A compra do silêncio
Chama-se Rami el Obeidi, o nome talvez não diga nada à maioria
dos leitores, mas ficam um pouco mais informados se lhes disser que foi o chefe
dos serviços de espionagem do Conselho Nacional de
Transição (CNT), a organização montada por
países europeus e da Península Arábica e sustentada
militarmente pela OTAN que derrubou Muammar Khaddafi na Líbia há
um ano. Obeidi, segundo reza a biografia sintética publicada em algumas
agências e jornais europeus, era uma espécie de interface com os
serviços secretos europeus envolvidos na operação de
mudança de regime em Tripoli. Obeidi não era, portanto, uma
pessoa qualquer, e muito menos desinformada nos assuntos que diziam respeito
à sua actividade.
Rami el Obeidi falou durante os últimos dias. E disse, sem hesitar, que
Khaddafi "foi executado directamente por agentes franceses" numa
"operação comandada pela DGSE (os serviços franceses
de espionagem externa) e por responsáveis do Eliseu", o
palácio presidencial de Paris, então habitado por Nicolas
Sarkozy. Em português directo e sem rodeios, o ex-chefe de Estado da
Líbia foi executado por altos responsáveis do Estado
francês, com envolvimento do próprio palácio presidencial.
Para Obeidi, dirigentes líbios actuais e jornalistas que investigaram o
escândalo, o móbil do crime também não é
segredo: Sarkozy recebeu do seu antigo amigo Khaddafi a módica quantia
de 50 milhões de euros com que financiou a campanha e se fez eleger
Presidente de França em 2007. A justiça francesa está,
aliás, a tratar do assunto e o ex-espião do CNT líbio
não tem dúvidas de que o assunto, e também a escusa de
Khaddafi em honrar alguns contratos milionários de energia e armamento
combinados com Sarkozy, fizeram com que "alguém no Eliseu quisesse
a morte rápida" do antigo dirigente máximo da Líbia.
Tanto mais que o que acelerou o processo Khaddafi fez saber que
ou o deixavam em paz ou, em português vernáculo, punha a boca no
trombone sobre os financiamentos.
A execução extrajudicial de Khaddafi às mãos de
agentes franceses funcionou assim como uma "compra de
silêncio", uma atitude que os italianos se habituaram a qualificar
como "de matriz mafiosa" e que na Mafia se reduz a uma palavra:
"omertà", boca calada.
Até aqui tínhamos vindo a discorrer sobre questões,
peculiares é certo, de política internacional e, num
ápice, entrámos com naturalidade por terrenos mafiosos.
Deveríamos supor que assuntos internacionais e Mafia não
poderiam confundir-se, são até antagónicos, por
definição. A realidade, como se percebe, é outra.
Há comportamentos de "matriz mafiosa" na política
internacional envolvendo entidades que deveriam encarnar em si mesmas as
virtudes da democracia e da transparência. O que é não
apenas escandaloso como inquietante.
Mahmmud Jibril, antigo superior hierárquico de Obeidi e ex-presidente
do Conselho Nacional de Transição disse um dia destes a uma
televisão egípcia que "muitos serviços secretos
árabes e ocidentais estavam interessados em que Khaddafi se calasse para
sempre". Afinal os podres conhecidos pelo ex-chefe líbio não
se limitavam ao financiamento da campanha de Sarkozy e contratos de armas e
petróleo não cumpridos.
O pelotão de fuzilamento comandado pela DGSE francesa serviu muitos
outros interesses. Afinal, a velha tradição mafiosa da
"omertà" está viva e recomenda-se, alargou horizontes
para os assuntos internacionais e graças a ela presidentes, reis, emires
e sheiks podem reinar e dormir de consciência tranquila.
04/Outubro/2012
[*]
Jornalista, especialista em Médio Oriente.
O original encontra-se em
http://jornaldeangola.sapo.ao/19/46/a_compra_do_silencio
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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