O legado de Faluja
A retórica ocidental de apatia não deveria cegar-nos para a nossa
obrigação de enfrentar atrocidades
Rana Al-Aiouby estava a arriscar a vida entregando remédios essenciais
aos feridos na cidade iraquiana de Faluja quando testemunhou, em primeira
mão, os efeitos da utilização de armas químicas
pelas tropas estado-unidenses. Apesar de serem proibidas por vários
tratados internacionais e pelas Convenções de Genebra, o
fósforo branco e um derivado do napalm foi utilizado indiscriminadamente
sobre a população civil de uma cidade da dimensão de
Edinburgo durante o ano de 2004.
"Percebi alguma coisa no jardim e era um corpo, mas eu não podia
realmente reconhecê-lo e ele parecia realmente mau era um corpo
com a cor verde, e eu nunca vira isto em toda a minha vida, e o meu trabalho
é tratar de corpos mortos".
Poucas pessoas sabem acerca dos crimes cometidos durante os dois sítios
de Faluja Operation Vigilant Resolve, lançada três anos
atrás, e Operation Phantom Fury, no mês de Novembro seguinte
em decorrência do que 200 mil pessoas tornaram-se refugiados.
Não há números oficiais para mortes de civis.
Face a repetidas verificações independentes, as forças
estado-unidenses agora reconheceram a utilização de armas
químicas, mas ainda assim não há qualquer clamor
internacional de protesto e nem resposta oficial (sem falar em
condenação) de qualquer governo das Nações Unidas.
Os EUA derrubaram um regime enquanto supostamente investigavam armas fantasmas
de destruição maciça, apenas para utilizar tais armas
sobre as populações civis recém "libertadas". A
fria hipocrisia de tais acções é ultrapassada apenas pela
sua perversidade extravagante.
Setenta artigos das Convenções de Genebra foram infringidos nos
dois meses separados de sitiamento de guerra. Apesar dos apelos para abolir as
convenções por líderes conservadores passados e actuais,
como Michael Howard e David Cameron dentre outros, elas permanecem como redutos
essenciais contra as tácticas intimidatórias dos poderosos, e um
índice pungente da crescente impunidade do projecto neocolonial. Sua
característica é que aos inocentes, os fracos, os derrotados e os
feridos seja concedida toda a protecção possível em temos
de conflito. A característica do governo dos EUA é que os fracos
e inocentes são um obstáculo para a aquisição de
poder e, ocasionalmente, uma oportunidade para a expansão do lucro.
Ao escrever minha peça Faluja, a qual entrelaça relatos dos
testemunhos oculares de Rana e muitos outros presentes durante estes ataques, o
que me espantou foi a simetria entre o testemunho de soldados americanos e
aqueles das suas vítimas. "Sim, nós napalizámos
aquelas pontes", disse o coronel Randolph Alles, do Marine Air Group 11,
numa entrevista a James Crawley do
San Diego Union-Tribune.
"Os generais amam o napalm". Os rapazes sobre o terreno não
se incomodam mais em disfarçar, tão confiantes estão os
seus mestres em que o protesto, se acontecesse, seria abafado e ineficaz.
A retórica da impotência, tão prevalecente no ocidente, tem
sido demasiado efectiva e estamos demasiado cansados para sermos surpreendidos,
e menos ainda para actuar. Tal como com a proposta abolição das
Convenções de Genebra, o que está em causa é uma
espécie de fadiga, um senso de que a acção ética
é simplesmente demasiado penosa no nosso complicado e distraído
mundo. Mas a ironia é que como membros de uma sociedade europeia
privilegiada, com riqueza material sem paralelo, tempo de lazer, tecnologia de
comunicações e oportunidade intelectual, estamos numa
posição sem precedentes para influenciar, não mais
dependentes dos votos e da carteira para o exercício de protestar.
Nunca estivemos melhor equipados como indivíduos para fazer um impacto
no mundo; isto é óbvio a partir das enormes mudanças que
estamos a fazer para o ambiente. Todas as pessoas que entrevistei para
Faluja
e cujo testemunho é reproduzido literalmente, desde generais a
clérigos e civis iraquianos, reconhecem isto. Agora somos todos
participantes.
Muitos dos iraquianos que encontrei repetiram o mesmo slogan: "Faluja
agora é o Iraque, e o Iraque é Faluja". Três anos
volvidos, as pessoas retornaram ao que resta dos seus lares, mas a vida
não é menos perigosa. Faróis de
investigação, despejos e ataques súbitos são
comuns, a cidade não tem infraestrutura real, pouca água limpa e
quase nenhum cuidado de saúde, e a guerra de facções
é uma ocorrência diária. Ainda é muito
difícil a ajuda chegar à cidade ou aos observadores verem
quão dura é a vida para os residentes.
O que é certo é que o dano feito não foi reparado e
nenhuma reparação está a caminho, apesar de promessas das
autoridades interinas iraquianas. A cidade está num estado
caótico, e muitas pessoas sentem que foram mais uma vez esquecidas. As
atrocidades de três anos atrás tornaram-se emblemáticas do
sofrimento de uma nação; a menos que respondamos com simpatia o
emblema solidificar-se-á num símbolo de resistência e
reacção, e nós colheremos o vendaval mais cedo do
que pensamos.
04/Abril/2007
[*]
Escritor, director de teatro e académico. Sua peça
Faluja
será lançada no Old Truman Brewery, em Londres, dia 1 de Maio.
O original encontra-se em
http://www.uruknet.de/?p=m31879&hd=&size=1&l=e
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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