por Miguel Urbano Rodrigues
No final deste século os portugueses terão dificuldade em
compreender como o povo do seu país pôde suportar o governo de
José Sócrates.
Como foi possível será uma pergunta comum que três
décadas após a ruptura revolucionária mais profunda que se
produziu na Europa Ocidental desde a Comuna de Paris que a sociedade portuguesa
tenha sido golpeada por uma regressão histórica de tamanhas
proporções?
O tema suscitará polémicas de historiadores e cientistas
políticos.
Compreensivelmente.
O que está a passar-se em Portugal no ano 2007 é do
domínio do inimaginável. Com excepção das
repúblicas bálticas e da Polónia não há hoje
na Europa dos 27 um governo que desenvolva uma politica tão
retrógrada como a do primeiro-ministro Sócrates.
Comparadas com ela, as aplicadas durante os governos de Sá Carneiro e
Cavaco Silva, de má memória, quase aparecem como progressistas.
Uma fúria destruidora de inspiração ultramontana é
o denominador comum das medidas daquilo que o dirigente máximo do
Partido Socialista define como as suas reformas modernizadoras.
Essa estratégia de reaccionarismo vandálico está arrasando
o que restava da herança do 25 de Abril, criando em Portugal a sociedade
europeia de maior desigualdade, um país onde dois milhões vivem
já abaixo do nível da pobreza, uma terra de senhores e servos de
novo tipo.
As estruturas da educação e da saúde estão a ser
demolidas num ritmo vertiginoso. A investida contra os reformados
intensifica-se. Maternidades, urgências, centros de saúde
são fechadas. Argumentos próprios de um palco de revista
são invocados em defesa da ofensiva contra a Função
Publica, e os professores, nomeadamente, são tratados como se fossem um
rebanho de cabras. Privatiza-se tudo desde as estradas aos correios. A
Polícia entra já pelos sindicatos para intimidar e desmobilizar
os trabalhadores.
A agricultura foi arruinada e as melhores terras, sobretudo no Alentejo, passam
a mãos espanholas. Estamos transformados num país parasita que
consome muito mais do que produz. A indústria, controlada por um punhado
de transnacionais, definha. A banca, envolvida em escândalos, engorda
desmesuradamente. O salário mínimo é o mais baixo da UE
antes do alargamento; os vencimentos dos gestores são os mais elevados
do Continente. As falências de pequenas e médias empresas
sucedem-se em ritmo alarmante. A dívida externa bruta que quase
duplica o produto interno bruto é já em valor absoluto
superior à do Brasil, país com 200 milhões de habitantes.
A palavra "flexigurança" entrou na moda para justificar
despedimentos. O desemprego não para de crescer. As universidades
são encaradas como instrumento de preparação de quadros
para as empresas.
Neutralizar o espírito combativo dos trabalhadores é um objectivo
permanente dos teóricos da ideologia do mercado empenhados em robotizar
as novas gerações através da difusão maciça
da macworld cultura, modalidade norte-americana de contra-cultura.
O panorama é de pesadelo, mas Sócrates quando vai ao Parlamento
assume a postura de cônsul romano em vésperas de
celebração do seu triunfo. Tal como ocorria na época do
fascismo, o governo inverte a realidade. Do país atrasado da Europa
Ocidental exibe, como ocorria na época do fascismo, a imagem
mítica de uma sociedade desenvolvida, tranquila, rumo a um futuro
promissor.
Não se lhe pode negar uma capacidade de destruição sem
precedentes na direita portuguesa desde o 25 de Abril. Não é um
político culto, nem um estratega dotado de qualidades incomuns como
estadista. Carece de uma formação ideológica
sólida, mas o grande capital confia nele por identificar na sua pessoa o
homem adequado para a execução de uma estratégia
neoliberal de devastação. Há um certo diabolismo no seu
estilo de intervenção politica que me traz à
memória o título de um livro do falecido advogado e escritor
Fernando Luso Soares: "O mais inteligente dos estúpidos".
Os seus colaboradores mais íntimos, desde a ministra da
Educação ao titular das Obras Públicas, passando pelos
ministros da Agricultura, do Trabalho e da Saúde, cultivam uma
oratória que se assemelha cada vez mais á dos epígonos que
serviam Salazar com devoção seráfica. Deles se destaca uma
estranha figura: o ministro dos Negócios Estrangeiros. Neste Outono
ensolarado em que a Academia das Ciências se prepara para homenagear o
Duque de Ávila, recordado por haver inspirado o Conde de Abranhos, este
ministro Luís Amado tem toques da inesquecível personagem de
Eça, no vazio de ideias, na incultura, nas pompas do discurso.
A direita quimicamente pura não pode festejar a estratégia
socrática. Mas, ao simular que a desaprova, não consegue esconder
a sua aceitação alegre da obra destruidora do primeiro-ministro.
Quanto ao PS, cumpre no Legislativo o papel de sustentáculo da
política desenvolvida pelo seu secretário-geral na chefia no
Executivo. A sua direcção aderiu maciçamente ao
neoliberalismo, orgulhosa de gerir melhor o capitalismo do que a direita
tradicional. É do conhecimento público que entre o baronato do
partido há "históricos" como Mário Soares e
Manuel Alegre que expressam uma tímida inquietação perante
a obra do líder, mas a reflexão desses senhores insere-se no
jogo. O palavreado é inofensivo, tenta criar a ilusão de que o PS
não se transformou totalmente num partido neoliberal submisso ao grande
capital e ao imperialismo.
A ditadura da burguesia de fachada democrática pois esse é
o regime que nos oprime enfrentaria dificuldades se a imprensa, a
televisão e a rádio cumprissem com um mínimo de dignidade
a sua função social. Mas isso não acontece. O
espectáculo oferecido pela comunicação social é
decepcionante. Não há um jornal de referência, um canal de
televisão, uma rádio com audiência nacional que não
estejam ao serviço do poder. É, alias, minha
convicção que as chefias na imprensa portuguesa são hoje
mais submissas ao Poder politico e económico do que as que conheci nos
anos 50 ao iniciar-me no jornalismo, no auge do fascismo. A galeria dos
colunistas com lugar cativo é medonha. O sistema mediático
português controlado pelo grande capital é
presentemente, pela omissão, pela mentira, pela
manipulação e reinvenção da história, pela
perversidade, uma poderosa arma ao serviço do projecto de sociedade
desumanizada que a classe dominante tenta impor ao povo.
LIÇÕES DA JORNADA DO DIA 18
No dia 18 p.p. mais de 200 000 portugueses na avaliação da
Polícia concentraram-se no Parque das Nações, em
Lisboa, para condenar esta política, o governo que a concebeu e executa,
e o federalismo europeu.
A manifestação coincidiu com a chamada Cimeira de Lisboa,
convocada para que os chefes de governo dos 27 países da UE assinassem o
Tratado Europeu. O BASTA! Do povo português, anunciatório de lutas
próximas em muitos países expressou também o
descontentamento profundo de dezenas de milhões de trabalhadores
europeus e a sua condenação do neoliberalismo globalizado
consagrado pelo Tratado. Porque este Tratado vai conferir legitimidade
jurídica a nível comunitário às estratégias
responsáveis pelo agravamento da desigualdade social.
Para evitar situações como a criada pelo NÃO francês
de 2005, retiraram do actual Tratado aquilo que lhe conferia a solenidade e a
força de texto constitucional. Será ratificado agora, tudo o
indica, sem muitas dificuldades na maioria dos parlamentos, evitando referendos
incómodos. Mas as alterações introduzidas, muitas delas
cosméticas, não escondem o obviam: este Tratado institucionaliza
no espaço dos 27 o capitalismo neoliberal como ideologia oficial.
Nos bastidores tudo fora discutido e preparado com larga antecedência
para que esta mascarada lisboeta pudesse exibir a fachada de um acontecimento
histórico continental, democrático e progressista.
A farsa montada não enganou a parcela mais combativa do mundo do
trabalho. A grandeza da manifestação comprova-o.
O povo português começa a perceber que este governo empurra os
pais para o abismo. O processo de tomada de consciência é,
entretanto, ainda lento e não abrange grande parte do mundo rural e
amplas camadas da pequena burguesia urbana.
Mas o triunfalismo de José Sócrates oculta um temor real. O
primeiro-ministro certamente entendeu o significado do clamor popular. E o
presidente da República terá percebido finalmente, que
será arrastado no naufrágio da política socrática
se não se distanciar dela com clareza.
Esta manifestação repetiu outras anteriores, superando-as pela
participação, pela consciência da gravidade da crise
revelada pelos trabalhadores, e sobretudo pela percepção de que
os grandes protestos populares somente desembocam numa
confrontação frontal com o Poder quando se inserem numa
estratégia cuja vitoria pode desembocar numa mudança de regime.
Na sociedade portuguesa estão criadas condições objectivas
para inviabilizar a permanência deste governo. Faltam as subjectivas.
Convêm não esquecer que algumas das revoluções que
mudaram o rumo da história principiaram com manifestações
de protesto que, ao repetirem-se e ao evoluírem para o choque permanente
das massas com o Poder, minando-lhe a base social de sustentação,
o impediram de impor a sua vontade.
Os trabalhadores e a CGTP cumpriram exemplarmente o seu dever na jornada do dia
18. Nestes dias em que a burguesia insiste no desaparecimento da luta de
classes, a classe operaria portuguesa ofereceu-lhe um desmentido
categórico no Parque das Nações.
Em Portugal existe um forte partido marxista-leninista com um programa que
aponta o socialismo como objectivo. É outro factor positivo porque sem
vanguarda revolucionária organizada, a classe dominante não
será derrotada por acções espontaneistas, por mais
participadas que sejam.
Estamos longe, muito longe de uma dualidade de poderes. Mas os de cima
não vão poder por muito tempo governar como querem.
O governo desta ditadura socratiana da burguesia, com mascara
democrática, está progressivamente a desenvolver, na
dialéctica do processo, uma politica em que despontam já matizes
neofascistas.
O povo português repito está em
condições de se assumir em sujeito, como aconteceu em grandes
momentos da sua história, e de travar a escalada reaccionária,
derrotando o projecto monstruoso em desenvolvimento.
22/Outubro/2007
O original encontra-se em
http://odiario.info/articulo.php?p=501&more=1&c=1
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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