Crise dos créditos imobiliários "subprime" e turbulências financeiras mundializadas

por Michel Lasserre [*]

'Money store'. Em menos de uma semana, o BCE disponibilizou aos bancos europeus mais de 220 mil milhões de euros em empréstimos de urgência. A última operação semelhante a esta data de 12 de Setembro de 2001, e não ultrapassava os 69,3 mil milhões de euros. As somas avançadas neste mês de Agosto são enormes e a sua amplitude só se pode justificar através dos riscos muito importantes para os mercados financeiros. Ouve-se falar em "crise do crédito", em empréstimos imobiliários ditos "subprime", falências dos fundos estado-unidenses especializados no mercado imobiliário, em baixas das bolsas. Os bancos de diversos países são afectados por esta situação, inclusive os de França. Afinal, o que se passa, exactamente? Quais são os mecanismos postos em prática? Quais são os riscos possíveis?

Factos e mecanismos em acção
a) Créditos "subprime" e falta de pagamento por parte dos devedores


O mercado imobiliário é um sector importante da economia, particularmente, nos Estados Unidos onde os empréstimos hipotecários são bastante desenvolvidos. Com efeito, é frequente as famílias estado-unidenses fazerem empréstimos e hipotecarem as suas casas, o que aumenta as possibilidades de consumo e alimenta o crescimento nacional. Para a boa saúde da economia americana importa facilitar o acesso à propriedade a camadas cada vez mais vastas de população. Há alguns anos desenvolveram-se créditos ditos "subprime", adaptados a famílias modestas.

Estes créditos são disponibilizados por instituições financeiras que se preocupam cada vez menos com o perfil do cliente devedor. Eles têm uma taxa de interesse muitíssimo elevada, entre 4 e 5 pontos superior à taxa normal ("prime" de risco), e variável em função da evolução das taxas do FED. O seu reembolso é feito, muitas vezes, de acordo com a regra 2-28: dois anos de reembolsos muito baixos, mais 28 anos super sobrecarregados. As subidas financeiras permitem que se façam empréstimos até 110% do valor da aquisição.

Estes empréstimos tiveram um grande sucesso, até porque as taxas de interesse do FED eram baixas (inferiores a 2%, de 2002 a 2004). Em 2006, os créditos "subprime" representavam cerca de 600 mil milhões de dólares, o que significa 20% de todos os empréstimos acordados aos Estados Unidos.

A partir de 2005, as taxas do FED subiram rapidamente para os 5,25% até meados de 2006. Os reembolsos dos créditos sofreram aumentos significativos, várias centenas de dólares mensais, e numerosas famílias devedoras tiveram dificuldades em realizar os pagamentos. Cerca de 1,2 milhões de empréstimos imobiliários falharam nos Estados Unidos em 2006, um aumento de 42% relativamente a 2005. A falta de pagamento leva a que as habitações sejam postas à venda, e actualmente, estima-se que mais de 2 milhões de famílias americanas irão perder as suas.

b) Consequências da crise dos créditos "subprime" sobre a economia americana

As vendas consecutivas de habitações com falhas no pagamento têm como primeiro efeito saturar o mercado imobiliário, dando origem a uma descida dos preços pela primeira vez em 10 anos.

A construção de novas habitações abranda, e as revendas baixam. (em Julho de 2007, as obras de construção recuaram 20,9%, e as permissões de construção 22,6%)

A descida dos preços do mercado imobiliário diminui as possibilidades de empréstimo para as famílias que querem hipotecar as suas habitações, possibilidades essas já alteradas há dois anos devido à subida das taxas.

c) Consequências nos mercados financeiros

As faltas de pagamento dos créditos "subprime" recaem em primeiro lugar sobre as entidades financeiras especializadas no mercado imobiliário, muitas das quais já faliram em inícios de 2007. Muitos desses títulos de crédito serviram de apoio à emissão de obrigações [1] que foram difundidas por todo o ramo financeiro americano e mesmo mundial. O que significa que diversas entidades financeiras de todos os países possuem agora uma quantidade mais ou menos significante desses títulos. Estando estes por vezes bem perto dos clientes. Esse método permite certamente repartir os riscos, mas também generalizá-los em caso de crise.

A queda do valor dessas dívidas gera perdas para os bancos que são obrigados a cobri-las. O que reduz as suas possibilidades de oferecerem créditos.

Como se torna difícil saber quais os bancos e fundos diversos implicados, bem como as importâncias, a desconfiança instala-se e as entidades financeiras demonstram má vontade em emprestar dinheiro mutuamente. O sistema entra numa crise do crédito.

Para encontrar a liquidez cada vez mais rara, e da qual necessitam, as entidades financeiras não têm outra hipótese senão a venda dos títulos nos mercados de acções. A crise do crédito alastra-se, então, para as bolsas internacionais. Numerosos fundos venderam assim títulos nas bolsas mundiais, provocando uma descida rápida nas compras.

d) A intervenção dos Bancos Centrais

Uma crise do crédito não tem saída, a não ser que alguém financie os bancos, ou seja, que lhes dê o dinheiro necessário às suas operações habituais. Os Bancos Centrais desempenham o papel de concessores de empréstimo em último recurso, concentrando em si a liquidez necessária para evitar a paralisia do sistema financeiro. É o que eles têm vindo a fazer em diversas ocasiões, e é o que farão certamente caso se justifique.

O risco de recessão

As faltas consecutivas de pagamento dos créditos "subprime" afectam directamente um sector muito limitado da finança mundial, e mesmo estado-unidense. Já se verificaram falências de fundos, e outras se sucederão talvez, as perdas financeiras sofrerão um aumento significativo provocado pelos intervenientes nesse mercado do crédito, contudo as turbulências deste mês de Agosto acabarão por abrandar graças a uma pequena purga dos mercados financeiros.

A situação é mais delicada ao nível da economia nos Estados Unidos. A crise dos créditos "subprime" fez alguns estragos em todo o mercado imobiliário. A diminuição das obras de construção, dos preços da habitação, e simultaneamente das possibilidades de empréstimo hipotecário têm um impacto significante sobre o consumo e o crescimento. Alguns analistas não hesitam em falar de uma recessão que se poderá alastrar à economia mundial.

A incoerência de um sistema que assenta sobre o crescimento do endividamento

O capital financeiro desencadeia lucros, dos quais uma parte é acumulada aos capitais já existentes. Esta lógica de acumulação é incontornável porque caso o capital deixe de se poder acumular, o sistema económico e financeiro entra numa grave crise. Um dos papéis essenciais representados pelos dirigentes da economia capitalista é precisamente o de permitir que o capital encontre sempre novos mercados, de modo a tornar possível a sua acumulação. Uma procura cada vez mais difícil depois de o capital se ter tornado, há dez anos para cá, superabundante relativamente às necessidades da economia produtiva. Um mercado que tem tomado importantes proporções, desde há alguns decénios, é o mercado do crédito, e sobretudo aquele relacionado com o crédito imobiliário, e outro tipo de consumo, concedido às famílias. Este último está particularmente desenvolvido nos Estados Unidos, e Sarkozy gostaria que o mesmo se passasse em França. A grande oferta de crédito, e a concorrência entre entidades concessoras que daí resulta leva a que estas reparem cada vez menos na capacidade de reembolso dos clientes devedores, tudo isto com o aval das autoridades públicas.

O aumento do crédito concedido às famílias apoia-se numa lógica dúbia. As famílias que pedem empréstimos consomem de imediato, mas os reembolsos dos empréstimos reduzem a sua capacidade de consumo futuro. O crédito para o consumo favorece o crescimento económico imediato, em detrimento do consumo por vir. Como o endividamento tem limites, o mercado dos créditos às famílias arrisca-se a desaparecer, deixando o lugar às faltas de pagamento e a um abrandamento do consumo.

Ao fixar o nível das taxas de juros, os Bancos Centrais têm uma pesada responsabilidade na extensão do crédito. A descida demasiada das taxas depois de Setembro de 2001 permitiu certamente o relançamento esperado, mas também a rápida subida de uma bolha de endividamentos, dos quais os créditos "subprime" representam apenas uma pequena parte. É precisamente para abrandar esse crescimento do crédito, gerador de inflação e de instabilidade, que as taxas foram aumentadas a partir de 2005, tendo por efeito perverso o aumento dos reembolsos dos créditos já atribuídos.

Face à asfixia do crescimento, e ao aumento das faltas de pagamento, pode-se pensar que os Bancos Centrais irão baixar as suas taxas num futuro próximo, e favorecer assim o crescimento dos mercados financeiros, e o disparo de concessões de crédito…

A questão que se põe agora não é somente a do duplo constrangimento que os Bancos Centrais devem assumir, mas antes a da coerência de um sistema económico que apenas deve a sua perpetuação à custa de um endividamento sempre crescente.

18/08/2007

[1] Uma entidade concessora de crédito reagrupa os seus títulos de créditos imobiliários no mesmo "cesto ", e daí retira um certo número de obrigações para o mercado. De um total de 50 milhões de dólares de créditos que rendem 9% de interesse, a entidade retirará 250 000 obrigações de 200 dólares que depois poderá disponibilizar a 5%. Assim, poderá recuperar fundos conservando 4% de interesse sobre os créditos assim revendidos.

[*] Membro do Conselho Científico do ATTAC - França.

O original encontra-se em http://www.m-lasserre.com/textes/crisecreditsimmobiliers.htm . Tradução de Rita Maia.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
29/Ago/07