Um revolucionário assassinado
por Miguel Urbano Rodrigues
A morte do comandante Jorge Briceño, das FARC, foi apresentada pelo
sistema mediático controlado pelo imperialismo como "grande
vitória da democracia sobre o terrorismo" e festejada pelo
presidente dos EUA e pela maioria dos governantes da União Europeia.
A mentira e a calúnia podem manipular a informação e
enganar centenas de milhões de pessoas, mas não fazem
História.
O comandante Jorge Briceño, nome de guerra de Victor Suarez, conhecido
na Colômbia como Mono Jojoy "homem branco", no dialecto
das tribos amazónicas da Região foi um estratego militar
de prestígio continental e um revolucionário exemplar que dedicou
a vida ao combate pela libertação do seu povo, oprimido pela
oligarquia mais corrupta e sanguinária da América Latina.
A sua morte culminou uma operação de custo milionário em
que participaram a Força Aérea, a Polícia, os
serviços de inteligência, o Exército e a Marinha da
Colômbia com a colaboração de Israel, da CIA e do
Pentágono.
Segundo El País, de Espanha, e alguns jornais Colombianos, o crime
começou a ser preparado cientificamente há quatro anos quando,
numa bota de Mono Jojoy teria sido colocado um chip que permitia via
satélite acompanhar por GPS a sua movimentação nas densas
florestas dos Departamento do Meta e do Caquetá, praticamente
controladas pelo Bloco Oriental das Forças Armadas
RevolucionáriasFARC, por ele comandado.
O cerco dos acampamentos do comandante Briceño, nas Serranias de La
Macarena, principiou no dia 21 de Setembro. Segundo fontes oficiais, o
bombardeamento das instalações, que abrangiam numerosas e
profundas cavernas naturais nas escarpas da montanha, foi devastador. 20
Aviões e 37 helicópteros lançaram, no dia 22, sobre uma
área reduzida, 100 bombas num total de 50 toneladas.
No ataque foram utilizadas armas e tecnologia que os EUA somente fornecem a
Israel e à Colômbia.
A intervenção posterior de forças terrestres da VII
Brigada do Exército encontrou, segundo o governo de Juan Manuel Santos,
forte resistência das FARC. Nos combates que ainda prosseguem na
Região, o Exército reconheceu ter sofrido numerosas baixas, entre
feridos e mortos.
A TRAIÇÃO
Tal como ocorreu com a operação encenada cujo desfecho foi a mal
chamada "libertação" de Ingrid Bettencourt, a
traição de alguns guerrilheiros está na origem do
assassínio do Jorge Briceño. Sem ela, a localização
do acampamento e do lugar exacto onde se encontrava o comandante na hora do
ataque, não teriam sido viáveis. Aliás, somente o segundo
bombardeamento, realizado com bombas "inteligentes" de grande
precisão, atingiu o objectivo: matar Jorge Briceño.
Mono Jojoy sofria de uma diabetes avançada. Por suportar mal as botas da
guerrilha, usava umas ortopédicas, especiais. Segundo
informações divulgadas em Bogotá, o responsável
pela Intendência das FARC incumbido de comprar esse calçado teria
entrado em contacto com os serviços de inteligência que
introduziram o minúsculo chip numa dessas botas.
Cabe esclarecer que o Governo de Uribe o anterior presidente
tinha criado um prémio equivalente a dois milhões de euros para
quem contribuísse para a "captura ou morte" do chefe
guerrilheiro.
A fixação da data para a operação intitulada
pelo governo "Boas Vindas às FARC" e "Sodoma" pelas
Forças Armadas foi antecipada porque nas últimas semanas a
organização guerrilheira, desmentindo a propaganda oficial que a
apresentava como moribunda, retomara a iniciativa em múltiplas frentes,
numa demonstração da sua vitalidade.
Em Agosto e Setembro, em ataques de surpresa e embocadas, nos Departamentos do
Caquetá e do Meta, foram abatidos em combate 90 elementos do Exercito e
da Polícia.
Simultaneamente, o Secretariado do Estado Maior Central das FARC reafirmava a
sua disponibilidade para negociar com o novo governo uma solução
para o conflito que levasse à paz desejada pelo povo colombiano e
dirigia-se à UNASUL, solicitando uma reunião em que pudesse expor
e defender o seu projecto de uma verdadeira paz social para o Pais.
O presidente títere José Manuel Santos, com o aval de Washington,
tomou então a decisão de montar o ataque à Serra de La
Macarena cujo desfecho foi o assassínio do comandante Jorge
Briceño e de um punhado dos seus camaradas.
Segundo
El Tiempo,
quatro traidores serão recompensados com dois milhões.
OS PARABENS DE OBAMA
Jorge Briceño é qualificado pelos media de Bogotá e dos
EUA de assassino, terrorista feroz e narcotraficante. A linguagem costumeira
para designar os dirigentes das FARC.
Essas calúnias e insultos estão desacreditados na América
Latina. As forças progressistas do Continente e milhões de
trabalhadores identificavam em Briceño um revolucionário de
fibra, sabem que ele foi desde a juventude um comunista coerente. Ao oferecer
um prémio gigantesco pela sua cabeça, o governo de Uribe
demonstrou o respeito que lhe inspirava a capacidade de Mono Jojoy como
estratego. Nas cordilheiras e nas selvas colombianas ele, combatendo, adquirira
um prestígio quase lendário, emergindo como um símbolo da
invencibilidade das FARC. Muitas vezes lhe anunciaram a morte para depois a
desmentirem.
O general Padilla, quando comandante-chefe do Exército, dirigiu-lhe um
apelo para que se rendesse, oferecendo-lhe garantias se o atendesse.
Briceño, em resposta irónica, disse-lhe que uma
organização revolucionária que lutava há quase
quatro décadas somente deporia as armas quando o povo da Colômbia
fosse libertado.
Em 2001, quando as FARC, na cidade de La Macarena, não longe da Serra do
mesmo nome libertaram unilateralmente cerca de 300 soldados e
polícias capturados em combate, tive a oportunidade de conhecer e saudar
Mono Jojoy. A troca de palavras foi breve porque ele era assediado por
embaixadores ocidentais da Comissão Facilitadora da Paz então
existente que admiravam o seu talento de estratego. Recordo que nessa jornada o
interrogaram sobre a proeza militar que fora a tomada da cidade de Mitú
na fronteira da Venezuela numa ofensiva fulminante de Briceño que
humilhou os generais colombianos. As FARC combatiam então em 60 Frentes.
Vi um vídeo do acontecimento. O discurso que na época dirigiu
à população, concentrada na praça principal da
cidade, foi uma peça de oratória revolucionária divulgada
inclusive por grandes jornais da América Latina.
Compreende-se o ódio da oligarquia colombiana ao estratego das FARC.
Para o matar tiveram de mobilizar milhares de homens e dezenas de aeronaves e
de gastar milhões para comprar a consciência de traidores. Agora
exibem-lhe o cadáver como troféu.
O presidente dos EUA, numa atitude abjecta, saudou o seu colega colombiano pelo
crime. Abraçou-o na Assembleia-geral da ONU, anunciou um aprofundamento
da aliança com o regime fascista de Bogotá, e declarou,
eufórico: "sublinho a liderança do presidente Santos e
felicito-o porque ontem foi um grande dia para a Colômbia, em que as suas
forças armadas realizaram um extraordinário trabalho (
) O
presidente da Colômbia pode contar com todo o nosso apoio".
Essa a noção que o imperialismo tem da ética.
Mas Obama e Santos podem insultar o comandante Briceño, chamar-lhe
bandido, assassino e terrorista que as suas calúnias não
têm o poder de apagar a grandeza do guerrilheiro caído em combate.
Os nomes de Uribe, de Santos e dos generais que o assassinaram serão em
breve esquecidos. Não o de Mono Jojoy, revolucionário e soldado
da têmpera de Bolívar, Sucre, Artigas. Com o tempo subirão
da terra pelas Américas estátuas do heróico comandante das
FARC. Será recordado com admiração e orgulho pelas futuras
gerações.
V.N de Gaia, 26/Setembro/2010.
Nota:
O comandante das Forças Armadas da Colômbia, general Edgar
Cely, desmentiu as noticias segundo as quais os movimentos de Jorge
Briceño eram há tempos acompanhados por GPS. As suas
declarações devem porem ser recebidas com reservas, porque
não coincidem em muitos pontos com a versão dos acontecimentos
publicada por
El Tiempo,
propriedade da família do actual presidente da Republica ,Juan Manuel
Santos.
O original encontra-se em
http://www.odiario.info/?p=1754
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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