Mais um marxista "errático"
O Partido Trabalhista britânico, o marxista McDonnell e a
negação do défice
A eleição de um novo líder do Partido Trabalhista no Reino
Unido, da oposição, provocou um grande interesse nos media
internacionais e entre economistas. Isso porque o novo líder, Jeremy
Corby e seu recém-nomeado porta-voz para as finanças, John
McDonnell, foram considerados como "marxistas confessos".
É o caso de McDonnel. Ele é um "marxista confesso"
porque diz que é. No dia do seu discurso na conferência anual dos
Trabalhistas, esta semana, declarou: "Se você olhar para o nosso
sistema capitalista, um dos analistas definitivos do seu funcionamento
não se está condenado, ou se está certo ou errado, apenas
a mecânica de como ele funciona, quando foi formado e como se
desenvolveria foi realmente Marx". E prosseguiu: "Marx voltou
à moda porque as pessoas retornaram à sua análise
básica de como exactamente o sistema funciona. As pessoas podem
discordar das suas conclusões acerca do que fazer com o sistema, mas
realmente para entender como o sistema funciona ele propõe algumas
análises interessantes que foram construídas dentro da teoria
económica tradicional e razoavelmente clássica".
Contudo, note-se que John McDonnell faz uma distinção entre a
"análise interessante" de Marx do sistema capitalista, isto
é, do que está errado nele, e "suas conclusões acerca
do que fazer". Portanto, parece que da sua análise não
decorrem necessariamente políticas para lidar com o capitalismo.
Que políticas adoptar? Bem, aparentemente prescrições
keynesianas. Assim, McDonnell anunciou
um painel de conselheiros económicos
, incluindo luminárias internacionais como Joseph Stiglitz e Thomas
Piketty, para ajudar a elaborar a política económica. Este
comité é extraído da corrente principal keynesiana e das
suas alas heterodoxas, mas não marxistas.
Estou certo de que isto parece um bom estratagema político para envolver
economistas importantes nos planos económicos do Labour. Não
há dúvida que espera desarmar a crítica dos media
financeiros e do big business o facto de um vencedor do Prémio Nobel e
os economistas do momento estarem no comité. Mas isto recorda-me mais a
abordagem do Syriza da Grécia, o qual começou com uma
"análise" marxista do capitalismo grego mas que, de acordo com
Yanis Varoufakis
e
Costas Lapavitsas
, deveria ser posta de lado quando chegasse à política porque a
teoria económica keynesiana é mais relevante "na
prática".
Para ele o problema está
numa "falta de procura", não numa falta de lucratividade
. Assim, num declínio,
prescrições keynesianas apelam a mais gasto governamental ou uma
reversão da "austeridade" (na linguagem corrente), de modo a
que o gasto promova o emprego e rendimentos e restaure o consumo familiar (e o
investimento?) como meio de recuperação. Isso significa incorrer
em défices orçamentais através de mais
contracção de empréstimos pelo governo (emissão de
mais títulos).
Os keynesianos geralmente descartam aqueles (austeritários e
neoliberais) que se preocupam em que, como resultado, o disparo da
dívida governamental leve a uma nova crise quando governos descobrem que
não podem aguentar seu serviço de dívida excepto a taxas
de juro incomportáveis (Grécia e economias periféricas da
Eurozona, Porto Rico, etc). Como se vê,
para os keynesianos, a dívida de um homem é o activo de outro
. Assim, o único problema é se são estrangeiros que
possuem a dívida. Se eles pedirem reembolso, podem então
estropiar a divisa. Esta é a visão de Paul Krugman nos EUA e de
Simon Wren-Lewis, o guru keynesiano britânico, agora parte da equipe de
conselheiros de McDonnell.
Mas a dívida importa
. Uma das características do crash financeiro global foi a
ascensão maciça de dívida do sector privado
(famílias e corporações) antes do esmagamento do
crédito em 2007. Aquela dívida ascendeu quando economias
capitalistas tentaram manter a lucratividade do capital e o crescimento
económico alto através de uma baixa taxa de juro, da bolha
alimentada a crédito em sectores improdutivos da finança e da
propriedade. O crédito privado minguado (não a lucratividade
minguada) é a visão de Minsky da crise como foi descrita em
particular por
Steve Keen
e
Anastasia Nesvetailova
(uma das novas conselheiras de McDonnell).
Mas, como tenho explicado muitas vezes neste blog, o boom do crédito dos
anos 2000
foi uma resposta à lucratividade declinante do capital nos sectores produtivos
dos EUA, Reino Unido e outras economias importantes a partir do fim da
década de 1990. Ele protelou um grande declínio, só para
criar um ainda maior em 2008-9.
Trata-se de dívida do sector privado. Mas o mesmo se aplica à
dívida do sector público. Se os possuidores desta dívida
(bancos, hedge funds, fundos de pensão, companhias de seguros) decidirem
que querem o seu dinheiro de volta ou pedirem muito mais em juros para
renovarem seus empréstimos ou comprarem títulos governamentais,
eles podem estropiar a capacidade de um governo para pagar benefícios da
previdência e serviços públicos, sem falar em investimentos
em estradas, hospitais e escolas.
A dívida importa numa economia capitalista: capitalistas devem a outros
capitalistas; famílias devem a capitalistas financeiros; e governos
devem a capitalistas financeiros. Os detentores desta dívida esperam um
retorno e reembolsos rápidos. Sob uma economia predominantemente detida
pelo Estado e planeada, companhias estatais, famílias e governos
deveriam a outras companhias estatais. Assim as decisões sobre o custo
da tomada de empréstimos e os termos do reembolso poderiam ser decididas
como parte de um plano nacional e não pelo "mercado" e com
base na lucratividade do capital (financeiro).
Ironicamente, tendo seleccionado keynesianos e minskyistas para a sua equipe,
John McDonnell deixou claro desde o começo que
não é um "negador do défice"
. Com isto, ele quer dizer que não se pode ignorar [a possibilidade de]
incorrer em défices no orçamento do governo, como consideram os
keynesianos. Como disse McDonnel: "Aceitamos que vamos ter de viver dentro
dos nossos meios e sempre o faremos ponto final". E ele advoga a
assinatura da carta fiscal do governo Conservador que
tornará lei o dever do governo de "equilibrar as contas" ao longo do "ciclo de negócios"
. "Nós apoiaremos a carta. Apoiaremos a carta na base de que
queremos equilibrar as contas, queremos viver dentro dos nossos meios e
consideraremos o défice".
Isto é claramente um estratagema político de McDonnell para
evitar a acusação feita pelos Conservadores de que os
Trabalhistas, quando no governo, permitiram que os défices
saíssem do controle e assim provocassem a crise e a Grande
Recessão e de que os Trabalhistas não se preocupam em
"equilibrar as contas". Esta acusação, naturalmente,
é sem sentido e uma rematada mentira. Na verdade, quando no governo, os
Trabalhistas geralmente incorrem em défices mais baixos do que os
Conservadores e sob o "prudente" ministro das Finanças e
primeiro-ministro Gordon Brown, os gastos do governo foram bem mantidos sob
controle, como
destacou Ann Pettifor, uma das novas conselheiras económicas de McDonnell
.
O défice orçamental do Reino Unido disparou só quando
começou o crash financeiro global e bancos britânicos tiveram de
ser salvos
(bailed out)
com o dinheiro dos contribuintes (empréstimos). Isto impulsionou Gordon
Brown a dizer ao parlamento britânico que havia "salvado o
mundo" (um deslize de arrogância, significando que ele havia salvo
os bancos). O défice actual do governo,
ainda mais alto do que em outras economias G7, sob os Conservadores e com a dívida do governo ainda ascendendo rumo a 100% do PIB
, foi o produto da crise capitalista (o colapso financeiro e a consequente
Grande Recessão).
McDonnell diz que este défice e a dívida do governo podem ser
reduzidos não por cortes na previdência e serviços
públicos como os Conservadores têm feito e continuam a fazer.
Trata-se de uma escolha política. Ao invés disso podem ser
efectuados pela elevação de impostos sobre os ricos (revertendo
cortes em impostos corporativos e imposto sobre a herança), reduzindo o
"bem-estar corporativo" (cerca de £90 mil milhões por
ano), tratando agressivamente da
evasão fiscal
e evitando [isenções] como as da Vodafone, Amazon, Google e
Starbucks (no valor de £120 mil milhões por ano). E os Trabalhistas
sob McDonnel também estimulariam o crescimento económico
através da contracção de empréstimos para investir
em projectos de infraestrutura. McDonnell também estima que £80-100
mil milhões podiam ser poupados (ao longo de 30 anos, ter em mente)
sucateando o programa do submarino nuclear Trident que deve ser renovado no
próximo ano.
Por louváveis que sejam estes objectivos, como destaquei
num post anterior
, grande parte destas medidas podem não proporcionar suficiente receita
extra para colmatar o défice se este é o objectivo,
além de tornar a desigualdade de rendimento e riqueza, absurdamente
alta, apenas um pouco menos extrema.
Tem sido destacado que será muito difícil levantar os necessários £30 mil milhões extras por ano em impostos sem atingir aqueles que ganham rendimentos médios
a menos que o crescimento económico do Reino Unido descole dos
actuais 2,0-2,5% ao ano de taxa de expansão.
O problema podia ser facilmente resolvido se rendimentos do sector privado
(salários e lucros) subissem significativamente mais depressa a fim de
proporcionar receitas fiscais muito mais altas. Mas isso não está
em vias de acontecer sob uma economia predominantemente capitalista onde a
lucratividade é chave para o crescimento do investimento, do emprego e
do rendimento. O capitalismo britânico já deixou de investir,
preferindo embolsar seus lucros e/ou especular em activos financeiros ou
investir no exterior. E isso com a mais baixa taxa fiscal corporativa entre as
economias principais, como o ministro Conservador das Finanças, George
Osborne, gosta de jactar. Impostos mais altos sobre o sector capitalista,
nomeadamente as grandes companhias que investem e empregam a maior parte da
economia, significará apenas um novo fracasso em investir.
A "nova" liderança dos Trabalhistas substituindo a
"velha" liderança (o "New Labour", neoliberal)
compromete-se a expandir o investimento público em infraestrutura,
sectores "verdes" e em habitação e transporte. Isto sem
dúvida ajudará a apoiar a actividade económica além
de ajudar a maioria ao invés dos 1%. Mas Corbyn e o National Investment
Bank de McDonnell não conseguirão proporcionar crescimento
suficientemente mais rápido enquanto a economia do Reino Unido nos seus
sectores estratégicos ainda estiver dominada por companhias capitalistas
em busca de lucro na City de Londres (banca privatizada, seguros e fundos de
pensão), por companhias construtoras de casas e de transportes
(ferrovia, autocarros e aviação) etc.
Juntamente com um Banco de Investimento Nacional (e banca de propriedade
totalmente estatal), o que é necessário é um Plano
Nacional para investimento, emprego e serviços baseado numa economia
predominantemente de propriedade do Estado, controlada e operada
democraticamente. Mas isto é a prescrição marxista a
partir da "interessante" análise marxista da economia
capitalista. Ao invés disso, a nova liderança Trabalhista gosta
da "análise" marxista mas encara
"soluções" keynesianas.
O capitalismo tem crises regulares e recorrentes esta é uma
conclusão única da análise económica marxista, algo
não aceite ou reconhecido pela corrente prevalecente, a teoria
económica keynesiana ou minskyistas. Como argumentei num
post anterior
, o capitalismo britânico, juntamente com o capital global, é
provável que entre em outro desmoronamento
(slump)
antes da próxima eleição geral britânica em 2020.
Na verdade, McDonnell também notou que reemergiram muitas das
características que levaram à última Grande
Recessão: um boom de crédito, uma bolha habitacional,
especulação bancária, etc.
Os keynesianos não viram a aproximação do último
desmoronamento (a Grande Recessão) e não têm
políticas para tratar disto, pelo menos no interesse da maioria. Assim,
confiar em políticas keynesianas para manusear ou evitar o
próximo desmoronamento, mesmo como estratagema político, pode
aprisionar o destino da nova liderança trabalhista.
30/Setembro/2015
[*]
Economista, britânico.
O original encontra-se em
thenextrecession.wordpress.com/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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