A farsa do Ocidente

por La Jornada (editorial)

Cartoon de Steve Bell. As eleições são um mecanismo através do qual uma sociedade, com suficiente margem de paz e liberdade, outorga uma representação, na qual deposita o exercício de um poder soberano. Por muitas razões, os actos eleitoral efectuado ontem no Iraque, por ordem e desígnio do governo dos Estados Unidos, não têm qualquer relação com esse pressuposto. Tratou-se da emissão de um voto às cegas de pessoas que não puderam inteirar-se, até que chegaram às cabinas de voto, que representantes estavam a eleger; foi um voto que deixou de fora sectores inquantificáveis, mas muito importantes, da sociedade iraquiana: os que não se atreveram a ir às urnas por temor da violência derivada da guerra em curso ou a vinganças posteriores; os que resistem, com armas na mão, à ocupação estrangeira e os que recusaram inscrever-se, ou a emitir validamente o seu sufrágio porque têm a assisada percepção de que este só iria servir para validar uma farsa. Como consequência, o parlamento constituinte que surja destas eleições será ilegítimo e espúrio, e não poderá, por isso, constituir-se como um factor de paz e estabilizador para o Iraque.

As autoridades de ocupação anglo-estadunidenses e os seus marionetes locais desejavam que as eleições tivessem sido uma manifestação do seu controlo e da sua força, e nesse afã blindaram as fronteiras da nação árabe, lançaram cerca de 300.000 efectivos a patrulhar as ruas e redobraram as suas operações de perseguição contra as diversas facções da resistência iraquiana.

Pese todos estes esforços, ontem foi um dia de violência normal e um mais de guerra inocultável, com mais de quatro dezenas de mortos civis, confrontos armados, bombardeamentos numa boa parte do território, incluindo Bagdad, bombardeamentos aéreos contra diversas povoações e desastres para as forças invasoras, as quais perderam ontem um avião britânico, sem que até agora tenha divulgado o número oficial de baixas. Assim, o acto eleitoral resultou numa clara expressão de debilidade dos ocupantes e dos seus aliados locais e de um outro facto cada vez mais claro: se Washington e Londres sonhavam com uma guerra rápida e relativamente pouco cruel para estabelecer um domínio neocolonial sobre o Iraque e o seu petróleo, já a perderam.

É vergonhosa, para não dizer mais, a assistência que os meios de comunicação, organismos como as Nações Unidas e os governos da Europa estão dando aos governos dos Estados Unidos e Grã Bretanha nestas circunstâncias. O “êxito retumbante” que o presidente George W. Bush viu nas eleições de ontem ocupa lugares destacados nos noticiários e manchetes dos meios de comunicação ocidentais. O representante da União Europeia para a Política Exterior e Segurança, Javier Solana, afirmou que a eleição é “um importante passo adiante” e o governo de José Luis Rodriguez Zapatero teve o descaramento de afirmar que a votação se desenrolou “com bastante normalidade”, ignorando os quase 50 mortos e a centena de feridos do dia, as urnas vazias em numerosas localidades sunitas e os persistentes combates entre os invasores e a resistência.

É exasperante, além do mais, o papel das Nações Unidas, cujo encarregado de assuntos eleitorais, Carlos Valenzuela, parece ter-se transformado em perito em organizar actos eleitorais sob ocupação, como fez anteriormente no Afeganistão, que longe de resolver conflitos armados, os agrava.

O que sucedeu ontem no Iraque é um passo mais para a fractura nacional entre sunitas, xiitas e curdos que Washington e Londres procuram provocar nesse desafortunado país, para perpetuar a sua presença militar e manter o controlo sobre o petróleo dos iraquianos.

O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/edito.php.
Tradução: José Paulo Gascão.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

01/Fev/05