A actualidade histórica da ofensiva socialista
(capítulo 18 de
"Beyond Capital"
)
18.1- A ofensiva necessária das instituições defensivas
18.2- Das crises cíclicas à crise estrutural
18.3- A pluralidade de capitais e o significado do pluralismo socialista
18.4- A necessidade de se contrapor à força extra-parlamentar do capital
Notas do capítulo 18
A actual 'crise do marxismo' deve-se principalmente ao facto de que muitos
dos seus representantes continuam a adoptar uma postura
defensiva,
numa época em que, tendo acabado de virar uma página
histórica importante, nos deveríamos engajar numa ofensiva
socialista em sintonia com as condições objectivas.
Paradoxalmente, os últimos 25 anos, que progressivamente manifestaram a
crise estrutural do capital e daí o início da
necessária ofensiva socialista num sentido histórico ,
também testemunharam a disposição de muitos marxistas,
maior do que nunca, de buscarem novas alianças defensivas e de se
envolverem com todos os tipos de revisões e compromissos em grande
escala, ainda que não tenham, realmente, nada para mostrar como
resultado de tais estratégias fundamentalmente desorientadoras.
A desorientação em questão não é, de modo
algum, simplesmente ideológica. Ao contrário, ela envolve todas
as instituições de luta socialista que foram constituídas
sob circunstâncias históricas defensivas e, por esse motivo,
perseguem, sob o peso da sua própria inércia, modos de
acção que correspondam directamente ao seu carácter
defensivo. E, já que a nova fase histórica inevitavelmente traz
consigo o aguçamento do confronto social, deve-se esperar mas
não idealizar , sob tais circunstâncias, uma maior
reacção defensiva das instituições (e
estratégias) de luta da classe trabalhadora. Lamentavelmente, contudo,
as estruturas e estratégias defensivas existentes consideram
inquestionáveis os seus próprios pressupostos e procuram
soluções que permanecem ancoradas nas condições da
velha, e agora superada, fase histórica.
Tudo isto deve ser bem sublinhado para evitar a ilusão de
soluções fáceis. Não basta, portanto, argumentar a
favor de uma nova orientação ideológico-política
caso se mantenham tal como hoje as formas institucionais e organizacionais
relevantes. Se, em sua resposta por inércia às
circunstâncias históricas que já não são as
mesmas, a desorientação corrente é a
manifestação combinada dos factores prático-institucional
e ideológico, seria ingenuidade esperar uma solução no que
muitos gostam de descrever como "clarificação
ideológica". De facto, enquanto os dois devem desenvolver-se juntos
nessa reciprocidade dialéctica, o
übergreifendes Moment
(momento culminante) na conjuntura actual é a estrutura
prático/institucional da estratégia socialista, que precisa de
reestruturar-se de acordo com as novas condições. Estes
são os problemas que iremos tratar no presente capítulo.
18.1-
A OFENSIVA NECESSÁRIA DAS INSTITUIÇÕES DEFENSIVAS
18.1.1
Dizer que somos contemporâneos da nova fase histórica de ofensiva
socialista não significa que, de agora em diante, o percurso seja
tranquilo e a vitória próxima. A expressão
"actualidade histórica" não sugere mais do que diz
explicitamente: que a ofensiva socialista confronta-nos como matéria de actualidade
histórica,
em contraste com a nossa aflitiva situação objectiva, não há
muito tempo atrá dominada por determinações defensivas
inescapáveis. Ainda que certamente
um dia
(em última análise) as mudanças sociais irão
infiltrar-se nos canais e nos modos de mediação política e
ideológica prevalecentes, a consciência nãs as regista
automaticamente, por mais importantes que sejam. Mas antes mesmo de
alcançarmos a etapa da "última análise", a inércia
da forma anterior de resposta tal como articulada em determinadas
estratégias e estruturas organizacionais continua a dominar a
maneira como as pessoas definem as suas próprias alternativas e margens
de acção. Nesse sentido, o discurso sobre a
"consciência de classe" que reprova o proletariado pela
"falta de combatividade" demonstra apenas a sua própria
vacuidade, pois os instrumentos e as estratégias de acção
socialista permanecem estruturados defensivamente.
Devido à mudança da relação de forças e das
circunstâncias, a actualidade histórica da ofensiva socialista
corresponde, em primeiro lugar, ao desconfortável facto negativo de quer
algumas formas de acção anteriores (as políticas de
consenso), a "estratégia de pleno emprego", a
"expansão do Estado de bem-estar social", etc estão
objectivamente bloqueadas, o que impõe reajustes importantes na
sociedade como um todo. Mas o facto de se partir dessa "negatividade
brutal" inicial não significa que os reajustamentos em
questão sejam positivos, mobilizando as forças socialistas num
esforço consciente para se apresentarem como portadoras da ordem social
alternativa capaz de substituir a sociedade em crise. Longe disso, como as
mudanças exigidas são muito drásticas, em vez de
aceitarmos prontamente o "salto para o desconhecido", é ainda
mais provável que se prefira seguir "a linha de menor
resistência" ainda por um tempo considerável, mesmo que isso
signifique derrotas significativas e grandes sacrifícios para as
forças socialistas. Somente quando as opções da ordem
predominante se esgotarem poderemos esperar uma viragem
espontânea
para uma solução radicalmente diferente. (O completo colapso da
ordem social no curso de uma guerra perdida e os levantes
revolucionários subsequentes, conhecidos da história passada,
ilustram bem esta questão.)
Contudo, as dificuldades de uma resposta socialista adequada à nova
situação histórica não mudam o carácter da
própria situação, ainda que coloquem novamente em relevo o
conflito potencial entre escalas de temporalidade a estrutura
histórica imediata e a geral de eventos e desenvolvimento. É o
carácter objectivo das novas condições históricas
que
por fim
decide a questão, não importando quais sejam os atrasos e
desvios que possam acompanhar as circunstâncias dadas. A verdade é
que existe um
limite
além do qual acomodações forçadas e
imposição de novos sacrifícios se tornam
intoleráveis,
subjectivamente
para os indivíduos envolvidos e
objectivamente
para a continuação do funcionamento da estrutura
socioeconómica ainda dominante. Nesse sentido e em nenhum outro, a
actualidade histórica da ofensiva socialista entendida como
sinónimo do fim do sistema de melhorias relativas pela
acomodação consensual está destinada a impor-se a
longo prazo, tanto na forma exigida da consciência social como na sua
mediação estratégico-instrumental, mesmo que não
possam existir garantias contra outras derrotas e decepções num
curto prazo. Ainda que seja verdade o que é bastante duvidoso
que os seres humanos tenham uma infinita capacidade para suportar
qualquer imposição sobre eles, incluindo as piores
condições possíveis, a capacidade de
adaptação do sistema global do capital é hoje muito menor
do que esta.
18.1.2
Veremos de que forma as potencialidades objectivas da ofensiva socialista
são inerentes à crise estrutural do próprio capital. Agora
o objectivo é acentuar uma contradição principal: a
ausência de instrumentos políticos adequados que poderiam
transformar esta potencialidade em
realidade.
Além disso, o que torna as coisas ainda piores é a continuidade
do domínio das mitologias passadas sobre a auto-consciência das
organizações envolvidas, descrevendo o partido leninista, por
exemplo, como a instituição da ofensiva estratégica
par excellence.
Certamente, todos os instrumentos e organizações do movimento da
classe trabalhadora existiram para superar alguns dos obstáculos
principais na via para a emancipação. Em primeira instância
foram o resultado de explosões espontâneas e, como tal representam
um
momento
de ataque. Mais tarde, como resultado de esforços pacientes, estruturas
coordenadas emergiram tanto em países particulares como em escala
internacional. Mas nenhuma delas poderia ir para além do horizonte de
lutar por objectivos específicos, limitados, até mesmo se o seu
objectivo último estratégico fosse uma
transformação socialista radical de toda a sociedade. Não
se deve esquecer que Lenine, brilhantemente e realisticamente ,
definiu os objectivos dos bolcheviques entre Fevereiro e Outubro de 1917 como
assegurar "Paz, Terra e Pão" de modo a criar uma base social
viável para a revolução. Mas, até mesmo em termos
organizacionais básicos, o "Partido de Vanguarda" foi
constituído de forma a poder se
defender
dos ataques cruéis de um Estado policial, sob as piores
condições possíveis de clandestinidade, das quais
inevitavelmente decorreu a imposição do segredo absoluto, de uma
estrutura rígida de comando, de centralização, etc. Se
compararmos a estrutura auto-defensivamente fechada deste partido de vanguarda
com a ideia original de Marx de produzir consciência comunista em escala
de massa" com a consequência necessária de uma
estrutura organizacional inerentemente aberta , teremos uma medida de
diferença fundamental entre uma postura defensiva e uma ofensiva.
Somente quando as condições objectivas implícitas em tal
objectivo estão em processo de se desdobrar em escala global é
possível imaginar realisticamente a articulação
prática dos órgãos necessários da ofensiva
socialista.
Na verdade, Lenine não teve nenhuma ilusão quanto a esta
possibilidade, ainda que algumas interpretações tendam a
descrever retrospectivamente os seus objectivos à luz de uma
esperança vazia.
Ele baseou a sua estratégia de quebrar o "elo mais fraco da
corrente" numa interpretação da lei de desenvolvimento
desigual, insistindo ao mesmo tempo que
revoluções
políticas
não podem em caso algum, nunca e em nenhuma condição,
encobrir ou enfraquecer a palavra de ordem da revolução
socialista
... que não pode ser encarada como um só
acto,
mas deve ser encarada como uma
época
de tempestuosas convulsões políticas e económicas, de
guerra civil, de revoluções e contra-revoluções.
[1]
Neste espírito, ele esperou que a revolução
política de Outubro abrisse a "época de tempestuosas
conclusões políticas e económicas", que se
manifestaria no mundo inteiro por toda uma série de
revoluções, até que as condições de uma
vitória socialista estivessem firmemente asseguradas. Quando a onda de
motins revolucionários se esgotou sem resultados positivos importantes
em outras partes, Lenine observou racionalmente que não se poderia
devolver o poder aos czares e continuou o trabalho de defender o que fosse
possível naquelas circunstâncias. Ele originalmente esperava
combinar o potencial político do "elo mais fraco" com as
condições maduras dos países capitalistas
"avançados". Foi o fracasso da revolução mundial
que violentamente truncou a sua estratégia, impondo-lhe os
constrangimentos deformadores de uma defesa desesperada.
Lenine sempre teve a consciência da diferença fundamental entre a
revolução política e a social (à qual denominou
socialista), mesmo quando foi irrevogavelmente forçado a defender a mera
sobrevivência da revolução política, ao passo que
Estaline ignorou esta distinção vital, fingindo que o
primeiro passo
na direcção de uma vitória socialista já
representava o próprio socialismo, que deveria simplesmente ser seguido
pela entrada "na etapa superior do comunismo" num país
sitiado. Naturalmente, com tal mudança apologética de
estratégia, na qual tudo tinha que ser cruelmente subordinado à
defesa do estalinismo e simultaneamente saudado como a maior vitória
possível para a revolução socialista em geral, desapareceu
também a diferença real entre estruturas e desenvolvimento
defensivos e ofensivos. E, enquanto Lenine, na ausência da
revolução mundial, entendeu a sua tarefa geral como uma
operação de manufacturação
(a ser substituída no devido tempo por desenvolvimentos mundiais
favoráveis), Estaline fez da miséria virtude. Ele transubstanciou
a resposta política, prevalecente aos constrangimentos particulares, num
ideia social geral (e, portanto, compulsório), sobrepondo
arbitrariamente a todos os processos sociais e económicos a
prática voluntarista de tentar resolver os problemas por meio de
ditames políticos
autoritários.
Desse modo, pudemos testemunhar um grande afastamento das
intenções originais, tanto em termos dos objectivos fundamentais
como das formas institucionais e organizacionais correspondentes. A
concepção global de Marx tinha como objectivo estratégico
a revolução social abrangente, a partir da qual os homens
deveriam mudar "de cima abaixo as condições da sua
existência industrial e política, e por conseguinte toda a sua
maneira de ser"
[2]
. Sendo assim, as formas e instrumentos da luta teriam que corresponder ao
carácter essencialmente
positivo
do empreendimento como um todo, em vez de serem bloqueados na fase
negativa
de uma acção
defensiva.
Por isso Marx, ao dirigir-se a um grupo de trabalhadores, lembrou-lhes que
não deveriam contentar-se com a negatividade "retardadora do
movimento depressivo" quando a tarefa consistia em "alterar a sua
direcção", que eles não deveriam aplicar
"paliativos" quando o problema era "curar a doença".
E afirmou não ser suficiente empenhar-se negativamente/defensivamente nas
inevitáveis
lutas de guerrilha
que incessantemente emergem dos eternos abusos do capital ou das
flutuações do mercado.
[3]
Contudo, quando precisou de explicar o lado
positivo
da equação, nas condições prevalecentes de
subdesenvolvimento relativo do capital ainda longe das suas verdadeiras
barreiras e da sua crise estrutural , Marx só pode apontar o facto
de que havia um processo de desenvolvimento objectivo em andamento, mas nenhuma
mediação institucional e estratégica tangível para
transformar aquele processo em vantagem duradoura. Como explicou, os
trabalhadores "devem entender que, com todas as misérias que lhes
impõem, o sistema actual engendra simultaneamente as
condições materiais
e as formas sociais necessárias para uma reconstrução
económica da sociedade"
[4]
. Assim, indicou um aliado positivo nas condições materiais em
amadurecimento da sociedade, mas não poderia ir mais longe que isso. Na
mesma conferência, insistiu em que "a luta de guerrilha"
é defensiva apenas contra os efeitos do sistema, oferecendo apenas a
metáfora da "alavanca" a ser usada para uma mudança
fundamental, não identificando de maneira alguma onde e como tal
alavanca poderia ser inserida no centro estratégico do sistema a ser
negado para poder produzir a transformação radical postulada.
Teria sido um milagre se fosse de outro modo, pois o movimento socialista,
depois dos primeiros mais ou menos espontâneos ataques e
explosões nascidos do desespero, encontrou-se na situação
de fixar objectivos muito limitados, em resposta aos desafios colocados pelas
confrontações nacionais particulares contra o pano de fundo da
expansão global e do desenvolvimento dinâmico do capital. Sendo
assim, a Primeira Internacional logo experimentou as primeiras grandes
dificuldades que finalmente conduziriam à sua
desintegração. E nenhuma mitologia retrospectiva poderia
transformar a Comuna de Paris numa importante ofensiva socialista: não
simplesmente porque foi brutalmente derrotada, mas principalmente devido ao
facto, fortemente acentuado pelo próprio Marx, de que não era
socialista
[5]
. Naturalmente, os debates relativos ao Programa de Gotha e à
orientação estratégica do movimento da classe trabalhadora
alemã seguiam as mesmas determinações defensivas. As
condições objectivas para se imaginar a mera possibilidade de uma
ofensiva hegemónica nem sequer estavam à vista e, na sua
ausência, as severas limitações das formas organizacionais
e estratégias possíveis também foram ocultas. Por isso
Marx, depois de definir as condições necessárias de uma
revolução socialista bem sucedida em termos do
"desenvolvimento positivo dos meios de produção",
declarou sem hesitação, ainda em 1881:
é minha
convicção que a conjuntura critica para uma nova
Associação Internacional dos Trabalhadores ainda não
chegou e por isso considero todos os congressos de trabalhadores,
particularmente os congressos socialistas, na medida em que não estejam
relacionados com as condições imediatas desta ou daquela
nação particular, como não somente inúteis mas
prejudiciais. Acabarão sempre por se diluir em inumeráveis
banalidades gerais e vazias.
[6]
Desnecessário dizer a Segunda Internacional, neste particular,
não trouxe qualquer melhoria. Ao contrário, pelo seu
"economicismo" capitulou miseravelmente ante as
determinações sociais/económicas dominantes da
condição defensiva global. Substituiu as exigências de uma
estratégia ampla pela prática pedestre de "mudança
gradual", traduzindo ao mesmo tempo a sua capitulação
defensiva na estrutura organizacional ossificada de uma
"social-democracia" corruptamente casada com a
manipulação parlamentar capitalista. De acordo com isso, o
período pós-guerra da expansão capitalista saudado
por muitos como a solução permanente das
contradições do capital, e também da
integração estrutural da classe trabalhadora encontrou os
seus porta-vozes e administradores mais entusiastas neste movimento pseudo
socialista de capitulação da social-democracia.
Ao contrário da Segunda Internacional , a qual, de certo modo,
está connosco até hoje , o momento histórico da
Terceira Internacional foi relativamente breve. A onda revolucionária
das fases finais da Primeira Guerra Mundial deu-lhe um grande ímpeto
original, mas mal se passaram doze meses depois do seu Congresso fundador para
que Lenine tivesse de admitir que
Era evidente que o movimento
revolucionário perderia inevitavelmente velocidade quando as
nações assegurassem a paz.
[7]
Significativamente, o mesmo discurso que reconheceu ter passado a onda
revolucionária no Ocidente concentra-se fortemente na questão de
concessões económicas aos países capitalistas, tendo
aprovado uma citação de Keynes com relação à
importância de matérias-primas russas para a
reconstituição e a estabilização da economia global
do capital e adoptado conscientemente esta estratégia para o futuro
imediato. Quando os estrategistas da "Acção de
Março" alemã embarcaram na sua ofensiva voluntarista, os
dados das determinações objectivas estavam fortemente viciadas
contra uma tal ofensiva, impondo por muito tempo um tom trágico ao
destino dos movimentos revolucionários socialistas.
O mundo do capital também resistiu com relativa facilidade à
tempestade da sua "Grande Crise Económica" de 1929-1933 sem
ter de enfrentar uma importante confrontação hegemónica
com as forças socialistas, apesar do sofrimento das massas provocado por
essa crise. O facto é que, por maior que fosse a crise, ela estava longe
de ser uma crise
estrutural,
ao deixar um grande número de opções abertas para a
sobrevivência continuada do capital, bem como para a sua
recuperação e a sua reconstituição mais forte do
que nunca numa base economicamente mais saudável e mais ampla.
Reconstruções políticas retrospectivas tendem a culpar
personalidades e forças organizacionais por tal
recuperação, particularmente em relação ao sucesso
do fascismo. Contudo, por maior que fosse o peso relativo de tais factores
políticos, não se pode esquecer que eles devem ser avaliados
contra o pano de fundo de uma fase histórica essencialmente defensiva.
Não tem sentido reescrever a história com a ajuda de
condicionantes contrafactuais, mesmo que eles se refiram à
ascensão do fascismo ou qualquer outra coisa. O que realmente importa
é que, concomitantemente à crise de 1929-1933, o capital tinha a
opção do fascismo
(e soluções semelhantes), opção que já
não possui hoje. E, objectivamente, isso faz uma grande diferença
no que tange às possibilidades de acção defensiva e
ofensiva.
18.1.3
Dado o modo pelo qual foram constituídos como partes integrantes
de uma estrutura institucional complexa , os órgãos de luta
socialista poderiam ganhar batalhas individuais, mas não a guerra contra
o capital. Para isso seria necessária uma reestruturação
fundamental, de forma que eles se complementassem e intensificassem a
eficácia uns dos outros, em vez de debilitá-la pela
"divisão do trabalho" imposta pela institucionalidade
"circular" no interior da qual se originaram. Os dois pilares de
acção da classe trabalhadora no Ocidente partidos e
sindicatos , estão na realidade, inseparavelmente unidos a um
terceiro membro do conjunto institucional global: o Parlamento, que forma o
círculo da sociedade civil/estado político e se torna aquele
"círculo mágico" paralisante do qual parece não
haver saída. Tratar os sindicatos junto com outras (muito menos
importantes) organizações sectoriais, como se pertencessem, de
alguma maneira, apenas à "sociedade civil" e que portanto
poderiam ser usados contra o Estado político, para uma profunda
transformação socialista, é um sonho romântico e
irreal. Isto porque o círculo institucional do capital, na realidade,
é feito das
totalizações recíprocas
da sociedade civil e do Estado político, que se interpenetram
profundamente e se apoiam poderosamente um no outro. Por isso, seria
necessário muito mais que a derrubada de um dos três pilares
o Parlamento, por exemplo para produzir a mudança
necessária.
O lado problemático da estrutura institucional prevalecente revela-se
eloquentemente em expressões como "consciência
sindical", "burocracia partidária" e "cretinismo
parlamentar", para citar apenas um nome em cada categoria. O Parlamento,
em particular, tem sido objecto de uma crítica muito justificada, e
até hoje não há teoria socialista satisfatória
sobre o que fazer com ele após a conquista do poder: um facto que
eloquentemente fala por si mesmo. Apesar de os clássicos do marxismo
terem lutado contra a "indiferença à política" e
a defesa igualmente sectária do "boicote ao Parlamento", eles
não conseguiram imaginar um "estágio
intermediário" (que, na verdade, poderia ser uma fase
histórica muito longa).
Um estágio que significativamente retivesse pelo menos algumas
características importantes da estrutura parlamentar herdada, enquanto o
longo processo de reestruturação radical fosse realizado na ampla
escala necessária. Por exemplo, Marx implicitamente levantou esta
possibilidade numa digressão surgida no contexto da mudança
revolucionária associada ao uso de força como norma. Num discurso
importante mas pouco conhecido, foi assim que ele tentou resolver o problema:
O trabalhador um dia vai ter que ganhar a supremacia política para
organizar o trabalho segundo
novas linhas:
ele terá que derrotar a
política velha
que apoia
velhas instituições...
Mas nós não temos, de modo algum, afirmado que esta meta seria
alcançada por meios idênticos. Nós conhecemos as
concessões
que temos que fazer às
instituições, aos costumes e tradições
dos vários países; e não negamos que há
países como os Estados Unidos, a Inglaterra, e eu acrescentaria a
Holanda se conhecesse melhor as suas instituições, onde os
trabalhadores podem alcançar a sua meta através de
meios pacíficos.
Se isto é verdade, também temos de reconhecer que na maioria dos
países continentais
é a força
que deverá ser a alavanca de revoluções; é
à força
que teremos algum dia que recorrer para estabelecer um reinado do trabalho.
[8]
É discutível se o assunto em questão é simplesmente
uma questão de "concessões" que devam ser feitas a
algumas restrições herdadas: a importância do Parlamento
é muito grande para ser tratada de passagem, ao lado de "costumes e
tradições". Compreensivelmente, na concepção
de Marx da política como
negação radical
o Parlamento aparece geralmente na sua negatividade quase grotesca, resumida no
dictum
"Iludir os outros e iludir-se ao iludi-los este é o extracto
concentrado da
sabedoria parlamentar! Tant Mieux!"
[9]
"Tanto melhor" ou "tanto pior"?
Como o Parlamento afecta profundamente todas as instituições da
luta socialista que porventura estejam intimamente ligadas a ele, seguramente
deve ser "tanto pior". E, se se acrescenta a
consideração
levantada por Marx como uma possibilidade histórica séria, e
não como um gesto vazio de propaganda fraccionista de partido de
que a mudança revolucionária possa usar
meios pacíficos
como veículo, neste caso torna-se ainda mais imperativo reorientar
radicalmente a "sabedoria parlamentar" para a
retro-alimentação de objectivos socialistas.
A experiência das sociedades do "socialismo real" mostra
claramente que é possível demolir apenas um dos três
pilares da estrutura institucional herdada, porque, de uma maneira ou de outra,
os dois que permanecem acabam por cair com ele. Quando pensamos na
existência puramente nominal dos sindicatos nas sociedades, bem como na
experiência, da Polónia e na re-emergência do limbo de um
sindicalismo amargamente independente na forma do "Solidariedade",
torna-se claro que equilibrar a sociedade no topo do único pilar
remanescente é totalmente insustentável a longo prazo. Menos
óbvio, entretanto, é o que acontece ao próprio partido na
sequência da conquista de poder. O "partido de vanguarda" de
Lenine reteve algumas características organizacionais
constituídas na ilegalidade e na luta pela mera sobrevivência
contra o Estado policial czarista. Mas, ao tornar-se o governante
inquestionável do novo Estado, deixou de ser um partido leninista e
tornou-se o
Partido-Estado,
impondo e também sofrendo todas as consequências que a
mudança necessariamente acarreta. Assim, fica extremamente
difícil, senão impossível, a transferência do poder
de um conjunto de indivíduos a outro (uma ocorrência comicamente
comum na estrutura parlamentar), ou até mesmo uma mudança parcial
na política quando se alteram as circunstâncias.
A natureza da estrutura institucional global também determina o
carácter de suas partes constituintes e, vice-versa, os
"microcosmos" particulares de um sistema exibem sempre as
características essenciais do "macrocosmos" a que pertencem.
Nesse sentido, qualquer mudança que ocorra num componente particular
só pode tornar-se algo puramente efémero, a menos que possa
reverberar plenamente por todos os canais do complexo institucional total,
dando assim início às mudanças exigidas no sistema inteiro
de totalizações recíprocas e
inter-determinações. Como insistiu Marx, não bastava
ganhar "lutas de guerrilha", que poderiam ser neutralizadas e mesmo
anuladas pelo poder de assimilação e integração do
sistema dominante. O mesmo era verdade para o triunfo em
batalhas individuais
quando, em última instância, a questão era decidida nos
termos das condições de ganhar a guerra.
Por isso a actualidade histórica da ofensiva socialista tem imenso
significado. Pois, sob as novas condições da crise estrutural do
capital, torna-se possível ganhar muito mais do que algumas grandes
(mas, no final das contas terrivelmente isoladas)
batalhas,
como as revoluções russa, chinesa e cubana. Ao mesmo tempo,
não existe meio de minimizar o carácter doloroso do processo
envolvido, que requer importantes ajustes estratégicos e correspondentes
mudanças institucionais e organizacionais radicais em todas as
áreas e por todo o espectro do movimento socialista.
18.2-
DAS CRISES CÍCLICAS À CRISE ESTRUTURAL
18.2.1
Como mencionado antes, a crise do capital que experimentamos hoje é
fundamentalmente uma crise estrutural. Assim, não há nada
especial em associar-se capital a crise. Pelo contrário, crises de
intensidade e duração variadas são o modo
natural
de existência do capital: são maneiras de progredir para
além de suas barreiras imediatas e, desse modo, estender com dinamismo
cruel a sua esfera de operação e dominação. Nesse
sentido, a última coisa que o capital poderia desejar seria uma
superação
permanente
de todas crises, mesmo que seus ideólogos e propagandistas
frequentemente sonhem ou ainda, reivindiquem a realização de
exactamente isso.
A novidade
histórica
da crise de hoje torna-se manifesta em quatro aspectos principais:
(1) o seu
carácter
é
universal,
em lugar de restrito a uma esfera particular (por exemplo, financeira ou
comercial, ou afectando este ou aquele ramo particular de
produção, aplicando-se a este e não àquele tipo de
trabalho, com a sua gama específica de habilidades e graus de
produtividade etc);
(2) o seu
alcance
é verdadeiramente
global
(no sentido mais literal e ameaçador do termo), em lugar de limitado a
um conjunto particular de países (como foram todas as principais crises
no passado);
(3) a sua
escala de tempo
é extensa, contínua, se se preferir,
permanente,
em lugar de limitada e cíclica, como foram todas as crises anteriores do
capital;
(4) em contraste com as
erupções e os colapsos mais espectaculares e dramáticos do
passado, o seu
modo
de se desdobrar poderia ser chamado de
rastejante,
desde que acrescentemos a ressalva de que nem sequer as convulsões mais
veementes ou violentas poderiam ser excluídas no que se refere ao
futuro: a saber, quando a complexa maquinaria agora activamente empenhada na
"administração da crise" e no "deslocamento"
mais ou menos temporário das crescentes contradições
perder a sua energia.
Seria extremamente absurdo negar que tal maquinaria existe e é poderosa,
nem se deveria excluir ou minimizar a capacidade do capital de somar novos
instrumentos ao seu já vasto arsenal de autodefesa contínua.
Não obstante, o facto de que a maquinaria existente esteja sendo posta
em jogo com frequência crescente e com eficácia decrescente
é uma medida apropriada da severidade da crise estrutural que se
aprofunda.
Aqui, temos que nos concentrar em alguns componentes da crise em andamento. Se,
no período pós-guerra, se tornou embaraçosamente antiquado
falar de crise capitalista mais um outro sinal da postura defensiva do
movimento do trabalho já mencionado isso foi devido não
apenas à operação prática bem-sucedida da
maquinaria que desloca (por difundir e por retirar a espoleta explosiva) as
próprias contradições. Foi também devido à
mistificação ideológica (do "fim da ideologia"
ao "triunfo do capitalismo" organizado e à
"integração da classe trabalhadora" etc) que
apresentou o
mecanismo de deslocamento
sob o disfarce de remédio estrutural e
solução permanente.
Naturalmente, quando já não é mais possível ocultar
as manifestações da crise, a mesma mistificação
ideológica que ontem anunciava a solução final de todos os
problemas sociais hoje atribui o seu reaparecimento a factores puramente
tecnológicos,
despejando as suas enfadonhas apologias sobre a "segunda
revolução industrial", "o colapso do trabalho", a
"revolução da informação" e os
"descontentamentos culturais da sociedade pós-industrial".
Para apreciar a novidade histórica da crise estrutural do capital,
precisamos localizá-la no contexto dos acontecimentos sociais,
económicos e políticos do século XX. Mas antes é
necessário fazer algumas observações gerais sobre os
critérios de uma crise estrutural, bem como sobre as formas nas quais
podemos imaginar a sua solução.
Em termos simples e gerais, uma crise estrutural afecta a
totalidade
de um complexo social em todas as relações com as suas partes
constituintes ou sub-complexos, como também a outros complexos aos quais
é articulada. Diferentemente, uma crise não-estrutural afecta
apenas algumas partes do complexo em questão, e assim, não
importa o grau de severidade em relação às partes
afectadas, não pode pôr em risco a sobrevivência
contínua da estrutura global.
Sendo assim, o deslocamento das contradições só é
possível enquanto a crise for parcial, relativa e interiormente
manejável pelo sistema, demandando apenas danças
mesmo que importantes
no interior
do próprio sistema relativamente autónomo. Justamente por isso,
uma crise estrutural põe em questão a própria
existência do complexo global envolvido, postulando a sua
transcendência e a sua substituição por algum complexo
alternativo.
O mesmo contraste pode ser expresso em termos dos limites que qualquer complexo
social particular venha a ter em sua imediaticidade, em qualquer momento
determinado, se comparado àqueles além dos quais não pode
concebivelmente ir. Assim, uma crise estrutural não está
relacionada com os limites
imediatos
mas com os limites
últimos
de uma estrutura global. Os limites imediatos podem ser ampliados de três
modos diferentes:
(a) modificação de
algumas partes de um complexo em questão;
(b) mudança geral de todo
o sistema ao qual os sub-complexos particulares pertencem; e
(c) alteração significativa da relação do complexo
global com outros complexos
fora dele.
Por conseguinte, quanto maior a complexidade de uma estrutura fundamental e das
relações entre ela e outras com as quais é articulada,
mais variadas e flexíveis serão as suas possibilidades objectivas
de ajuste e as suas hipóteses de sobrevivência até mesmo em
condições extremamente severas de crise. Por outras palavras,
contradições parciais e "disfunções",
ainda que severas em si mesmas, podem ser deslocadas e tornadas difusas
dentro dos
limites últimos
ou
estruturais
do sistema
e neutralizadas, assimiladas, anuladas pelas forças ou tendências
contrárias, que podem até mesmo ser transformadas em força
que activamente sustenta o sistema em questão. Daí o problema da
acomodação reformista. Todavia, tudo isso deveria ser mantido em
perspectiva, em contraste com as teorias grotescamente exageradas da
"integração da classe trabalhadora" que estavam em voga
havia não muito tempo. A integração inegável da
liderança da maioria dos partidos e sindicatos da classe trabalhadora
não deveria ser confundida com a hipostatizada
mas estruturalmente impossível
integração do trabalho como tal no sistema do capital.
Ao mesmo tempo, deve-se sublinhar que, quando as opções
múltiplas de ajuste interno começam a ser esvaziadas, nem mesmo a
"maldição da interdependência" (que tende a
paralisar as forças de oposição) pode prevenir a
desintegração estrutural final. Naturalmente, dado o
carácter intrínseco das estruturas envolvidas, é
inconcebível pensar em tal desintegração como um acto
súbito a ser seguido por uma transformação igualmente
veloz. A crise estrutural "rastejante" que, entretanto,
avança implacavelmente só pode ser entendida como um
processo contraditório de
ajustes recíprocos
(uma espécie de "guerra de atrito"),
que só pode ser concluído após um longo e doloroso
processo de
reestruturação radical
inevitavelmente ligado às suas próprias
contradições.
18.2.2
No que se refere ao mundo do capital, as manifestações da crise
estrutural podem ser identificadas nas suas várias dimensões
internas, bem como nas instituições políticas. Como
acentuou Marx repetidamente, está na natureza do capital superar as
barreiras que encontra:
A tendência a criar o mercado mundial está presente directamente
no próprio conceito do capital. Todo o limite aparece como uma barreira
a ser superada. Inicialmente, para subjugar todo o momento da
produção em si à troca e para suspender a
produção de valores de uso directo que não participam da
troca... Mas o facto de que o capital define cada um destes limites como uma
barreira e, consequentemente, avance idealmente para além dela
não significa, de modo algum, que a tenha realmente superado, e,
já que toda a barreira contradiz o seu carácter, a sua
produção move-se em contradições que são
constantemente superadas, mas da mesma maneira são constantemente
repostas. Além disso, a universalidade que persegue irresistivelmente
encontra barreiras na sua própria natureza, que, em certa fase de seu
desenvolvimento, permite que ele se reconheça como sendo, ele
próprio, a maior barreira a esta tendência, e consequentemente o
impulsionará para sua própria suspensão.
[10]
No curso do desenvolvimento histórico real, as três
dimensões fundamentais do capital
produção, consumo e
circulação/distribuição/realização
tendem a fortalecer-se e a ampliar-se por um longo tempo, provendo
também a motivação interna necessária para a sua
reprodução dinâmica recíproca em escala cada vez
mais ampliada. Desse modo, em primeiro lugar, são superadas com sucesso
as limitações
imediatas
de cada uma, graças à interacção entre elas. (Por
exemplo, a barreira imediata para a produção é
positivamente superada pela expansão do consumo e vice-versa.) Assim, os
limites parecem verdadeiramente ser meras barreiras a serem transcendidas, e as
contradições imediatas não são apenas deslocadas,
mas directamente utilizadas como alavancas para o aumento exponencial no poder
aparentemente ilimitado de auto-propulsão do capital.
Realmente, não pode haver qualquer crise
estrutural
enquanto este mecanismo vital de auto-expansão (que simultaneamente
é o mecanismo para transcender ou deslocar internamente as
contradições) continuar funcionando. Pode haver todos os tipos de
crises, de duração, frequência e severidade variadas, que
afectam directamente uma das três dimensões e
indirectamente,
até que o obstáculo seja removido, o sistema como um todo, sem,
porém, colocar em questão os
limites últimos
da estrutura global. (Por exemplo, a crise de 1929-33 foi essencialmente uma
"crise de realização", devido ao nível
absurdamente baixo de produção e consumo se comparado ao
período pós-guerra.)
Certamente, a crise estrutural não se origina por si só em alguma
região misteriosa: reside dentro e emana das três dimensões
internas acima mencionadas. Não obstante, as disfunções de
cada uma, consideradas separadamente, devem ser distinguidas da crise
fundamental do todo, que consiste no
bloqueio sistemático
das partes constituintes vitais.
É importante fazer esta distinção porque, dadas as
inter-conexões objectivas e as determinações
recíprocas em circunstâncias específicas, até mesmo
um bloqueio temporário de
um
dos canais internos pode emperrar todo o sistema com relativa facilidade,
criando desse modo a
aparência
de uma crise estrutural, quando surgem algumas estratégias voluntaristas
resultantes da percepção equivocada de um bloqueio
temporário como crise estrutural. Neste contexto vale lembrar a
avaliação fatalmente optimista de Estaline da crise do final da
década de 1920, de consequências devastadoras para as suas
políticas tanto no plano interno como no plano internacional.
18.2.3
Outra concepção equivocada a ser abandonada é a de que a
crise estrutural se refere a algumas condições
absolutas.
Não é assim. Certamente, todas a três dimensões
fundamentais do funcionamento continuado do capital têm os seus limites
absolutos que podem ser claramente identificados. (Por exemplo, os limites
absolutos da produção podem ser expressos pelos meios e materiais
de produção, os quais, por sua vez, podem ser melhor
especificados como o colapso total do suprimento das matérias-primas
fundamentais. Ainda como o colapso igualmente total não apenas a
"subutilização"
da maquinaria produtiva disponível decorrente, por exemplo, do abuso
irresponsável e inconsequente dos recursos energéticos.) Mas,
apesar de tais considerações não serem certamente
irrelevantes, elas sofrem da carência de especificidades sociais (como
testemunham muitos argumentos dos ambientalistas), que debilitam
desnecessariamente as suas próprias armas criticas ao associá-las
às expectativas do dia de um juízo final que
jamais
se materializará necessariamente.
A crise estrutural do capital
que começamos a experimentar nos anos 70 relaciona-se, na realidade, com
algo muito mais modesto que as tais condições absolutas.
Significa simplesmente que a tripla dimensão interna da
auto-expansão do capital exibe perturbações cada vez
maiores. Ela não apenas tende a romper o processo normal de crescimento
mas também pressagia uma falha na sua função vital de
deslocar as contradições acumuladas do sistema.
As dimensões internas e condições inerentes
à
auto-expansão do capital constituíram desde o início uma
unidade
contraditória,
e de modo algum não problemática, na qual uma tinha que ser
"subjugada" à outra (como Marx colocou: para "subjugar
todo o momento da produção em si à troca") de modo a
fazer funcionar o complexo global. Ao mesmo tempo, enquanto a
reprodução ampliada de cada uma pudesse continuar imperturbada
isto é, enquanto fosse possível cavar buracos cada vez
maiores
para encher com a terra assim obtida os buracos menores cavados anteriormente
, não só cada uma das dimensões internas
contraditórias poderia ser fortalecida separadamente como elas
também poderiam funcionar em uma harmonia "contra-pontual".
A situação muda
radicalmente, porém, quando os interesses de cada uma deixam de
coincidir com os das outras, até mesmo em última análise.
A partir deste momento, as perturbações e
"disfunções" antagónicas, ao invés de
serem absorvidas/dissipadas/desconcentradas e desarmadas, tendem a tornar-se
cumulativas
e, portanto,
estruturais,
trazendo com elas um perigoso bloqueio ao complexo mecanismo de
deslocamento das contradições.
Desse modo, aquilo com que nos confrontamos não é mais
simplesmente "disfuncional", mas potencialmente muito explosivo. Isto
porque o capital nunca, jamais,
resolveu
sequer a menor de suas contradições.
Nem poderia fazê-lo, na
medida em que, por sua própria natureza e constituição
inerente, o capital nelas
prospera
(até certo ponto, com relativa segurança). O seu modo normal de
lidar com contradições é intensificá-las,
transferi-las para um nível mais elevado, deslocá-las para um
plano diferente, suprimi-las quando possível, e quando elas não
puderem mais ser suprimidas exportá-las para uma esfera ou um
país diferente. É por isso que o crescente bloqueio no
deslocamento e na exportação das contradições
internas do capital é potencialmente tão perigoso e explosivo.
Desnecessário dizer que esta crise estrutural não está
confinada à esfera sócio-económica. Dadas as
determinações inevitáveis do "círculo
mágico" do capital referidas anteriormente, a profunda crise da
"sociedade civil" reverbera ruidosamente em todo o espectro das
instituições políticas. Nas condições
sócio-económicas crescentemente instáveis, são
necessárias novas "garantias políticas", muito mais
poderosas, garantias que não podem ser oferecidas pelo Estado
capitalista tal como se apresenta hoje. Assim, o desaparecimento ignominioso do
Estado do bem-estar social expressa claramente a aceitação do
facto de que
a crise estrutural de todas as instituições políticas
já vem fermentando sob a crosta da "política de
consenso" há bem mais de duas décadas. O que precisa ser
acentuado aqui é que as contradições subjacentes de modo
algum se dissipam na crise das instituições
políticas;
ao contrário, afectam toda a sociedade de um modo nunca antes
experimentado. Realmente, a crise estrutural do capital revela-se como uma
verdadeira
crise de dominação
em geral.
Quem acha que isto soa muito dramático deveria olhar à sua volta,
em todas as direcções. É possível encontrar
qualquer esfera de actividade ou qualquer conjunto de relações
humanas não afectado pela crise? Há cento e quarenta anos
atrás, Marx ainda podia falar sobre "a grande influência
civilizadora do capital", sublinhando que, por meio dela,
pela primeira vez, a natureza se torna puramente um objecto para a humanidade,
puramente uma questão de utilidade; cessa de ser reconhecida como um
poder em si mesma; e descoberta teórica de suas leis autónomas
aparece apenas como um ardil para submetê-la às necessidades
humanas, como um objecto de consumo ou como meio de produção. De
acordo com esta tendência, o capital ultrapassa as barreiras e os
preconceitos nacionais, a adoração da natureza, assim como
também todas as satisfações tradicionais, limitadas,
complacentes embutidas, das necessidades presentes e as
reproduções dos velhos modos devida.
[11]
E para onde tudo isto conduz? O capital não pode ter outro objectivo que
não a sua própria auto-reprodução, à qual
tudo, da natureza a todas as necessidade e aspirações humanas,
deve subordinar-se absolutamente.
Assim, a influência civilizadora encontra o seu fim devastador no momento
em que a implacável lógica interna da
auto-reprodução
ampliada do capital encontra obstáculo nas necessidades humanas. Em
1981, o orçamento militar nos Estados Unidos chegou aos 300 mil
milhões de dólares, (e quem sabe quanto mais além disso,
sob vários outros disfarces orçamentais), e isso desafia a
compreensão humana. Ao mesmo tempo, os serviços sociais mais
elementares são submetidos a duros testes: uma medida verdadeira do
"trabalho civilizador" do capital hoje. Contudo, mesmo tais somas e
cortes estão muito longe de serem suficientes para permitir ao capital
seguir imperturbável o seu caminho: uma das provas mais evidentes da
crise de dominação.
A devastação sistemática da natureza e a
acumulação continua do poder de destruição
para as quais se destina globalmente uma quantia superior a um
milhão de milhões de
dólares por ano indicam o lado material amedrontador da
lógica absurda do desenvolvimento do capital. Ao mesmo tempo, ocorre a
negação completa das necessidades elementares de
incontáveis milhões de famintos: o lado esquecido e que sofre
consequências dos milhões de milhões desperdiçados.
O lado humano paralisante deste desenvolvimento é visível
não só na obscenidade do "subdesenvolvimento"
forçado,
mas em toda a parte, inclusive na maioria dos países de capitalismo
avançado.
O sistema de dominação existente está em crise porque a
sua
raison d'être
e a sua justificação históricas desapareceram, e já
não podem mais ser reinventadas, por maior que seja a
manipulação ou a pura repressão. Desse modo, ao manter
milhões excluídos e famintos, quando os milhões de
milhões
desperdiçados poderiam alimentá-los mais de
cinquenta vezes,
põe o absurdo desse sistema de dominação em perspectiva.
O mesmo é verdade para tantas outras grandes questões humanas que
começaram a mobilizar as pessoas há relativamente pouco tempo.
Durante décadas, a literatura sociológica produziu
simpáticos contos de fadas sobre o "conflito de
gerações" (que, no verdadeiro espírito do "fim
da ideologia", tentou transformar os graves sinais das
contradições de classe em nobres vicissitudes de
gerações intemporais); agora eles têm realmente sobre o que
escrever. No entanto, os esquemas pré-fabricados de
mistificação psico-sociológica não se ajustam ao
quadro real. Isso porque o assim chamado conflito de gerações, no
momento em que foi apologeticamente circunscrito, já estava solucionado,
na medida em que toda a "rebelião da juventude"
evoluía, no devido tempo, para a maturidade sensata dos pagamentos da
hipoteca e da acumulação de uma poupança para a velhice,
de modo a garantir uma existência cómoda até à
sepultura, e mesmo para além dela, pela reprodução eterna
das novas "gerações" do capital. Quaisquer que fossem
as dificuldades apresentadas pela natureza
e a noção de "geração" supostamente
deveria ser simplesmente uma categoria da natureza
, a auto-tranquilização vinha da ideia de que o capital,
graças a Deus, seria, como de costume, a solução.
Porém, a verdade tornou-se o exacto oposto, já que o capital
não apenas não soluciona como ainda
gera
o conflito real de gerações em escala sempre crescente. Em todo o
país capitalista importante, nega-se oportunidade do trabalho para
milhões de homens, obliterando sem cerimónia a lembrança
não tão antiga das diferenças com a cultura jovem",
ao mesmo tempo em que espreme até a última gota de lucro das
sobras de tal cultura. Ao mesmo tempo, alguns milhões de pessoas mais
velhas são forçadas a juntar-se às filas de
doações aos necessitados, enquanto muitos milhões a mais
estão sob a imensa pressão de uma "reforma prematura da qual
a secção mais dinâmica do capital contemporâneo
o capital financeiro
pode sugar durante algum tempo ainda um pouco mais de lucro. Assim, o grupo
etário da "geração útil" está
encolhendo para uma faixa entre 25 e 50 anos, opondo-se
objectivamente
às "gerações indesejadas", condenadas pelo
capital à inactividade obrigada e à perda da sua humanidade. E,
então, já que agora a geração intermediária
é comprimida entre "jovens
e
"velhos inúteis"
até que ela própria se torne supérflua quando assim
determinar o capital até mesmo os planos temporais destas
contradições se tornam absolutamente confusos.
Tipicamente, as soluções propostas nem sequer arranham a
superfície do problema, sublinhando, novamente, que estamos à
frente de uma contradição interna insolúvel do
próprio capital. O que está realmente em jogo é o papel do
trabalho no universo do capital, uma vez que se tenha alcançado um
nível muito alto de produtividade. Para resolver as
contradições assim geradas, seria necessária uma
importante reviravolta, que afectasse não apenas as próprias
condições imediatas de trabalho, mas também todas as
facetas da vida social, inclusive as mais íntimas. O capital, ao
contrário, pode produzir somente as condições materiais
necessárias para o desenvolvimento do indivíduo social
autónomo, de modo a negá-las imediatamente. Também as nega
materialmente quando ocorrem crises económicas, bem como política
e culturalmente quando é do interesse de sua própria e
contínua sobrevivência como estrutura final de
dominação.
Considerando que o capital só pode funcionar por meio de
contradições, ele tanto cria como destrói a
família; produz a geração jovem economicamente
independente com a sua "cultura jovem" e arruína-a; gera as
condições de uma velhice potencialmente confortável, com
reservas sociais adequadas, para sacrificá-las aos interesses de sua
infernal maquinaria de guerra. Seres humanos são, ao mesmo tempo,
absolutamente necessários e totalmente supérfluos para o capital.
Se não fosse pelo facto de que o capital necessita do trabalho vivo para
a sua auto-reprodução ampliada, o pesadelo do holocausto da bomba
de neutrões certamente se tornaria realidade. Mas, já que tal
"solução final" é negada ao capital, somos
confrontados com as consequências desumanizadoras das suas
contradições e com a crise crescente do sistema de
dominação.
É possível que tal desumanização não seja
tão óbvia quanto a que se reflecte na luta cada vez mais intensa
pela libertação das mulheres. Foram irreparavelmente
destruídos os fundamentos económicos da antiga
justificação histórica da opressão das mulheres, e
o próprio avanço produtivo do capital desempenhou aí um
papel central. Mas, novamente, podemos perceber as contradições
inerentes. Em um sentido para seus próprios propósitos
o capital ajuda a liberar as mulheres para melhor poder
explorá-las como membros de uma força de trabalho muito mais
variada e convenientemente "flexível". Ao mesmo tempo, precisa
manter a sua subordinação social noutro plano para a
reprodução sem problemas da força de trabalho e para a
perpetuação da estrutura familiar predominante
a fim de salvaguardar a sua própria dominação como
senhor absoluto do próprio sócio-metabolismo.
Assim, evidencia-se claramente que os sucessos parciais podem se evaporar de um
momento para o outro
as mulheres estão entre as primeiras a serem forçados ao
desemprego ou a empregos parciais miseravelmente remunerados já
que os interesses
globais
do capital predominam sobre os mais limitados. Dado o facto de que a
questão real é o sistema existente de dominação e
que os sucessos significativos da liberação feminina
obrigatoriamente abrem nele profundas brechas, minando a sua viabilidade,
qualquer coisa que não possa ser mantida estritamente dentro de limites
fixados pela busca de lucro deve ser reprimida. Ao mesmo tempo, o importante
envolvimento do capital na destruição de toda a
justificação económica da opressão das mulheres
torna impossível solucionar este problema por meio de um mecanismo
económico.
(Na realidade, puramente em termos económicos, o equilíbrio
aponta frequentemente na direcção oposta, contribuindo assim para
o aguçamento desta contradição.)
Uma vez que a família é o verdadeiro microcosmos da sociedade
cumprindo, além de suas funções imediatas, a
necessidade
de assegurar a continuidade da propriedade,
à
qual se acrescenta o seu papel como a unidade básica de
distribuição e a sua capacidade de agir como a "correia de
transmissão" da estrutura de valor predominante na sociedade
a causa da liberação das mulheres afecta directa ou
indirectamente a totalidade das relações sociais em toda a sua
fragilidade.
Neste particular, o aparente impasse actual, sob a pressão imediata da
crise económica, é bastante enganador. Isso porque, considerando
o facto de uma perspectiva de tempo mais longa, podemos observar uma
mudança dramática, na medida em que a família de
três
gerações que tínhamos antes da última guerra se
transformou efectivamente agora numa família de
uma geração:
com todas as suas consequências altamente benéficas para a
expansão da economia de consumo.
Mas nem mesmo isso é mais suficiente. Daí as pressões
contraditórias por mudanças adicionais ainda que, na
realidade, se tenham esgotado as possibilidades de tais mudanças
enquanto se mantiver a actual estrutura familiar assim como
pressões igualmente fortes para, no sentido oposto, restabelecer os
velhos "valores da família" patriarcal, no interesse da
sobrevivência continuada do capital. São a presença e a
intensidade simultâneas de forças que pressionam irresistivelmente
em direcções opostas que fazem da actual crise estrutural do
capital uma verdadeira crise de dominação.
18.2.4
Em comparação com tudo isso, a crise de 1929-33 evidentemente foi
de um tipo muito diferente. Por mais severa e prolongada que tenha sido, ela
afectou um número limitado de dimensões complexas e de mecanismos
de autodefesa do capital, conforme o estado relativamente subdesenvolvido das
suas potencialidades globais na ocasião. Mas, antes que essas
potencialidades pudessem ser desenvolvidas completamente, alguns importantes
anacronismos políticos precisaram de ser eliminados, o que se percebeu
durante a crise com brutal clareza e implicações de longo alcance.
Ao estourar a crise em 1929, o capital havia alcançado as fases finais
de sua transição da "totalidade extensiva" para a
incansável descoberta e exploração dos territórios
escondidos da "totalidade intensiva", como resultado do grande
impulso produtivo recebido durante a Primeira Guerra Mundial e durante o
período de
reconstrução do pós-guerra. Embora os diferentes
países tenham sido afectados de formas diferentes (dependendo do grau
relativo de desenvolvimento do capital e da sua situação como
vencedores ou perdedores), as novas contradições emergiram
essencialmente porque os avanços produtivos qualitativos do
período já não podiam ser contidos nos limites das
relações de poder historicamente antiquadas da "totalidade
extensiva" predominante.
No final da década de 1870, Marx já havia observado que o capital
nos Estados Unidos representava de longe a força mais dinâmica do
sistema global: uma verdade que se tornou ainda mais evidente meio
século depois, na década de 1920. Mas, apesar do papel vital que
o capital americano desempenhou para se vencer a guerra, o
status quo
político da dominação global ainda em vigor (estabelecido
muito tempo antes) condenava-o a ser quase um segundo violino do imperialismo
britânico: anacronismo que, obviamente, não pôde ser
tolerado indefinidamente.
Não surpreendentemente, portanto, o imperativo de um novo início
cristalizou-se durante a "Grande Crise Mundial". As pressões
devastadoras dessa crise aparentemente sem fim tornaram abundantemente claro
que o capital dos Estados Unidos tinha que remodelar todo o mundo do capital
à sua própria imagem, mais dinâmica, e que não havia
outra alternativa, caso se quisesse superar não somente as
condições criticas imediatas, mas também a perspectiva de
uma depressão crónica. Por isso, sob a intensa retórica do
Discurso Inaugural de Roosevelt em 1933, a mensagem realmente significativa foi
a perspectiva radicalmente nova do colonialismo
neo-capitalista
sob a hegemonia americana. Nele se previram, não apenas as
frustrações de Churchill durante a guerra como os acordos de
Yalta, mas também, e acima de tudo, previu-se a absorção,
para todos os fins e propósitos, dos impérios britânico e
francês pelos interesses mais altos da "totalidade intensiva"
do capital e a relegação das modalidades historicamente velhas de
imperialismo e colonialismo à segunda divisão, o lugar que
efectivamente lhes cabia.
A mitologia liberal gosta de se lembrar de Roosevelt como "homem do
povo" e defensor incansável do "New Deal". Na verdade,
porém, a sua reivindicação de fama histórica
duradoura, mesmo que duvidosa, apoia-se no facto de ter sido um representante
de visão ampla do dinamismo recém-encontrado do capital, em
virtude do seu papel pioneiro de elaborar a estratégia global e de
habilmente lançar as fundações práticas do
neo-colonialismo.
Isto significou um ataque em duas frentes para a construção de
uma nova orientação verdadeiramente
global.
Como o imperativo de um novo início havia surgido com base no grande
avanço produtivo e na crise criada por sua interrupção, a
nova estratégia envolveu, em relação a seus termos de
referência domésticos, a exploração plena de todos
os territórios ocultos do "colonialismo interno": daí o
"New Deal" e o desenvolvimento em bases mais seguras de uma economia
de consumo em expansão. Ao mesmo tempo, a necessidade de assegurar e
necessariamente proteger a expansão contínua da base
económica doméstica implicou a remoção cruel de
todas as "barreiras artificiais" do colonialismo passado (e do
capitalismo proteccionista subdesenvolvido correspondente).
Esta estratégia neocolonialista de conquistar a "totalidade
intensiva" representava também uma concepção
verdadeiramente
global
ao tentar acertar as contas com a União Soviética, não
só em seu próprio interesse, mas para estar em melhor
posição para controlar os movimentos anti-coloniais que emergiam.
Naturalmente, esperava-se que tudo isso tivesse sucesso sob a
inquestionável hegemonia do capital dos Estados Unidos, que mais tarde
propagandearia, com típica vulgaridade, sua arrogante
autoconfiança ao insistir que o século XX era "o
século americano". E, claro, devido ao dinamismo inerente à
forma historicamente mais
avançada de capital, a "nova ordem mundial" (e sua "nova
ordem económica") supostamente deveria surgir e permanecer connosco
para sempre pela acção de forças e
determinações puramente
económicas:
assim afirmava a retórica, desde o primeiro Discurso Inaugural de
Roosevelt até ao "fim da ideologia".
Contudo, os factos expressaram-se de modo totalmente diferente, na medida em
que puseram amargamente em relevo uma das maiores ironias da história,
qual seja: embora houvesse um dinamismo económico incomparável e
um novo avanço produtivo de proporções potencialmente
enormes nas raízes da estratégia rooseveltiana original, sua
implementação real
longe de se satisfazer com mecanismos
económicos
tal como ocorre ainda hoje com o persistente mito da
"modernização" exigiu, para sua
"descolagem", a guerra mais devastadora conhecida pelos homens, a
Segunda Guerra Mundial, para não mencionar o aparecimento e a
dominação do "complexo industrial-militar" no seu
"percurso até a maturidade".
Se o capital americano teve muito mais que a simples iniciativa de todos estes
envolvimentos
que ele na verdade dominou completamente do início ao fim, assegurando
para si uma posição de vantagem esmagadora pela qual pode
contabilizar enormes défices orçamentais pagos pelo resto do
mundo ,
eles afectaram e beneficiaram o "capital social total"
(constituído como uma entidade global) no seu pulso para a
auto-expansão e a dominação.
Com certeza, vários componentes nacionais da totalidade do capital
sofreram derrotas imediatas humilhantes, mas só para se levantarem mais
fortes das cinzas da desintegração temporária. Neste
particular, os "milagres" alemão e japonês falam por si
mesmos. Em outros casos, principalmente o do capital britânico, o pacto
foi muito mais complicado, por uma variedade de razões, que se referem
principalmente à luta de retaguarda contra a dissolução do
Império britânico. Mas, mesmo nesses casos, não resta
dúvida de que, no final, um grau não desprezível de
reestruturação dinâmica ocorreu sob o desafio americano.
Os resultados globais destas transformações foram uma
significativa
racionalização do capital global
e o estabelecimento de uma estrutura de relações financeiras e
económicas com o Estado que foi, em geral, muito mais adequada ao
deslocamento de muitas contradições do que a estrutura
anteriormente existente.
18.2.5
Assim, a crise de 1929-33 não foi de modo algum uma crise estrutural do
capital na formação global. Pelo contrário, forneceu o
estímulo e pressão necessários para o re-alinhamento das
suas várias forças constituintes, conforme as
relações de poder objectivamente alteradas, muito contribuindo,
desse modo, para o desenvolvimento das tremendas potencialidades do capital
inerentes à sua "totalidade intensiva".
Externamente
isto significou:
(1) uma mudança
dramática do imperialismo multi-centrado, ultrapassado, militar e
político perdulariamente intervencionista para um sistema de
dominação global que, sob a hegemonia norte-americana, se torna
muito mais dinâmico e economicamente muito mais viável e integrado;
(2) o estabelecimento do Sistema
Monetário Internacional e de vários outros órgãos
importantes de regulamentação das relações
inter-capitais incomparavelmente mais racionais do que havia à
disposição da estrutura multi-centrada;
(3) a exportação
de capital em grande escala (e com ela a perpetuação mais
efectiva da dependência e do 'subdesenvolvimento" imposto) e o
repatriamento seguro, em escala astronómica, de taxas de lucro
totalmente inimagináveis nos países de origem; e
(4) a incorporação
relativa, em graus variados, das economias de todas as sociedades
pós-capitalistas na estrutura de intercâmbios capitalistas.
Por outro lado,
internarmente,
a história de sucesso do capital poderia ser descrita em termos de:
(1) uso de várias modalidades de
intervenção estatal para a expansão do capital privado;
(2) transferência de
indústrias privadas falidas, mas essenciais, para o sector
público, e a sua utilização para novamente apoiar,
através dos fundos estatais, as operações do capital
privado, para serem novamente transformadas em monopólios ou
quase-monopólios privados depois de se terem tornado mais uma vez
altamente lucrativas pela injecção de fundos volumosos
financiados pela tributação geral;
(3) desenvolvimento e
operação bem sucedidos de uma economia de "pleno
emprego" durante a guerra e por um período considerável
depois dela;
(4) larga abertura de novos
mercados e ramos de produção no plano da "economia de
consumo" fortemente distendida, junto com o sucesso do capital em gerar e
sustentar padrões extremamente perdulários de consumo,
força motivadora vital de tal economia; e
(5) para coroar tudo isso, tanto
no porte de seu peso económico como na sua significação
política, estabelecimento de um imenso "complexo
industrial/militar" como controlador e beneficiário directo da
fracção mais importante da intervenção estatal: com
isso, simultaneamente, o isolamento de bem mais de um terço da economia
das desconfortáveis flutuações e incertezas do mercado.
Apesar de o valor intrínseco de todas estas realizações
ser extremamente problemático (para dizer o mínimo), não
pode haver dúvida quanto ao significado da auto-expansão
dinâmica do capital e sua contínua sobrevivência.
Precisamente por causa da sua importância central nos desenvolvimentos
capitalistas do século XX, a severidade da crise estrutural de hoje
é fortemente realçada pelo facto de várias das
características mencionadas acima já não serem mais
verdades, e de as tendências subjacentes apontarem na
direcção da sua completa reversão: a tendência a um
novo policentrismo (pense-se no Japão e na Alemanha, por exemplo), com
consequências potencialmente incalculáveis, a um persistente
desemprego de massa (e suas implicações óbvias para a
economia de consumo) e à desintegração ameaçadora
do tema monetário internacional e seus corolários. Seria tolice
considerar permanentes as posições poderosamente fortificadas do
complexo industrial-militar e sua capacidade de extrair e alocar para si mesmo,
imperturbado, o excedente necessário para seu funcionamento
contínuo na escala actual, ainda astronómica.
Algumas pessoas argumentam que, assim como conseguiu resolver os seus problemas
no passado, o capital o fará indefinidamente também no futuro.
Poderiam acrescentar que, se a crise de 1929-33 impôs ao capital
mudanças dramáticas, que vimos testemunhando desde então,
a crise estrutural actual deverá produzir remédios duradouros e
soluções permanentes. O problema deste raciocínio é
que ele não conta com absolutamente nada para respaldar o
sonho inviável
de perseguir a "linha de menor resistência" quando isso
não mais é possível.
Embora seja vazio e perigoso argumentar a partir de meras analogias com o
passado, torna-se auto-contraditório fazê-lo quando o assunto em
questão é precisamente a crise estrutural e o colapso de alguns
mecanismos e determinações até agora vitais, que se
manifestam sob a forma da própria crise de controlo e
dominação estabelecida. Podem-se especificar as
condições para uma solução da crise actual, como
veremos mais adiante. Portanto, a menos que se possa demonstrar que as
tendências contemporâneas de desenvolvimento do capital podem
realmente satisfazer estas condições, toda a conversa sobre a sua
capacidade intrínseca de sempre resolver os seus problemas será
apenas um "assobiar no escuro" para afugentar o medo.
Outra linha de argumentação insiste que o capital tem à
sua disposição uma imensa força repressiva que pode usar
livremente, tanto quanto quiser, na resolução dos seus crescentes
problemas. Embora haja certas restrições
algumas até importantes
ao uso real, e potencial, de força bruta pelo capital, é
inquestionável que a capacidade de destruição e
repressão acumuladas é assustadora, e continua a multiplicar-se.
Mesmo assim, mantém-se a verdade de que nada se resolve, nem jamais foi
resolvido, apenas pela força. Lendas em contrário
relativas ao nazismo e ao estalinismo, por exemplo
são frequentemente usadas para justificar a cumplicidade mais ou menos
activa de sectores importantes da população supostamente
impotentes.
Além disso, há uma consideração ainda mais
importante que se refere às características inerentes ao
próprio capital. O capital é uma força extremamente
eficiente para mobilizar os complexos recursos produtivos de uma sociedade
muito fragmentada. Não importa ao capital em quantas partes: o seu
grande recurso é precisamente a capacidade de lidar com a
fragmentação. Porém, o capital definitivamente não
é um sistema de
emergência
unificadora, nem poderia sê-lo a longo prazo, devido à sua
própria constituição interna. Não é de modo
algum acidental que formações estatais como as fascistas
só sejam viáveis hoje na periferia do sistema do capital global,
subordinadas a algum centro "metropolitano" liberal
democrático e dele dependentes.
Assim, por maior que seja o êxito temporário das tentativas
autoritárias de "punho de ferro" em atrasar ou adiar o
"momento da verdade"
e as probabilidades de tais êxitos a curto prazo não devem ser
subestimadas num prazo mais longo elas podem somente agravar a crise. Os
problemas estruturais descritos acima equivalem a um importante entrave no
sistema global de produção e distribuição. Dada a
sua condição de entrave, exigem remédios estruturais
adequados, e não a sua multiplicação através de
adiamentos forçados e de repressão. Por outras palavras, estes
problemas requerem uma intervenção positiva no próprio
processo produtivo problemático para enfrentar as suas
contradições perigosamente crescentes, para removê-los
à medida que o permita o ritmo da reestruturação real.
Contra isto, é absurdo sugerir a possibilidade de o capital recorrer,
enquanto isto ainda é possível, à dominação
por meio de um estado de
emergência
completamente instável, portanto necessariamente
efémero
como condição
permanente
de sua
normalidade
futura.
18.2.6
As condições para administrar a crise estrutural do capital
estão directamente articuladas a algumas importantes
contradições que afectam tanto os problemas internos dos
vários sistemas envolvidos como as relações entre eles.
Resumidamente, tais problemas seriam:
(1) As
contradições socio-económicas internas do capital
"avançado" que se manifestam no desenvolvimento cada vez mais
desequilibrado sob o controlo directo ou indirecto do "complexo
industrial-militar" e do sistema de corporações
transnacionais;
(2) As contradições sociais, económicas
e políticas das
sociedades pós-capitalistas, tanto isoladamente como na sua
relação com as demais, que conduzem à sua
desintegração e, desse modo, à
intensificação da crise estrutural do sistema global do capital;
(3) As rivalidades,
tensões e contradições crescentes entre os países
capitalistas mais importantes, tanto no
interior
dos vários sistemas regionais como
entre
eles, colocando enorme tensão na estrutura institucional estabelecida
(da Comunidade Europeia ao Sistema Monetário Internacional) e fazendo
prever o espectro de uma devastadora guerra comercial;
(4) As dificuldades crescentes
para manter o sistema neo-colonial de dominação (do Irão
à África, do Sudeste Asiático à Ásia
Oriental, da América Central à do Sul), ao lado das
contradições geradas dentro dos países
"metropolitanos" pelas unidades de produção
estabelecidas e administradas por capitais "expatriados".
Como podemos ver, em todas as quatro categorias
cada uma das quais corresponde a uma multiplicidade de
contradições a tendência é para a
intensificação, e não para a diminuição, dos
antagonismos existentes. Além disso, a severidade da crise é
acentuada pelo efectivo confinamento da intervenção à
esfera dos
efeitos,
tornando proibitivo atacar as suas
causas,
graças à "circularidade" do capital, mencionada acima,
entre Estado político e sociedade civil, por meio da qual as
relações de poder estabelecidas tendem a reproduzir-se em todas
as suas transformações superficiais.
Dois exemplos importantes ilustram conclusivamente esse facto. O primeiro
refere-se ao complexo industrial-militar, o segundo à crónica
insolubilidade dos problemas do "subdesenvolvimento".
Há muita esperança de criação de recursos para uma
expansão económica positiva e viável por meio da
re-alocação de uma parte importante da despesa militar para
medidas e propósitos sociais há muito imprescindíveis.
Porém, a frustração permanente dessas esperanças
resulta tanto do imenso peso económico e do evidente poder estatal do
complexo industrial-militar como do facto de que este complexo é antes
manifestação e efeito do que causa das profundas
contradições estruturais do capital "avançado".
Naturalmente, uma vez que exista, continua
também
a funcionar como uma causa contribuinte tanto maior quanto maior o seu
poder económico e político mas não como a causa que
as produz. Do ponto de vista do capital contemporâneo, se o complexo
industrial-militar não existisse, teria de ser inventado. (Como
mencionado antes, de certo modo o capital simplesmente
"tropeçou" nesta solução durante a guerra,
depois da tentativa um tanto ingénua de Roosevelt de
reculer pour mieux sauter
da plataforma do
New Deal,
que de facto resultou num avanço muito pequeno no meio de uma
depressão que não se abateu.)
O complexo industrial-militar cumpre com grande eficiência duas
funções vitais deslocando temporariamente duas poderosas
contradições do capital "super-desenvolvido".
A primeira, mencionada há pouco, é a transferência de uma
porção significativa da economia das incontroláveis e
traiçoeiras forças do mercado para as águas seguras do
altamente lucrativo financiamento estatal. Ao mesmo tempo mantém intacta
a mitologia da empresa privada economicamente superior e
eficiente nos custos
graças à absolvição
a priori
do desperdício
total
e da
falência estrutural
pela ideologia de fervor patriótico.
A segunda função não é menos importante: deslocar
as contradições devidas
à taxa decrescente de utilização
[15]
que se evidenciaram dramaticamente durante as últimas décadas de
desenvolvimento nos países de capitalismo avançado.
É por isso que, enquanto não se encontrar uma alternativa
estrutural para lidar com os fundamentos causais das contradições
aqui mencionadas e que foram deslocadas com sucesso, a esperança de uma
simples re-alocação dos recursos prodigiosos, agora investidos no
complexo industrial-militar, fatalmente será anulada pelas
determinações causais prevalecentes.
O mesmo é verdade para os problemas insolúveis do
"subdesenvolvimento" forçado. Naturalmente, seria adequado que
o "capital esclarecido"
uma verdadeira contradição em termos
estendesse a sua esfera de operação a todos os poros da sociedade
"subdesenvolvida", activando plenamente os seus recursos materiais e
humanos no interesse de sua auto-expansão renovada. Daí os
esforços das
Comissões Brandt
e de iniciativas semelhantes que conseguem expressar um grande número de
verdades parciais enquanto deixam de perceber a verdade global: o mundo
"subdesenvolvido"
já
está completamente integrado no mundo do capital, e cumpre nele
várias funções vitais. Assim, podemos novamente ver uma
tentativa de aliviar os
efeitos
do modo dominante de integração deixando intactas as suas
determinações causais.
Tais propostas irreais ignoram sistematicamente que é absolutamente
impossível manter os pés nas duas canoas: manter a
existência do sistema de produção absurdamente ampliado e
"super-desenvolvido" do capital "avançado" (o qual
depende necessariamente da continuação da dominação
de um "vasto território" de subdesenvolvimento forçado)
e, ao mesmo tempo, impelir o "Terceiro Mundo" a um alto nível
de desenvolvimento capitalista (que apenas poderia reproduzir as
contradições do capital ocidental "avançado",
multiplicadas pelo imenso tamanho da população envolvida).
Os actuais gerentes do capital conhecem muito mais do que de facto aparentam
tal como o fizeram os próprios Edward Heath e Willie Brandt,
quando ainda chefiavam os seus respectivos governos
e desconsideram esses relatórios com o "realismo
cínico que
corresponde directamente à agressiva reafirmação dos
interesses norte-americanos dominantes:
O secretário de Estado dos Estados Unidos disse hoje não ser
realista falar de uma grande transferência de recursos dos países
desenvolvidos para os países em desenvolvimento. A ênfase de Mr.
Haig era utilizar as forças convencionais de mercado [sic!] para aliviar
o sofrimento dos países mais pobres. Deveria haver "um sistema
comercial mais aberto com regras melhoradas". A ajuda estrangeira deveria
ser associada a "uma política nacional e um esforço
próprio sensatos". Na visão dos Estados Unidos isto
significa confiar em incentivos económicos e na liberdade individual.
"A supressão de incentivos económicos acaba por suprimir o
entusiasmo e a criatividade... Os governos que mais favoreceram as liberdades
de seus povos também tiveram mais êxito em assegurar tanto a
liberdade como a prosperidade.
[13]
É realmente uma suprema ironia ouvir um representante
paradigmático do complexo industrial-militar repressor cantar as
virtudes infinitas das "forças de mercado convencionais" e da
"liberdade individual". Infelizmente, porém, esta é
também a indicação de que não há
esperanças de melhorias na esfera dos efeitos, enquanto se permitir que
os determinantes causais do mundo real do capital sigam o seu curso
estabelecido, o qual reproduz
estruturalmente
os mesmos efeitos com gravidade cada vez maior e em escala sempre crescente.
Se a condição para solucionar a crise estrutural estiver amarrada
à solução dos quatro conjuntos de
contradições mencionadas acima, do ponto de vista da
contínua expansão global e da dominação do capital,
a perspectiva de um resultado positivo está longe de ser promissora.
Pois é muito remota a possibilidade de sucesso até mesmo dos
objectivos relativamente limitados, para não mencionar a
solução duradoura das contradições de todas as
quatro categorias em conjunto. O mais provável é, ao
contrário, continuarmos afundando cada vez mais na crise estrutural,
mesmo que ocorram alguns sucessos conjunturais, como aqueles resultantes de uma
relativa "reversão positiva", no devido tempo, de
determinantes meramente
cíclicos
da crise actual do capital.
18.3-
A PLURALIDADE DE CAPITAIS E O SIGNIFICADO DO PLURALISMO SOCIALISTA
18.3.1
Reflectindo sobre os debates do Programa de Gotha, Engels fez sarcasticamente
um comentário sobre o que considerou a influência
deplorável de Wilhelm Liebknecht, o autor principal do Programa:
"Da democracia burguesa ele trouxe e teve uma verdadeira
mania de unificação
[14]
. Dezasseis anos antes, quando do planeado Congresso da Unidade, Marx fez uma
observação semelhante sobre a questão da
unificação, entretanto sem referências pessoais. Ele
reconheceu que "o facto da unificação traz
satisfação aos trabalhadores", mas na mesma sentença
sublinhou que "é um engano acreditar que este sucesso
momentâneo não será comprado a um preço muito alto
[15]
.
É importante lembrar esta atitude céptica para com a
"unidade" e a "unificação" para pôr em
perspectiva a recente defesa do pluralismo. Seria absolutamente incorrecto
tratar deste problema como algo resultante de considerações
puramente tácticas ou dos limites práticos de uma
relação desfavorável de forças que já
não permite a adopção de políticas socialistas
consistentes mas segue, ao contrário, uma estratégia de
complicados compromissos.
Outra dimensão desta problemática é que por muitos anos o
movimento da classe trabalhadora esteve sujeito a pressões de
inspiração estalinista que tentaram impor a "unidade"
para, no interesse do "Partido Líder", suprimir
automaticamente a crítica. Aqueles que se auto-designavam porta-vozes de
tal "unidade" nunca se deram ao trabalho de definir os objectivos
socialistas tangíveis do
Gleichschaltung
(isto é, forçar num molde) organizacional que defendiam, nem de
avaliar
as condições objectivas para formular estratégias
socialistas coordenadas, junto com as imensas dificuldades para a sua
realização.
Há algumas razões muito fortes para que Marx e Engels
considerassem "unidade" e "unificação"
conceitos bastante problemáticos: as divisões e
contradições objectivas existentes nos vários componentes
do movimento socialista. Devido às suas complexas
ramificações internas e internacionais, tais divisões e
contradições simplesmente não poderiam ser removidas por
desejo nem por decreto; menos ainda do que o sonho da Convenção
Francesa do século XVIII de abolir o pauperismo. Não foi
necessário esperar pela erupção do conflito
sino-soviético e pela guerra entre a China e o Vietname para perceber
que a simples proposta ou enunciado da "unidade das forças
socialistas" não traz contribuição alguma para
remover os seus problemas, desigualdades e antagonismos. A tarefa de
desenvolver uma força suficientemente grande para desafiar com sucesso a
força do capital em seu próprio terreno implicou, desde o
início, a necessidade de construir sobre determinadas
fundações, as quais mostram uma grande diversidade e conflito de
interesses, herdadas através da divisão social do trabalho e
pelas taxas de exploração diferenciais há muito dominantes.
Já que o problema era como constituir uma consciência de
massa
socialista com base nas fundações disponíveis,
envolvendo-se simultaneamente nos confrontos inevitáveis para a
realização das finalidades e objectivos
limitados,
tornou-se essencial encontrar uma maneira de preservar a integridade das
perspectivas
últimas
sem perder contacto com as demandas, determinações e
potencialidades
imediatas
das condições historicamente determinadas. Para Bakunin e outros
anarquistas, este problema não existia (assim como não preocupou
a todas as espécies de voluntarismo subsequentes), já que eles
não estavam interessados na produção de uma
consciência de massa socialista. Eles simplesmente admitiam a
convergência espontânea da "consciência instintiva das
massas populares" com as suas próprias visões e
estratégias.
Marx, em contraste, concebeu a questão organizacional como:
(1) permanecer fiel aos
princípios
socialistas, e
(2) desenhar
programas de acção
viáveis e flexíveis para as várias forças que
compartilham os amplos objectivos comuns da luta.
Foi assim que ele resumiu na última carta citada a sua visão do
Congresso da Unidade:
Os líderes lassalleanos vieram porque as circunstâncias os
forçaram a vir. Se lhes tivessem dito com antecedência que
não haveria
nenhuma barganha sobre princípios,
eles teriam que se contentar com um
programa de açção
ou um plano de organização para a acção comum. Em
vez disso, alguém lhes permite chegar armados com mandatos, reconhece
estes mandatos como válidos, e assim
se rende
incondicionalmente àqueles que precisam de ajuda.
Independente das circunstâncias específicas do Congresso de Gotha,
o "alto preço" mencionado por Marx estava relacionado com as
concessões em torno de
princípios
com vista a uma unidade ilusória, e não à possível
e necessária
acção comum.
Assim como naqueles dias, mais uma vez este é um assunto de suprema
importância. Pois hoje
talvez mais que nunca, em vista das experiências amargas do passado
recente, e do não tão recente
não é mais possível conceber as formas
imprescindíveis de
acção comum
sem uma articulação estratégica consciente de um
pluralismo socialista
que não só reconhece as diferenças existentes, mas
também a necessidade de uma adequada "divisão do
trabalho" na estrutura geral de uma ofensiva socialista. Em
oposição à falsa identificação da
"unidade" como o único meio de patrocinar
princípios
socialistas (enquanto, na realidade, a perseguição irreal e a
imposição de unidade trouxeram com elas as necessárias
concessões sobre princípios),
permanece válida a regra de Marx: não pode haver
barganha sobre princípios.
Mas o reverso desta regra é igualmente válido, qual seja: a
condição elementar para se realizar os princípios de uma
transformação socialista (que, afinal de contas, envolve a
totalidade dos "produtores associados" no empreendimento comum de
mudar "de alto a baixo as condições da sua existência
industrial e política e, por conseguinte, toda a sua maneira de
ser") é a produção de uma
consciência de massa
socialista na única forma possível de
acção comum
que se auto-desenvolve. E a última, claro, só pode resultar dos
componentes verdadeiramente
autónomos
e
coordenados
(não hierarquicamente comandados e manipulados) de um movimento
inerentemente pluralista.
Por muito tempo, no movimento socialista foi comum
subestimar
a capacidade da burguesia de alcançar unidade. Ao mesmo tempo, havia uma
tendência correspondente para
super-estimar
as possibilidades e a importância imediata da classe trabalhadora.
Além disso, as mesmas concepções que avaliavam tão
equivocadamente a unidade tinham também uma tendência para ver na
conquista do poder a
solução
dos problemas que confrontam a revolução socialista, e não
o
verdadeiro início
deles.
Naturalmente, se a revolução socialista é vista como de
carácter primordialmente
político
em lugar de uma revolução
social
multi-dimensional, e portanto necessariamente "permanente", como Marx
a definiu a produção e a preservação da
unidade superam tudo em importância. Porém, quando se reconhece
que a conquista do poder é somente o
ponto de partida
para revelar as reais dificuldades e contradições desta
transformação "de alto a baixo, de toda maneira de ser"
dos produtores associados
dificuldades e contradições muitas das quais não podem
sequer ser imaginadas antes de ser encontradas de facto no curso da
própria transacção em andamento , então a
necessidade de estratégias genuinamente pluralistas afirma-se como uma
questão tanto de urgência imediata como de importância
contínua.
Apesar de ser uma verdade abstracta que a unidade da classe dominante
"só se possa revelar
vis-à-vis
ao proletariado"
[16]
, ela também é bastante enganadora, pois como no capitalismo tudo
é subordinado à contradição fundamental entre
capital e trabalho, a unidade burguesa inevitavelmente cumpre a
função de fortalecer um lado desse antagonismo. Entretanto, a
dificuldade está no facto de que o mesmo é verdade para o outro
lado; e ainda mais verdadeiro, como veremos a seguir. Consequentemente, a
verdade abstracta esconde uma distorção de grande
importância, resultante de uma doce ilusão. Por outras palavras,
nega ou ignora que há um fundamento devastadoramente
real
para a unidade da classe dominante: o seu domínio
real
e o poder
tangível
(tanto material e económico, como político e militar) que o
acompanha.
Em contraste, a unidade proletária é um problema, uma tarefa, um
desafio, até mesmo um imperativo em determinadas situações
de emergência, mas não uma |