"Mémoire algérienne", de Henri Alleg

por Rémy Herrera

Henri Alleg. Henri Alleg é um revolucionário como já não há muitos, pelo menos nas nossas latitudes; um daqueles que, durante meio século, fizeram viver o sonho de uma Argélia fraternal; o "exemplo de um tipo de humanismo em vias de extinção", como disse o seu amigo fraternal, o escritor comunista português Miguel Urbano Rodrigues. Onde quer que tenha podido escutar Henri, desde uma tribuna na Festa do L'Humanité até uma sala de aula de colégio, de um anfiteatro de La Sorbonne a uma sala de curso para estudantes detidos da prisão da Santé, de uma pequena sala de cinema do Quartier Latin ao imenso Palácio das Convenções de Havana, sempre o vi, uma vez concluído o seu discurso, rodeado de uma multidão de admiradores, a abraçá-lo, a estreitar os seus braços, a agradecer-lhe. Pois, desde La Question, Henri é, para os progressistas do mundo, e em primeiro lugar para os comunistas, a própria figura da resistência à opressão, a representação da coragem levada até aos seus limites extremos, a expressão da ética revolucionária mais consequente. Che Guevara não se enganava, ele que o visitou várias vezes em Argel.

Clique a capa para encomendar 'Mémoire algerienne', 407 pgs., ISBN  223405818X. Mémoire algerienne , publicado pela Stock, é o testemunho magnífico, comovente e grave, cheio de humor e de modestia, destes anos de luta, antes, durante e após a guerra de libertação da Argélia. Um testemunho generoso, portador de esperança, que, contada simplesmente, atinge profundamente o leitor e lhe faz atingir as raízes da condição humana e o sentido da vida, isto é, para o autor, as razões profundas do combate permanente pela revolução social. O amor por este país e por este povo, a clandestinidade na colónia sob Vichy, a militância no seio do Partido Comunista Argelino, a direcção do diário anti-colonialista Alger républicain; a própria guerra da Argélia naturalmente, e depois a prisão em casa de Maurice e Josette Audin, a tortura inflingida pelos paraquedistas do general Massu através de métodos copiados àqueles da Gestapo, a escrita e a saída clandestina, folha a folha, de La Question — cuja censura provoca a mobilização de Jean-Paul Sartre, François Mauriac e Roger Martin du Gard —, os anos de aprisionamento em Barberousse na Argélia, depois em França, a evasão da prisão de Rennes, a clandestinidade de novo, a chegada à Checoslováquia, o retorno à Argélia independente, a "missão" em Cuba, Ben Bella, depois o golpe de Estado de Boumedienne... E a probição do Partido Comunista Argelino, com uma reflexão lúcida e nuançada sobre as relações, muito complexas e delicadas, entre a Frente de Libertação Nacional e os Partidos Comunistas (argelino e francês).

Quem transmitirá a todas aquelas e todos aqueles que são demasiado jovens para terem vivido esta época tormentosa a memória, o relato da verdade, aquela que desde 1954 as elites francesas da V República minimisam, ou negam abruptamente, a verdade desta guerra genocida no curso da qual quase um milhão de argelinas e argelinos perderam a vida — além dos europeus, na sua maior parte militantes comunistas que combateram ao seu lado —, a verdade sobre a tortura, à qual Henri resiste nas condições que se sabe, neste imóvel do boulevard Clemenceau em El Biar, a verdade dos crimes odiosos que a burguesia francesa, sempre tão pronta a falar de "democracia" e a dar ao mundo lições de "direitos humanos", fez sofrer aos povos em nome da França? Quem pois senão Henri, e seus camaradas da grande aventura do Alger républicain ?

Nestes tempos de crise de civilização e de perda de referências, de barbárie e do "fascismo sorridente" do imperialismo, de renúncia e também de desencorajamento de tanto "antigos camaradas ou companheiros de estrada", por vezes mesmo de covardia e de baixeza, este livro é seguramente uma lufada de oxigénio, um hino à fraternidade humana, uma lição de coerência na luta, um dom de confiança no futuro para todas aquelas e todos aqueles que não querem render-se e permanecem fieis aos princípios democráticos, humanistas e éticos do comunismo.

Paris, Setembro/2005

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27/Set/05