por David Edwards
Quando se lê acerca de crimes de estado ao longo de muitos anos, é
tentador tentar compreender a mentalidade dos líderes políticos.
O que se passa realmente nas suas cabeças quando ordenam
sanções que matam centenas de milhares de crianças? O que
estará nos seus corações quando travam guerras
desnecessárias que estilhaçam milhões de vidas?
Serão eles desesperadoramente cruéis, descuidadamente
estúpidos? Imaginam eles que estão a viver numa espécie de
inferno onde actos monstruosos têm de ser cometidos para evitar
resultados ainda piores? Serão eles indiferentes, centrados nos seus
ganhos políticos e económicos a curto prazo? Serão eles
moralmente resignados, sentindo-se como essencialmente impotentes face a
forças políticas e económicas invencíveis ("Se
eu não fizer isto, algum outro o faria".)?
Perguntas semelhantes vêm à mente quando os governos dos EUA e
Reino Unidos, mais uma vez, levantam o espectro de "armas de
destruição em massa" (ADM) para demonizar um alvo para a
"mudança de regime", desta vez na Síria. O que
realmente se passa nas mentes de pessoas que sabem exactamente que a mesma
trama foi denunciada como uma fraude cínica há apenas uns poucos
anos atrás? Será que vêm o público com desprezo?
Estarão a rir-se de nós? Estarão a jogar a única
carta que consideram disponível para eles; uma carta que sabem que
funcionará de modo imperfeito mas que tem de ser jogada?
Nos EUA, a NBC comentou:
"Responsáveis dos EUA contam-nos que os militares sírios
estão prontos esta noite a utilizar armas químicas contra o seu
próprio povo. E tudo o que precisariam é a ordem final do
presidente sírio, Assad".
O observador dos media estado-unidenses Fairness and Accuracy in Reporting
(FAIR)
perguntou
: "Então de onde vem esta nova
informação?" A resposta familiar e agourenta: "De
responsáveis anónimos do governo a falarem para jornais como o
New York Times
". Isto, por exemplo:
"Responsáveis da inteligência ocidental dizem que
estão a colher novos sinais de actividade em sítios na
Síria que são utilizados para armazenar armas químicas. Os
responsáveis estão incertos sobre se as forças
sírias podem estar a preparar-se para utilizar as armas num
esforço final para salvar o governo ou simplesmente a enviar uma
advertência ao Ocidente acerca das implicações de
proporcionar mais ajuda aos rebeldes sírios.
"Sob certos aspectos é semelhante ao que fizeram antes", disse
um alto responsável americano, falando na condição de
anonimato ao discutir questões de inteligência. "Mas eles
estão a fazer algumas coisas a sugerir que pretendem utilizar as armas.
Não é apenas movimentação. Estas são
diferentes espécies de actividade". (Michael Gordon, Eric Schmitt,
Tim Arango, 'Flow of arms to Syria through Iraq persists, to US dismay,'
New York Times,
December 1, 2012)
A FAIR comentou:
"Na ausência de qualquer novo pormenor, isso pareceria um estranho
padrão de confirmação... Mas a atitude teatral
imagens de satélite, fontes anónimas, falação
acerca de armas de destruição em massa e assim por diante
recorda obviamente a preparação para a Guerra do Iraque".
Assim é, na verdade. Em 26 de Maio de 2004, o
New York Times
publicou um humilde mea culpa intitulado: "The Times and Iraq". Os
editores
comentaram
então:
"Editores a vários níveis que deveriam ter estado a desafiar
repórteres e pressionar por mais cepticismo foram talvez demasiado
precipitados ao verterem tudo no jornal".
Em consequência, o jornal publicou uma
"Política de fontes confidenciais de notícias"
, a qual incluía:
"Em qualquer situação em que citamos fontes anónimas,
pelo menos alguns leitores podem suspeitar que o jornal está a ser
utilizado para transmitir informação corrompida ou defesas
especiais. Se o ímpeto pelo anonimato teve origem na fonte, nova
investigação é essencial para satisfazer o repórter
e o leitor de que o jornal procurou a notícia completa".
(Confidential News Sources,
New York Times,
February 25, 2004)
Evidentemente, tudo isto foi esquecido.
As mesmas afirmações acerca de ADM sírias foram
também despejada nos media do Reino Unido. Um artigo principal em 5 de
Dezembro em
The Times
intitulava-se: "O arsenal de Assad". A primeira linha do editorial:
"O fortificado regime sírio pode estar a preparar-se para utilizar
armas químicas. Isso seria uma catástrofe; deve ser impedido,
custe o que custar".
Como sempre, os editores de Rupert Murdoch e, sem dúvida, o
patrão espreita sobre os seus ombros lamentosamente declaravam
que a "intervenção" militar ocidental pode vir a ser a
única resposta: "também devemos esperar que os EUA e seus
aliados tomariam qualquer acção que fosse considerada
necessária para impedir o desastre humano e moral que seria causado pelo
regime sírio ao tentar a sua saída final numa nuvem de gás
mostarda".
A guerra, para Ocidente, agora é tão normal quanto o ar que
respiramos. Obviamente é a tarefa do Ocidente, com o seu historial
ensopado em sangue, salvar os povos do mundo de tiranias que acontece estarem a
obstruir seus objectivos estratégicos.
Em Novembro de 2002, quando a guerra se avizinhava do Iraque,
The Times
relatava:
"O presidente Saddam Hussein tem estado a tentar comprar de fornecedores
turcos até 1,24 milhão de doses de atropina, um derivado da
beladona.
"Este produto tem um vasto campo de aplicações médicas mas
também protege o corpo de agentes sobre os nervos que podem paralisar as
suas vítimas e matá-las em apenas dois minutos". (Elaine
Monaghan, 'Iraq move increases chemical war fear,'
The Times,
November 13, 2002)
Em 2010,
The Times
publicou a afirmação de que o Irão pretendia desenvoler
um "disparador" para uma arma nuclear. O jornalista de
investigação Gareth Porter
informou
:
"A inteligência dos EUA concluiu que o documento publicado
recentemente pelo
Times
de Londres... é uma fabricação, segundo um antigo
responsável da Central Intelligence Agency".
O especialista em contra-terrorismo Porter, comentou Philip Giraldi, tinha em
mente:
"A cadeia de Rupert Murdoch tem sido utilizada amplamente para publicar
inteligência falsa dos israelenses e ocasionalmente do governo
britânico".
Em Abril de 2011,
The Times
relatou da Líbia:
"Há temores crescentes de que o coronel Kadafi possa utilizar
stocks suspeitos de armas químicas contra [Misrata]... Também
há temores de que o coronel Kadafi tenha stocks de gás de nervos
no deserto ao Sul da cidade de Sabha". (James Hider, 'Amid rigged corpses
and chemical weapon threat, city fears for its life,'
The Times,
April 27, 2011)
Não importa,
The Times
ainda pode ver uma "intervenção" estilo Líbia
na Síria.
The Guardian
relata
esta semana:
"Chefes militares da Grã-Bretanha prepararam planos de
contingência para proporcionar aos rebeldes sírios poder
marítimos, e possivelmente aéreo, em resposta a um pedido de
David Cameron, disseram altas fontes da defesa segunda-feira à
noite".
O governo do Reino Unido está a planear combater com
"rebeldes" apesar da prova clara de
crimes de guerra
e do
envolvimento de numerosos
mercenários estrangeiros
armados e financiados
por tiranos regionais. O governo sírio também é acusado de
crimes espantosos
.
Depósitos enferrujados de destruição em massa Os
especialistas da fantasia
No
Guardian,
Matt Williams e Martin Chulov usaram linguagem dramática para relatar
afirmações de que "o regime [sírio] está a
considerar o desencadeamento de armas químicas sobre forças da
oposição".
O artigo do
Guardian
citava a CNN, a qual por sua vez citava "um responsável
anónimo como a fonte da sua reportagem". Williams e Chulov
não exprimiram nem uma palavra de cepticismo na sua peça
jornalística, acrescentando uma negação do carácter
"equilibrado" do muito demonizado "regime" sírio.
Um artigo da BBC fez esta referência ao cepticismo:
"Pressionado na entrevista por Frank Gardner da BBC, ele disse que podia
entender porque o público pode estar céptico após os erros
grosseiros cometidos dez anos atrás sobre as alegadas armas de
destruição em massa do Iraque".
Para seu crédito, Jonathan Marcus da BBC actuou melhor:
"Houve um elemento de manipulação política
(political spin)
a acompanhar a decisão da NATO de instalar mísseis Patriot na
Turquia?
"Fontes contactadas pela BBC dizem que há indicações
de actividade em certos sítios de armazenagem de armas químicas.
"Entretanto é certamente impossível determinar se isto
é um preliminar para a utilização das armas ou, como
acreditam alguns analistas, muito mais provavelmente, o movimento de
munições para garantir a sua segurança. Na verdade, tal
movimento foi observado no passado".
Apesar da cautela, Marcus promoveu a ideia de que ADMs sírias podem cair
nas mãos "erradas" e que os EUA podem precisar intervir para
impedir que isto aconteça.
No
Independent,
Robert Fisk foi muito mais longe,
escarnecendo
de tais
afirmações:
"Quanto maior a mentira mais o povo nela acreditará. Todos
nós sabemos quem disso isso mas ainda funciona. Bashar al-Assad
tem armas químicas. Ele pode utilizá-las contra o seu
próprio povo. Se ele o fizer, o Ocidente responderá. Ouvimos todo
este lixo no ano passado e o regime de Assad reiteradamente disse que se
se tivesse armas químicas, nunca as utilizaria contra
sírios.
"Mas agora Washington está a trautear a mesma cantilena do
gás, mais uma vez. Bashar tem armas químicas. Ele pode
utilizá-las contra o seu próprio povo. E se ele o fizer..."
Fisk acrescentou: "durante a semana passada, todos os habituais
pseudo-peritos que não conseguem encontrar a Síria num mapa
estiveram a advertir-nos outra vez do gás de mostarda, dos agentes
químicos, dos agentes biológicos que a Síria pode possuir
e pode utilizar. E as fontes? Os mesmos especialistas da fantasia que
não nos advertiram acerca do 11/Set mas que em 2003 insistiram em que
Saddam tinha armas de destruição em massa: "fontes de
inteligência militar não nomeadas" ... E, sim, Bashar
provavelmente tem alguns produtos químicos em latas a enferrujarem
algures na Síria".
Se correcto, as "latas ferrugentas" de Fisk tornam asneira a
"considerável pressão" sobre "os EUA produzirem
planos para garantir as armas sírias em caso de colapso do regime"
descrito por Marcus.
Alex Thomson do Channel 4 News escreveu uma
peça excelente
intitulada: "Síria, uma arma de engano em massa?"
"Sem pretender aprofundar muito no catálogo do Quem... precisamos
recordar-nos que no Reino Unido para não serem enganados outra vez".
Thomson apresentou um exemplo de pensamento racional raro nos media de
referência:
"Mas só para ser antiquado: qual é a prova de qualquer
ameaça? Qual é a base para tudo isto? Do que, em suma,
estão todos eles a falar? Sim, sem dúvida, a Síria tem
agentes de nervos e químicos. Mas posse não significa
ameaça de utilização. Israel não está
plausivelmente a ameaçar utilizar armas nucleares contra o Irão,
apesar de possuí-las".
Ele observou que "a história construída sobre o nada [tem
sido] aceite como um facto global quando não há nada do
género" e apresenta o ponto óbvio:
"Após o Iraque e as ADMs, se a CIA ou o MI6 dizem que está
frio no Polo Norte, qualquer pessoa sensível procuraria pelo menos mais
um par de fontes ou voaria até lá e verificaria".
Portanto, em meio à enxurrada padrão de propaganda,
um pequeno número de jornalistas aprendeu com o passado e
está disposto a desafiar afirmações oficiais. Mas
não deveríamos iludir-nos com estes
admiráveis mas raros exemplos de discordância. A maioria
esmagadora dos relatos dos media corporativos nomeadamente os
noticiários da TV que atingem milhões de pessoas reflectem
as afirmações do governo "imparcialmente", isto
é, sem o mínimo sinal de pensamento independente ou
comentário crítico. Os melhores jornalistas rejeitam uma tal
versão obviamente comprometida de "profissionalismo"
mas são muito poucos
12/Dezembro/2012
O original encontra-se em
www.medialens.org/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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