Perspectivas para 2015
por Jorge Figueiredo
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A banca foi concebida na iniquidade e nascida no pecado. Os banqueiros possuem
a terra. Afastando-os, mas deixando-lhes o poder para criar dinheiro,
com a ponta da caneta criarão suficientes depósitos para
comprar tudo outra vez. Entretanto, afastem-nos do poder de criar moeda e todas
as grandes fortunas como a minha desaparecerão e devem desaparecer pois
isto seria um mundo mais feliz e melhor para nele viver. Mas se desejam
permanecer escravos dos banqueiros e pagarem o custo da sua própria
escravidão, deixem-nos continuar a criar moeda.
Josiah Stamp, Presidente do Banco da Inglaterra, década de 1920
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O aumento contínuo da composição orgânica do capital
é um facto bem conhecido e não precisa ser demonstrado. A
substituição de trabalho vivo por trabalho morto constitui uma
tendência permanente e secular do modo de produção
capitalista, pode-se dizer que uma tendência sistémica. Na nossa
época esta atingiu níveis paroxísticos e já
não há nenhum sector de actividade que dela escape. O
último deles, após a indústria e a agricultura, foi o de
serviços. Mas também aí a informática fez o seu
trabalho.
O crescimento vertiginoso da composição orgânica teve e tem
muitas consequências. A primeira, mais óbvia, é a
eliminação (ou não criação) de postos de
trabalho para populações que assim se tornam
excedentárias. Mas o que nos interessa aqui é a segunda
consequência: a redução da taxa de lucro (a qual varia
inversamente à composição orgânica) nas actividades
produtivas da economia real. A lei tendencial da queda da taxa de lucro,
descoberta por Marx, tem na nossa época a sua comprovação
plena na realidade efectiva (há numerosos estudos empíricos que o
confirmam).
No entanto, a mola real que faz funcionar este modo de produção
é a busca do lucro por parte dos capitalistas. Assim, a queda da taxa na
economia real teve como efeito que o capital monopolista e financeiro passasse
a buscar o lucro fora das actividades produtivas, sem a
intermediação da mercadoria. Tenta assim que o dinheiro gere
dinheiro, provocando no último quarto de século o fenómeno
avassalador da
financiarização.
É inútil classificar tal fenómeno como
"perverso" pois isto seria apenas uma crítica moralista do
sistema. Importa sim entender o como e o porque da sua existência, bem
como as formas como se manifesta. As principais manifestações
são a titularização de dívidas, a explosão
dos derivativos, a desregulamentação da actividade
bancária convencional, os hedge funds, os paraísos fiscais, as
bolhas, a especulação desenfreada que transformou o sector
financeiro num casino e a criação de uma actividade
parabancária totalmente desregulamentada. Esta última movimenta
um
volume de capital tão grande ou maior do que o da banca convencional.
É a esta gigantesca acumulação de títulos de
dívida, ou "pretensões a dinheiro" (
claims,
em inglês), que se pode chamar
capital fictício.
Trata-se de capitais que giram pelo mundo pois não encontram
aplicações produtivas às taxas de lucro desejadas pelos
seus detentores. O seu volume, hoje, é muitas vezes maior do que o
Produto Mundial Bruto
[1]
.
Esta infestação de capital fictício no mundo todo
representa um problema fatal para o modo de produção capitalista
na sua fase financiarizada. Ele já não pode crescer pois
está tolhido pela camisa de força do endividamento, o qual jamais
poderá ser pago. O capital fictício paira como uma nuvem negra
sobre a economia mundial. Como notou
Sapir
, "Ele trava os processos de investimento e deprime ao mesmo tempo o
consumo, produzindo estas economias de desemprego em massa que se vê a
desenvolverem-se nos países ocidentais". Instalou-se assim nos
países centrais o capitalismo
rentista mas já não há renda que chegue para tal
volume de títulos e é impossível resgatá-los.
Chega-se assim ao cerne do problema do capital fictício: provoca a
estagnação económica perene.
Como escapar à estagnação? Uma das maneiras é
transcender o
modo de produção de capitalista, o que elimina o rentismo
parasitário e liberta o mundo do peso do endividamento geral a
aplicação de recursos em actividades úteis já
não será estrangulada pela obtenção ou não
de taxa de lucro. A outra, se se mantiver este modo de produção,
é esterilização do excesso de capital fictício.
Nas últimas décadas isto tem sido possível através
de gastos
governamentais inúteis, como por exemplo a corrida armamentista.
Só que agora, dado o volume atingido, tais soluções
já não são mais suficientes. Tal como um drogado, o
capital financeiro exige doses cada vez maiores do estupefaciente.
Historicamente, nas últimas duas crises gerais do capitalismo que
conduziram a depressões, o restabelecimento da taxa de lucro que
permitiu a retomada do crescimento foi feito através de
destruições provocadas por guerras mundiais. No século XX
ambas permitiram
gloriosas
saídas em "V"
. Mas na actual depressão,
iniciada em 2008, está a verificar-se uma saída "em raiz
quadrada" do tipo ondulante. A situação é de tal modo
catastrófica que nem mesmo a baixa drástica do preço do
petróleo verificada nos últimos seis meses está a ser
suficiente para a retomada do crescimento. Ainda que seja uma baixa artificial,
provocada pelo imperialismo em conluio com a Arábia Saudita, ela deveria
estar a ter algum efeito de reanimação. Mas até agora,
nada. O sacrifício da sua indústria do shale pelos EUA não
parece estar a ser suficiente. O doente continua nos cuidados intensivos em
estado comatoso.
A actual agressividade do império é um indício do seu
desespero. A imposição de uma junta nazi na Ucrânia, de
cerco à Rússia e à China com bases militares, de sabotagem
à Venezuela, etc são indícios alarmantes. E o servilismo
da União Europeia chega até à abjecção,
submetendo-se totalmente aos desígnios imperiais. Esperemos que as
guerras energéticas e monetárias agora iniciadas pelo
imperialismo para salvar a hegemonia do dólar não se transformem
em guerra nuclear. Nesse caso, a alternativa "Socialismo ou
barbárie" formulada por Rosa Luxemburgo teria de ser corrigida para
"Socialismo ou extermínio".
Neste mar tormentoso, para a pequena nau lusitana a melhor saída
será retomar o seu destino nas suas próprias mãos:
Recuperar a soberania monetária de que a classe dominante portuguesa
abdicou; criar uma moeda nacional
de emissão estatal;
abandonar a UE e o seu tratado orçamental; libertar-se das peias de
organismos internacionais e iniciar um programa de recuperação
económica do país. Esta seria a melhor saída
possível diante da actual situação desastrosa. Quando
será?
Votos de bom 2015.
[1] Cerca de 12 vezes segundo Jorge Beinstein, v.
Capitalismo, violência e decadência sistémica
Ver também:
O capital fictício, nova obra de Cédric Durand
Crises, os desenlaces possíveis
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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