Colapso: Grécia
por Charles Hugh-Smith
O tema desta semana é colapso.
É um tópico grande e complexo porque há tantos tipos de
colapso quanto há de sistemas. Alguns sistemas parecem estáveis
à superfície mas subitamente entram em colapso; outros entram em
decadência visível durante décadas antes de finalmente
deslizarem para trás das ondas da história; e alguns atravessam
várias etapas de colapso.
A taxonomia do colapso é vasta e cada sistema insustentável (isto
é, um sistema que fracassará apesar de afirmações
em contrário) tem suas características únicas.
O que nos traz à Grécia.
Tenho escrito amplamente acerca da Grécia e do condenado arranjo
financeiro conhecido como Euro ao longo de muitos anos. Por exemplo:
Greece, Please Do The Right Thing: Default Now
(June 1, 2011).
When Debt is More Important Than People, The System Is Evil
(February 18,
2012)
Greece at the Crossroads: the Oligarchs Blew It
(January 27, 2015)
Greece and the Endgame of the Neocolonial Model of Exploitation
(February 19,
2015)
When Europe Gets Greece's Jingle Mail: Dealing with Default
(May 15, 2015)
Com a bancarrota da Grécia agora inegável,
alcançámos finalmente o fim do jogo do Modelo
Neocolonial-Financiarização.
Não há mais mercados na Grécia a explorar pela
financiarização e o facto de que as montanhas de dívida
são impagáveis já não pode ser mascarado.
A aristocracia financeira da Europa tem um problema insolúvel:
cancelar dívida incumprida também cancela activos e fluxos de
rendimento, pois
toda dívida é o activo e o fluxo de rendimento de alguém.
Quando todos aqueles activos fantasmas são reconhecidos como sem valor,
o colateral desvanece-se e o sistema implode.
As nações periféricas da UE são efectivamente
devedores neocoloniais do centro e os contribuintes dos países do centro
são agora servos feudais cujo trabalho é destinado a tornar bons
quaisquer empréstimos à periferia que se tornem maus (ver
gráfico dos devedores da Grécia).
As elites financeiras/políticas da Grécia conseguiram a entrada
na UE por tudo o que era ali valioso, destruindo efectivamente a economia grega
no seu saqueio sem limites.
Greece's financial/political Elites milked the entry into the EU for all it was
worth, effectively destroying the Greek economy in their limitless
looting:
Misrule of the Few: How the Oligarchs Ruined Greece
.
O que já entrou em colapso é a fé em que as
instituições dentro da Grécia e da União Europeia
possam efectivamente administrar o inevitável incumprimento grego.
Como se observou no ensaio linkado acima, a estrutura de poder da
Grécia está concebida para fazer só uma coisa: proteger
interesses estabelecidos e diluir responsabilidades.
O mesmo pode ser dito do Banco Central Europeu (BCE) e da União Europeia
(UE).
Ambos foram vendidos como
magia financeira abstracta:
as estruturas de poder elitistas de cada país da união a
derradeira fonte da podridão que agora emite o imundo fedor do colapso
seriam deixadas intactas enquanto as economias de todos os países
membros magicamente produziriam mais bens e serviços com base na
dívida sempre em expansão e na alavancagem.
Isto leva-nos à questão crítica do momento: quem
está a salvar quem?
Estão os desesperados bailouts a salvar o povo grego e a integridade da
sua nação, ou estão eles simplesmente a salvar Elites
político/financeiras que se beneficiaram da condição de
membro da UE e da expansão sistémica de dívida?
Aqui está outra questão chave: quem está a ser punido pela
política da Troika do "ninguém incumpre safa-se ileso"?
Claramente, o povo grego está a ser punido mas para quem fim? E a
punição das Elites políticas/financeiras que beneficiaram
da entrada da Grécia na UE e as Elites bancárias que lucraram com
a irresponsável expansão de empréstimos à
Grécia?
Se a Grécia houvesse incumprido quatro anos quando o incumprimento
já era visivelmente inevitável
, a cidadania grega já teria trabalhado através da crise penosa
de ajustamento à escassez de credito externo e talvez uma nova divisa, e
pode ser que tivesse lançado ao mar suas Elites corruptas e
egoístas, limpando o caminho para o crescimento sustentável e a
boa governação.
Ao invés disso, o povo grego sofreu por nada.
O incumprimento ainda é inevitável, como é a resultante da
vasta crise da política e da dívisa da UE.
Quando sistemas estão falidos, o colapso é o único caminho.
Só o colapso rompe o domínio dos interesses estabelecidos e abre
o processo político à participação da não
Elite. Ao atrasar o incumprimento/colapso durante quatro longos anos, a Elites
grega puniram seus cidadãos absolutamente para nada no seu imenso
sofrimento. A Grécia não pode mais escapar ao buraco negro do
incumprimento que podia ter sido há quatro anos atrás.
A mágica da banca central e privada fracassou.
A ideia de que Elites corruptas e egoístas magicamente criariam
prosperidade generalizada pela contracção de empréstimos
de moeda que nunca poderiam ser reembolsados entrou em colapso, embora a Elites
do Poder da Troika agarrem-se a esta louca fantasia
porque elas não têm outra escolha se quiserem reter o poder.
A única fé que resta na Elite da UE é a crença na
deusa TINA there is no alternative.
Mas há sempre uma outra alternativa: o colapso do status quo e a
montagem de um arranjo alternativo que não concentre poder nas
mãos de uns poucos a expensas dos muitos.
[*]
Escritor, estado-unidense.
O original encontra-se em
charleshughsmith.blogspot.pt/2015/06/collapse-part-1-greece.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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