Durante mais de três décadas temos argumentado nestas
páginas que a realidade económica dominante do capitalismo
avançado é uma tendência para a estagnação da
produção acompanhada pela explosão financeira. No artigo
sobre "A centralidade das finanças", no número de
Agosto de 2007 do Journal of World-System Research, o autor William K. Tabb, da
MR e da MR Press, escreve:
O crescimento global real foi em média de 4,9 por cento ao ano durante a
Era Dourada do keynesianismo nacional (1950-1973). Foi de 3,4 por cento entre
1974 e 1979; de 3,3 por cento na década de 1980; e de apenas 2,3 por
cento na de 1990, a década com o crescimento mais lento desde da Segunda
Guerra Mundial. A perda de velocidade da economia real levou investidores a
procurarem retornos mais altos na especulação financeira ... A
liquidez acrescida e os custos mais baixos dos empréstimos estimularam
por sua vez nova expansão das finanças. As tendências
coincidentes da desigualdade crescente e da insegurança ... e a
força em expansão da financeirização rápida
não sugerem um caminho de contínua expansão suave para uma
sociedade baseada na dívida acrescida e no crescimento da alavancagem.
(
http://jwsr.ucr.edu/index.php
)
O que isto indica é que há uma complexa dialéctica a
actuar entre a estagnação da base produtiva da economia e a sua
instável, se não em explosão, superestrutura financeira.
Quando escrevemos estas notas, a instabilidade financeira está mais uma
vez a criar consternação generalizada nos círculos de
negócios, ameaçando engolfar toda a economia. Em 26 de Julho o
Washington Post
declarava que "a era do dinheiro barato parece estar a acabar".
Naquele dia e no dia seguinte o Dow Jones médio perdeu 500 pontos.
A fonte deste turbilhão financeiro pode ser detectada no rompimento da
bolha imobiliária. Taxas de juros em ascenção resultaram
em números crescentes de casas não vendidas juntamente com uma
crise nos empréstimos hipotecários subprime. Isto generalizou-se
agora a grandes hedge funds que fundiam
(pooled)
e reempacotavam hipotecas
subprime de risco e vendiam-nas "a fundos de pensão, companhias de
seguros, investidores estrangeiros e outros" ("Easy Money, Lifeblood
of Economy, is Drying Up,"
Washington Post,
26/Julho/2007). Antes de Julho último, pensava-se geralmente que o
dano fora contido, limitado àqueles prestamistas e prestatários
envolvidos nas hipotecas subprime. Contudo, agora verifica-se que o
contágio generalizou-se às finanças em geral e que a
liquidez que alimentou a mais recente onde de mania especulativa está a
evaporar-se. Vários negócios de compras alavancadas
(leveraged-buyout)
fracassaram devido ao fim do crédito fácil, levando o
Wall
Street Journal
a deplorar a súbita deflação da "bolha
dos empréstimos alavancados") e a morte aparente do boom dos
private equity
(ver "Private Equity's New World,"
Wall Street Journal,
28/Julho/2007).
O principal receio neste momento (princípio de Agosto) é que o
"colapso do crédito" possa transformar-se numa
"trituração do crédito", esmagando até
mesmo a maior parte das firmas com crédito sólido e levando a uma
cascata de incumprimentos com repercussões globais ("Repricing
Risk,"
http://www.morganstanley.com/views/gef/archive/2007/20070730-Mon.html
).
Não menos ameaçadora é a possibilidade de que os
crescentes incumprimentos dos consumidores e o endurecimento do crédito
venham a restringir os gastos dos consumidores americanos e gerem uma
recessão tanto neste país como à escala mundial.
Além disso, a complicar o quadro está agora a
convicção universal de que os altos preços do
petróleo estão aí para ficar. Paul Krugman no
New York Times
("The Sum of Some Fears," 27/Julho/2007) explica assim as
consequências para os trabalhadores: "a expansão
económica que começou em 2001, apesar de ter sido óptima
para os lucros corporativos ainda tem de produzir alguns ganhos significativos
para os trabalhadores comuns americanos. E agora isto parece que nunca
será alcançado".
(...)
[*]
Excerto do editorial, Volume 59, Número 4, Setembro de 2007. O
título é de resistir.info.
O original encontra-se em
http://monthlyreview.org/nfte0807.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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