O congresso de Roma sobre o Líbano:
Rice já prepara o "após guerra" para as transnacionais

por PCL

Beirute, 23 de Julho. Enquanto Israel prossegue sua agressão generalizada contra o povo libanês e intensificam-se os bombardeamentos contra os media e as telecomunicações do Líbano, a fim de impedir o mundo de acompanhar os crimes de toda espécie cometidos contra o nosso povo, anuncia-se que o "Core Group", que elaborara um plano de domínio económico sobre o Líbano (por intermédio do Banco Mundial e do FMI), irá realizar em Roma, a 26 de Julho, um congresso para discutir muitas das questões que nos afectam. Estas questões vão desde o cessar fogo ou, antes, as consequências da escala militar israelense, até às medidas para um "novo Médio Oriente" que se veria nascer no sangue libanês e palestino, conforme disse Condoleezza Rice em Washington.

Duas delas: a aplicação da resolução 1559 que estipula, como sabemos, o desarmamento da zona fronteiriça libanesa numa profundidade de 20 quilómetros, a renúncia a Chebaa e às alturas de Kfarchouba que pairam sobre os cursos de água essenciais no sul libanês cobiçados por Israel e, bem entendido, a normalização das relações entre Israel e o governo libanês que Rice qualifica de "jovem governo democrático tendo necessidade de ser ajudado" a fim de virar sem transtorno para a política do Médio Oriente made in USA...

Quais são os elementos desta política?

Já sabemos que os Estados Unidos de Georges W. Bush fracassaram na sua política de "pacificação" do Iraque, política que em certos pontos lembra aquela dos seus ancestrais nas regiões índias da América . Também sabemos que a actual administração americana tem necessidade de uma "vitória" (mesmo de Pirro) antes de Novembro, data da abertura da campanha presidencial.

Este fracasso e a vontade de saírem não poderiam verificar-se senão através de fortes promessas, a saber: nós somos os únicos capazes de "conter o terrorismo tanto xiita como sunita" que perfila e na Palestina e no Líbano e podemos prometer novos lucros às transnacionais das armas e do petróleo em recompensa pela sua ajuda a Israel e de uma nova ajuda possível aos amigos de Bush na nova campanha eleitoral.

Nestes objectivos, os Estados Unidos e Israel utilizam o alinhamento de certos governos europeus que, longe de estigmatizar os massacres dos dois povos, libanês e palestino, tornam-se a voz do mestre americano e antecipam-se aos seus desejos preparando-lhe toda espécie de projectos de resoluções e de planos para contrapor-se a toda possibilidade de um cessar fogo imediato, uma vez que Condoleeza Rice havia prometido a Ehoud Olmert e seus generais ajudá-los por todos os meios a fim de suprimir na base definitivamente as causas da guerra: o Hezbollah e toda resistência armada ou outra no Grande Médio Oriente.

Quanto àqueles que recusam estes objectivos, são taxados de anti-semitismo, mesmo que alguns dentre eles sejam judeus!

A solidariedade internacional

Em oposição a esta política de agressão e aos diktats de Rice, os povos protestam e manifestam sua cólera face ao genocídio dos libaneses e dos palestinos, sobretudo porque a resistência nestes países está dentro do direito que lhe concedem os acordos de Genebra e as convenções internacionais. Os resistentes defendem seu país contra uma agressão estrangeira. São os israelenses que agridem o Líbano. São suas tropas que tentam introduzir-se no sul do país. São seus aviões que bombardeiam objectivos civis (população e infraestruturas). São seus media que falam em destruir nosso país e incitam seu povo a não se manifestar contra os massacres porque é uma "guerra entre duas civilizações" que deve terminar pela morte do "fraco", ou seja, os povos árabes.

O Grande Médio Oriente merece bem "sacrifícios" no altar do deus Dinheiro, devem pensar Bush e sua equipe e seus amigos israelenses. Entretanto, asseguramos que não lhes permitiremos que nos transformem em oferendas. Aqueles que lerem bem a história do Líbano sabem que todos os agressores, desde Alexandre o Grande, partiram os dentes sobre os nossos rochedos. E Israel já sabe alguma coisa desde 1982 e mesmo bem antes desta data. Sabe também que não poderá tirar nenhum lucro nem dos "seus" amigos de longa data nem daqueles que se lhes juntaram ultimamente.

Beirute, sábado 22 de Julho de 2006.

O original encontra-se em http://www.lcparty.org/230706_8.html



Só a solidariedade internacional travará o banho de sangue

As causas e os objectivos da sangrenta agressão israelense contra o Líbano

O Líbano, todo o Líbano, arde e sangra desde há oito dias sem que as Nações Unidas ou seu conselho de segurança cheguem a uma decisão mínima: a de exigir de Israel um cessar fogo acompanhado de uma condenação clara e nítida quanto aos massacres de civis, à destruição da infraestrutura e o emprego de armas proibidas (bombas de fósforo, gás, bombas de fragmentação, etc).

Mais de 400 mortos e 3500 mutilados e feridos, dezenas de milhares de alojamentos destruídos, dezenas de pontes e estradas esventradas, mais de vinte fábricas arrasadas, milhares de carros e camiões deslocados, milhares de hectares de culturas e de árvores frutíferas incendiados. E o crime prossegue sob o olhos de Georges W. Bush e do seu embaixador nas Nações Unidas, John Bolton, mas também de todos os chefes de Estado árabes que acham normal ceder às exigências americanas enquanto os soldados da FINUL (Forces Intérimaires des Nations Unies au Liban) recusam toda assistência aos habitantes da aldeia de Marwahine, cujos 25 habitantes pereceram sob as bombas israelenses às portas das tropas enviadas por Kofi Annan para proteger os civis.

Esta descrição não reflecte todos os factos da agressão, sobretudo porque a operação israelense perpetua-se.

Os detidos libaneses e o direito internacional

As causas desta agressão continuam a fazer correr muita tinta no ocidente a ajudam as cadeias de televisão a encontrar temas de discussão. E a acusação que ouvimos repetir-se incansavelmente ao longo do dia é: porque o Hezbollah escolheu este momento preciso para tomar como reféns dois soldados israelenses a fim de exigir a libertação de outros reféns libaneses presentes (ilegalmente, bem entendido) em Israel desde há mais de 24 anos e até mesmo, para Samir Kantar, desde há mais de 28 anos?

A esta pergunta, respondemos com duas outras: porque os sucessivos governos em Israel recusam-se a libertar os reféns libaneses, apesar da sua retirada da maior parte do Líbano já há 5 anos? E porque se recusam a aplicar resoluções datando de 1948, 1967, 1973 referentes à retirada da sua ocupação de Nkhaileh, das sete aldeias libanesas fronteiriças, de Chebaa e das alturas de Kfarchouba? Sobretudo, porque John Bolton, e antes dele Georges Bush e Condolezza Rice e outros chefes de Estado, dão a Israel a autorização para executar pelo fogo e pelo sangue a resolução 1599, aparecida em 2004, referente à tomada das armas da Resistência nacional libanesa contra a ocupação israelense.

As razões certamente não faltam ao mais forte, cuja razão "é sempre a melhor", uma vez que alguns argumentam com o facto de que estas armas estão ao serviço do Irão ou então da Síria, como se o Hesbollah, hoje, e antes dele os comunistas e outros resistentes, não fossem patriotas libaneses e como se o direito internacional e a Carta das Nações Unidas (para a redacção da qual o Líbano contribuiu activamente) não fossem feitos senão para certos povos em detrimento de outros. Senão, como explicar esta unanimidade para apoiar o assassínio em detrimento das vítimas (dentre as quais o povo palestino em Gaza e nos territórios ocupados).

A resistência libanesa tem o direito de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para libertar os detidos libaneses e, também, os territórios sempre ocupados. E não é necessário ter, como pretendem alguns, um reconhecimento da parte da Síria que havia tomado, pela força, estes territórios no começo dos anos cinquenta do século passado, para poder afirmar sua pertença ao Líbano, uma vez que existiam documentos em França (o Estado mandatário antes da independência do Líbano) e que em 1968 (portanto bem antes da resolução 242) o presidente libanês Charles Hélou havai, por intermédio das instâncias internacionais, pedido à Síria para sair de Chebaa. Aliás, o "Front de Résistance Nationale Libanaise", comunista, havia falado novamente destas terras em 1978 e o anais da história do Líbano notam que mais de uma operação de resistência tem sido feita nesta região antes mesmo do nascimento do Hezbollah.

O plano israelense para o Líbano e a região

Portanto, a agressão sofrida hoje pelo Líbano ultrapassa de longe os dois reféns israelenses ou a libertação dos três reféns libaneses.

Ela visa outros objectivos:

O primeiro, no plano libanês, é prosseguir os objectivos da agressão de 1983, a saber: fazer do Líbano um Estado-satélite que aceite sem condição alguma a liderança de Israel na região no âmbito do projecto evidenciado em 1993: o Grande Médio Oriente dirigido pelos Estados Unidos e, acessoriamente, por Israel. Um Médio Oriente onde os países árabes serão desarmados e Israel cumulado de armas, inclusive de arsenal nuclear e químico. Eis porque os exércitos do Egipto e do Iraque foram desmantelados e eis porque é preciso que os palestinos e os libaneses entreguem as armas. Assim, a resolução 1559 ganha uma nova luz.

O segundo, ainda no plano libanês, é o domínio sobre a água, considerada como fonte de energia essencial neste começo do terceiro milénio. E Israel havia contado com a água libanesa (Litani, Hasbani, Wazzani) assim como com a água proveniente das alturas do Golan. Eis porque tem necessidade das terras de Chebaa, que guarnecem a rota da água, e também porque Israel precisa uma zona desmilitarizada no sul do Líbano, ou antes, uma zona onde não viva ninguém. E as 21 aldeias fronteiriças do Líbano, assim como a presença actual da Resistência, devem ser eliminadas o mais cedo possível.

O terceiro tem relação com a situação na Palestina. Com efeito, a guerra contra o Líbano "fez esquecer" o que se passa lá: massacres quotidianos, destruição, tomadas de reféns, etc. Tudo isto em nome da "democracia" à moda americana, uma vez que os Estados Unidos de Georges W. Bush consideram normal que um povo seja punido porque votou contra os desejos daquele que o ocupa e que o ocupante e assassino deste povo seja recompensado com uma ajuda incondicional: 2,2 mil milhões em armas refinadas só no ano de 2005, dentre as quais os F15 e os F16 muito aperfeiçoados que nos bombardeiam hoje.

O quarto, enfim, tem relação com o Iraque (e o Irão), onde a actual administração americana se atola. Ela desejaria, portanto, antes da abertura da campanha presidencial, reforçar suas oportunidades reagrupando através do medo de um terrorismo inexistente entre nós, mas criado previamente por esta administração que havia dado pleno poder a Ben Laden e aos seus "moujahidins" para fazer "a guerra santa" à antiga União Soviética. E neste objectivo pomos o que se passa no Iraque e no Afeganistão. Sem esquecer a campanha referente à "ameaça nuclear iraniana" que Henry Kissinger havia evocado no jornal Le Monde, há alguns meses, e recusando compará-la ao armamento nuclear detido por Israel porque este país defende os valores americanos!!

Este plano americano-israelense prossegue porque o governo libanês não chegou a executar a parte que lhe cabia e que consistia em por fim à presença armada do Hesbollah e das facções palestinas no Líbano: o que facilitaria a implantação destes palestinos no Líbano e permitiria acelerar as etapas da elaboração do Grande Médio Oriente supracitado.

Conclusão

Por todas estas razões, a agressão generalizada de Israel vai prosseguir sob a direcção dos Estados Unidos. Somente uma grande campanha de protesto e de pressão pode travá-la antes que seja demasiado tarde. Um cessar fogo imediato e durável deve ser exigido. Quanto à resolução 1559, ela tem a ver com a resiliência do Líbano que exige também a aplicação das outras resoluções internacionais, inclusive daqueles a exigir o direito de retorno do povo palestino e a construção do Estado independente sobre o seu território nacional.

O povo libanês tem necessidade de toda solidariedade internacional sob todas as formas para travar o banho de sangue no qual Israel o mergulhou desde há mais de 10 dias. Suas crianças, mortos e mutilados exigem um grito unânime contra os seus assassinos e aqueles que os dirigem e lhes fornecem as armas.

Beirute, sexta-feira, 21 de Julho de 2005

Resumo preparado pela Comissão Política do Partido Comunista Libanês

O original encontra-se em http://www.lcparty.org/210706_3.html

Estes documentos encontram-se em http://resistir.info/ .

25/Jul/06