Reflexão sobre histórias polémicas do PCUS,
da Revolução de Outubro e da URSS
por Miguel Urbano Rodrigues
Este artigo foi escrito para ser incluído num livro póstumo que
estou a preparar. Alterei essa decisão porque a minha companheira me
persuadiu de que a sua publicação imediata, nestes dias em que a
Humanidade (incluindo Portugal) está atolada na crise estrutural do
monstruoso sistema do capital condenado a desaparecer pode ser útil.
Li em 1961, na Guiné Conakri, a tradução francesa da
História do Partido Comunista (bolchevique) da URSS, revista e aprovada
em 1938 pelo Comité Central do PCUS. Em Portugal, por iniciativa do
camarada Carlos Costa, a referida História foi publicada em 2010
[1]
com o
subtítulo Breve Curso e um prefácio, muito elogioso, de Leandro
Martins, então chefe da redação do
Avante!.
A iniciativa gerou polémica no PCP.
OLHARES INCOMPATÍVEIS SOBRE A HISTÓRIA
Tenho na minha biblioteca de Gaia a citada História do Partido Comunista
(bolchevique), diferentes edições da História da
União Soviética, editadas em espanhol pela Editorial Progresso de
Moscovo
[2]
, e a tradução portuguesa da História da Grande
Revolução Socialista de Outubro da mesma editora
[3]
, editada en 1977.
A História do PCUS publicada em 1938 e aprovada pelo Comité
Central do Partido foi traduzida em 67 línguas e dela foram vendidos
mais de 42 milhões de exemplares. Mas, após o XX Congresso, foi
retirada das livrarias e bibliotecas soviéticas.
Não foi sem uma sensação de mal-estar que decidi expressar
a minha opinião sobre essa obra, a da Revolução de Outubro
e uma das Histórias da Rússia e da URSS, a elaborada pelos
historiadores A. Fadeiev, Bridsov, Chermensky, Golikov e A. Sakharov, membros
da Academia das Ciências da União Soviética. Foi editada em
espanhol, também pela Progresso, em 1960.
Porquê o mal-estar?
Por estar consciente da extrema dificuldade de estabelecer fronteiras entre o
positivo e o negativo, entre a evocação da História e a
deturpação da História que, por vezes no mesmo
capítulo, ora coincidem ora se fundem ou cruzam em confusão
labiríntica.
Na História do Partido Comunista (bolchevique) os primeiros três
capítulos são dedicados ao combate pela criação de
um partido operário revolucionário (o futuro Partido
Operário Social Democrata da Rússia - POSDR, inicialmente
marxista), à luta dos bolcheviques contra os mencheviques e à
primeira revolução russa (1904/1907). A narrativa é
interessante, com destaque para o papel decisivo que Lenin desempenhou nessa
fase histórica.
Os capítulos 4, 5 e 6 incidem sobre o período que vai da
reação stolypiana à Revolução de Fevereiro
de 17 que derrubou a autocracia czarista. Uma informação muito
rica e inédita para os leitores do Ocidente valoriza essas
páginas que iluminam a ascensão e o fortalecimento
contínuo do Partido bolchevique e a importância da obra
teórica de Lenin como ideólogo. As Teses leninistas de Abril, que
implicaram uma viragem decisiva na linha do Partido, merecem
atenção especial. Ao exigir "todo o Poder aos
Sovietes", Lenin sepultou a ideia da longa duração da
revolução democrático-burguesa, mobilizando o Partido e os
trabalhadores contra o Governo Provisório da Rússia,
esboçando a estratégia da revolução
proletária rumo ao socialismo.
No capítulo 7 os autores da História do Partido evocam os
acontecimentos que precederam a Revolução de Outubro e a
preparação desta, com muitas citações de Lenin que
facilitam a compreensão das lutas travadas contra o Governo de Kerenski
e no próprio Soviete de Petrogrado.
Mas a linguagem do livro, a partir do 4º capítulo, dedicado
à reação stolypiana no período que precedeu o
início da guerra de 1914/18, muda muito e distancia-se do rigor, da
serenidade e isenção exigíveis a historiadores
responsáveis, como são académicos soviéticos de
prestígio mundial como Evgueni Tarlé.
Para caracterizar o oportunismo dos mencheviques, dos economicistas, dos
empiriocriticistas e denunciar e criticar os erros de Kamenev, Zinoviev, Rikov,
Preobrazhensky, Trotsky e demonstrar a sua incompatibilidade com o leninismo,
os autores da História do Partido Comunista (bolchevique) da URSS
recorrem a uma adjetivação agressiva e insultuosa e deturpam
grosseiramente a História.
Repetidamente, Stalin começa a aparecer em muitas páginas,
sendo-lhe atribuídas decisões e iniciativas importantes numa
época em que era ainda um dirigente pouco destacado do Partido, embora
próximo de Lenin.
Não é verdade que Trotsky tenha aderido ao Partido para o minar
por dentro, com o objetivo de o destruir.
Kamenev e Zinoviev assumiram nas vésperas da insurreição
de Outubro posições que levaram Lenin a qualificá-los de
traidores, mas a atitude de Trotsky, que era presidente do Soviete de
Petrogrado, não suscitou então qualquer crítica de Lenin.
Relativamente às negociações de Brest Litovsk os autores
da História do Partido Comunista deturpam também os
acontecimentos. Lenin censurou Trotsky, que era o chefe da
delegação soviética, por não ter cumprido as
instruções para assinar a paz com os alemães, mas nunca
chamou traidores a ele e a Bukharin, que assumira uma posição
ultraesquerdista, nem a Radek e Piatakov. Afirmam os referidos historiadores
que eles formavam um grupo anti bolchevique que travou "no seio do partido
uma luta furiosa contra Lenin". É falso que planeavam "prender
V.I. Lenin, J.V. Stalin e I.M. Sverdlov, assassiná-los e formar um novo
governo de bukharinistas, trotskistas e sociais revolucionários de
esquerda".
É falso que Trotsky, tendo "como lugar tenentes na luta Kamenev,
Zinoviev e Bukharin, tentava "criar ma URSS uma organização
politica da nova burguesia, partido da restauração
capitalista".
A prova de que não tinham agido como conspiradores e traidores foi a
nomeação posterior de todos eles para tarefas da maior
responsabilidade, precisamente por indicação de Lenin. Trotsky
foi Comissário da Defesa durante o período mais dramático
da guerra civil e da intervenção militar das potências da
Entente, dos EUA e do Japão; Zinoviev assumiu a presidência da III
Internacional com a aprovação de Lenin; Bukharin foi chefe da
redação do Pravda de l924 a 1929, com o aval de Stalin.
No capítulo 9 a deturpação da História prossegue.
Ainda em vida de Lenin, Trotsky, durante o debate sobre os Sindicatos e a
função da NEP assumiu posições que foram duramente
criticadas por Lenin, mas continuou no Politburo com a aprovação
deste.
Nas páginas dedicadas ao XIII Congresso do Partido, a breve
referência à Carta que Lenin, já inválido, lhe
dirigiu a 24 de dezembro de 1922, meses antes de sofrer o último e
devastador derrame cerebral, omite o conteúdo e significado desse
documento fundamental.
Os autores da História afirmam que "Nos acordos tomados pelo XIII
Congresso foram levadas em conta todas as indicações feitas por
Lenin nos seus últimos artigos e cartas".
Trata-se de uma indesculpável inverdade.
A Carta de Lenin e a adenda do dia 4 de Janeiro de 1923 foram lidas a muitos
delegados mas não publicadas. Somente foram publicamente divulgadas na
URSS em 1956.
Porquê?
Nessa Carta Lenin transmitia ao Congresso a sua opinião sobre os mais
destacados membros do Comité Central, cuja ampliação ele
propunha.
A CARTA DE LENIN AO XIII CONGRESSO
Pela sua importância transcrevo a seguir excertos da extensa carta de
Lenin ao XIII Congresso na qual chamava a atenção para o grave
perigo que ameaçava o Partido se não fossem introduzidas
alterações na sua estrutura de direção:
"O camarada Stalin, tendo chegado a secretário-geral, tem
concentrado nas suas mãos um enorme poder, e não estou seguro de
que o utilizará sempre com suficiente prudência. Por outro lado, o
camarada Trotsky, como já demonstrou a sua luta contra o CC devido ao
problema do Comissariado do Povo para as Vias de Comunicação,
não se destacou apenas pela sua grande capacidade. Como pessoa, embora
seja o homem mais dotado do atual CC, tem demasiada confiança em si
mesmo e é excessivamente atraído pelas facetas puramente
administrativas das coisas".
Esboçava depois em poucas linhas os perfis de Kamenev, Zinoviev,
Piatakov, e Tomsky que eram então, com Bukharin, Trotsky, Stalin e ele,
membros do Politburo. A Bukharin apontava as fragilidades, mas elogiava-o
também muito.
Sobre Stalin advertia nessa adenda: "É demasiado brutal e esse
defeito, perfeitamente tolerável nas relações entre
nós, comunistas, não o é nas funções de
secretário-geral. Proponho portanto aos camaradas que estudem uma forma
de o transferir e nomear para esse lugar uma outra pessoa que somente tenha em
todas as coisas uma única vantagem, a de ser mais tolerante, mais leal,
mais educado, e mais atento para com os camaradas, de temperamento menos
caprichoso, etc. Essas características podem parecer apenas pormenores,
mas pelo que disse antes das relações entre Stalin e Trotsky,
não são ínfimos pormenores mas pormenores que podem
assumir uma importância decisiva".
Contrariando especulações frequentes em historiadores do
Ocidente, a hipótese de Trotsky ser nomeado secretário-geral
é absurda. A velha guarda do Partido nunca o aceitaria.
Há leves discrepâncias entre as traduções em
inglês, francês, português e espanhol da Carta de Lenin ao
Congresso e da adenda posterior. Mas são irrelevantes.
A EPOPEIA DA RECONSTRUÇÃO DA RUSSIA E DA
INDUSTRIALIZAÇÃO
O capítulo 10 é o melhor do livro.
A Rússia saíra arruinada da guerra mundial, da civil e da
agressão das potências da Entente. Dezenas de cidades e centenas
de aldeias tinham sido destruídas. A produção na
agricultura e na indústria caíra para níveis muito
inferiores aos de 1913. Durante a catastrófica seca de1921/22
milhões de pessoas morreram de fome.
O governo soviético enfrentou tremendos desafios.
As fábricas existentes eram obsoletas.
Transcrevo da História do Partido:
"Era necessário construir toda uma serie de setores industriais
desconhecidos na Rússia czarista; construir novas fábricas de
máquinas e ferramentas, de automóveis, de produtos
químicos e metalúrgicos; organizar uma produção
própria de motores e de materiais para a instalação de
centrais elétricas; aumentar a extração de metais e
carvão, pois assim o exigia a causa do triunfo do socialismo na URSS.
Era necessário criar uma nova indústria de guerra, construir
novas fábricas de artilharia, de munições, de
aviões, de tanques e de metralhadoras, porque assim o exigiam os
interesses de defesa da URSS nas condições do cerco imperialista.
Era necessário construir fábricas de tratores, fábricas de
máquinas agrícolas modernas para abastecer a agricultura, para
dar a milhões de pequenos camponeses individuais a possibilidade de
passarem à grande produção kolcosiana, porque assim o
exigiam os interesses do triunfo do socialismo no campo".
Essas tarefas gigantescas exigiam milhares de milhões de rublos. Ora os
cofres do Tesouro estavam vazios.
Como o Poder soviético havia anulado todas as dívidas a
países capitalistas contraídas pela autocracia czarista, o
crédito estrangeiro era uma impossibilidade absoluta.
Os excedentes da agricultura eram a única fonte a que o Poder
soviético podia recorrer. Mas para os obter era indispensável que
a agricultura estivesse em condições de os produzir.
Um duplo desafio se colocava: empreender a coletivização das
terras e modernizar em tempo mínimo a agricultura, dotando os kolkhoses
e os sovkhoses (quintas do Estado) de meios técnicos adequados.
O Poder Soviético, contra as previsões de Paris, Londres e
Washington, que consideravam impossível a sua sobrevivência,
ganhou essa batalha épica. Ela coincidiu com intensas lutas internas no
Partido (Trotsky foi expulso em 1927 e deportado para o Cazaquistão,
Kamenev e Zinoviev também foram expulsos, embora tenham sido
posteriormente readmitidos) e exigiu a destruição dos kulaks que
tinham enriquecido enormemente durante a NEP. Não há precedentes
na História da Humanidade para transformações tão
profundas e rápidas como as que então ocorreram na URSS.
Em 1926/27 foram investidos na indústria mil milhões de rublos,
três anos depois 5 mil milhões. Nesse breve período foram
construídas a Central Elétrica do Dnieper, o caminho-de-ferro que
ligou o Turquestão à Sibéria, a gigantesca fábrica
de tratores de Stalinegrado, a fábrica de automóveis AMO. Em 1928
a superfície dos kolkhoses era de 1 390 000 hectares; em 1929
ultrapassava 4 262 080 hectares e em 1930 15 milhões de hectares. No
triénio 1930/33 a indústria cresceu o dobro.
Esses êxitos foram porem manchados por graves desvios dos
princípios e valores leninistas.
Na coletivização das terras não foram apenas os kulaks o
alvo da repressão. Ela atingiu também e brutalmente,
milhões de pequenos camponeses que resistiram à
integração nos kolkhoses.
Stalin criticou os "excessos esquerdistas" de quadros do Partido num
artigo em que denunciou os "graves erros daqueles que se tinham desviado
da linha do Partido" através de medidas de coação
administrativa".
São obviamente fantasistas as estatísticas forjadas no Ocidente
segundo as quais dezenas de milhões de camponeses russos e ucranianos
foram mortos no processo de coletivização.
Mas é inegável que cabem a Stalin grandes responsabilidades por
crimes cometidos nesse período.
A História do Partido Comunista (bolchevique) é omissa a esse
respeito.
As ideias de Lenin sobre a coletivização eram
incompatíveis com a política de Stalin para a agricultura e com
os métodos a que recorreu num contexto de exacerbada luta dentro do
Comité Central.
Mas, a minha discordância frontal da estratégia do
secretário-geral do PCUS, já investido do enorme poder que Lenin
temia e denunciou, não me impede de reconhecer que ele foi um
revolucionário excecionalmente dotado que realizou em menos de uma
década uma obra colossal.
Distancio-me totalmente dos elogios insistentes e ditirâmbicos a Stalin,
mas registo que, terminado com êxito antes do prazo o I Plano Quinquenal,
a Rússia se transformara de país agrário atrasado, com
estruturas medievais, num grande país industrial. Um país em que
quase 75% da população adulta era analfabeta tornou-se um
país instruído e culto com uma rede impressionante de escolas
superiores, secundárias e básicas em que eram ensinadas as
línguas de dezenas de nacionalidades que conviviam no espaço
soviético do Báltico e do Mar Negro ao Pacífico; o
primeiro país do mundo em que o Estado garantia a saúde a
educação gratuita a todos os cidadãos.
CONCLUSÕES
No capítulo das Conclusões os autores da História do
Partido (bolchevique) tentam apresentar o regime soviético no final dos
anos 30 como a concretização do leninismo. Stalin seria o seu
intérprete fiel.
O andamento da História demonstrou a falsidade dessa
aspiração.
Já na época, o culto da personalidade de Stalin era
incompatível com o projeto de Lenin.
Somente em 1956 no XX Congresso do PCUS foi levantado o tema.
Khrushchov, que nunca havia dirigido a mais leve critica ao
secretário-geral, esboçou dele um perfil medonho. Posteriormente
soube-se que o famoso Relatório ao Congresso estava semeado de
informações falsas. Mas o culto da personalidade de Stalin, por
ele estimulado, foi uma realidade. A chamada desestalinização
não pode esconder que a chegada ao poder de Khrushchov assinalou o
início da política revisionista que conduziu à
destruição da URSS.
Quem enterrou o Socialismo na União Soviética foi Gorbatchov, mas
quem abriu a cova foi Khrushchov.
SOBRE A HISTÓRIA DA GRANDE REVOLUÇÃO SOCIALISTA DE OUTUBRO
A versão portuguesa, publicada em 1977 pela Progresso foi preparada por
um grupo de académicos, mas a editora soviética não cita
os seus nomes.
Pelo estilo, pela linguagem e pelas fontes consultadas (que ocupam 71
páginas no índice) é uma obra muito diferente da
História do Partido Comunista (bolchevique) de 1938.
As primeiras referências a divergências na fração
bolchevique do POSDR aparecem somente nas páginas 152 e 163. Os autores
sublinham que Trotsky, Kamenev e Zinoviev não acreditavam na
"vitória da revolução socialista na
Rússia", Os dois últimos denunciaram mesmo num artigo a
preparação da insurreição do 7 de novembro (25 de
Outubro no calendário Juliano, ainda vigente) o que levou Lenin a
acusá-los de "traidores".
A III Parte da História em apreço é dedicada à
Edificação do Estado Soviético e a
Transformações Revolucionárias no País.
Nas 200 páginas que ocupa são frequentes as críticas a
Kamenev e Zinoviev e escassas as referencias a Stalin e Trotsky.
As críticas a Trotsky surgem a propósito das
posições contraditórias que assumiu como chefe da
delegação soviética nas negociações de paz
de Brest Litovsk com os alemães e os austríacos.
Mas a linguagem dessas críticas não é agressiva. Os
autores escrevem que "Tal como os comunistas "de esquerda"
(então liderados por Bukharin), Trotsky não acreditava na
possibilidade de conservar o Poder Soviético sem o apoio das
revoluções nos países da Europa ocidental. Lenin tinha
dado instruções para assinar o tratado de paz se os
alemães apresentassem um ultimato".
E Trotsky, como chefe da delegação, ignorou as
indicações de Lenin, refugiando-se na fórmula absurda
"nem paz nem guerra!" Mas quando os alemães retomaram a
ofensiva a 18 de Fevereiro, Trotsky, na reunião de emergência do
Comité Central, votou com Lenin pela assinatura imediata do tratado
imposto pelos alemães, o que se fez a 3 de Março.
Os autores não referem sequer a expulsão de Trotsky do Partido em
1927 e a sua deportação para a Ásia Central.
Esse grupo de historiadores são obviamente seguidores disciplinados da
linha revisionista adotada pelo PCUS após o XX Congresso. E refletem na
sua História um tipo de sectarismo tão condenável como o
dos redatores da História do Partido Comunista (bolchevique). A escassez
de referências a Trotsky não se justifica.
Se é falso que ele tenha sido o cérebro de um plano tenebroso que
visaria desmembrar a URSS, entregando o Extremo Oriente aos japoneses e a
Ucrânia a Hitler, é indesmentível que o fundador da IV
Internacional conspirou permanentemente no exílio contra a União
Soviética.
UMA HISTÓRIA DA URSS TAMBÉM POLÉMICA
A História da URSS preparada pelos cinco membros da Academia das
Ciências citados no início deste artigo é também uma
obra polémica na qual a deturpação dos acontecimentos
históricos reflete o espirito do revisionismo khrushchoviano.
É um manual pouco ambicioso destinado à juventude. O
título é aliás incorreto porque os autores tentam
condensar em quatrocentas e poucas páginas a história dos povos
que desde o paleolítico se instalaram ao longo dos séculos no
espaço da futura União Soviética.
O Capítulo I, de Bridsov e A. Sakharov, é dedicado às
comunidades primitivas e ao período da escravidão.
No Capítulo II, de Sakharov, o tema é o feudalismo e abrange a
fundação do Estado Russo, as invasões mongóis, a
desintegração da Horda de Ouro, e finda com o desenvolvimento na
Rússia das relações capitalistas.
A perspetival marxista não é facilmente identificável
nessas páginas que contêm informações muito
interessantes, ausentes nos trabalhos de historiadores ocidentais sobre esses
períodos. O nome de Stalin aparece pela primeira vez na página
141, incluído numa lista de bolcheviques que lutavam contra os
mencheviques. Kamenev é citado na página 202 como líder
dos "oportunistas de direita". Bukharin e Preobrazhensky na
página 206 como "capituladores".
Trotsky é criticado (pág. 212) por "ter violado as
instruções do CC do Partido e do governo soviético,
negando-se a assinar as condições de paz". A Stalin é
atribuído, com Vorochilov, o êxito da vitória sobre Krasnov
(pág. 231) em Tsaristsin (futura Stalinegrado).
O trotskismo volta a ser citado criticamente na pág. 258. Bukharin e
Rykov são qualificados de "grupo anti partido de oportunistas"
(pág. 261)
Nas páginas dedicadas à coletivização da
agricultura a violação dos princípios do Partido é
atribuída a funcionários e aos sovietes locais e valorizada como
importante a crítica de Stalin a esses desvios. Mas não há
referências aos crimes cometidos e à deportarão
maciça de camponeses.
O Historiador não alude sequer aos processos dos anos 30 que findaram
com os fuzilamentos de Kamenev, Zinoviev, Rakovsky, Bukharin, Preobrazhensky e
outros velhos bolcheviques.
As primeiras referências ao culto da personalidade de Stalin aparecem na
página 281. O autor do capítulo afirma que "a idolatria a
Stalin infligiu graves danos ao Partido Comunista e à sociedade
soviética" e sublinha que os êxitos obtidos pelo Partido e as
massas populares foram injustamente atribuídos a Stalin.
No capítulo dedicado à II Guerra Mundial salienta-se que Stalin
"assumiu a direção militar, económica e politica dom
país, concentrando nas suas mãos a plenitude do Poder do
Estado" (pág. 287).
No Capítulo IV, o académico F. Golikov dedica largo espaço
(página 312 e seguintes) ao XX Congresso, informando que nele foi
discutido o relatório do primeiro secretário, Khrushchov,
sublinhando que "a questão de superar o culto da personalidade de
Stalin e as suas consequências" mereceu especial
atenção.
"O Congresso escreve Golikov revelou audaz e sinceramente as
faltas e as deficiências no trabalho, resultantes da idolatria a Stalin,
sobretudo nos últimos anos da sua vida e atividade. Alheio ao espirito
do marxismo-leninismo e à natureza do regime socialista da sociedade, a
androlatria travou o desenvolvimento da democracia soviética e impediu o
avanço da União Soviética para o comunismo.
Mas, ao criticar os "aspetos erróneos da atividade de Stalin"
a nova direção do Partido afirma que "como fiel
marxista-leninista e firme revolucionário Stalin ocupará o seu
devido lugar na História".
Na sessão plenária do CC de junho de 1957 salienta-se que
"foi derrotado e desmascarado o grupo anti partido integrado por Malenkov,
Kaganovitch, Molotov, Bulganin e Shepilov".
Seguem-se páginas apologéticas dos extraordinários
êxitos que o PCUS sob a direção de Khrushchov estaria
alcançando e que permitiriam à URSS "ocupar nos
próximos 15 anos o primeiro lugar no mundo tanto quanto ao volume global
da produção como à produção per capita. No
país será criada a base material e técnica do
comunismo".
Para mal da humanidade, essa previsão otimista foi desmentida pela
História.
Pelo estilo e linguagem, no Ensaio em apreço transparece com clareza a
mentalidade revisionista que empurrou a URSS para a sua
desagregação e a reimplantação na Rússia do
capitalismo.
É um trabalho que não contribuiu para o prestígio da
historiografia soviética.
Transcorridas décadas, é minha convicção firme que
a História do Partido Comunista (bolchevique) de 1938, a História
da Grande Revolução de Outubro e as diferentes Histórias
da URSS editadas nos anos 70 deturparam todas, com objetivos opostos, a
História real de acontecimentos que deixaram marcas inapagáveis
no caminhar da humanidade.
É útil recordar que a grande maioria dos historiadores
ocidentais, epígonos do capitalismo, longe de contribuírem para
iluminar a história real da União Soviética, a deturpam
com perversidade para demonizar o marxismo e Lenin.
Em vésperas das comemorações do centenário da
Revolução de Outubro, sinto a necessidade de afirmar que,
não obstante as graves deformações que desnaturaram o
projeto de Lenin, o desaparecimento da URSS configurou uma tragédia para
a humanidade. A vitória da Revolução Socialista foi o
maior acontecimento da História e a sua herança confirma que foi
a experiência mais justa e ambiciosa de libertação do homem
da sua exploração milenária.
[1]
História do Partido Comunista (bolchevique) da URSS
, Edição de Para a História do Socialismo, Portugal, Agosto
de 2010, 527 páginas
[2] História da Grande Revolução Socialista de Outubro,
Edições Progresso, Moscovo, 1977, 676 páginas
[3] Historia de la URSS (Ensayo), publicada em 1960 pelas Edições
Progresso, de Moscovo, 422 páginas
Serpa e Vila Nova de Gaia, Setembro e Outubro de 2016
O original encontra-se em
www.odiario.info/reflexao-sobre-historias-polemicas-do-pcus/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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