Preparar-se-ão novas violências com a "iniciativa do
Fitr"?
por Marie Nassif-Debs
[*]
Desde que presidente da Câmara, Nabih Berri, lançou "a
iniciativa do Fitr"
[1]
, apelando a novas consultas entre a maioria harirista e a
oposição dirigida por Aun e pelo Hezbollah, os comentários
sobre as consequências do fracasso duma tal iniciativa sucedem-se
rapidamente. Estes comentários baseiam-se na verdade, segundo a qual os
novos desenvolvimentos na região, especialmente no Iraque e na
Palestina, não podem deixar de se repercutir na situação,
já de si instável, do Líbano. País que vive as
consequências da dramática agressão levada a cabo pelas
tropas israelenses mas também as da vitória do Hezbollah contra
essas mesmas tropas assim como contra os Estados Unidos, verdadeiros
instigadores da agressão.
Eis porque a ordem do dia destas consultas tem feito correr muita tinta e tem
suscitado comentários quotidianos da parte de todos os partidos da
classe política libanesa, tanto no poder como na
oposição
Sem esquecer as capitais das grandes
potências e dos países árabes visitadas por
delegações que tentaram atrair a benevolência de tal ou tal
governo para com reclamações tais como, para uns, a necessidade
de mudar de presidente da república, para outros, alargar o governo a
fim de recuperar a terça parte que garanta a sua
participação nos assuntos de Estado. E eis porque o fracasso
destas consultas e a demissão dos ministros xiitas levaram os libaneses
a perguntar-se se a crise política iria agravar-se e transformar-se em
confrontos violentos entre os dois partidos constituídos em 2004, no
seguimento da resolução 1559 do Conselho de Segurança, e
separados de novo pela resolução 1701, a qual permite, com todas
as facilidades, a violação da soberania libanesa pelas tropas
israelenses. De mais a mais, porque os protestos da Finul não deram em
nada, tanto no plano da retirada israelense da aldeia de Al-Ghajar como no das
"passeatas" da aviação israelense sobre o
território nacional libanês. Entretanto, George W. Bush e a sua
equipa continuam as suas ameaças e navios de guerra americanos continuam
a reunir-se, não só nas bases disseminadas por todo o
Mediterrâneo, mas também diante do litoral libanês.
E, ao mesmo tempo que o tom sobe e que os "beligerantes"
ameaçam-se mutuamente esperando as decisões da reunião
governamental encarregada de estudar o projecto do "tribunal
internacional" para tratar do caso do assassínio do ex-primeiro
ministro Rafic Hariri, os cenários multiplicam-se, ao som de tambores
chamando a ajuntamentos próximos nas grandes praças do centro de
Beirute. Cenários esses:
-
A criação dum novo governo segundo "novos
critérios" ainda por precisar.
-
A aprovação do projecto dum tribunal internacional sem ter em
conta a demissão dos ministros xiitas em representação do
movimento Amal, presidido por Berri, e do Hezbollah.
-
Um movimento de greves, e sobretudo, de manifestações da parte
da oposição, até à demissão de Fuad Saniura
e do seu governo.
-
O regresso à mesa de negociações a partir de
quarta-feira, data do regresso de Nabih Berri da sua viagem ao Irão,
para estudar as possibilidades dum consenso que resolveria ao mesmo tempo os
problemas do governo e da presidências da república e que poria um
ponto final no esquema duma nova lei eleitoral.
Estes cenários continuam no entanto bastante vazios, sobretudo visto que
as verdadeiras causas da crise latente não são evocadas: o
regime político baseado em quotas confessionais e que fazem das grandes
confissões políticas do país entidades autónomas,
Estados no seio do Estado. Isto faz que todas as soluções
propostas não sejam baseadas numa visão global que tenha em
consideração os interesses nacionais, mas na
reconciliação entre visões confessionais, tendo em conta
os interesses partidários de tal ou tal "emir" ou chefe
cristão ou muçulmano
Assim, estão os libaneses sujeitos a dividir-se sobre tudo, uma vez que
os interesses dos seus chefes podem mudar com o tempo tal como as suas
alianças e a tutela exterior que os apoia. E é isso que se
vê actualmente no resultado de certas confrontações no
conflito árabo-isrealense, ou, melhor, palestino-israelense. Ou ainda
sobre o conceito de independência e soberania do país, a tal ponto
que alguns não vejam nenhum inconveniente em que os americanos (e os
seus aliados da NATO) se imiscuam nos assuntos interiores libaneses. Tal qual
outros antes deles, os quais, para preservarem os seus interesses, chegaram a
apelar seja à Síria seja a Israel sob a divisa: "para salvar
o nosso país, estamos prontos a pactuar com o próprio diabo"!
Pensamos que, em resposta a tudo o que se diz e se prepara, a
solução certa reside numa mudança radical: a
separação entre as confissões religiosas e
políticas e o Estado e a aprovação das reformas
necessárias no plano político, a começar por uma lei
eleitoral baseada na proporcionalidade.
Pensamos também que o povo libanês deve recusar as
"reformas" económicas preconizadas pelo governo libanês
sob o nome de "Paris 3" e que as pressões do Banco Mundial e
do Fundo Monetário Internacional não fazem mais que privatizar os
serviços essenciais e aumentar os impostos indirectos, ou seja,
facilitar a implantação duma república das bananas no
Líbano.
Pensamos, enfim, que estas mudanças, tanto políticas como
económicas, poderão ser o ponto de partida para a
criação duma pátria libanesa onde a guerra civil, sempre
latente, não terá mais lugar e será banida para todo o
sempre da terminologia política libanesa.
12/Novembro/2006/Beirute
[1] Fitr, em árabe, significa "romper o jejum". É um
feriado que assinala o fim do Ramadão
[*]
Responsável do Partido Comunista Libanês
O original encontra-se em
http://www.lcparty.org/131106_12.html
. Tradução de DF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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