A involução do jogo "Monopoly"

por Monthly Review

O novo 'Monopoly Empire'. Um sinal da cultura económica crassa dos nossos tempos é o recente lançamento pela Hasbro do jogo "Monopoly Empire" baseado no bem conhecido jogo "Monopoly", que começou a ser produzido em massa em 1935 por Parker Bothers, agora uma subsidiária da Hasbro. A nova versão pode ser jogada em 30 minutos e é concebida para eliminar a fricção do jogo e ao mesmo tempo glorificar o moderno sistema corporativo. Os jogadores coleccionam marcas icónicas de corporações tais como McDonalds, Coca-Cola, Nestlé e Samsung, as quais acrescentam a "torres" com cartazes numa corrida para o topo. Os jogadores não abandonam o jogo devido à bancarrota. O objectivo é simplesmente construir o maior monopólio de marcas do império.

O jogo "Monopoly" teve sua forma original no anti-capitalista "Jogo do latifundiário" ("Landlord's Games"), o qual foi patenteado em 1904 por Elizabeth Magie, uma seguidora de Henry George, e foi concebido para mostrar como latifundiários sequestravam a riqueza e levavam a massa da população à bancarrota. Magie descreveu-o como um jogo destinado a criticar "a acumulação de riqueza". As casas do jogo tinham nomes inspirados como "Propriedade rural do deus de sangue azul" ("Lord Bluebood's Estate") e "Companhia de Iluminação de Soakum" [1] ("The Soakum Lighting Co."). Havia também regras alternativas apresentando os princípios de Henry George. O primeiro jogador conhecido e defensor do jogo foi Scott Nearing, que depois se tornou um colaborador regular da Monthly Review. Nearing viveu em Arden, Delaware, uma comunidade georgista de que Magie era uma visitante habitual. Ela provavelmente apresentou-lhe o jogo, bem como a outros residentes da comunidade. Nearing levou o "Landlord's Games" aos seus estudantes na Wharton School of Finance da Universidade da Pennsylvania e do Swarthmore College, onde ensinou teoria económica e sociologia de 1908 a 1915, e onde foi utilizado para desvelar as iniquidades do sistema tal como Magie pretendia – passando logo a ser conhecido como "Monopoly". (Nearing foi despedido da Wharton School em 1915 pelo seu apoio sem rodeios do trabalho e a sua crítica do capitalismo, o que se tornou o mais famoso caso de liberdade académica daquela era.) Os quakers na área de Atlantic City posteriormente retomaram o jogo e deram nomes locais às propriedades sobre o tabuleiro do mesmo. Foi esta versão do jogo que um vendedor desempregado, Charles Darrow, copiou e vendeu à Parker Brothers (a qual também comprou a patente de Magie por US$500). Darrow, que recebia uma parte das receitas de cada jogo vendido, tornou-se milionário. É portanto um sinal dos tempos que actualmente, num período caracterizado mais uma vez por profunda estagnação económica e crescente monopolização, reminiscente da década de 1930, a Hasbro haja produzido uma nova versão "Monopoly Empire" do jogo clássico com base em marcas fetichizadas das corporações contemporâneas. (Ver Edward J. Dodson, " How Henry George's Principles Were Corrupted Into the Game Called Monopoly ", HenryGeorge.org, December 2011.)

Grande parte desta história do jogo "Monopoly", incluindo sua origem no "Landlord's Games", foi explicada três décadas atrás nesta revista pelo nosso amigo Bertell Ollman, filósofo marxista (" In Search of Critical Games ", Monthly Review, September 1983) – ele próprio o criador do jogo "Luta de classe" ("Class Struggle"). Portanto pedimos a Bertell que opinasse sobre a evolução do "Monopoly" no hiper-aquisitivo "Monopoly Empire". Bertell respondeu: "O que ela [Mary Pilon no seu artigo de 24 de Agosto de 2013 no New York Times, " Monopoly Goes Corporate "] perde de vista ... é como um bom jogo socialista se tornou tão facilmente um jogo capitalista... É um caso clássico de cooptação pelo sistema capitalista ... engolindo no buraco negro da moda a maior parte das tentativas de se lhe opor, e cuspindo-as fora no outro extremo diante de novos caminhos, muitas vezes mais eficazes, para defender o sistema... Eis porque "Luta de classe" foi o único nome que considerei para o meu tabuleiro de jogo... Na medida em que o artigo do New York Times sobre as origens do jogo [Monopoly] deixa de fora qualquer referência à "luta de classe" (a coisa real) – não vi nenhuma – ela [Pilon] contribui de um modo mais suave e mais "razoável" para os mesmos vastos objectivos políticos da gente do "Monopoly".

[NT] Soakum: cidade no Ohio, EUA

Ver também:
  • À procura de jogos críticos , 19/Abr/05

    O original encontra-se em Monthly Review , Volume 65, Nº 6. Outubro/2013.


    Este editorial encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 06/Out/13