O colapso do edifício intelectual do Sr. Greenspan
por
Monthly Review
O testemunho histórico pelo antigo presidente da Reserva Federal, Alan
Greenspan, frente ao Comité de Supervisão e Reformas da Casa dos
Representantes a 23 de Outubro de 2008 representou tão grande
reviravolta para uma personalidade anteriormente apelidada de
"Maestro" ou "Oráculo", que bem poderia ter-se
chamado "A educação de Alan Greenspan". Chamado
à barra pelo enorme desastre em expansão, Greenspan reconheceu
estar "chocado e desiludido" pela emergência do que apelidou de
"tsunami de crédito que ocorre uma vez num século". No
seu esforço para justificar o falhanço de previsão do Fed,
Greenspan explicou que os supostamente refinados modelos para preços de
bens em que ele e outros membros da comunidade financeira acreditavam se
baseavam quase exclusivamente na experiência das duas últimas
décadas, durante um período de rápida expansão
financeira, e não incorporavam os choques negativos visíveis a
partir de uma perspectiva histórica de longo-prazo. Greenspan
expô-lo assim: "Todo o edifício intelectual
colapsou no
Verão do ano passado porque os dados introduzidos nos modelos de
gestão de risco geralmente cobriam apenas as últimas duas
décadas, um período de euforia. Se os modelos tivessem sido, mais
adequadamente, adaptados a períodos históricos de stress, os
requerimentos de capital teriam sido bem maiores e o mundo financeiro estaria
hoje em bem melhor forma" (Testemunho de Greenspan acerca das Fontes da
Crise Financeira",
Wall Street Journal,
23 de Outubro de 2008; ver também "Greenspan diz que estava
errado acerca da regulação",
Washington Post,
24 de Outubro de 2008).
A extrema falta de visão ao construir modelos sobre "um
período de euforia" e ignorando "período
históricos de stress" significou que a realidade histórica
da acumulação de capital foi simplesmente riscada da
análise. Como Marx explicou, a sobreprodução de capital
inevitavelmente leva a períodos de desvalorização massiva,
através dos quais o sistema prepara o terreno para expansão
futura. "O negócio está sempre são, e a campanha ao
máximo, até à súbita intervenção do
colapso" (
Capital,
vol.3, capítulo 30).
"É pena", nota Floyd Norris, colunista económico do
New York Times,
"que o Sr. Greenspan nunca tenha apreciado o trabalho de Hyman Minsky,
que entendeu que a estabilidade é desestabilizante, e haverão
tempos em que a grande calma nos mercados e aparente ausência de risco
fará com que os investidores comecem a correr mais e mais riscos".
De facto, Minsky, construindo sobre o trabalho de Marx, Keynes e Kalecki (ver a
Review of the Month neste número) desenvolveu uma análise da
instabilidade financeira como uma "falha inerente" da economia
capitalista, levando ao perigo de uma profunda depressão e
estagnação prolongada. Foi esta hipótese de instabilidade
financeira junto com a interacção entre
estagnação e financeirização, muitos anos
enfatizada nestas páginas que esteve mais conspicuamente ausente
dos modelos arcanos construídos por Greenspan e outros economistas
ortodoxos. Como resultado "todo o edifício intelectual" da
economia neoliberal entrou na bancarrota e agora "colapsou"
visivelmente (Floyd Norris, "Greenspan's Lament,"
norris.blogs.nytimes.com, 23 de Outubro de 2008). Aqueles que queiram um
tratamento mais completo e mais sistemático destes assuntos,
interessar-se-ão por
The Great Financial Crisis: Causes and Consequences
de John Bellamy Foster e Fred Magdoff, a ser lançado pela Monthly
Review Press em Janeiro de 2009. Pode ser encomendado online em
www.monthlyreview.org
.
Como István Mészáros poderosamente demonstra no seu novo
trabalho
The Challenge and Burden of Historical Time
(Monthly Review Press, 2008), os profundamente enraizados problemas da
acumulação de capital com que agora nos deparamos são
devidos a "
imperativos estruturais
" do capitalismo. Isto significa que "é impossível
alterá-los significativamente sem visualizar um "
quadro de referência estrutural qualitativamente diferente
" (384). O objectivo de Mészáros no seu livro, destaca o
presidente venezuelano Hugo Chávez, é fornecer os meios
intelectuais com os quais "tomar a ofensiva por todo o mundo
no movimento rumo ao socialismo". Aconselhamos fortemente os leitores da
MR a obter um exemplar de
The Challenge and Burden of Historical Time
e a estudá-lo, transmitindo a outros as ideias que contém de
"um quadro de referência estrutural qualitativamente diferente"
para sociedade. (Para encomendar, vide parágrafo anterior)
O original encontra-se em
http://monthlyreview.org/nfte081201.php
. Tradução de João Camargo.
Este editorial encontra-se em
http://resistir.info/
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