por Miguel Urbano Rodrigues
Apresentar a França como um país decadente e despejar criticas
sobre o seu povo e simultaneamente enaltecer o dinamismo da Espanha e a
criatividade da sua burguesia tornou-se quase dever de rotina para os analistas
da média portugueses.
Essa cantilena, que repete sem originalidade a de Bush e da extrema-direita dos
EUA, deturpa grosseiramente a realidade.
A direita, em Washington como em Portugal, não perdoa à
França ter-se oposto no Conselho de Segurança, em 2004, à
guerra de agressão contra o Iraque e sobretudo haver dito NÃO
à chamada Constituição Europeia, congelando um projecto
que institucionalizava o capitalismo na UE.
Essas acontecimentos positivos não alteraram obviamente o rumo da
política reaccionária do governo francês, mas evidenciaram
que na Pátria de Robespierre a classe dominante enfrenta maiores
dificuldades do que noutros países europeus para impor
discricionariamente a sua vontade. Em Março e Abril do ano passado a
mobilização popular contra uma lei que iria agravar o desemprego
entre a juventude atingiu tal magnitude que o governo foi obrigado a revogar
esse diploma, já aprovado pelo Parlamento e promulgado pelo Presidente
Chirac.
Por muito que isso desagrade a Bush e Cia Lda, o povo da França, frente
à actual crise de civilização, não se deixa
manipular com a facilidade do norte-americano. O peso do país na UE
é obviamente muito superior ao da Espanha, onde as Cortes, sob a
pressão do social-democrata-liberal Zapatero, aprovaram por ampla
maioria a Constituição Europeia.
Neste contexto as eleições de Abril assumem uma importância
que não deve ser subestimada.
A situação é tanto mais preocupante quanto o desfecho
será mau, qualquer que seja o eleito.
O número elevado de candidatos impressiona pela quantidade. A maioria
aproveita a oportunidade para se exibir e ocupar algum espaço na
comunicação social. Mas apenas dois, Segolène Royal pelo
PS e Nicolás Sarkozy pela União para o Movimento Popular (UMP),
têm possibilidades de chegar ao Eliseu. Excluindo os folclóricos,
aparecem na corrida cinco candidatos cuja soma de votos, considerável,
impedirá que em 22 de Abril o vencedor obtenha maioria absoluta,
tornando inevitável uma segunda volta.
Durante meses as sondagens atribuíram vantagem a Sarkozy, mas as
últimas apontam para um empate técnico. O resultado, quando se
enfrentarem a dois, dependerá de factores por ora imprevisíveis,
inseparáveis da distribuição dos votos dos candidatos
eliminados.
Sarkozy conseguiu impor-se a uma direita oficial, dividida. Emerge nela como o
representante das forças mais obscurantistas. Diz-se gaullista, como
Chirac e Villepin, mas as relações que mantém com ambos
são péssimas. Um dos absurdos da actual campanha é
precisamente a atmosfera de hostilidade existente entre Sarkozy e o presidente
e o primeiro-ministro, membros do mesmo partido. O semanário
Le Canard Enchainé
tem divulgado comentários insultuosos do chefe do Estado e Villepin
sobre o candidato da UMP e opiniões deste igualmente ofensivas sobre
ambos. Ninguem desmentiu. Nos corredores dos Conselhos de Ministros em que
Sarkozy participa como responsável pela pasta do Interior a troca de
palavras impublicáveis é também frequente. Mas a
relação de forças no maior partido da direita é
tão complexa que Chirac não ousou demitir o ministro que lhe
critica a politica e se comporta como adversário.
Descendente de uma família da aristocracia húngara, Sarkozy
ganhou notoriedade pelo seu estilo arrogante, pela vocação
repressiva e por assumir desde a juventude atitudes racistas.
Durante a vaga de violência que principiou em bairros degradados dos
subúrbios de Paris e se estendeu depois a quase toda a França,
alarmando o governo e a classe dominante, Sarkozy exibiu como ministro o papel
do duro, «defensor da ordem», usando uma linguagem profundamente
reaccionária. Ganhou e perdeu apoios.
Cultiva um género de populismo atípico que confunde amplos
sectores do eleitorado. Orador hábil, adoptou durante a campanha um
discurso diferente do anterior. Renunciou a tratar o tema da
imigração na perspectiva do nacionalismo exacerbado e quando se
dirige aos excluídos dos subúrbios a mensagem, demagógica,
é agora, outra. Substituiu as ameaças por promessas.
Empenhado em atrair cidadãos que votam tradicionalmente no PS,
não hesita em afirmar-se identificado com aspectos do pensamento de
personalidades tutelares da esquerda como Jaurès e Leon Blum. Cito o
facto por ser revelador de um descaramento demagógico sem limites.
Existe a certeza de que, se instalado na Presidência, Sarkozy optaria por
uma politica pro-americana no tocante aos grandes problemas do mundo
contemporâneo. Já o comunicou aliás a Bush. Seria na
Europa, depois de Blair, o melhor aliado dos EUA.
Mas nas suas intervenções tem-se abstido sistematicamente de
abordar com um mínimo de seriedade temas tão fundamentais como a
guerra no Iraque, a presença militar francesa no Afeganistão, a
situação criada pela agressão de Israel ao Líbano e
ao povo palestiniano, a estratégia francesa na União Europeia. A
atenção dedicada aos assuntos internacionais é
mínima.
Relativamente aos grandes problemas da sociedade francesa a sua atitude
é similar. Sarcozy prefere concentrar o seu discurso de campanha no
confronto pessoal com a candidata socialista. Mas o debate é desviado do
campo das ideias, de questões que condicionam o futuro do país e,
de certa forma, da humanidade para o ataque à adversária. Falar
do desemprego, dos despedimentos, da Segurança Social, da
deslocalização para outros países de grandes empresas, de
privatizações é incómodo para ambos.
Ségolène entra obviamente no jogo. Ao discurso político
responsável que seria de esperar de uma aspirante à
Presidência da Republica prefere o duelo verbal, a resposta a fofocas da
imprensa, a denuncia dos podres do adversários bonita e elegante.
Por acordo tácito entre ambos, a campanha avança assim num
nível baixo.
Tão baixo que o eterno candidato da ultra-direita, Le Pen, politico
experiente, consegue nas entrevistas da televisão ser o menos mau.
É provável que ultrapasse outro candidato da direita,
François Bayrou, que afirma ser do «centro», mas é
profundamente reaccionário.
Marie George Buffet, secretária nacional do Partido Comunista
Francês, espera ultrapassar a votação que o seu camarada
Robert Hue obteve na primeira volta das presidenciais anteriores. Mas
não é candidata pelo PCF. Foi lançada por um Movimento
formado had hoc por forças progressistas, a Esquerda Popular e
Antiliberal, e tão heterogéneo que alguns dos seus elementos
não ocultam o seu anticomunismo. Marie George não se apresenta
assim como dirigente comunista e declarou que qualquer que seja o rumo da
campanha de Ségolène, apelará ao voto na candidata do PS
na segunda volta, afirmação que causou mal estar em muitas
Federações dos PCF. Isso porque o programa e o discurso de
Segolène são ostensivamente reaccionários.
Joseph Bové faz muito barulho, mas não conseguiu sequer atrair o
apoio maciço das organizações camponesas.
A candidatura trotskista alcançou menos visibilidade do que a anterior.
Obviamente, a distribuição dos votos dos candidatos que
não passarão à segunda volta será decisiva no
confronto final de Ségolène com Sarcozy.
Perante o quadro existente, a maioria dos analistas admite que o actual
líder da UMF, se a lógica funcionar, está melhor colocado
para vencer do que uma socialista que, na realidade, defende também o
neoliberalismo, portanto o capitalismo.
Um factor inesperado pode, entretanto favorecer Madame Royal, como lhe chamam
alguns jornais.
A grande burguesia francesa teme que Sarkozy, se for eleito, inaugure na
Presidência um estilo autoritário, de desrespeito por direitos dos
trabalhadores, o que provocaria inevitavelmente forte resistência
popular. Ora o grande patronato não quer ver as massas na rua. O
precedente do ano passado não foi esquecido.
Em contrapartida, os senhores do capital identificam em Segoléne uma
aliada segura e inofensiva.
Uma certeza, qualquer que seja o futuro Presidente da França, Nicolas
Sarkozy ou Ségolène Royal, as perspectivas são sombrias,
porque ambos são firmes adeptos de politicas neoliberais. No plano
internacional ele e ela situam-se à direita de Chirac; defendem uma
cooperação mais íntima com Washington, o que significa uma
maior vassalagem da França perante a estratégia de
dominação do imperialismo estado-unidense.
A França continuará nos próximos anos a ser governada pela
direita. Não é motivo para surpresa. Isso acontece hoje em quase
toda a Europa.
Mas as generalizações pessimistas podem levar a conclusões
falsas.
A UE é uma soma de estados nacionais com vocação
federativa, mas económica e culturalmente separados em alguns casos por
diferenças abissais.
O povo francês realizou no final do século XVIII uma grande
revolução que marcou decisivamente o rumo da história. E
voltou, com a saga da Comuna, a ser sujeito de outra que anunciou o desafio do
comunismo ao império do capital.
Essas revoluções deixaram ali sementes que não morreram.
A França é hoje um dos países capitalistas mais
desenvolvidos e ricos do mundo. O sistema entrou numa crise estrutural para a
qual não existe desta vez saída salvadora. Mas a sua
desagregação não tem data no calendário e o
desfecho dependerá fundamentalmente do crash final nos EUA,
pulmão e motor do imperialismo.
Aquilo a que os neoliberais chamam «os anos gloriosos» do capitalismo
europeu após a segunda guerra encobre realidades incómodas para
as classes dominantes, empenhadas em reescrever a história de acordo com
os seus interesses. A grande vitória alcançada pela URSS contra o
«invencível exército alemão» deu ao país
dos Sovietes um enorme prestigio no Ocidente. Finda a guerra, as lutas dos
trabalhadores que se haviam batido contra o fascismo assumiram uma amplitude
que assustou as burguesias nacionais. Um grande medo de que essas lutas fossem
o prólogo de situações revolucionárias invadiu a
Europa capitalista. Então, um conjunto de factores simultâneos
contribuiu para a mudança do mapa social do Ocidente. Não houve
concessões, mas sim conquistas das massas.
Mas é evidente que a humanização da vida, uma melhora
sensível das condições materiais dos trabalhadores e a
ofensiva para desarticular os sindicatos contribuíram dialecticamente
para uma quebra drástica do espírito de luta da classe
operária em todo o Continente.
A exploração persistiu, mas sob formas suavizadas. A ditadura do
capital sob o trabalho manteve-se, mas na Europa desenvolvida passou a ser
muito mais difícil mobilizar as massas para lutar contra o sistema
responsável pela injustiça social.
Mesmo neste início do século XXI, quando essa injustiça se
agrava a cada ano, após o desaparecimento da União
Soviética, a França aparece como o paraíso no
imaginário de milhares de candidatos a emigrantes da Europa Oriental e
da Africa.
Na América Latina, onde a implantação brutal do
neoliberalismo na sua versão imperial produziu efeitos devastadores,
lançando na miséria dezenas de milhões de trabalhadores, a
resposta dos povos contra as ditaduras da burguesia é globalmente
positiva, embora o desfecho das mudanças em curso seja
imprevisível.
Em França a esperança da revolução surge
transferida para um futuro remoto. As instituições criadas pela
burguesia funcionam em benefício do seu projecto. Mas a classe dominante
tem consciência de que num moderno estado capitalista as engrenagens do
sistema devem ser programadas de modo a evitar situações de
opressão susceptíveis de provocar explosões de
descontentamento social.
Passei agora uma semana em Paris. Impressionou-me verificar que o Estado
burguês funciona ali com eficácia, não obstante o povo
pagar a factura de um sistema em crise. Os meios de comunicação
social imprensa, televisão e rádio a serviço
da direita esforçam-se por cumprir a sua tarefa de
desinformação e manipulação da opinião
pública. Apenas se diferenciam dos portugueses porque os quadros
são ali mais cultos e preparados do que os da burguesia lusitana.
Foi, entretanto, gratificante, verificar que o nível do debate
político no âmbito das forças progressistas reflecte em
França a herança cultural de um grande povo. Numa
conferência do sociólogo belga François Houtart sobre a
América Latina estavam na mesa Samir Amin e Remy Herrera a
participação da assistência, ao longo de duas horas, foi
intensa, deixando transparecer não somente a condenação
frontal do imperialismo como a solidariedade com os processos de ruptura com o
capitalismo em curso na região.
Não serão hoje muito numerosos os intelectuais
revolucionários de grande qualidade em França. Mas o punhado
existente, de Labica a Gastaud e Henri Alleg, chama a atenção.
A criatividade dos pensadores marxistas franceses fascina. Li agora um pequeno
livro de Jean Salem
Lénine et la révolution
que, pelo que diz e
pelo convite à reflexão sobre a Historia profunda, deveria ser
lido pelos comunistas de todo o mundo. Numa centena de paginas, o autor,
professor de filosofia grega na Sorbonne (é filho do escritor Henri
Alleg), recorre a Seis Teses de Lenine, que seleccionou das Obras Completas de
Vladimir Ilitch, para desmontar o bombardeamento mediático que falsifica
a Historia e iluminar brilhantemente a actualidade da sua mensagem
revolucionaria carregada de lições no campo da teoria e da
acção.
Livros como o de Jean Salem fortalecem a confiança dos comunistas no
futuro. Ajudam a preparar as grandes lutas que se esboçam no horizonte.
Serpa, 28/Fevereiro/2007
(encomendas efectuadas através do link acima permitirão que resistir.info receba uma pequena comissão)
O original encontra-se em
http://odiario.info/articulo.php?p=216&more=1&c=1
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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