Sobre o massacre e os acontecimentos no Egito
Nem Cila nem Caríbdis
Os ecrãs da televisão têm estado, mais uma vez, a
transbordar de sangue. Com o sangue das centenas de mortos e de milhares de
feridos no Egito, nos violentos confrontos entre os Irmãos
Muçulmanos que apoiam o Presidente Morsi, na prisão, e o
Exército.
Anteriormente, tinha havido uma enorme mobilização de massas de
milhões de
pessoas e a recolha de 22 milhões de assinaturas (acompanhadas pelo
número dos bilhetes de identidade e outros detalhes) contra M. Morsi.
Esta mobilização popular, organizada pelas forças
políticas da burguesia e da pequena burguesia, sob o "manto"
da manutenção do "secularismo", trouxe para o palco dos
acontecimentos o exército, que prendeu o Presidente egípcio e,
finalmente, suprimiu a reação esperada da Irmandade
Muçulmana, abolindo quaisquer pequenos elementos da democracia burguesa.
E este acontecimento foi designado como uma "revolução"
pela "esquerda" egípcia (que participa no arco do poder
político secular), tal como o foram os acontecimentos de 2011, que
tinham levado à queda de H. Mubarak (o seu partido estava junto com o
PASOK na "Internacional Socialista") e tinham feito subir ao poder
governamental o representante do "Islão político", M.
Morsi (teve 5,7 milhões de votos na primeira volta e 13,2 milhões
na segunda).
O turbilhão do confronto
Pode-se chamar-lhe turbilhão. E tornou-se ainda mais confuso à
medida que se desenrolava.
Assim, por exemplo, vimos que os EUA, que, durante décadas, apoiaram H.
Mubarak, a apoiar Morsi alegremente. Mais tarde, depois do golpe
("revolução"), mesmo não se tendo atrevido a
cortar o dinheiro para o exército egípcio que na altura eram 1,3
mil milhões de dólares por ano, primeiro enviaram o conhecido
senador J. McCain para exigir a libertação de Morsi e, quando
isto não foi aceite, pediram aos militares que fizessem um compromisso
com os islamitas. E como se tudo isto não bastasse, enviando uma
mensagem ainda mais clara, os EUA indicaram Robert Ford, o último
embaixador na Síria, como seu novo embaixador no Egito, que aí
tinha adquirido a reputação de ser um "amigo" chegado
do movimento islamita, assim como nos países em que anteriormente tinha
servido (Iraque, Argélia, Qatar, Turquia).
Entretanto, a UE declara-se "preocupada com a democracia" e
ameaça o governo militar com sanções.
Por outro lado, algumas pessoas de
"esquerda"
e
"anti-imperialistas"
no nosso país e um pouco por todo o mundo (em contraste com a
"esquerda" egípcia) apressaram-se a denunciar o golpe e o
exército e, em nome da "restauração da
democracia", puseram-se ao lado da Irmandade Muçulmana. Não
levando em consideração este curto período de tempo em que
andavam a resolver a questão do governo, a situação da
classe operária e das camadas populares no Egito não só
não melhorou como se deteriorou claramente: o desemprego ultrapassou os
23% e a extrema pobreza afetou 50% da população, provocando uma
nova vaga de "greves", mobilizações populares, que
só num ano atingiram o número de 7 400. Além disso, estes
"anti-imperialistas" fingem que não percebem nada acerca do
uso da arma religiosa (o Islão "político" e armado)
pela burguesia (por exemplo na Turquia) e pelos poderes imperialistas (por
exemplo na Síria), com o objetivo de promover os seus planos, que
têm em vista uma ainda maior exploração dos trabalhadores.
E não são só estes os "paradoxos". As
posições dos outros países vizinhos também
são características. É claro que a Turquia de T. Erdogan,
cujo partido está intimamente ligado à Irmandade
Muçulmana, está também a desempenhar um papel de
liderança na condenação internacional do golpe e na
"restauração da democracia". No entanto, a
posição do Irão é interessante. Isto porque, como
é sobejamente conhecido desde há dois anos, o Irão,
compreendendo que o laço dos EUA-Israel se pode apertar à sua
volta, apoia firmemente o regime de Assad na Síria que, por sua vez,
luta contra as forças que eram apoiadas pela Turquia e o Egito
(especialmente o presidente Morsi). Na verdade, Morsi, um pouco antes de ter
sido derrubado, pôde declarar uma guerra santa contra o regime
sírio. Seria de esperar que esta queda agradasse ao regime iraniano, mas
acontece o contrário. O Irão apelou a um compromisso entre os
dois lados, pressentindo o perigo de o Ocidente retirar benefícios dos
desenvolvimentos do chamado "caos controlado" e assentar o seu
poderio militar no Egito e, mais generalizadamente, na região.
Por outro lado, a
Arábia Saudita
, que participa ativamente na intervenção imperialista na
Síria, parece apoiar militarmente o golpe de Estado no Egito e virar as
costas à Irmandade Muçulmana neste período.
No meio deste círculo vicioso surge a seguinte questão:
com que critério
deverão os trabalhadores avaliar estes factos? Que lado deverão
esperar que ganhe e que lado deverão esperar que perca?
As forças que estão em conflito
Para respondermos a esta questão, primeiramente, temos de clarificar o
que são estas forças políticas. E aqui também
não nos basta invocar a democracia burguesa que a burguesia, quando
precisa, desrespeita completamente. A "embalagem" com que se
apresenta cada força no sistema bipolar burguês não chega:
"Teocracia" ou "secularismo" do Estado. Isso também
não chega para nos orientarmos em relação à
posição e às manobras que os EUA e outras potências
possam vir a realizar, potências que estão envolvidas na crise,
cada uma à sua maneira. Podemos ter isso em conta, mas é apenas
através do prisma dos interesses da classe que representa cada um dos
lados do conflito que poderemos orientar-nos.
Assim, temos, por um lado, o
Exército
, que no Egito não é simplesmente ou principalmente o suporte do
Estado burguês, como acontece no resto do mundo capitalista, mas é
também alguma coisa mais. A sua liderança é uma parte da
burguesia do Egito em carne e osso. O exército egípcio, treinado
nos EUA, possui uma parte significativa dos meios de produção:
fábricas, infraestruturas turísticas, negócios nos mais
variados e lucrativos setores da economia. De acordo com várias
estatísticas, controla qualquer coisa como 10% a 40% do PIB do Egito.
Por outro lado, temos a
Irmandade Muçulmana
, uma organização que começou em 1920, não sem a
ajuda de serviços secretos estrangeiros, com o objetivo de atacar o
movimento comunista e operário. Estes contactos nunca desapareceram e
alguns dos seus funcionários políticos, apesar da sua roupagem
"antiamericanista", estudaram nas metrópoles do Ocidente (o
presidente Morsi, por exemplo, estudou e trabalhou na Califórnia, nos
EUA). A organização está intimamente ligada a uma parte da
burguesia e a capital estrangeiro. Por exemplo, é sabido que o atual
número 2 na hierarquia da Irmandade Muçulmana, Khairat El-Shater,
é um dos maiores homens de negócios do país, com capital
em outros países da região também. Hassan Malek,
também ele é um homem de negócios, que começou na
década de 80 com o já mencionado El-Shater, e fundou e é
presidente da
"Associação Empresarial Egípcia de
Desenvolvimento"
, de que são sócias 400 empresas, e está ligada à
Irmandade Muçulmana. Hoje, uma parte da burguesia egípcia, que
pretende a redistribuição dos meios de produção e a
promoção das reestruturações capitalistas que
tinham começado com Mubarak, mas a um ritmo mais rápido e, claro,
à custa do exército, uniu-se em torno da Irmandade
Muçulmana.
Vejamos um telegrama enviado em 2008 pela então embaixadora dos EUA no
Cairo, Margaret Scoby, para o Departamento de Estado do seu país e que
foi publicado no Wikileaks, em 14 de dezembro de 2011: "Vemos o papel dos
militares na economia como uma força que, em geral, sufoca a reforma do
mercado livre aumentando o envolvimento direto do governo nos mercados".
Portanto, os EUA viam na Irmandade Muçulmana, por um lado, uma
força que expressa a necessidade de reformas capitalistas rápidas
na economia para facilitar a atividade dos monopólios na economia
egípcia. Por outro lado, uma força política burguesa,
usando a arma da religião que salvaguardará os seus interesses
através da formação de um arco sunita em confronto com o
Irão shiita, que é um aliado das potências emergentes do
mundo capitalista, a China e a Rússia.
Claro que as forças que competem com os EUA na região têm
também os seus próprios objetivos em relação
à defesa dos interesses dos seus próprios monopólios na
luta pelo controlo dos mercados, dos recursos naturais e das vias de transporte.
Um conflito estranho aos interesses do povo
A questão que se coloca é
por que razão
os trabalhadores devem apoiar um ou outro lado deste conflito
interburguês e intercapitalista?
De facto, os trabalhadores
não têm interesse
na prevalência de um ou outro lado. As esperanças de que o
exército pudesse representar uma parte mais "progressista",
mais "patriótica" da burguesia no Egito, como considera a
"esquerda" egípcia que apoia o golpe de Estado, classificado
como "revolução", também são infundadas.
Esta distinção da burguesia baseada em antigas análises do
movimento comunista internacional tornou-se obsoleta pela própria
realidade, que demonstra que o capital não tem
"pátria". Uma ou outra parte da burguesia pode tripudiar sobre
os sentimentos patrióticos do povo para enganar os trabalhadores,
construindo as alianças políticas apropriadas para assegurar o
seu poder, mas o único princípio que os capitalistas reconhecem
é a rentabilidade do seu capital.
As posições das forças que sustentam que a outra parte da
burguesia, que apoia a Irmandade Muçulmana, vai restaurar e aprofundar a
"democracia" contra o "militarismo" e que apresentam
Erdogan e a Turquia como um modelo também
carecem de fundamento
. Não existe nada na "democracia" da Turquia de que os
trabalhadores possam ter inveja, como já foi claramente demonstrado pelo
esforço para reprimir as manifestações populares
antigovernamentais naquele país e também pelas medidas
antipopulares que foram impostas para aumentar a rentabilidade do capital e a
participação nos planos imperialistas.
Por isso, quando nos perguntam quem é melhor, o exército ou os
islamitas, nós respondemos: "ambos são piores! Não
escolhemos entre Cila e Caríbdis"
[1]
Qual é a necessidade que se coloca?
Como conclusão, a crise do sistema político do Egito revela a
agudização
das contradições entre os setores da burguesia pelo
domínio da gestão da raiva e do descontentamento do povo.
Está relacionada com a competição entre os centros
imperialistas pelo domínio das reservas naturais de toda a região
e as rotas de transporte de energia.
Provou-se
que as lutas das forças populares contra o desemprego, a pobreza, a
miséria, a repressão, a corrupção, contra a
pilhagem das riquezas dos seus países pelos monopólios
estrangeiros e nacionais, quando limitadas apenas à mudança de
governos antipopulares e aos direitos democráticos burgueses, não
podem esperar ter resultados favoráveis ao povo. As expectativas do povo
foram rapidamente dissipadas pelas forças políticas que se
tornaram dominantes com a chamada "primavera árabe". Por isso,
estas forças, como o SYRIZA na Grécia, saudaram a "primavera
árabe" e fomentaram expectativas a seu respeito ("a primavera
árabe abre as portas da democracia nos países nossos
vizinhos" - declaração do SYRIZA-USF). Provou-se que os
interesses do povo não podem ser satisfeitos nem pelo governo da
"Irmandade muçulmana", que impôs uma política
antitrabalhadores de apoio aos monopólios, nem pela secção
da burguesia que agora apoia o golpe militar. Os acontecimentos demonstram que
as lutas das massas populares não são suficientes para o povo
impor o seu poder e os seus interesses, demonstram que elas devem apontar para
o derrubamento do poder dos monopólios, para iniciar desenvolvimentos a
favor do povo.
A classe operária e as camadas populares pobres não devem
derramar o seu sangue em vão nos conflitos intercapitalistas. Não
se devem limitar a derrubar um ou outro governo, não se devem enredar em
soluções alegadamente transitórias que preparam o
próximo governo antipopular. Devem apresentar a sua própria
proposta de poder, a sua própria "bandeira" a favor da
socialização dos meios de produção, a
planificação central da economia, o poder da classe
operária!
Porque o socialismo é necessário e está na ordem do dia
também para o Egito e resulta, quer do amadurecimento das
pré-condições materiais, quer dos
impasses
do modo de produção capitalista, apesar da atual
correlação de forças políticas ser
desfavorável! A mudança desta correlação de
forças exige que o povo afronte e entre em conflito com o poder da
burguesia e todas as suas variantes. Só deste modo a roda da
história pode avançar.
[1] Monstros marinhos da mitologia grega
[*]
Membro do Comité Central e responsável pela Secção
das Relações
Internacionais do KKE
O original encontra-se no
Rizospastis
de 25/Ago/2013, a versão em inglês em
inter.kke.gr/en/articles/Neither-Scylla-nor-Charybdis/
e a tradução do inglês, de TAM, em
www.pelosocialismo.net/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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