México: A "Outra campanha"

por Pável Blanco Cabrera [*]
entrevistado por Ricardo Jara, da ABP

A Agência Bolivariana de Imprensa teve oportunidade de conversar com Pável Blanco, secretário das Relações Internacionais e membro da Direcção Colectiva do Partido dos Comunistas, poucas horas antes de embarcar no avião que o levaria a Portugal para participar no Encontro de Partidos Comunistas e Operários.
Durante mais de uma hora de conversa numa sala de espera do aeroporto internacional da Cidade do México, Pável compartilhou connosco algumas das linhas de orientação e perspectivas do Partido dos Comunistas quanto à convulsionada situação que o México vive actualmente.

I. A OUTRA CAMPANHA, REBELIÃO NACIONAL ANTI-CAPITALISTA

Agência Bolivariana de Prensa (ABP): O que é A Outra Campanha e porque decide o Partido dos Comunistas juntar-se a esta iniciativa do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN)?

Pável Blanco (PB): Em Junho do ano passado analisámos a Sexta Declaração da Selva Lacandona e nela encontrámos uma linguagem que compartilhamos, porque identifica o responsável pelos problemas, não somente dos povos índios, como também dos operários, dos camponeses, mulheres, jovens, enfim, de todo o povo mexicano, que é: o sistema capitalista.

Esta identificação, que fazemos a partir da perspectiva marxista, está ali muito bem exposta, e em segundo lugar há um chamamento muito concreto às organizações políticas de esquerda que actuam fora da via eleitoral, fora do carril da institucionalidade. Decidimos subscrever e aderir à Sexta Declaração da Selva Lacandona, e em consequência apoiar a Outra Campanha, porque também este documento coincide com uma das teses que tínhamos em discussão durante a preparação do nosso Segundo Congresso, na qual o nosso partido reconhece e assume que a luta política real já saiu do cenário da "real politík" – como lhe chamam –, ou seja, que as decisões fundamentais deste país já não se vão tomar na câmara de deputados, nem no poder executivo, mas que são as massas organizadas, pela via da mobilização, aquelas que vêm impondo a resistência; em 1999 por exemplo, sem contar com nenhum deputado, os operários e os estudantes impediram que se privatizasse a educação superior e a energia eléctrica. O que está acontecendo é que há uma enorme crise de legitimidade do regime, pelo que as suas instituições já não servem para impor o seu domínio, então a política de cima, a das instituições, a dos partidos registados, não é senão uma opereta, então há que lançar fora tudo isso.

Estávamos vendo tudo isto, estávamos a ver que não podíamos subscrever a candidatura de Andrés Manuel López Obrador, porque em primeiro lugar esta candidatura não significava nenhuma possibilidade de que a esquerda pudesse travar realmente o neoliberalismo, pelo contrário, tal como aconteceu em outros países da América Latina, o que López Obrador representava era a recomposição da hegemonia política neoliberal com um discurso de esquerda e progressista.

Depois de subscrever a Sexta Declaração, e de estabelecer uma relação com o EZLN e com outras forças, decidimos acompanhar a iniciativa que se define muito claramente à esquerda e anti-capitalista, e que, por outra parte, está a percorrer o país com um método que os próprios zapatistas já haviam estabelecido desde o início – e que uma vez que constatamos a sua operatividade, aceitamos e consideramos correcto –, que é escutar o que o México de baixo está a dizer, ao contrário da tradicional forma de fazer política, onde aparece um candidato, faz uma discursata e não se o volta a ver senão nos jornais como parte das máfias, da corrupção ou nalguma "table dance" [1] , mas nunca como parte de um processo de comunicação e de fazer política. Então, a Outra Campanha está dizendo: "sejamos um ouvido que caminha", e ao escutar o que o povo está a dizer descobre-se a validade da Outra Campanha. Isto é o que se tem definido desde primeiro de Janeiro como uma rebelião nacional anti-capitalista.

ABP: No plano internacional, qual é o contributo da Outra Campanha ao Movimento Bolivariano que percorre o nosso continente e que cada dia ganha mais força?

PB: É muito concreto, porque a Sexta Declaração também está estabelecendo um processo de solidariedade, e está dizendo que há que olhar ao que sucede na América Latina, e porque é que o povo levanta a bandeira do Che Guevara e de Bolívar, porque está isto a ocorrer, e de maneira muito concreta afirma que há que ser solidários com a Revolução Cubana, com o processo bolivariano na Venezuela e com a gente que, em baixo, está a lutar noutros países, por exemplo, na Argentina os "piqueteros", ou os Mapuches no Chile, ou o povo índio na Bolívia; não olhar tanto ao que está fazendo o governo, mas os movimentos que estão em baixo e que conseguiram derrubar um governo atrás do outro. Ao mesmo tempo, afirma a solidariedade com os que lutam na Europa, não só contra a Constituição, mas ainda contra o próprio processo da União Europeia; deste modo se estão tecendo pontes de internacionalismo e está dando força à Outra Campanha.

Quem leia a Sexta Declaração e vá seguindo as declarações da Comissão Sexta do EZLN encontra uma tomada de posição muito clara ao lado da Revolução Cubana, uma tomada de posição clara que não só se expressa no envio de milho e petróleo – que de resto já foi um contributo muito significativo dado pelas comunidades e bases de apoio zapatistas –, mas também de uma maneira fundamental: um apoio à opção política que a Revolução Cubana representa, a de ser independentes, livres, soberanos e perseverar na construção de uma sociedade anti-capitalista, como acontece na pátria de Fidel e do Che Guevara.

A 8 de Outubro, quando se renova a Outra Campanha, depois de haver sido interrompida pela repressão em San Salvador Atenco, reinicia-se com a instalação de uma mesa redonda da Conferência de Organizações Políticas e Anti-capitalistas de Esquerda (COPAI - México), que decide olhar para baixo e à esquerda do que se está a passar na América Latina, não olhar o que está fazendo Lula, que é a continuação do neoliberalismo, não olhar o que está fazendo Kirchner, que é um neoliberal ainda que alguns creiam que é de esquerda, mas olhar os processos reais que estão a acontecer, ou seja, processos que estão a pôr em causa o neoliberalismo. Na Outra Campanha vê-se com muito optimismo tudo isto que está acontecendo com as ideias de Bolívar, e que estão dignamente representadas pelo processo venezuelano, e que consideramos estão muito dignamente representadas na Colômbia com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo (FARC-EP), e que consideramos estão muito dignamente representadas por todos os movimentos que estão em baixo e que não passam nem na televisão nem nos jornais.

Estão-se a tecer pontes e está a renascer o valor da solidariedade e o internacionalismo, que é um valor chave do pensamento da esquerda coerente e, ao mesmo tempo, estão a lançar-se iniciativas para construir o movimento nos EUA, inclusivamente foram realizadas duas reuniões da Outra Campanha de gente do outro lado– a primeira em Tijuana e a outra em Ciudad Juárez – às quais está chegando gente que se opõe à guerra, os que organizam os mexicanos nos EUA e todos os latino-americanos em luta contra a exploração. Estamos a descobrir que o México não começa nem termina em Tijuana, mas que o México está mais para lá, no território que nos roubou os EUA há 150 anos, e que o movimento que se está a construir, de luta anti-capitalista, se vai dar no México e na América Latina, se vai dar nos EUA, na Europa, no Caribe e tem que haver esforços de coordenação e há que olhar ao que sucede no mundo.

II. VERDADEIRA SOBERANIA POPULAR

Conselho Constitutivo da APPO. ABP: Qual é a sua opinião face ao movimento oaxaquenho e à APPO?

PB: Temos a mesma opinião que expressaram os companheiros zapatistas nos documentos intitulados "Os Peões da História". Há que olhar para a APPO como um movimento que tem a capacidade de auto-organização, que decide – sem que ninguém lhe imponha, nem que os de cima lhe imponham – o seu próprio caminho, isto é verdadeira soberania popular.

Pelas suas capacidades criadoras, e já desde há vários meses, praticamente derrubaram o governo de Ulises Ruiz Ortiz; de facto foi isso o que aconteceu, porque ele não pode governar, e o repúdio a esse governo do PRI e ao governo federal é generalizado entre o povo de Oaxaca. Não é um conflito de uma rua – como diz esse palerma [Ulises Ruiz Ortiz], como diz a Polícia Federal Preventiva (PFP) –, pois a APPO estende-se a praticamente todos os municípios dessa entidade, municípios que têm usos e costumes e que por si próprios já estavam desde há tempos numa atitude rebelde, onde o governo local e federal não têm desde então nenhuma ingerência.

Marcha em Oaxaca, 5 de Novembro de 2006. A APPO é um referencial da luta por uma sociedade nova neste país e merece toda a solidariedade, e nós, de uma maneira muito especial, solidarizamo-nos com os "compas" [2] que são da Outra Campanha e que actuam dentro da APPO, sabemos que estão a travar uma luta valente, que diversamente de outros momentos da luta social, foram capazes de responder ao golpe da PFP com capacidade ofensiva, e sem recuo, porquanto entra a PFP [na cidade] e na semana seguinte há uma mobilização de 1 milhão e 300 mil pessoas, e em termos práticos a APPO decidiu estender-se a toda a entidade federativa para que cresça o clamor e o repúdio ao sistema.

O que defendemos é que Oaxaca não deve estar sozinha, que a devemos acompanhar e por isso a Outra Campanha, desde Chihuahua, delineou uma jornada de mobilizações para o dia primeiro de Novembro, que incluiu cortes de estradas e ocupações de instalações governamentais.

O que defende a COPAI México – integrada pela Frente Popular Francisco Villa Independente, a Unidade Operária e Socialista, o Partido dos Comunistas e o EZLN –, como parte da Outra Campanha, é uma acção de protesto nacional dia 20 de Novembro em solidariedade com o povo de Oaxaca .

Há que ser plenamente solidários com Oaxaca, vemos que há demonstrações de solidariedade vindas de toda a parte, dos partidos comunistas do Chile e da Grécia, das FARC-EP e de uma boa parte do movimento revolucionário da Europa e América Latina e isso é natural, porque a solidariedade em resistência e entre os que lutam contra o sistema deve materializar-se; e pensamos que é mais uma estupidez do governo de Vicente Fox, porque eles estão numa crise terrível depois da fraude eleitoral que tiveram de cometer para perpetuar o PAN (Partido Acção Nacional) no governo, porém essa crise vai-se agudizar, porque como diz Lenine, quando os de cima já não podem governar e os de baixo já não querem ser governados pelos de cima, e estes dois momentos coincidem, abre-se uma etapa de mudanças e transformações, de rebelião dizem uns e de revolução dizemos nós.

III. O POVO TEM O DIREITO A AUTO-ORGANIZAR-SE PARA SE OPOR À VIOLÊNCIA REACCIONÁRIA.

ABP: Que análise fazem vocês sobre o incremento da repressão, do terrorismo de Estado e da guerra suja no México?

PB: A nós parece-nos natural que o Estado mexicano esteja agindo assim, pois é um Estado em decomposição, e para manter o seu domínio, assim como o poder e os espaços de governabilidade, tem de recorrer ao exercício da força pública, do exército disfarçado de polícia, como o é a PFP – sabemos desde 1998 que este aparelho foi criado retirando elementos ao exército para utilizá-los na luta política; e que se estreou contra o Concelho Geral de Greve da Universidade Nacional Autónoma do México, e que é o mesmo aparelho que empregaram contra San Salvador Atenco e contra a Frente de Povos em Defesa da Terra, e agora contra a APPO e todo o povo oaxaquenho. Entendemos que esta fase de repressão se vai agudizar, porque o que se está a ver é que o povo já não se conforma, e o governo de Felipe Calderón não tem legitimidade, não tem consenso, ou seja, no momento em que teve de praticar uma fraude deu-se a ruptura dos seus consensos.

Sustentamos a tese marxista de que a burguesia procura prolongar o seu domínio a partir da reprodução da sua hegemonia – a cada três ou cada seis anos – pela via de um processo eleitoral… porém esse momento crispa-se e rompe-se [no México] em 2 de Julho, porque a burguesia como tal rompe-se, fracciona-se: de um lado, a Convenção Nacional Democrática – que são os mesmos neoliberais e que defendem o mesmo que Calderón – foi afectada pela fraude eleitoral, e do outro, Felipe Calderón e os compromissos que contraiu com a grande oligarquia e o imperialismo – privatizar o petróleo, a energia eléctrica, os fundos de reformas e pensões, privatizar a educação superior. Por isso eles se vêm obrigados a fazer uso da violência, que de momento é monopólio do Estado, porém quanto tempo pode isso durar?

Vemos que têm assassinado muitos companheiros, muitos activistas, aí está o assassinato do companheiro Pável González por parte de grupos paramilitares, aí está a ameaça que foi feita contra companheiros do Núcleo Mexicano de Apoio às FARC-EP, ou as ameaças que se fazem contra outros companheiros, colectivos e organizações por parte de grupos paramilitares, que até procuram aparentar que estão desligados da violência institucional. mas nós não vamos nesse logro. Neste país, onde a burguesia tem o poder e onde exerce uma ditadura de classe, nada pode acontecer à sua margem, os grupos paramilitares não são mais do que a própria violência estatal apenas dissimulada para que o terrorismo e o fascismo campeiem nas ruas do país, mas o povo não vai ficar passivo e vamos entrar numa nova fase de luta, e para essa nova fase da luta há que prepararmo-nos todos, e nessa nova fase de luta o povo tem o direito a auto-organizar-se para se opor a essa violência reaccionária.

Para sufocar um povo de 100 milhões, no qual a insubmissão está a crescer, não haverá nem exército, nem polícia, nem força de intervenção estrangeira capaz de submeter este povo se tomar a decisão – como se está a ver que sim, que a vai tomar – de revoltar-se contra este sistema, que já não se pode mais suportar. Vocês vejam e escutem o que está fazendo a Outra Campanha desde o dia primeiro de Janeiro, e escutem o que se está a passar em Chiapas, o que está a dizer o povo, e vocês vêm somar-se a dor e descobrem que o povo diz: "já basta!". O país vai-se revoltar, e aqui o que está em discussão é se nos vamos rebelar de maneira organizada ou se cada um o vai fazer pelo seu lado; nós pensamos que se o fizermos juntos, o monopólio da violência que o Estado detém contra o povo vai ser travado.

Nenhuma luta é de graça, todas as lutas do povo implicam a dor, o sofrimento e o sangue dos de baixo, então pensamos que há que passar a factura disso à burguesia, e procurar que o custo que tenhamos de pagar pela libertação deste país seja o menor possível, que tenham de pagá-lo os ricos, como Carlos Slim [3] ; Diego Fernández de Cevallos [4] , Fox, a oligarquia e a burguesia nacional ligada às transnacionais é que devem pagar o custo da violência.

ABP: Sabemos do recente e doloroso falecimento do seu secretário-geral, o camarada Sergio Almaguer. Fale-nos por favor sobre ele.

PB: O companheiro Sergio Almaguer, que faleceu há 15 dias cumprindo tarefas da Outra Campanha, foi Primeiro Secretário do Partido da Revolução Socialista (PRS), que junto com o Partido dos Comunistas Mexicanos foi um dos dois destacamentos que deram origem a esta formação política marxista-leninista que é o Partido dos Comunistas.

O companheiro tinha uma larga trajectória de luta, desde os anos 60 quando aderiu à Juventude Popular Socialista (JPS), de que foi dirigente nacional, passando pela luta do povo nayarita [5] contra a fraude eleitoral e pelas liberdades democráticas nos anos 70, mas foi sobretudo um dos quadros principais na construção da unidade do Partido Comunista Mexicano com o Partido do Povo Mexicano, o Partido Socialista Revolucionário e o Movimento de Acção e Unidade Socialista nos anos 80, dando origem ao Partido Socialista Unificado do México (PSUM), que foi um referencial de esquerda muito importante neste país, independentemente das coisas que se possam questionar, do seu rumo eurocomunista e das posições reformistas que o levaram por fim a diluir-se num projecto burguês como é o Partido da Revolução Democrática.

O PSUM é o referencial maior da esquerda socialista no passado recente deste país e nesse processo esteve o companheiro Almaguer; e também esteve no combate ao processo de degeneração que se seguiu, porque em 1985 ele rompe com o PSUM e forma o PRS; então, o contributo fundamental do companheiro Almaguer, junto com companheiros dessa mesma geração, é que quando cai o muro de Berlim, quando vem abaixo o campo socialista, quando se supõe que chegou o fim da utopia e da história, e chega o processo da desideologização, pois então ali estiveram eles levantando a bandeira vermelha e abrindo perspectivas para que se pudesse construir um partido revolucionário neste país. Eu creio que o Partido dos Comunistas é uma contribuição directa da geração do companheiro Almaguer, dele próprio e de outros companheiros que fazem parte desse mesmo processo criador em que, quando todos correram para a social-democracia, eles se mantiveram firmes. Chamaram-nos néscios ou dinossauros, mas o que finalmente hoje se está a ver é que a alternativa pertence a essa geração, porque onde estão hoje Armado Martínez Verdugo, Pablo Gómez ou Amalia García? Pois causam vergonha, e estes companheiros que se mantiveram firmes são um exemplo para a luta futura.

Há ainda que dizer que ele era um internacionalista convicto, um amigo da Revolução Cubana, e com uma grande simpatia pelas FARC-EP e pelos processos de libertação na América; ao mesmo tempo, ele tinha, como marxista-leninista, um empenhamento substancial no movimento operário, não só no México, como também na Federação Sindical Mundial. Mas no México este é um exemplo no qual nós vamos perseverar, que está presente no sentido operário do nosso partido; nós somos um partido da classe operária, porém queremo-lo ser não apenas pela ideologia da classe operária que é o marxismo-leninismo, mas também pela nossa composição.

Foi essa a contribuição do companheiro Almaguer, e a sua morte foi para nós um rude golpe. Hoje no Partido dos Comunistas, o único que pode decidir quem ocupa a Secretaria-geral é o nosso Comité Central – para isso o nosso CC reunir-se-á a 2 e 3 de Dezembro. Provisoriamente quem ocupa a Secretaria-geral é o companheiro Fernando Acosta; mas o vazio deixado pela morte do companheiro Almaguer não poderá ser preenchido.

ABP: Por último, quero pedir-lhe que em nome do Partido dos Comunistas envie uma mensagem aos nossos leitores da ABP e a todos os nossos companheiros e camaradas da Coordenadora Continental Bolivariana (CCB).

PB: Bom, em primeiro lugar, nós reclamamo-nos parte da CCB e vamos fazer um esforço para merecer o nosso lugar aí. Pensamos que a luta que estamos a travar no México como parte da Outra Campanha faz parte da CCB e do Congresso que se realizou em Caracas em Agosto do ano passado; pensamos que o esforço da CCB é essencial num processo de luta e de ascenso do movimento de libertação na América Latina; pensamos, tal como o fazem os de orientação guevarista, que se abriu o momento da Segunda e definitiva Independência para a nossa pátria, e que vai ser difícil que se possa fazer isto sem o esforço decidido da CCB e das organizações que a integram; vemos ali o melhor da América Latina, desde a Colômbia, Chile, Argentina, Venezuela e o Caribe, estamos a ver que ali se está a concentrar o melhor dos lutadores revolucionários, dos que provaram com os anos e com o seu sangue que não se rendem nem se vendem, nem abandonam as ideias nem o seu posto de luta.

Não temos podido cumprir um papel como parte activa da CCB, mas estamos convencidos de que temos que lutar por aí ter um lugar. Em consequência, todos os instrumentos que a CCB desenvolva, como o exercício de outro jornalismo, de um jornalismo alternativo, nos parece central, não só para repetir o slogan, aquele de que "a batalha das ideias é necessária" – pois se isso já é sabido, então há que fazê-lo todos os dias –, mas de um modo substancial, porque é um jornalismo de outro tipo, é um jornalismo de combate, muito parecido ao de Ricardo Flores Magón [6] e o jornal Regeneración, pois acontece que hoje há muitos media alternativos e até é fácil e prestigioso ser media alternativo, mas muito poucos se atrevem a dar voz, por exemplo, às FARC – às FARC, a que todos catalogam de terroristas, e que para nós são revolucionários exemplares, não há muitos media alternativos que se atrevam a abrir-lhes as suas páginas e espaços –, então o que sabemos é que a ABP, sim, fá-lo, e essa voz é necessária se queremos um mundo novo. Por isso queremos saudar o esforço que se faz a partir da ABP, consideramos que ela não faz parte desse processo que hoje tanto se menciona na esquerda de "mass media ao serviço de processos por um outro mundo possível", mas sim tem a ver com as lutas consequentes, de organizações que estão na clandestinidade e que combatem o verdadeiro terrorismo, como é o caso desse narco-paramilitar do Álvaro Uribe na Colômbia; porque estão a dar voz ao povo boricua, porque acompanharam o processo do assassinato do companheiro Filiberto Ojeda [8] pela polícia política norte-americana e porque também nos dão voz a nós, pois sucede que neste país, nós, os comunistas, estamos a travar uma luta e ninguém fala disso, ou seja, a Outra Campanha faz com que nos tornemos visíveis, mas há outras frentes do nosso trabalho que só podem ser os nossos camaradas a divulgá-las, pois, em última instância, o jornalismo não é uma actividade neutra, mas implica uma posição, implica tomar partido, neste caso por processos revolucionários...e bom, uma saudação fraternal e combativa a todos os companheiros da CCB e da ABP.

ABP: Muito Obrigado.

13/Novembro/2006

Notas do tradutor:
[1] Table dance ou bartop dancing: a própria dança; e também os "bares" de "dança erótica" em cima da mesa ou do balcão.
[2] Companheiros.
[3] O homem mais rico da América Latina e o terceiro mais rico do mundo, com 30 mil milhões de dólares em 2006, segundo a revista Forbes. Apossou-se da Telmex (telecomunicações do México) na época de privatizações selvagens do presidente Carlos Salinas de Gortari.
[4] Presidente do Senado do México, "cacique" do PAN e exemplo acabado da corrupção da classe dirigente mexicana. É afamado pelo "tráfico de influências cínico e impune"...e estamos a citar apenas os deputados do PRI.
[5] Nayarit é um dos estados mexicanos (centro-oeste), tal como Oaxaca (sul).
[6] Célebre revolucionário mexicano das primeiras duas décadas do século XX. Fundou o jornal Regeneración.
[7] Filiberto Ojeda Rios fundou na clandestinidade o Exército Popular Boricua (boricuas são os porto-riquenhos), mais conhecido como "Los Macheteros", que defende a independência de Porto Rico. Trezentos membros do FBI vindos dos EUA, entre os quais vinte franco-atiradores, assassinaram-no aos 72 anos de idade, a 23 de Setembro de 2005, no povoado de Hormigueros, em Porto Rico. Depois de o ferirem a tiro, deixaram-no a esvair-se em sangue durante 17 horas. Escolheram para o matar o dia em que decorriam 137 anos sobre o "Grito de Lares", a insurreição contra Espanha de 23 de Setembro de 1863.


[*] Secretário de Relações Internacionais do Partido dos Comunistas (México).

O original encontra-se em
http://www.abpnoticias.com/?module=news&op=displaystory&story_id=278&format=html
Tradução de Jorge Almeida.


Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .
20/Nov/06