitalismo globalizado, configura ameaça à própria
sobrevivência da humanidade.
Estou consciente de que em Portugal a esmagadora maioria da
população não está preparada para lutas que
envolvam confrontações frontais com os poderes da União
Europeia cujo projecto e ideologia ignora.
O nosso povo não constitui excepção. Lenine lembrou nos
anos que precederam a revolução de Fevereiro que a ideologia da
classe dominante marca decisivamente o conjunto de qualquer sociedade.
Essa realidade é ainda mais transparente, transcorrido um século,
na era da informação instantânea, quando os meios de
comunicação são controlados hegemonicamente pelo grande
capital. Em Portugal a farsa cruel da ditadura da grande burguesia de fachada
democrática é agravada pelo efeito desinformador e anestesiante
de um sistema mediático (de intermediários medíocres, com
raras excepções) que trata de impor modelos importados que
glorificam o capitalismo selvagem e o individualismo mais feroz, e exorcizam a
ideia da revolução social.
Subalternizando princípios eternos da condição humana,
invertem valores, contribuindo para o avanço da alienação.
Num contexto diferente, sonham, como Salazar, com a
despolitização dos trabalhadores e o advento de uma massa amorfa
de gente submissa à vontade e ao projecto do grande capital.
A revolução de Abril, cujas grandes conquistas no terreno da
economia foram destruídas, deixou, felizmente, no plano social uma
herança que, embora fortemente golpeada, resiste com tenacidade à
ofensiva contra ela desencadeada.
Os factos confirmam, entretanto, que a capacidade demonstrada pelos
trabalhadores na resistência à sua domesticação
não é acompanhada por uma compreensão extensiva de que
"a democracia representativa" não passa em Portugal de uma
mistificação. Daí que alternadamente o PS e o PSD tenham,
através do voto, exercido o governo para executar sempre
políticas incompatíveis com as aspirações
mínimas do povo e obviamente com os compromissos assumidos durante as
suas campanhas.
O PS apresenta-se mascarado de partido de esquerda, mas todas as suas
direcções comportaram-se como aliadas do grande capital e do
imperialismo. Cabe-lhe a responsabilidade de ter contribuído
decisivamente para travar o avanço da Revolução de Abril e
participou activamente na conspiração que precedeu o 25 de
Novembro. Sob a liderança de Mário Soares, chamou o CDS para o
governo, inaugurando as alianças com a direita.
A escolha dos deputados do PS e do o PSD é sistematicamente da
iniciativa dos respectivos aparelhos partidários, sem
participação das bases Representam-se a si próprios e em
muitos casos a interesses económicos.
O Bloco de Esquerda esforça-se por exibir a imagem de uma esquerda
inovadora e combativa. Elegeu 8 deputados, mas é um partido integrado
no sistema apesar do alarido que faz. Traz à memória os grupos
que Lenine definia, pela ideologia e actuação, como
"pequenos burgueses enraivecidos". Foi muito beneficiado pelo
tratamento carinhoso que lhe dispensou a comunicação social.
Quanto ao CDS, cartaz da reacção ultramontana, esteve à
beira da extinção e sobrevive graças ao carisma de um
populista agressivo que sabe atrair os votos da direita saudosista. O
senhorito Paulo Portas pode formar gabinetes fantasmáticos e até
anunciar programas de governo, mas está consciente de que o seu partido
cumpre apenas a função instrumental de muleta do PSD, quando tal
lhe é indispensável. Paulo Portas anunciou a sua renúncia
à presidência do CDS, mas tal decisão não altera
essa realidade.
A excepção na caricatura de democracia existente é o
Partido Comunista Português. Desempenhou um papel fundamental na luta
contra o fascismo e na arrancada e defesa da Revolução de Abril.
No espaço da União Europeia forma hoje com o grego, o duo dos
grandes partidos comunistas que se assumem como marxistas-leninistas,
não abdicando de uma perspectiva revolucionária de
transformação da sociedade.
O quadro é sombrio e as eleições de Fevereiro não
anunciam mudanças na política que conduziu o pais à crise
que enfrenta. A maioria absoluta obtida pelo PS o descalabro da
passagem de Santana pelo executivo teve um efeito psicológico na
votação tende, pelo contrário ao seu agravamento.
A demagogia de Sócrates não impedirá que os problemas se
acumulem em cadeia. Em vez dos 150 mil empregos que prometeu criar,
assistiremos provavelmente a um aumento do desemprego. Em dois sectores
nevrálgicos a saúde e a educação
prosseguirá a degradação. O pouco que durante a campanha
disse sobre a necessidade de mudanças na Segurança Social leva a
crer que tudo fará para destruir conquistas históricas dos
trabalhadores. No diálogo com Bruxelas e Washington a sua atitude
será de uma submissão humilhante.
O quadro post eleitoral traz uma certeza: no horizonte imediato
esboçam-se os contornos de um dos piores governos dos últimos 30
anos.
Essa perspectiva não justifica atitudes de passividade.
Um factor importante a ter presente é a interligação das
crises. Pelo seu carácter estrutural, e não cíclico, a que
afecta o capitalismo repito vai aprofundar-se nos EUA e na
União Europeia. Portugal será duramente atingido.
A demagogia do governo de maioria absoluta será incapaz de evitar a
subida da maré do descontentamento popular. A grande tarefa das
forças progressistas e em primeiro lugar do PCP como partido
revolucionário será contribuir decisivamente para que as
lutas
sociais que se perfilam num horizonte marcado pela luta de classes sejam
orientadas não apenas para reivindicações sectoriais,
mas, assumindo um carácter permanente, visem objectivos que firam a
lógica e o funcionamento do sistema. Um exemplo: o combate tenaz, sem
quartel, às privatizações, nomeadamente a da água e
a da
recolha do lixo, e campanhas pela renacionalizaçao de serviços
públicos.
O aumento da votação na CDU e a eleição de mais
dois deputados comunistas confirmaram que as forças mais progressistas
da sociedade portuguesa desmentindo as previsões da direita
mantêm intacta a sua confiança no PCP, reforçando-a. Essa
votação vale por um estímulo à
intensificação da luta.
A presença na Assembleia da Republica de uma bancada comunista
batalhadora, distanciada do sistema, poderá nesse contexto assumir uma
grande importância se o complemento das iniciativas parlamentares
empreendidas no quadro institucional se inserir numa estratégia
ambiciosa de denúncia firme da engrenagem da ditadura burguesa
mascarada
de democracia. Por si só, isoladamente, os projectos comunistas
submetidos ao plenário não poderão, por mais justos e
oportunos que sejam, impedir o desenvolvimento da política de direita
do próximo governo. A função do Parlamento ao longo das
últimas Legislaturas confirma essa evidência. Cumpriu o seu papel
instrumental ao conseguir no fundamental sabotar ou neutralizar as iniciativas
progressistas que se lhe afiguraram incompatíveis com a ideologia da
classe dominante ou, para ser mais explicito, com os interesses do grande
capital e as exigências do imperialismo.
Somente o povo português, como sujeito da história, poderá
criar, pelos caminhos da luta, as condições indispensáveis
a uma alteração de fundo da relação de
forças, inviabilizando o prosseguimento da estratégia vassala de
forças e partidos que empurraram o país para a beira do abismo.
Não concebo essa luta na linha de continuidade de outras travadas nos
últimos anos pelos trabalhadores. Ela, para abalar os alicerces do
sistema de opressão, terá de assumir um carácter
diferente. Não revolucionário o que seria
impossível em
Portugal neste início do século XXI mas também
não meramente reivindicativo e reformador.
Para responder ao desafio da história no quadro de um combate
cada vez
mais global e internacionalizado a luta do nosso povo terá de se
inserir numa estratégia que recuse frontalmente, pela palavra e pela
acção, o projecto de sociedade que levou o pais à beira
do abismo.
A tarefa é ciclópica, não tenho ilusões, porque
milhões de portugueses não se aperceberam ainda de que o
capitalismo está condenado e assumiu no seu baluarte principal, os EUA,
uma dinâmica exterminista.
Mas precisamente porque a irracionalidade do sistema de opressão
ameaça já a humanidade como um todo, a luta contra ele
não visa já somente mudar a vida. É para salvar a vida que
urge combater pelo fim da exploração do homem.
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