Como esperado, em 19 de Julho a Rússia e a China pronunciaram o seu
terceiro veto duplo e frustraram, mais uma vez, o eterno projecto concebido
pelos "inimigos da Síria" para pressionar o Conselho de
Segurança a adoptar uma resolução totalmente injusta
infligindo-lhe ainda mais sanções ilegítimas em virtude do
Capítulo VII da Carta das Nações Unidas, enquanto o
Paquistão e a África do Sul abstiveram-se. A seguir à
votação, o delegado permanente sírio junto às
Nações Unidas, Doutor Bachar al-Jaafari, tomou a palavra
palavra que sem dúvida não chegou aos sírios do exterior e
àqueles que poderiam interessar-se em ouvi-lo, dado o silêncio
estridente imposto aos média sírios com a cumplicidade da
Arabsat, do Nilesat e de todas as espécies de censuras cozinhadas por
países árabes e ocidentais que se dizem esforçar por
instaurar
liberdades, nomeadamente a liberdade de expressão! Eis uma
transcrição não integral a partir de um vídeo
recuperado do you tube.
Senhor Presidente. O povo sírio é doravante tomado de
angústia e de inquietação antes de cada reunião do
Conselho de Segurança acerca da Síria e isto é
principalmente àquilo para que havíamos chamado a vossa
atenção desde o princípio: a sincronização
suspeita entre estas sessões do Conselho e as operações
terroristas cruéis que afectaram um grande número de pessoas
inocentes entre o povo sírio assim como grande número das suas
instituições, dos seus quadros, dos seus bens públicos e
privados!
Senhores: Recordam-se certamente de todas as explosões e massacres que
aterrorizaram os habitantes de várias regiões sírias
enquanto o Conselho de Segurança discutia a Síria. É com
lamento que nós vos recordamos que ainda ontem o braço do
terrorismo assassino colheu ministros e dirigentes dos órgãos de
Segurança nacional reunidos em Damasco. É também com
lamento que constatamos que este Conselho de forma alguma condenou este acto
... mas ... apresentamos nossos agradecimentos ao Sr. Secretário-geral e
ao emissário especial Sr. Kofi Annan pelas suas respectivas
condenações.
Senhor Presidente: Se um tal acto terrorista é incapaz de suscitar uma
condenação severa e imediata da parte deste Conselho isso
significa seguramente que tudo o que a comunidade internacional construiu para
lutar contra o terrorismo não era senão letra morta. Trata-se de
um fracasso que dirigirá uma mensagem de erro aos terroristas do mundo
inteiro dizendo-lhes que eles para além de qualquer questionamento.
Trata-se de um silêncio que significará que apoiar uma
solução pacífica e afastada de toda violência na
Síria não é para alguns senão um simples slogan
destinado a ganhar tempo, a enganar a opinião pública
síria e internacional, e a bloquear o plano do Sr. Kofi Annan; quando a
Síria acolheu favoravelmente o seu plano em seis pontos, a missão
dos observadores internacionais e as declarações da
Conferência de Genebra de 20 de Junho de 2012 [...]
Mas infelizmente países estrangeiros imiscuíram-se imediatamente
e brutalmente num assunto estritamente sírio para tocar os tambores da
guerra e tornarem-se uma parte do problema fornecendo armas, dinheiro,
cobertura política, cobertura mediática e apoio logístico
aos gangs armados; além de incitar de à violência e
à recusa do diálogo e de adoptar um pacote de sessenta
sanções ilegais que perturbaram a vida quotidiana do povo
sírio. Sanções que espezinham as regras de boa
vizinhança assim como todas as normas e as leis internacionais que as
tornam juridicamente criminosas. Isto, sem esquecer as rupturas das
relações diplomáticas com a Síria para cortar
definitivamente todo diálogo e todo contacto directo.
Em nome do povo sírio, dizemos a todos estes países: se quiserem
impor a lei da selva a outros e que esta decisão vos pareça
lógica, comecem portanto por aplicá-la a vossos países
respectivos e peçam àqueles dos vossos cidadãos e
residentes, que simpatizam sinceramente ou não com os bandos armados e
os terroristas que devastam a Síria, para acolhe-los e oferecer-lhes a
liberdade que cobiçam e particularmente aquela de semear a desordem
pelas armas ... assim como a liberdade de desestabilizar e de destruir o tecido
nacional e os fundamentos do Estado sírio, sob o pretexto de instaurar
reformas e democracia!
Senhor Presidente: Os rumores que ultimamente invadiram os media a
propósito de "armas químicas" que a Síria
poderia utilizar não são senão rumores destituídos
de todo fundamento... não são senão uma pesca em
águas turvas... Se jamais pudessem fornecer uma qualquer prova,
indicariam antes a intenção de alguns de delas se servirem contra
os sírios, para acusar a seguir as autoridades sírias e voltar a
opinião pública e o Conselho de Segurança contra estas
mesmas autoridades.
Todos os sírios querem contribuir, na base da
reconciliação e do perdão recíproco, para trabalhar
em conjunto para reconstruir o que foi destruído no decorrer desta
crise, para ir adiante para fazer evoluir e consolidar um Estado de direito,
para trazer de volta a calma e a estabilidade no lugar e situar aqueles que
desejam a adopção de uma resolução do
Capítulo VII ou uma intervenção militar estrangeira, o que
permitiria a certos Estados fazerem a economia da sua autocrítica e
apagar da memória deste Conselho todas as catástrofes e horrores
que deixaram após a sua passagem!
Em consequência, cabe a nós sírios, opositores inclusive,
perceber que o número de Estados que se pretendem vivamente preocupados
com a Síria e seu povo não querem uma solução
pacífica que garantiria a unidade, a estabilidade e a soberania do
país e que permitiria responder às aspirações do
nosso povo. Muito pelo contrário, aqueles não visam senão
o Estado e o povo sírios assim como o seu papel ao nível
árabe, muçulmano e regional; jogando nos desacordos
políticos verificados sobre o terreno durante esta crise... e pior
ainda.. jogando nos elementos que pensam que aqueles que traíram os
árabes pelos "Acordos de Sykes-Picot" e a "Promessa de
lord Balfour"... assassinaram primeiro o ministro sírio da Defesa,
o general Youssef al-Azmeh, na batalha de Mayssaloun... bombardearam o
parlamento sírio em 1945... infligiram uma ferida ainda aberta na
Palestina... invadiram militarmente o Afeganistão, o Iraque e a
Líbia... acordaram seu apoio político, militar e
diplomático a Israel para assegurar-lhe o Golan sírio, os
territórios palestinos e o que resta de territórios libaneses
não libertados... [não] lhes prestariam o menor dos
serviços senão para garantir outra coisa que os seus
próprios interesses!
Cabe a nós, os sírios, reconhecer uma única verdade, a de
pensar que a única solução, que possa responder às
aspirações legítimas do nosso povo, não pode ser
senão uma solução política síria que depende
de todos nos... e que passa pelo diálogo nacional entre nós e sob
o céu da nossa pátria... entre nós todos e sob o
céu da nossa pátria! Cabe a todos nos chegar a construir um
Estado democrático, pluralista e equitativo onde todos são iguais
perante a Lei sem discriminação em função da
pertença familiar, político ou ideológica... Um estado que
ofereceria a todos as mesmas oportunidades políticas e económicas
e onde a competição passaria por eleições livres e
transparentes, como se passa nos vossos respectivos países...
Só os sírios são capazes de proteger o seu país e
manter a sua imunidade contra as ambições geopolíticas que
ameaçam a sua existência e a sua dignidade... Então,
tratemos das nossas feridas mútuas, não esqueçamos nossa
História comum e permaneçamos todos conscientes de tudo isto que
se tece contra o nosso povo, para defender uma pátria resistente face a
todo inimigo.
Senhor Presidente: eu concluiria por uma citação de um
filósofo sírio sufi que viveu em Damasco no século X
após J.C. Trata-se de um conselho dado a seus alunos: "Meus filhos,
o homem razoável não deve nunca deixar de ter discernimento
quando contribui para escrever a História, e mesmo aquele que tivesse um
problema com o Diabo não pode procurar a solução junto a
Lúcifer"!