Eleições sobre cadáveres
por Augusto Zamora R.
[*]
Relevantes meios de comunicação e políticos não
duvidaram em qualificar o que aconteceu no passado dia 30 no Iraque como
as primeiras eleições democráticas da sua
história. A afirmação é um alarde de cinismo ou de
cegueira porque ninguém, que acredite numa verdadeira democracia, pode
aceitar, como tal, a farsa eleitoral organizada pelos EUA. Não o pode
chamar, sem deformar a tal ponto os fundamentos da democracia que,
então, pode chamar-se isso a qualquer arremedo de consulta popular, onde
o que importa não é o país, mas o poder.
O Iraque, há que recordá-lo, é um país ocupado por
200 mil soldados estrangeiros e em guerra. Um Estado soberano invadido em
2003, em violação das leis mais fundamentais do Direito
Internacional e onde, diariamente, são assassinados, torturados e
vilipendiados centenas de cidadãos, sem que haja lei ou autoridade que
zele pelos seus direitos. Um país que vê destruídas
cidades, povoações e bairros pelas forças invasoras, no
meio do silêncio cúmplice de tantos governos, mais preocupados em
agradar à potência ocupante que em deter a
destruição do Iraque e os crimes que ali se cometem diariamente.
As
eleições,
além disso, estavam infestadas de arbitrariedades que, não
fossem os Estados Unidos o organizador ou se o seu promotor tivesse sido
um país adverso ao Ocidente a desclassificação das
mesmas teria sido generalizada. Realizaram-se, em primeiro lugar, em total
ausência de liberdade, pois nenhuma pessoa honesta pode acreditar que um
país agredido e ocupado pode exercer livremente o seu direito à
autodeterminação. As eleições em Timor Leste
realizaram-se em 2001 sob a supervisão da ONU, dois anos depois de o
exército indonésio abandonar o país. Nunca ninguém
pensou em realizar as eleições enquanto Timor permanecia debaixo
da ocupação de tropas estrangeiras.
Em segundo lugar, não existia um recenseamento fiável, nem se
tinham, minimamente, definido os votantes. Esta carência essencial
permitirá aos EUA adulterar os níveis de
participação e dirigir os votos para os seus candidatos
protegidos, de forma que ganhe quem menos o odiar. Também não
havia uma autoridade eleitoral, legítima e independente, que zelasse
pela lisura do escrutínio, nem que garantisse as liberdades eleitorais
mínimas, como exige o jogo democrático. Os partidos que se
opõem à ocupação foram ilegalizados ou
integraram-se na resistência. Desde a convocação das
eleições,
optaram por retirar-se 53 partidos dos 84 que se apresentaram inicialmente,
pela precariedade das mesmas e ausência de garantias. A farsa era
tão absurda que até podiam ter votado 150 mil israelenses de
origem iraquiana.
Na conferência de Sharm el Sheij, no Egipto, a França apresentou
uma proposta, não aceite, com três condições para
superar o desastre no Iraque: a participação de todas as
forças iraquianas, incluída a resistência em qualquer
proposta de solução; passar o controlo do Iraque às
Nações Unidas e fixar uma data de retirada das tropas
estrangeiras. A recusa desta proposta revela a intenção de
manter,
sine die,
a ocupação do Iraque, o que é o mesmo que dizer a de
prolongar a guerra e a destruição e, naturalmente, a de manter o
país dominado. Não se gastaram 300 mil milhões de
dólares para devolver o Iraque aos iraquianos.
Dar por boas umas
eleições
realizadas em tais condições não só
aumentará a confrontação no Iraque como implicará
legitimar as guerras de agressão e validar os crimes internacionais.
Deitaram por terra não só a Carta das Nações
Unidas, como também o Tribunal Penal Internacional, pois carecerá
de sentido defender uma ordem jurídica mundial e um tribunal
internacional, quando basta uma farsa eleitoral para limpar os crimes mais
abomináveis.
Os EUA, que inventaram a democracia das bananas no Caribe, tentam impor no
Iraque uma democracia de cadáveres. Invade o país, coloca um
governo títere, mata, encarcera e tortura os opositores e convoca
eleições
sem garantias, nas quais apenas participam os seus. Com o arremedo eleitoral,
a ocupação e a guerra transformam-se em politicamente correctas e
Bush poderá proclamar, sobre um país devastado, que os Estados
Unidos cumpriram a sua missão civilizadora. O modelo não
é novo. Na América Latina foi utilizado ao longo de
décadas. E ainda se estão a contar os cadáveres.
[*]
Professor de Direito Internacional Público e Relações
Internacionais na Universidade Autónoma de Madrid.
Tradução de José Paulo Gascão.
O original encontra-se em
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=10811
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Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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