"O capitalismo hoje promove uma produção destrutiva"
por István Mészáros
entrevistado por Eleonora de Lucena
[*]
A atual crise do capitalismo, que faz eclodir protestos por toda a parte,
é estrutural e exige uma mudança radical. Essa é a
visão do filósofo István Mészáros, 82.
Professor emérito da Universidade de Sussex (Reino Unido), o marxista
Mészáros defende que as ideias socialistas são hoje mais
relevantes do que jamais foram. Nesta entrevista, feita por e-mail, ele afirma que
o avanço da pobreza em países ricos demonstra que "há
algo de profundamente errado no capitalismo", que hoje promove uma
"produção destrutiva".
Maior discípulo e conhecedor da obra do também filósofo
húngaro marxista György Lukács (1885-1971),
Mészáros lançará aqui o seu livro
O Conceito de Dialética em Lukács
[trad. Rogério Bettoni, Boitempo, R$ 39, 176 págs.], dos anos
60.
A mesma editora lança, de Lukács,
Para uma Ontologia do Ser Social 2
[trad. Ivo Tonet, Nélio Schneider e Ronaldo Vielmi Fortes, R$ 98, 856
págs.] e o volume
György Lukács e a Emancipação Humana
[org. Marcos Del Roio, R$ 39, 272 págs.].
Folha - O sr. vem ao Brasil para falar sobre György Lukács. Como
profundo conhecedor do legado do filósofo, como avalia a
importância das suas ideias hoje?
István Mészáros - Lukács foi meu grande professor e
amigo por 22 anos, até sua morte, em 1971. Ele começou como
crítico literário politicamente consciente quase 70 anos antes.
Com o passar do tempo, foi se movendo na direção dos temas
filosóficos fundamentais. Seus três trabalhos principais nesse
campo "História e Consciência de Classe (1923),
"O Jovem Hegel" (1948) e "A Destruição da
Razão (1954) sempre resistirão ao teste do tempo.
Seus estudos históricos e estéticos sobre granes figuras da
literatura alemã, russa e húngara seguem sendo as mais influentes
em muitas universidades. Além disso, ele é autor de uma
monumental síntese estética, que, tenho certeza, virá
à luz um dia também no Brasil. Felizmente, seus também
monumentais volumes sobre problemas da ontologia do ser social estão
sendo publicados agora no Brasil pela Boitempo. Eles tratam de algumas
questões vitais da filosofia, que têm implicações de
longo alcance também para a nossa vida cotidiana e para as lutas em
curso.
O que é menos conhecido sobre a vida de Lukács é que ele
esteve diretamente envolvido em altos níveis de
organização política entre 1919 e 1929. Ele foi ministro
de Educação e Cultura no breve governo revolucionário da
Hungria em 1919, que surgiu a partir da grande crise da Primeira Guerra
Mundial. No Partido ele pertencia ao "grupo Landler"; era o segundo
no comando. Esse grupo recebeu o nome em homenagem a Jenö Landler
(1875-1928), que foi um líder sindical antes de se tornar uma figura do
alto escalão partidário. Ela buscava seguir uma linha
estratégica mais ampla, com maior envolvimento das massas populares.
Lukács foi derrotado politicamente em 1929. No entanto, voltando a
1919, em um dos seus artigos (está no meu livro editado agora pela
Boitempo), ele alertava que o movimento comunista poderia enfrentar um grande
perigo quando "o proletariado transforma sua ditadura contra ele
mesmo". Ele provou ser tragicamente profético nesse alerta.
De qualquer forma, em todos os seus desempenhos públicos,
políticos e teóricos, se pode encontrar sempre evidências
de sua grande estatura moral. Hoje em dia lemos muito sobre
corrupção em política. Podemos ver a importância de
Lukács também como um exemplo positivo, mostrando que moralidade
e política não só devem (como advogava Kant) como podem
andar juntas.
O sr. e Lukács têm vidas que unem teoria e prática. Qual
é a diferença entre ser um militante marxista no século 20
e hoje?
A dolorosa e óbvia grande diferença é que os principais
partidos da Terceira Internacional, que tiveram uma força organizacional
significativa e até influência eleitoral durante algum tempo (como
no caso dos partidos comunistas da França e da Itália), implodiu
não só no Leste, mas também no Ocidente. Apenas alguns
partidos comunistas bem pequenos permanecem fiéis aos princípios
de outrora. Essa implosão ocorreu muito tempo após a morte de
Lukács.
Naturalmente, como um militante intelectual por mais de 50 anos ele estaria
hoje desolado com esses desdobramentos. Mas partidos são
criações históricas que respondem, de maneira boa ou ruim,
a necessidades de mudança. Marx foi bem ativo antes da
constituição de um partido importante que pudesse, depois, se
juntar à Terceira Internacional. Quanto ao futuro, alguns partidos
radicalmente eficazes podem ser reconstituídos se as
condições mudarem significativamente.
Mas o tema em si é muito mais amplo. A necessidade de combinar teoria e
prática não está ligada a uma forma específica de
organização. De fato, uma das tarefas mais cruciais para a
combinação de teoria e prática é o exame da
difícil questão sobre porque houve a implosão desses
partidos, tanto no Ocidente quanto no Leste, e como seria possível
remediar esse fracasso histórico no atual desenvolvimento da
história.
O que significa ser um marxista hoje?
Praticamente o mesmo que Marx enxergou nos seus dias. Mas, é claro,
é preciso ter em mente as mudanças históricas e as novas
circunstâncias. Marx enfatizou corretamente desde o princípio que,
ao contrário do passado, uma característica crucial da
análise socialista dos problemas é a confrontação
com a autocrítica. Ser crítico ao que nos opomos é
relativamente fácil. Isso porque é sempre mais fácil dizer
"não" do que encontrar uma forma positiva que possa ser
utilizada para que as mudanças necessárias possam ser realizadas.
É preciso um verdadeiro senso de proporção: compreender
tanto fatores negativos incluindo a sua parte mais difícil da
autocrítica , como as potencialidades positivas sobre as quais o
progresso pode ser feito. Ambos aspectos são relevantes. É
essencial reexaminar com uma intransigente autocrítica até os
acontecimentos históricos mais problemáticos do século
passado, em conjunto com suas então expectativas. Isso se quisermos
superar as contradições do nosso lado no futuro.
A pressão do tempo e os atuais conflitos das situações
históricas de hoje tendem a nos desviar desse caminho de
ação. Mas o princípio orientador de combinar
crítica com genuína autocrítica será sempre um
requisito essencial.
Quando a União Soviética acabou, muitos previram o fracasso do
marxismo. Depois, com a crise de 2008, muitos previram o fim do neoliberalismo
e a volta das ideias de Marx. Do seu ponto de vista, o marxismo está em
expansão ou não?
Você está certa. É preciso ser cuidadoso sobre
conclusões apressadas e definitivas em qualquer direção.
Geralmente elas são geradas mais por desejos do que por evidências
históricas. O colapso do governo Gorbachev não resolveu nenhum
dos problemas em questão na URSS. A fantasiosa tese sem sentido do
"fim da história" de Fukuyama não faz a menor
diferença.
Também não é possível descartar o neoliberalismo
simplesmente pelo fato de que suas ideias e políticas, promovidas com
agressivo triunfalismo, não são apenas perigosamente irracionais
(haja visto sua atitude sobre a guerra), mas são absurdas as suas
defesas do devaneio do imperialismo liberal. Sob certas
condições, mesmo absurdos perigosos podem obter apoio massivo,
como sabemos pela história.
A verdadeira questão principal é quais são as
forças subjacentes e determinações que conduzem o povo a
becos sem saída em diferentes direções. A mudança
de humor que colocou "O Capital", de Marx, nas mesas de café
da moda (não para estudo, mas para mostrar tema de conversa) não
significa que as ideias marxistas estão agora avançando por todo
o mundo. É inegável que o aprofundamento da crise que vivenciamos
hoje está gerando protestos por todo o mundo.
Mas encontrar soluções sustentáveis para as causas que
tendem a surgir em todos os lugares requer a elaboração de
estratégias apropriadas e também correspondentes formas de
organização que possam coincidir com a magnitude dos problemas em
jogo.
E o que dizer sobre as ideias conservadoras? Elas estão ganhando mais
adeptos?
Em certo sentido, elas estão inegavelmente ganhando mais adeptos, mesmo
que não seja no terreno das ideias conservadoras sustentáveis.
"Não mudar" é quase sempre muito mais fácil do
que "mudar" uma forma estabelecida de comportamento. É a
situação histórica real que induz as pessoas a irem numa
direção em vez de outra. Mas a questão permanece: o curso
adotado é sustentável? Há uma conhecida lei da
física, no terreno da eletricidade, que diz que a corrente
elétrica segue a linha da menor resistência.
Isso é verdadeiro também sobre a situação de
muitos conflitos sociais que decidem, mesmo que temporariamente, em que
direção um problema deve ser equacionado naquele momento
dependendo da relação de forças (ou seja: a força
de resistência à situação atual) e da capacidade de
realização de alternativas adequadas. A viabilidade de longo
prazo de um curso adotado em relação a outro não é
de forma alguma garantia de melhor sucesso. Muitas vezes o oposto é o
caso.
Na nossa situação histórica, as respostas viáveis
de longo prazo podem requerer incomparáveis maiores esforços do
que tentar seguir o "curso que deu certo no passado", em vez de
encarar o desafio e o fardo de uma mudança estrutural radical. Mas os
problemas são enormes, e a interação de forças na
sociedade é sempre incomparavelmente mais complexa do que a
direção da corrente elétrica. Por isso, é muito
duvidoso que o que "deu certo" na linha conservadora da menor
resistência possa funcionar no médio prazo, muito menos no longo
prazo.
Qual seria uma boa definição para o período
histórico atual?
Essa é a questão mais importante em nosso período
histórico em que crises se manifestam em diferentes planos da nossa vida
social. Se estamos preocupados em enfrentar uma solução
historicamente sustentável para nossos graves problemas, entender a
verdadeira natureza do debate das contradições é
essencial. Conflitos e antagonismos históricos são
passíveis somente a soluções do tempo histórico.
É muito confuso falar de capitalismo como um sistema mundial.
O capitalismo abarca apenas um período do sistema do capital. Só
ultimamente é que constitui um sistema mundial de fato, para além
da sustentabilidade do próprio capitalismo. O capitalismo como um modo
social de reprodução é caracterizado pela
extração predominantemente econômica da mais valia do
trabalho. Entretanto, há também outras formas de obter a
acumulação do capital, como a já conhecida
extração política do trabalho excedente, como foi feito na
URSS e em outros lugares no passado.
Nesse sentido, é importante notar que a diferença fundamental
entre as tradicionais crises cíclicas/conjunturais do passado,
pertencendo à normalidade do capitalismo, e a crise estrutural do
sistema do capital como um todo - que é o que define o atual
período histórico. Por isso tento sempre enfatizar que nossa
crise estrutural (que pode ser datada do final dos anos 1960 e se aprofundando
desde então) necessita de mudanças estruturais para uma
solução duradoura possível. E isso certamente não
pode ser atingido com uma "linha de menor resistência".
Quais são as figuras mais importantes deste século 21 até
agora?
Como sabemos, o século 21 é ainda muito jovem e muitas surpresas
ainda estão por vir. Mas a figura política que teve o maior
impacto na evolução histórica do século 21
um impacto que deve perdurar e ser estendido foi o presidente da
Venezuela Hugo Chávez Frias, que morreu em março deste ano.
Claro, Fidel Castro também está muito ativo na primeira metade
desta década, mas as raízes de seu grande impacto
histórico estão nos anos 1950. Do lado conservador, se ainda
estivesse vivo, eu não hesitaria em nomear o general De Gaulle.
Ninguém se alinha à sua estatura histórica no lado
conservador até agora neste século.
E qual o evento mais surpreendente do século 21?
É provavelmente a velocidade com que a China conseguiu se aproximar da
economia norte-americana, alcançando agora o ponto em que ultrapassar os
EUA como "motor do mundo" (como definem de forma complacente)
é considerado factível em apenas alguns anos. Era
previsível há muito tempo que isso iria acontecer tendo em vista
o tamanho da população chinesa e a taxa de crescimento anual de
sua economia. Mas muitos especialistas diziam que isso iria ocorrer daqui a
muitas décadas no futuro.
No entanto, seria muito ingênuo imaginar que a China pode permanecer
imune à crise estrutural do sistema do capital, simplesmente porque seu
balanço financeiro é incomparavelmente mais saudável do
que o norte-americano. Mesmo o superávit de milhões de
milhões de dólares dos chineses pode evaporar-se de um dia para
outro no meio de uma turbulência não muito distante no futuro. A
crise estrutural, por sua própria natureza, obrigatoriamente afeta a
humanidade como um todo. Nenhum país pode invocar imunidade a isso, nem
mesmo a China.
As crises fazem parte do capitalismo. Qual sua avaliação sobre a
que eclodiu há cinco anos. Quem ganhou e quem perdeu?
Parte do capitalismo? Sim e não! Sim, no sentido limitado de que a
crise eclodiu com intensidade dramática nos países capitalistas
mais poderosos do mundo, que se autodenominam "capitalistas
avançados". Mas muito do seu "avanço" é
construído não apenas sobre privilégios de
exploração (no passado e no presente) das suas
relações de poder (políticas e econômicas) em
relação ao chamado "Terceiro Mundo", mas também
sobre o catastrófico endividamento de sua realidade econômica.
Escrevi em 1987, num artigo publicado no Brasil em 1987, que o
"verdadeiro problema da dívida" não era como foi
apontado na época a dívida da América Latina, mas a
dívida insolúvel dos EUA, que está fadada a acabar com uma
colossal quebra, equivalente à magnitude de um terremoto econômico
para o mundo todo. Há dois anos, quando dei minha última palestra
no Brasil, apontei que a dívida dos EUA somava astronômicos 14,5
milhões de milhões de dólares, antecipando seu
inexorável aumento. Hoje nos movemos para os 17 milhões de
milhões de dólares, e mais e mais.
Qualquer um que imagine que isso é sustentável no futuro, ou que
isso não vai afetar todo o mundo na Terra, quando o processo de
crescimento inexorável do endividamento está fadado a levar a uma
situação paralisante, deve viver num planeta diferente.
O capitalismo se fortaleceu ou se enfraqueceu com a crise?
As tradicionais crises cíclicas/conjunturais costumavam fortalecer o
capitalismo no passado, já que eram eliminadas empresas capitalistas
inviáveis. Assim, ocorria o que Schumpeter idealmente chamou de
"destruição criativa". Os problemas são muito
mais sérios hoje, porque a crise estrutural afeta até
dimensão mais fundamental do controle social metabólico da
humanidade, incluindo a natureza de forma perigosa. Assim, falar de
"destruição criativa" nas condições
atuais é totalmente autocomplacente. É muito mais apropriado
descrever o que está acontecendo como uma "produção
destrutiva".
A crise provocou mudanças políticas em muitos países.
É possível discernir um movimento geral, mais para a esquerda, ou
mais para a direita?
Até agora, mais para a direita do que para a esquerda. Todos os
governos dos países capitalisticamente avançados e
não apenas eles adotaram políticas que tentam resolver os
problemas através da "austeridade", com cortes reais em
salários, assim como nos padrões de vida já
precários daqueles que são geralmente descritos como os
"menos privilegiados".
E a linha de "menor resistência" ajuda na extensão, ou,
ao menos, na tolerância das respostas institucionais conservadoras
dominantes para a crise. Mas é muito duvidoso que essas
políticas, que agora tendem a favorecer a direita, possam produzir
soluções duradouras.
Como o sr. previu, a pobreza aumentou nos últimos anos, mesmo em
países do coração do capitalismo. Nos EUA, a desigualdade
aumentou. No Reino Unido, há um movimento para dar comida aos pobres,
coisa que não ocorria desde a Segunda Guerra. O que está errado
no capitalismo? É possível que o sistema não possa mais
gerar crescimento suficiente para a humanidade?
Dar cesta básica para os muito pobres não é o
único sinal visível desse aspecto da crise, nem essa
situação está confinada os países
capitalisticamente avançados, como o Reino Unido. Escrevi em
"Para Além do Capital"
(publicado em inglês em 1995) sobre a volta dos sopões. Nos
últimos dois ou três anos podemos vê-los nas telas das TVs
em escala maior no mais "avançado" (e privilegiado)
país: os EUA. Certamente há algo de profundamente errado e
totalmente insustentável na maneira pela qual o crescimento
é perseguido sob o capitalismo.
Algumas formas, pela sua natureza cancerosa de crescimento, são
proibitivas mesmo em termos de condições elementares de ecologia
sustentável. Porque elas são manifestações
flagrantes de "produção destrutiva". Ao mesmo tempo,
tanta coisa é desperdiçada como "lixo rentável",
enquanto incontáveis milhões, agora mesmo nos mais
avançados países capitalisticamente, precisam suportar
dificuldades extremas. Há alguns dias o ex-primeiro-ministro
britânico John Major estava reclamando que neste Inverno muitas pessoas
no Reino Unido terão que escolher entre comer e se aquecer. Em 1992,
quando ainda era primeiro-ministro, ele disse com máxima
autocomplacência: "O socialismo está morto; o capitalismo
funciona". Eu disse, então: "Precisamos perguntar: o
capitalismo funciona para quem e por quanto tempo?".
A escolha entre comer e se aquecer, que ele é agora forçado a
reconhecer, não é exatamente a prova de quão bem o
"capitalismo funciona". Na realidade, o único crescimento com
significado é o que responde à necessidade humana. Crescimento
destrutivo, incluindo o vasto complexo industrial militar chame-o de
"destruição criativa" pode demonstrar apenas
fracasso. O único crescimento historicamente sustentável para o
futuro é aquele que fornece as mercadorias em resposta à
necessidade humana e os recursos para aqueles que delas necessitam.
A crise ampliou o desemprego em muitas regiões e abalou o Estado de
bem-estar social na Europa. Multidões foram às ruas protestar na
Espanha, em Portugal, na França, na Inglaterra, na Grécia. Nos
EUA, o Occupy Wall Street desapareceu. Qual deve ser o resultado desses
movimentos? Há conexão entre eles? Os partidos de esquerda
estão se beneficiando dessas ações ou não?
Em contraste com a idealização propagandística, o Estado
do bem-estar social, na realidade, foi muito limitado a um punhado de
países capitalistas. Mesmo lá foi construído sobre
fundações frágeis. Não poderia ser nunca expandido
ao restante do mundo, apesar da promoção acrítica das
teorias do desenvolvimento da modernização, quase sempre
estruturadas no quadro contraditório do sistema do capital. A verdadeira
tendência de longo prazo apontava no sentido oposto ao do idealizado
Estado do bem-estar.
A tendência objetivamente identificável foi caracterizada por mim
já nos anos 1970 como a "equalização descendente da
taxa de exploração diferencial". Isso inclui as
diferenças marcantes nos níveis de ganhos por hora de
trabalhadores para exatamente o mesmo trabalho na mesma
corporação transnacional (por exemplo, nas linhas de montagem da
Ford) na "metrópole" em relação aos
países "periféricos".
Essa tendência continua a se aprofundar e ainda está longe da sua
necessária amplitude. Os protestos em muitos países capitalistas
são compreensíveis e devem se aprofundar no futuro. Eles surgem
nesse arcabouço dessa tendência perversa de
equalização de longo prazo. Compreensivelmente, os partidos que
operam no enquadramento da política parlamentar não podem se
beneficiar dos protestos. Isso porque eles tendem a acomodar seus objetivos a
limites restritos das consequências negativas decorrentes do Estado do
bem-estar.
Lukács dizia que os sindicatos eram a organização social
civil mais importante. Isso continua valendo?
A visão de Lukács sobre esse ponto era muito influenciada pelo
seu camarada e amigo Jenö Lander, que foi um líder sindical antes
de se tornar liderança do mesmo grupo partidário no qual
Lukács também desempenhou um papel de liderança.
Lukács está certo sobre a contínua importância dos
sindicatos, com um acréscimo importante. Não foi ressaltado
suficientemente que a potencialidade dos sindicatos foi e continua sendo
afetada de forma muito ruim pela divisão do movimento da classe
trabalhadora organizada entre o chamado "braço industrial"
(sindicatos) e o "braço político" (partidos) do
trabalho.
A potencialidade positiva dos sindicatos não acontecerá
até que essa divisão prejudicial, que produz danos para ambos,
seja corrigida significativamente.
Qual sua avaliação sobre a chamada Primavera Árabe? Ela
acabou? Há ligação entre os movimentos no mundo
árabe e os da Europa? Alguns enxergam uma nova disputa na região.
Isso faz sentido?
O impacto da Primavera Árabe tendeu a ser muito exagerado na
época em que testemunhamos os primeiros dramáticos
acontecimentos. E, depois, sem razão, foram minimizados quando as
manifestações de massa no Norte da África arrefeceram.
Até agora, nenhum dos problemas fundamentais foi resolvido em nenhum
país em questão. Assim, os protestos vão continuar no
futuro, focando também em algumas das graves contradições
econômicas (que resultaram em protestos por comida no passado,
relutantemente reconhecidos até por proeminentes
publicações do "establishment," como a
Economist,
de Londres), e não apenas na sua dimensão militar e
política.
Os levantes vão continuar, ganhando na mídia o nome da
estação ligado a eles. Também não pode ser
esquecido que alguns países europeus tiveram importantes interesses
coloniais no Norte da África e no Oriente Médio. E há
tentativas de reavivá-los, o que é bem visível hoje.
Ninguém deve imaginar que o imperialismo está confinado no
passado.
O Brasil também está passando por uma fase de muitos protestos.
Como o sr. avalia esse processo? Há conexão com o que ocorre no
mundo?
É impossível encontrar hoje um lugar no mundo onde não
estejam ocorrendo sérios protestos sociais. Eles parecem estar focados
em diferentes temas, criando a impressão superficial de não
existe correlação entre eles. Mas isso é também um
auto-engano. Muitas vezes, no passado, muitos desses protestos costumavam ser
desconsiderados, tidos como movimentos de um tema específico, sem
implicações na estabilidade geral da ordem social estabelecida.
Nada pode ser mais distante da verdade.
É verdade que a grande variedade de protestos que testemunhamos hoje em
diferentes partes do mundo não se enquadra nos canais e nos modos de
ação da política tradicional. Mas seria tolice ter isso
como prova de sua irrelevância. Ao contrário, eles apontam para
razões muito mais profundas para os problemas e as
contradições que se acumularam.
No momento, não é visível nenhuma estratégia de
coalescência. Sua característica geral parece ser a de que
estão testando os limites e procurando maneiras mais efetivas de
articulação de suas preocupações. Estamos
testemunhando um processo que ainda está em desdobramento e cujo
significado deve ter grandes consequências no futuro.
Há quem enxergue a ação dos EUA nas
manifestações pelo mundo, com o objetivo de desestabilizar
governos. Isso faz algum sentido?
Isso é uma enorme e excessiva simplificação. Os EUA
indubitavelmente estão na linha de frente de conflitos e
conflagrações internacionais, por conta do seu impressionante
poder dominante no hegemônico imperialismo global. Mas as causas
são muito mais profundas do que o que possa ser resolvido por
"desestabilização de governos".
Em alguns casos limitados isso pode acontecer, e, de fato, pode ser buscado
com êxito pelas forças mais extremistas de organismos da
administração norte-americana. Mas, há limite para tudo,
até para o neoliberal mais radical e para o aventureirismo
neoconservador.
Como a internet muda a luta política hoje?
Certamente a internet ajuda na comunicação e na coesão
dos movimentos de protesto, como ficou evidenciado recentemente. Mas não
deve ser esquecido que ela também dá os recursos para as
forças do outro lado do confronto dando assistência direta
a vários Estados capitalistas.
De qualquer forma, para os dois lados a internet pode apenas fornecer ajuda
subsidiária, não importando quão forte ela seja. Os
problemas só podem ser resolvidos no próprio terreno em que
surgiram. E isso diz respeito às determinações estruturais
fundamentais de nossa ordem social.
Como o sr. analisa a relação entre capitalismo e democracia?
São compatíveis?
Capitalismo e democracia não são incompatíveis, salvo em
situações de crises extremas que trazem à tona os Hitlers
e os Pinochets onde quer que tais crises eclodam mesmo no Brasil no
passado recente. A normalidade da produção capitalista é
sustentada de forma melhor na ordem das regras formais democráticas de
controle e regulação.
É por isso que regimes ditatoriais são insustentáveis no
longo prazo e tendem a ser revertidos (mesmo a
"miltonfreedmenização" do Chile de Pinochet) para modos
políticos mais maleáveis de regulação formal
democrática, dentro da moldura geral das trocas capitalistas.
Nos EUA, a direita radical colocou o país à beira do abismo por
conta de uma tímida reforma no sistema de saúde. Isso trouxe
riscos para os grandes negócios e as finanças. Como o sr. explica
isso?
O sistema de saúde nos EUA é apenas uma parte da crise que
testemunhamos. Fundamentalmente é inseparável da dívida
astronômica de 17 milhões de milhões de dólares que
já mencionei. Por enquanto, foi feita uma acomodação
parcial entre democratas e republicanos, de forma que a nova data para o
problema trilionário irresolvido ficou para o final de 2013, mas
não deve trazer novamente um suspense internacional.
Mas podemos estar certos de que essa questão voltará com
crescente severidade. 17 milhões de milhões de dólares
significa tanto que não é possível encontrar um tapete de
tamanho suficiente sob o qual se possa varrer e esconder essa quantia. Como
costumeiramente é feito como forma de adiar a solução de
problemas.
É possível dizer que o partido democrata foi mais para a direita
e falhou em isolar a direita radical do partido republicano?
É difícil dizer qual dos dois partidos é mais à
direita do que o outro. Mas ambos estão igualmente errados ao estarem
tão à direita para serem capazes de enfrentar os graves problemas
da sociedade norte-americana.
Como o sr. analisa a administração Obama e o estado da democracia
nos EUA?
Obama prometeu muita coisa que nunca se materializou sob sua
Presidência. Basta pensar em Guantánamo. Mas isso não
é questão de um presidente em particular. Estruturas de poder
não podem ser entendidas em termos personalizados.
Devemos lembrar a entrevista à televisão que o presidente
democrata Jimmy Carter deu. Ele chorou, com lágrimas nos olhos, ao dizer
que "o presidente não tem poder". De fato, ele conseguiu fazer
mais desde que deixou a Presidência do que pode quando estava no comando.
Até agora não vimos o presidente Obama chorar na
televisão. Mas "há uma primeira vez para tudo", diz o
ditado.
Os EUA espionam o mundo inteiro. Recentemente foi revelado um esquema de
espionagem norte-americana no Brasil envolvendo interesses em petróleo e
mineração. O que o Brasil deveria fazer para defender sua
soberania?
Esse tema beira a insanidade. Espionam todos como potenciais inimigos, mesmo
chefes de Estado de governos amigos. Há quem possa rir e achar que o
problema não é tão sério. Mas precisamos lembrar
que a defesa da soberania não pode estar confinada no domínio das
leis e da política internacionais.
A legislação internacional é pateticamente fraca a esse
respeito, sem mencionar as instituições que tratam globalmente
disso. Vale lembrar o título de um livro de um proeminente advogado
liberal, Philippe Sands. É "Lawless World: America and the Making
and Breaking of Global Rules".
Essas questões são decididas pelas relações reais
de poder. E, é claro, as forças preponderantes do capital global
ficam com a parte do leão nesse processo de tomada de decisão. A
soberania não pode ser protegida sem se atentar para esse lado
crítico do problema, inseparável do poder preponderante das
corporações gigantes do capital transnacional.
O poder dos EUA está em ascensão ou em queda?
Seria mais apropriado dizer que ele está estacionado, mas ainda
é o mais dominante. As condições que explicam essa
dominância estão presentes e são bem visíveis:
vão do complexo industrial-militar, ao Banco Mundial, ao fato de o
dólar ser a moeda de troca mundial. Nenhum outro país poderia
sonhar em impor ao mundo uma dívida de 17 milhões de
milhões de dólares. Mas uma dominância que repousa sobre
esse tipo de fundações só pode ser instável.
Qual é a sua visão da China? Lá a pobreza diminuiu.
Há socialismo?
As realizações da China no campo da produção
incluindo o declínio da pobreza que você menciona têm sido
monumentais. Mas há várias grandes perguntas para o futuro. Acima
de tudo: por quanto tempo poderão ser mantidas as
realizações na área produtiva sem que elas causem danos
irreparáveis nos recursos gigantescos no domínio da ecologia?
Mais ainda: por quanto tempo poderão ser aceitas as impressionantes
desigualdades entre os níveis mínimos de ganhos da
população trabalhadora e a riqueza dos altamente privilegiados? O
socialismo é inconcebível sem uma substantiva igualdade
também na China.
No passado, as disputas no interior do capitalismo provocaram guerras mundiais.
Essa hipótese está no horizonte?
A opção pela Guerra foi usada no passado como parte da tentativa
de resolver problemas entre partes em conflito sob as regras do capital. Foram
duas guerras mundiais no século 20. Com as armas de
destruição em massa, ficou impossível prever a
compatibilidade dessa solução com as condições
elementares da racionalidade. Mas há representantes da direita radical
que não hesitariam em jogar com fogo e até abertamente advogam a
plena legitimidade de jogar com fogo.
Muitos deles estão presentes em elevados postos da hierarquia
política. Assim, o presidente [Bill] Clinton, por exemplo, declarou que
"há apenas uma nação necessária, os EUA".
Na mesma época, Robert Cooper (guru do primeiro-ministro britânico
Tony Blair e conselheiro internacional de Xavier Solana) cantava louvores para
o agressivo imperialismo liberal em seus escritos.
Da mesma forma, Richard Haass, diretor de planejamento político no
departamento de Estado na gestão George W.Bush, insiste na necessidade
de uma estratégia imperialista mais agressiva, escrevendo que a
defensiva, não o imperialismo agressivo, é o maior perigo do
interesse em reafirmar a hegemonia global dos EUA. Esta precisa ser defendida
por quaisquer meios, mesmo com a guerra explícita.
A racionalidade é, obviamente, a grande dificuldade para implantar
essas estratégias. Mas ninguém pode dizer que a possibilidade de
até mesmo uma conflagração mundial possa agora ser
excluída do horizonte histórico.
É possível dizer que a influência dos EUA na América
Latina declinou na última década?
Sim. Falarei dos países relevantes nesse aspecto em seguida. E outros
poderão se agregar a eles no futuro.
Como o sr. analisa as experiências de países como Venezuela (que
fala em socialismo do século 21), Bolívia, Equador, Uruguai,
Argentina?
Eles trilham por uma estrada muito difícil, na qual, indubitavelmente,
muitos obstáculos serão erguidos no futuro pelo poder imperial
dominante. Os EUA declararam abertamente que a América Latina era o seu
quintal, reivindicando legitimidade para a sua dominação na
região.
Como o sr. avalia os dez anos de PT no governo do Brasil?
Visitei o escritório do futuro presidente Lula em 1983. Tirei
então uma foto do escritório onde se podia ler uma palavra
iluminada: "Tiradentes". Eu fiquei pensando e continuo pensando hoje
quanto tempo mais levará para que seja possível dizer que o
escritório nacional de "Tiradentes" teve êxito em
extrair os dentes infeccionados que causam tanta dor, mesmo num país com
tantos recursos, em todos os sentidos, como o Brasil.
Qual é a sua visão sobre a relevância das ideias
socialistas hoje?
Mencionei anteriormente que nossos problemas só podem encontrar
soluções sustentáveis na sua época. Outras formas
de enfrentá-los podem ser revertidas, como ocorreu no passado.
As ideias socialistas têm sido definidas desde o início como as
que requerem uma época histórica para a sua
concretização, embora os problemas imediatos de onde elas devem
partir sejam muito dolorosos.
Em outras palavras, elas requerem não apenas os serviços
urgentes de "Tiradentes", mas também prevenção
para as doloridas infecções no longo prazo. As ideias socialistas
são, portanto, mais relevantes hoje do que jamais foram.
Que países ou partidos representam o socialismo hoje?
Apenas alguns partidos muito pequenos proclamam sua fidelidade às
ideias socialistas. E não há país que possa chamar a si
mesmo como socialista.
No passado o sr. usou a expressão socialismo Mickey mouse para tratar de
partidos que apenas brincavam com as ideias socialistas. Isso continua a
ocorrer?
Não exatamente. O socialismo Mickey Mouse ficou mais fraco. O Partido
Comunista Italiano que foi o partido de [Antonio] Gramsci e da Terceira
Internacional primeiro se autoconverteu no que se chamam de democratas da
esquerda.
Depois achou até a palavra esquerda muito comprometedora. Então
se rebatizaram de partido dos democratas. Não há mais Mickey
Mouse. É mais como um Popeye que perdeu o seu espinafre.
Quais são suas expectativas sobre o socialismo ou o comunismo no futuro?
É um objetivo inatingível? E sobre o risco de barbárie?
Existe?
Escrevi num livro também publicado no Brasil [
O século XXI: Socialismo ou barbárie
]
que se tivesse que modificar as famosas palavras de Rosa Luxemburgo
"socialismo ou barbárie" acrescentaria:
"Barbárie se tivermos sorte". Porque a
exterminação da humanidade é a ameaça que se
desenrola. Enquanto falharmos em resolver nossos grandes problemas que se
espalham por todas as dimensões da nossa existência e nas
relações com a natureza, o perigo vai permanecer no nosso
horizonte.
Onde deve estar um militante marxista hoje?
Contribuindo em tudo que ele ou ela possam fazer para buscar
solução duradoura para esses grandes problemas.
Qual o seu plano para o futuro?
Continuar trabalhando em projetos de longo prazo que dizem respeito a todos
nós.
17/Novembro/2013
[*]
Repórter especial da
Folha de S. Paulo.
O original encontra-se em
blogdaboitempo.com.br/...
e a tradução em
www1.folha.uol.com.br/...
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
.
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