Grécia atravessa as linhas vermelhas
A notícia de que o primeiro-ministro grego Tsipras retirou o seu
ministro das Finanças Yanis Varoufakis das negociações
directas com o Eurogrupo sugere que o governo Syriza está a preparar-se
para mais concessões à Troika a fim de chegar a acordo sobre os
termos da liberação dos fundos existentes da UE e do BCE ao
abrigo da quarta extensão do segundo pacote de salvamento
(bailout).
Varoufakis foi substituído por Euclid Tsakalatos, economista educado em
Oxford e anteriormente, quando o Syriza estava na oposição,
ministro sombra das Finanças (ver
aqui
). Tsakalatos possivelmente é mais "moderado" e certamente mais
aceitável para os ministros das Finanças do Eurogrupo do que o
"carismático" Varoufakis, que parece odiado.
Este passo de Tsipras rumo a mais concessões e talvez a abandonar as
suas "linhas vermelhas" não negociáveis que o Syriza
não permitiria serem transpostas possivelmente obteria apoio do povo
grego, se os actuais inquéritos de opinião forem correctos. Um
deles dizia que 79% dos gregos querem permanecer no euro e 50% querem
alcançar um compromisso ao invés de uma ruptura (36%). Cerca de
63% dos gregos querem evitar um incumprimento das dívidas do governo
grego. E se houvesse um acordo que rompesse as ditas linhas vermelhas,
então os gregos prefeririam um governo de unidade nacional (44%) ao
invés de um referendo (32%) ou de novas eleições (19%)
para confirmá-lo. O Syriza ainda lidera nos inquéritos com 36%
dos votos potenciais, a comparar com 22% para a direita da Nova Democracia; 5%
para o social-democrata Potami; 3% para o PASOK em bancarrota e agora apenas 5%
para o fascista Aurora Dourada e para os comunistas.
O tempo está a esgotar-se para chegar a qualquer espécie de
acordo que mereça a aprovação do povo grego e evite um
incumprimento de dívidas e uma possível saída da Eurozona.
O governo conseguiu "raspar" suficiente cash apropriando-se de
reservas de autoridades locais e outras agências do governo de modo a que
possa pagar as próximas obrigações de dívida ao FMI
durante o mês de Maio. Mas é improvável que tenha o
suficiente para reembolsar o FMI em Junho e certamente não o suficiente
para pagar a conta de 3,5 mil milhões do BCE em Julho a
menos que deixe de pagar salários aos seus trabalhadores e as
pensões do estado.
Ironicamente, o governo Syriza ainda dispõe de um excedente
orçamental de 1,7 mil milhões do primeiro trimestre deste
ano. Ele conseguiu isto simplesmente por não pagar as suas contas a
fornecedores do governo ou aos serviços de saúde e escolas. Ao
fazer isto, ele pode cumprir com os salários dos trabalhadores do sector
público e com as pensões. O problema é que [o montante] de
impostos não pagos está a subir constantemente, atingindo
3,5 mil milhões no primeiro trimestre, embora o crescimento deste
défice tenha estado a atenuar-se. O povo, especialmente pessoas ricas e
homens de negócios, fica pouco desejoso de cumprir seus deveres fiscais
se pensar que em breve a Grécia será lançada para fora da
Eurozona e o governo incumprirá com suas dívidas e
desvalorizará os euros gregos. Eles querem manter consigo todos os euros
que obtiveram.
Até agora o BCE tem estado a financiar os bancos gregos à medida
que os seus depósitos caem. Mas os bancos gregos começam a ter
falta de "colateral" adequado para financiamento do BCE, nomeadamente
de Euro bonds da Euro instituição, o EFSF (European Financial
Stability Facility), que os bancos mantêm desde a
recapitalização
executada em 2013. E o BCE cessará o crédito se o governo grego
incumprir suas dívidas.
Quando em Fevereiro último começaram as negociações
sobre uma extensão de quatro meses do pacote de salvamento, considerei
que era provável um acordo mas que as negociações seriam
longas e tortuosas, e assim aconteceu. Mesmo que haja um acordo para liberar os
7,2 mil milhões ainda disponíveis sob o antigo pacote de
salvamento, será difícil alcançar um novo pacote para
financiar os bancos gregos e cumprir com os reembolsos ao FMI até Abril
de 2016.
Há uma possibilidade de que se o Syriza fizer bastantes
concessões quanto a: redução de pensões; aumento do
IVA; permissão de privatizações e introdução
de "reformas" nos mercados de trabalho, poderia então obter os
7,2 mil milhões e negociar também um terceiro pacote para o
período pós Junho que cumprisse futuros reembolsos ao BCE e ao
FMI e ainda não impor um pacote de austeridade demasiado pesado.
Aparentemente, Tsipras, Merkel e o Eurogrupo concordaram em que o alvo do
superávite primário orçamental será reduzido de
3-4% do PIB por ano para cerca de 1,5%. E se a economia da Eurozona
começasse a recuperar, isso também poderia impulsionar a economia
grega através de exportações mais elevadas e entrada de
mais investimento. Este é o cenário que Tsipras e os
líderes do Syriza procuram.
Na verdade, Varoufakis explicou minuciosamente como tal cenário pode
funcionar se os líderes Euro fossem apenas um pouco mais cordatos (ver
aqui
).
Varoufakis dissera anteriormente que o objectivo seria convencer os
líderes Euro e os mercados financeiros que dar à Grécia
algum "espaço para respirar" permitiria que a economia
recuperasse e isto ajudaria o capitalismo europeu. E o objectivo correcto agora
é "salvar o capitalismo de si próprio" e não
lançar ridículas medidas socialistas pois "simplesmente
não estamos prontos para colmatar o abismo que abrirá um
capitalismo europeu em colapso com um sistema socialista a funcionar" (ver
aqui
).
Naturalmente, esta "saída" significa que o Syriza ainda
estará a efectuar austeridade orçamental (ainda que "mais
leve") com um excedente no orçamento do governo no momento em que o
desemprego grego permanece acima dos 25% e a economia ainda está a
contrair-se em termos reais e nominais. Na verdade, desde 2009 os gregos
já sofreram um ajustamento de austeridade orçamental equivalente
a 20% do PIB potencial.
E os trabalhadores gregos receberam uma enorme pancada a fim de restaurar a
lucratividade corporativa grega: um corte de 25% nos custos do trabalho do
sector privado, ou mais de 30% em relação à média
euro.
Mas todos estes cortes fracassaram em reduzir mesmo uma mínima parte do
rácio da dívida do governo. Ao contrário, o rácio
da dívida do governo está agora nos 175% do PIB, mais alto do que
em 2010. Sob qualquer acordo com a Troika, este fardo da dívida
não seria reduzido pois não haveria cancelamento da dívida
com a "instituições" da UE. Os gregos nunca
poderão reembolsar esta dívida e é ridículo esperar
que assim o façam. E, como sabemos, cerca de 90% destes
empréstimos da Troika não "salvaram" gregos mas foram
utilizados para reembolsar bancos franceses e alemães e hedge funds
americanos que mantinham títulos gregos e estavam a pedir o seu dinheiro
de volta. O dinheiro devido a estas finanças capitalistas foi meramente
transferido para o sector oficial (as "instituições" da
UE e o FMI) ver
aqui
.
É verdade que os empréstimos da UE não começam a
ser reembolsados até 2020, mas o Eurogrupo está a insistir em que
os gregos comecem a efectuar redução de dívidas
antecipadamente através de impostos mais altos e controles sobre os
gastos, muito embora famílias gregas ainda estejam atoladas na pobreza e
os serviços públicos de saúde, educação e
habitação estejam no caos. Para os líderes Euro, é
melhor preservar os outros e manter o pacto orçamental da UE.
Além disso, pretendem restaurar o capitalismo grego através do
aumento da lucratividade, não a restauração dos
rendimentos de famílias gregas.
Ainda em Fevereiro, apresentei esta questão como um triângulo
impossível. O Syriza não podia reverter a austeridade, ficar no
euro e permanecer unido como um partido único no governo. Um ou mais
destes objectivos teriam de ser abandonados. Parece que Tsipras optará
por ficar no euro, ainda que não possa reverter a austeridade ou
cancelar
(write off)
dívida do governo grego. A questão então torna-se
política: o que fará a esquerda dentro do Syriza? Será que
também engolirá qualquer acordo, especialmente se Tsipras
apresentá-lo num referendo popular e ganhar os votos? Ou será que
dividirão o partido e forçarão Tsipras a uma
aliança com a oposição (unidade nacional) para conseguir
qualquer acordo aprovado pelo parlamento?
Ainda há a possibilidade de que os termos da austeridade exigidos pela
Troika sejam excessivos para a liderança do Syriza aceitar e em Junho os
gregos optem pelo incumprimento dos pagamentos. O FMI permite um
"período de graça" de 30 dias no cumprimento de
dívidas vencidas, assim o incumprimento não será
tecnicamente imediato, embora provavelmente haja uma corrida aos bancos gregos.
O governo teria de impor controles de capitais e travar a saída de
dinheiro do país ou mesmo o simples entesouramento. Introduzir controles
de capital não significa romper quaisquer regras da Eurozona, de modo
que tecnicamente a Grécia ainda seria membro da mesma. Mas a corrida aos
bancos significaria que ou BCE interviria a fundo ou os bancos faliriam. A
condição grega como membro da Eurozona seria posta em causa.
O governo poderia continuar a afirmar que o euro era a divisa grega e
não introduzir qualquer novo dracma. Mas os euros logo se tornariam
escassos para pagar trabalhadores do governo e para as empresas pagarem
importações e salários dos seus trabalhadores. A economia
grega caminharia para um desmoronamento ainda mais profundo mais adiante.
Então a desvalorização e uma nova divisa grega não
estariam longe, a fim de tentar evitar um colapso. Mas
desvalorização significaria que os negócios gregos
encontrariam ainda mais dificuldade para pagar suas contas em euros e muitos
iriam à falência. Seria uma outra forma de colapso. Estas
são as consequências para o povo grego, com acordo ou sem acordo,
sob o capitalismo.
A alternativa para enfrentar o problema: exigir o cancelamento dos
empréstimos em euro e do FMI (o pedido original do Syriza) ou
incumprimento; impor controles de capital, tomar o comando
(take over)
dos bancos gregos e apelar ao apoio do povo grego e do movimento trabalhista
europeu. Deixar os líderes euro tomarem a iniciativa quanto à
condição de membro da Eurozona, não o Syriza. O problema
é que agora o povo grego tem sido levado a acreditar que há
apenas uma saída: um acordo com o Eurogrupo em termos cada vez piores. A
alternativa de um plano socialista de investimento e de um apelo a toda a
Europa não está diante de si (ver
aqui
).
A abordagem Tsipras-Varoufakis de concessões agora e esperança de
uma melhor economia capitalista mais à frente poderia funcionar por um
breve período. Mas ela não reverterá as perdas
terríveis em rendimentos, empregos, educação e
saúde que sofreram aqueles gregos que não conseguiram ou
não quiseram deixar o país. E o que acontecerá quando vier
o próximo desmoronamento
(slump)
na economia mundial?
Ver também:
Grexit Looks Inevitable. But Greece Will Need Moscow’s Help
Est-ce que l’économie grecque est stupide ?
[*]
Economista, britânico.
O original encontra-se em
https://thenextrecession.wordpress.com/2015/04/28/greece-crossing-the-red-lines/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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