por Miguel Urbano Rodrigues
A expulsão de António Capucho pelo PSD desencadeou na direita um
estrondoso concerto.
Uma minoria dos comentadores de serviço elogia a decisão por
considerar que violou os estatutos do partido ao candidatar-se à
Assembleia Municipal de Sintra por uma lista independente. A grande maioria
critica a expulsão, elogia o ex-secretário geral do PSD, e
aproveita este pequeno incidente da política de copa e cozinha
portuguesa para, extrapolando o tema, atacar os partidos políticos e, a
desproposito, tocar a música do anticomunismo primário.
A insistência de alguns analistas em apresentar António Capucho
como um social-democrata progressista que defendeu com Sá Carneiro
"a matriz social-democrata do PSD" é ridícula.
O PSD nasceu como partido de direita e não obstante ter preparado o
assalto ao poder com um programa adaptado com hipocrisia ao momento
revolucionário cedo arrancou a máscara. Sá Carneiro foi
com Mário Soares um dos principais arquitetos da contra
revolução portuguesa. Conspirou com Spínola e durante o
seu breve governo intensificou a ofensiva contra as conquistas de Abril,
empenhando -se em destruir a Reforma Agraria e deteriorar as
relações com os países socialistas e as repúblicas
africanas de expressão portuguesa.
Como seu colaborador íntimo e ministro em diferentes governos do PSD,
Antonio Capucho apoiou sempre as medidas reacionárias do seu partido. De
social-democrata somente exibiu uma máscara esburacada.
Neste empolamento do significado da expulsão do ex-dirigente do PSD, e
deturpação da sua intervenção na política,
destacados analistas da direita acharam oportuno atacar os partidos
responsabilizando-os pela gravíssima crise que atinge o país. Em
algumas crónicas transparece o saudosismo da autoridade do Estado Novo,
expressão muito na moda para designar e branquear o fascismo. Nessa
seara de disparates reacionários, a expulsão de Capucho serve
também para invocar o "stalinismo" e condenar "o
centralismo democrático".
O episódio Capucho coincidiu aliás com o auge da ruidosa campanha
de propaganda promovida pelo Governo de Passos & Portas. O lema é
transformar o desastre em êxito. O discurso oficial repete agora
incansavelmente que "a política de austeridade" salvou o Pais
e as metas foram quase todas atingidas.
O ministro Pires de Lima, criador do "milagre português, Poiares
Maduro, Marco Antonio e Maria Luis Albuquerque destacam-se no elogio da
destruidora obra governativa. O ministro da Defesa que segundo o general
Garcia Leandro confessa nada saber dos problemas da Defesa participa
também animosamente na campanha.
Não se limitam já a falar de "indicadores positivos"
citando estatísticas falsas. A lucidez da estratégia do governo
PSD-CDS surge-lhes como realidade tão obvia que criticam com dureza os
partidos que não reconhecem o "crescimento da economia".
Passos promove e agradece.
Essa indecorosa campanha de propaganda e desinformação conta
aliás com a colaboração da maioria dos comentadores da TV
e dos colunistas dos principais jornais.
De repente trocaram tímidas críticas por elogios. Jornalistas
como José Gomes Ferreira, Miguel Sousa Tavares e Nicolau Santos semeiam
a confusão em sinuosos artigos e entrevistas ao alinharem com o discurso
oficial sobre uma recuperação inexistente.
Isso acontece quando o desemprego aumenta, a emigração dispara e
o governo aprova um decreto-lei para acelerar o despedimento de trabalhadores,
tão ostensivamente inconstitucional que até a UGT o criticou.
O folhetim desinformador sobre a expulsão de Capucho e a perversa
campanha de autoelogio do governo não têm, porém, o poder
de alterar a realidade.
A maré de lutas sociais continua a subir. Aumenta a cada semana o
número de trabalhadores que participa no combate à engrenagem
monstruosa que oprime e arruína Portugal.
Urge apressar o derrubamento deste governo de mascara democrática que
é na prática uma ditadura do capital. Tal tarefa não
é apenas necessária; é uma exigência da
História.
Vila Nova de Gaia, 15 de Fevereiro de 2014
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