Crise dos créditos imobiliários "subprime" e
turbulências financeiras mundializadas
Em menos de uma semana, o BCE disponibilizou aos bancos europeus mais de 220
mil milhões de euros em empréstimos de urgência. A
última operação semelhante a esta data de 12 de Setembro
de 2001, e não ultrapassava os 69,3 mil milhões de euros. As
somas avançadas neste mês de Agosto são enormes e a sua
amplitude só se pode justificar através dos riscos muito
importantes para os mercados financeiros. Ouve-se falar em "crise do
crédito", em empréstimos imobiliários ditos
"subprime", falências dos fundos estado-unidenses
especializados no mercado imobiliário, em baixas das bolsas. Os bancos
de diversos países são afectados por esta situação,
inclusive os de França. Afinal, o que se passa, exactamente? Quais
são os mecanismos postos em prática? Quais são os riscos
possíveis?
Factos e mecanismos em acção
a) Créditos "subprime" e falta de pagamento por parte dos
devedores
O mercado imobiliário é um sector importante da economia,
particularmente, nos Estados Unidos onde os empréstimos
hipotecários são bastante desenvolvidos. Com efeito, é
frequente as famílias estado-unidenses fazerem empréstimos e
hipotecarem as suas casas, o que aumenta as possibilidades de consumo e
alimenta o crescimento nacional. Para a boa saúde da economia americana
importa facilitar o acesso à propriedade a camadas cada vez mais vastas
de população. Há alguns anos desenvolveram-se
créditos ditos "subprime", adaptados a famílias
modestas.
Estes créditos são disponibilizados por
instituições financeiras que se preocupam cada vez menos com o
perfil do cliente devedor. Eles têm uma taxa de interesse
muitíssimo elevada, entre 4 e 5 pontos superior à taxa normal
("prime" de risco), e variável em função da
evolução das taxas do FED. O seu reembolso é feito, muitas
vezes, de acordo com a regra 2-28: dois anos de reembolsos muito baixos, mais
28 anos super sobrecarregados. As subidas financeiras permitem que se
façam empréstimos até 110% do valor da
aquisição.
Estes empréstimos tiveram um grande sucesso, até porque as taxas
de interesse do FED eram baixas (inferiores a 2%, de 2002 a 2004). Em 2006, os
créditos "subprime" representavam cerca de 600 mil
milhões de dólares, o que significa 20% de todos os
empréstimos acordados aos Estados Unidos.
A partir de 2005, as taxas do FED subiram rapidamente para os 5,25% até
meados de 2006. Os reembolsos dos créditos sofreram aumentos
significativos, várias centenas de dólares mensais, e numerosas
famílias devedoras tiveram dificuldades em realizar os pagamentos. Cerca
de 1,2 milhões de empréstimos imobiliários falharam nos
Estados Unidos em 2006, um aumento de 42% relativamente a 2005. A falta de
pagamento leva a que as habitações sejam postas à venda, e
actualmente, estima-se que mais de 2 milhões de famílias
americanas irão perder as suas.
b) Consequências da crise dos créditos "subprime" sobre
a economia americana
As vendas consecutivas de habitações com falhas no pagamento
têm como primeiro efeito saturar o mercado imobiliário, dando
origem a uma descida dos preços pela primeira vez em 10 anos.
A construção de novas habitações abranda, e as
revendas baixam. (em Julho de 2007, as obras de construção
recuaram 20,9%, e as permissões de construção 22,6%)
A descida dos preços do mercado imobiliário diminui as
possibilidades de empréstimo para as famílias que querem
hipotecar as suas habitações, possibilidades essas já
alteradas há dois anos devido à subida das taxas.
c) Consequências nos mercados financeiros
As faltas de pagamento dos créditos "subprime" recaem em
primeiro lugar sobre as entidades financeiras especializadas no mercado
imobiliário, muitas das quais já faliram em inícios de
2007. Muitos desses títulos de crédito serviram de apoio à
emissão de obrigações
[1]
que foram difundidas por todo o ramo financeiro americano e mesmo mundial. O
que significa que diversas entidades financeiras de todos os países
possuem agora uma quantidade mais ou menos significante desses títulos.
Estando estes por vezes bem perto dos clientes. Esse método permite
certamente repartir os riscos, mas também generalizá-los em caso
de crise.
A queda do valor dessas dívidas gera perdas para os bancos que
são obrigados a cobri-las. O que reduz as suas possibilidades de
oferecerem créditos.
Como se torna difícil saber quais os bancos e fundos diversos
implicados, bem como as importâncias, a desconfiança instala-se e
as entidades financeiras demonstram má vontade em emprestar dinheiro
mutuamente. O sistema entra numa crise do crédito.
Para encontrar a liquidez cada vez mais rara, e da qual necessitam, as
entidades financeiras não têm outra hipótese senão a
venda dos títulos nos mercados de acções. A crise do
crédito alastra-se, então, para as bolsas internacionais.
Numerosos fundos venderam assim títulos nas bolsas mundiais, provocando
uma descida rápida nas compras.
d) A intervenção dos Bancos Centrais
Uma crise do crédito não tem saída, a não ser que
alguém financie os bancos, ou seja, que lhes dê o dinheiro
necessário às suas operações habituais. Os Bancos
Centrais desempenham o papel de concessores de empréstimo em
último recurso, concentrando em si a liquidez necessária para
evitar a paralisia do sistema financeiro. É o que eles têm vindo a
fazer em diversas ocasiões, e é o que farão certamente
caso se justifique.
O risco de recessão
As faltas consecutivas de pagamento dos créditos "subprime"
afectam directamente um sector muito limitado da finança mundial, e
mesmo estado-unidense. Já se verificaram falências de fundos, e
outras se sucederão talvez, as perdas financeiras sofrerão um
aumento significativo provocado pelos intervenientes nesse mercado do
crédito, contudo as turbulências deste mês de Agosto
acabarão por abrandar graças a uma pequena purga dos mercados
financeiros.
A situação é mais delicada ao nível da economia nos
Estados Unidos. A crise dos créditos "subprime" fez alguns
estragos em todo o mercado imobiliário. A diminuição das
obras de construção, dos preços da
habitação, e simultaneamente das possibilidades de
empréstimo hipotecário têm um impacto significante sobre o
consumo e o crescimento. Alguns analistas não hesitam em falar de uma
recessão que se poderá alastrar à economia mundial.
A incoerência de um sistema que assenta sobre o crescimento do
endividamento
O capital financeiro desencadeia lucros, dos quais uma parte é acumulada
aos capitais já existentes. Esta lógica de
acumulação é incontornável porque caso o capital
deixe de se poder acumular, o sistema económico e financeiro entra numa
grave crise. Um dos papéis essenciais representados pelos dirigentes da
economia capitalista é precisamente o de permitir que o capital encontre
sempre novos mercados, de modo a tornar possível a sua
acumulação. Uma procura cada vez mais difícil depois de o
capital se ter tornado, há dez anos para cá, superabundante
relativamente às necessidades da economia produtiva. Um mercado que tem
tomado importantes proporções, desde há alguns
decénios, é o mercado do crédito, e sobretudo aquele
relacionado com o crédito imobiliário, e outro tipo de consumo,
concedido às famílias. Este último está
particularmente desenvolvido nos Estados Unidos, e Sarkozy gostaria que o mesmo
se passasse em França. A grande oferta de crédito, e a
concorrência entre entidades concessoras que daí resulta leva a
que estas reparem cada vez menos na capacidade de reembolso dos clientes
devedores, tudo isto com o aval das autoridades públicas.
O aumento do crédito concedido às famílias apoia-se numa
lógica dúbia. As famílias que pedem empréstimos
consomem de imediato, mas os reembolsos dos empréstimos reduzem a sua
capacidade de consumo futuro. O crédito para o consumo favorece o
crescimento económico imediato, em detrimento do consumo por vir. Como o
endividamento tem limites, o mercado dos créditos às
famílias arrisca-se a desaparecer, deixando o lugar às faltas de
pagamento e a um abrandamento do consumo.
Ao fixar o nível das taxas de juros, os Bancos Centrais têm uma
pesada responsabilidade na extensão do crédito. A descida
demasiada das taxas depois de Setembro de 2001 permitiu certamente o
relançamento esperado, mas também a rápida subida de uma
bolha de endividamentos, dos quais os créditos "subprime"
representam apenas uma pequena parte. É precisamente para abrandar esse
crescimento do crédito, gerador de inflação e de
instabilidade, que as taxas foram aumentadas a partir de 2005, tendo por efeito
perverso o aumento dos reembolsos dos créditos já
atribuídos.
Face à asfixia do crescimento, e ao aumento das faltas de pagamento,
pode-se pensar que os Bancos Centrais irão baixar as suas taxas num
futuro próximo, e favorecer assim o crescimento dos mercados
financeiros, e o disparo de concessões de crédito
A questão que se põe agora não é somente a do duplo
constrangimento que os Bancos Centrais devem assumir, mas antes a da
coerência de um sistema económico que apenas deve a sua
perpetuação à custa de um endividamento sempre crescente.
18/08/2007
[1] Uma entidade concessora de crédito reagrupa os seus títulos
de créditos imobiliários no mesmo "cesto ", e
daí retira um certo número de obrigações para o
mercado. De um total de 50 milhões de dólares de créditos
que rendem 9% de interesse, a entidade retirará 250 000
obrigações de 200 dólares que depois poderá
disponibilizar a 5%. Assim, poderá recuperar fundos conservando 4% de
interesse sobre os créditos assim revendidos.
[*]
Membro do Conselho Científico do ATTAC - França.
O original encontra-se em
http://www.m-lasserre.com/textes/crisecreditsimmobiliers.htm
.
Tradução de Rita Maia.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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