Fusão Suez-GDF
Não à privatização da Gaz de France
Por um grande sector público da energia
por Jean-Jacques Chavigné
De Villepin
[1]
garantiu publicamente: a fusão entre o grupo privado Suez e
a Gaz de France (GDF) não impedirá o controle do preço do
gás pelo Estado e que os assalariados da GDF preservem as suas
"garantias sociais".
Como acreditar nestas palavras? Não serão precisos nem dois anos
para que a maioria de direita, de que ele é o chefe, renegue a lei
votada em 2004 que afirmava que a parte do Estado não podia ser inferior
a 70% do capital da GDF.
Quanto ao seu ministro das Finanças que orquestra a
operação, Thierry Breton, ele é ainda menos crível.
Trata-se do mesmo personagem que afirmava, há 7 meses, aquando da
entrada em bolsa da GDF, que o grupo acabava de adquirir os meios financeiros
para "desenvolver-se por si mesmo"!
Uma OPA enlatada
O pretexto para a fusão precipitada da Suez e da GDF é o
anúncio de uma Oferta Pública de Aquisição (OPA)
hostil da empresa italiana ENEL sobre o grupo Suez.
"Patriotisme économique oblige",
não restava senão uma
solução: fundir a Suez e a GDF a fim de preservar a
independência energética da França.
Contudo, é difícil imaginar uma história mais descozida.
Anunciar com uma semana de antecipação que se vai praticar uma
OPA sobre uma sociedade tem tanto sentido quanto prevenir o exército
inimigo da emboscada que se lhe vai preparar. Um tal anúncio, com
efeito, permite à sociedade agredida preparar a resposta (a fusão
Suez-GDF, por exemplo) e fazer subir o preço das acções,
tornando assim a OPA mais aleatório e de qualquer forma mais onerosa.
Agora é mais fácil compreender porque a direita recusava
intransigentemente a criação de uma entidade comum EDF-GDF: a
fusão Suez-GDF já estava em preparação. Isto
é confirmado pelas revelações da imprensa acerca das
discussões conduzidas ao mais alto nível pelos dois grupos desde
há meses. A capitalização bursátil da EDF-GDF
teria representado 110 mil milhões de euros. A do Suez sendo apenas de
43 mil milhões de euros, a parte do Estado (80%, hoje, do capital da EDF
e da GDF) teria sido de 88 mil milhões de euros num total de 153. O
Estado teria portanto sido majoritário numa sociedade resultante da
fusão da EDF-GDF e da Suez. Os liberais não queriam uma tal
situação.
A privatização da GDF
A parte do Estado não será senão de 34,6% no capital da
nova sociedade fundida. A empresa será portanto uma empresa privada.
Apenas o jornal
Les Echos
de 28 de Fevereiro consegue ver nesta fusão uma
nacionalização da Suez, tendo o Estado uma minoria de bloqueio.
Na realidade, como precisa a CGT, "a eventual minoria de bloqueio do
Estado não valeria senão para algumas decisões precisas
(aquisições, cessões de empresas) mas a gestão e as
decisões estratégicas seriam ditadas pelos accionistas
privados". O dirigente da Suez, Gérard Mestrallet, será de
resto o PDG ou o presidente do Conselho de Administração da nova
sociedade. Num total (hoje) de 214 mil assalariados, 52950 virão da GDF
mas 161 mil da Suez. O volume de negócios (2005) da Suez é de
41,5 mil milhões de euros contra 22,4 da GDF.
Quanto à capitalização bursátil, ela assegura a
mesma supremacia à Suez: 43,2 mil milhões de euros contra 29,3
mil milhões para a GDF (56,7% e 43,3%).
Os Conselhos de Administração dos dois grupos aprovaram e
decidiram assinar o projecto de tratado de fusão. Fim de 2006: as
assembleias gerais extraordinárias dos accionistas da Suez e da GDF,
engodadas pelos sumarentos lucros anunciados, não terão
senão que aprovar a fusão.
Um concorrente para a EDF
Para Thierry Breton (
Libération
de 28/02), o novo grupo "não será um concorrente contra mas
um concorrente ao lado da EDF". Isto ridículo tanto na forma como
quanto ao fundo. A Suez é, com efeito, o 5º produtor de
electricidade na Europa. Ela tem um acesso privilegiado à electricidade
nuclear belga da Electrabel e às barragens do Rhône. A
fusão combinará estes trunfos com a formidável carteira de
clientes (11 milhões) que possui a GDF. E pretende-se que o novo
mastodonte não utilizaria estes trunfos!
Não só os dois grupos estarão em concorrência como a
fusão Suez-GDF pressionará a privatização da EDF, a
qual terá necessidade de capitais para fazer face a esta
concorrência. A EDF tem de resto um projecto de compra do operador
gasista.
Um risco para os utilizadores
"As tarifas continuarão a ser reguladas pelo Estado e todas as
obrigações de serviço público serão
mantidas", afirma Villepin, o que não é senão mais
uma promessa.
Isto não faz qualquer sentido. O pequeno opúsculo publicado em
coro pela Suez e pela Gaz de France afirma uma coisa muito diferente. Ele
louva uma fusão "no interesse dos accionistas" e da
"rentabilidade dos capitais investidos"... Mas como preservar o
interesse dos accionistas e a rentabilidade dos capitais sem aumentar o
preço do gás? Será preciso retribuir os accionistas e
toda a gente sabe que eles querem sempre mais.
O aumento do preço do gás tem sido aliás a sequência
lógica da privatização do gás em todos os
países onde esta energia foi privatizada.
Quanto às missões de serviço público, basta
observar a evolução da France Télécommunication ou
da Poste, na exacta medida da extensão da liberalização
nos seus respectivos sectores, para deduzir, sem riscos demasiados de engano,
que esta fusão anuncia uma nova regressão do serviço
público e das suas missões.
Um perigo para os assalariados
"A fusão será criadora de empregos", afirma Villepin.
Isto é mais do que duvidoso. Mas se tal fosse o caso, na perspectiva da
liberalização total dos dois sectores no princípio de 2007
e da concorrência encarniçada que daí decorre, serão
outras empresas do sector que despedirão. As fusões, com efeito,
não aumentam o mercado.
"O estatuto do pessoal das indústrias eléctricas e gasistas
será integralmente preservado, aí incluídos naturalmente
os novos assalariados", acrescenta o primeiro-ministro. O
"naturalmente" vale o seu peso em ouro. A concorrência
exacerbada neste sector e a ditadura dos accionistas permitirão muito
dificilmente preservar o estatuto dos antigos assalariados, quanto mais dos
novos...
"O polo água e ambiente da Suez será conservado"
afirma, para parecer bem, Galouzeau de Villepin. Na realidade, esta
afirmação é praticamente tão fiável quanto
aquela de um IVA a 5,5% pois é a Comissão Europeia quem
decidirá se estas cessões são ou não
necessárias para que a fusão esteja de acordo com a
regulamentação europeia da concorrência.
O que acontecerá, igualmente, aos assalariados das duas sociedades
energéticas Elyo (Suez) e Cofathec (GDF) que correm o risco de ter duplo
emprego. Aquando da compra do grupo Electrabel pela Suez, os assalariados da
Electrabel já haviam sofrido as consequências de uma tal
situação.
Finalmente, o que acontecerá e qual será o estatuto dos 55 mil
agentes hoje comuns da EDF e da GDF, que asseguram o atendimento nas
agências comuns, o registo dos contadores bem como a
manutenção das redes?
Uma consequência das directivas europeias
A única política da União Europeia no domínio da
energia (tal como nos outros sectores, aliás) é a abertura
à concorrência.
Em 1996, uma directiva organizava a liberalização parcial da
electricidade. Em 1998, com o acordo do governo de Lionel Jospin, uma outra
directiva fazia o mesmo para o gás. Estas duas directivas implicavam
uma primeira vaga de fusões.
Em 2002, a União Europeia, sempre com o acordo do governo de Lionel
Jospin, decidia a abertura total dos mercados do gás e da electricidade
em 1º de Julho de 2004 para os profissionais e em 1º de Janeiro de
2007 para os particulares.
Uma nova vaga de fusões desencadeava-se. Os dirigentes da Suez e da GDF
apresentam de resto a sua fusão como uma "etapa importante na
preparação da abertura completa dos mercados europeus da
energia".
A União Europeia não tem nenhuma política
energética
A abertura à concorrência não constitui uma política
e a Europa sofre hoje as contradições deste dogmatismo. Cada um
dos actuais governos europeus é partidário da
liberalização, mas com uma condição: é a de
conservar a sua independência energética.
[2]
Os britânicos e os holandeses mantêm o controle a 100% das suas
produções de hidrocarbonetos.
O governo espanhol (para contrariar a OPA da alemã ON) encoraja a OPA da
espanhola Gás Natural sobre a sua compatriota Endesa.
O governo português quer, apesar da Comissão Europeia, fundir a
EDP (Energias de Portugal) e a Gás de Portugal (GDP).
[3]
O governo francês acelera a fusão da Suez e da GDF. Assiste-se a
uma curiosa mistura de nacionalismo e de liberalismo. Mas o "patriotismo
económico" não aproveita senão aos capitais ao passo
que o liberalismo faz pagar o grosso deste jogo de mecano aos assalariados e
aos utilizadores.
Existe contudo uma solução inteiramente diferente para preservar
a independência energética, não nacional mas europeia, e os
serviços públicos da energia: os partenariatos entre empresas
europeias, qualquer que seja o seu estatuto. Não há necessidade,
por exemplo, de fundir empresas para que elas constituam uma central de compras
comum que negocie com o produtor do gás russo, a Gazprom.
Um grande sector da energia
Organizar a resposta é, em primeiro lugar, com as
organizações sindicais recusar a privatização da
GDF e agir para uma mobilização maciça dos assalariados e
dos utilizadores.
É, a seguir, não deixar os assalariados da Suez à
mercê de uma OPA como aquela da ENEL, fazendo entrar fundos
públicos, tais como aqueles da Caisse des Dépôts, no
capital da Suez.
É, finalmente, em caso de vitória da esquerda, voltar contra a
direita e os interesses que ela defenda a política que ela hoje quer
impor. A direita procura enganar os assalariados e os utilizadores da GDF com
o maior cinismo. É preciso mostrar-lhe que ao brincar com
fósforos ela arrisca-se a queimar os dedos e anunciar que um governo de
esquerda nacionalizaria a nova sociedade resultante da fusão Suez-GDF.
Esta nacionalização permitiria a constituição de um
polo público da energia em torno da EDF-GDF-Suez.
Esta nacionalização permitiria, igualmente, graças ao
sector dos serviços de águas e de tratamento dos resíduos
da Suez, começar a edificar dois outros pólos públicos
tão indispensáveis quanto aqueles para responder às
necessidades sociais actuais e sobretudo futuras: o da água e o do
tratamento dos resíduos.
03/Março/2006
Notas do tradutor:
[1] Primeiro-ministro francês.
[2] O autor desconhece a situação de Portugal, onde nos
últimos anos os governos nada se preocuparam com a independência
energética e até actuaram em sentido oposto. Foi o ministro da
Indústria do governo Guterrez, sr. Pina Moura, que promoveu a entrada
dos italianos da ENI no capital social da Petrogal sem qualquer vantagem para o
país. É o actual governo que considera a entrada da Iberdrola no
Conselho de Administração da EDP.
[3] Esta fusão foi vetada em Bruxelas pela UE, que no entanto aceitou a
fusão de duas empresas espanholas de energia (a Endesa e a Gás
Natural). Há sempre um jurista de serviço para justificar porque
foi adoptado um critério no caso português e outro no caso
espanhol.
O original encontra-se em
http://www.legrandsoir.info/article.php3?id_article=3365
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Tradução de Jorge Figueiredo.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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