Saturados de sarzokismo, continuemos o movimento e preparemos a alternativa!
A direita decidiu cravar a fundo. Agarrada pelo pescoço por um movimento
poderoso e sólido contra a sua reforma das aposentadorias, ela tenta uma
saída da crise pela violência. A clique de Sarkozy começa
por fustigar "aqueles que bloqueiam" e "aqueles que
destroem" a fim de tentar desacreditar o movimento e legitimar uma
intervenção mais musculada das forças policiais.
Após uma fase de preparação, ela passa aos actos. As CRS
[1]
atacam sem razão manifestantes pacíficos para dispersar
reuniões como em Toulouse, no fim de uma manifestação em
Lorient. Desenvolve-se com brutalidade na refinaria de Grandpuits. Prende-se em
Roanne militantes que colam cartazes. Atira com flash ball
[2]
ferindo gravemente o olho de um jovem do liceu. Polícias à
paisana ostentando distintivos sindicais infiltram-se nas
manifestações. Jornalistas são espancados, aspergidos com
gás lacrimogéneo. É-lhe imposta a ordem de deixar de
fotografar ou de filmar. Prendem-se arbitrariamente jovens, militantes. E a
justiça não descansa fazendo chover os comparecimentos imediatos
seguidos da pena de prisão firme. Ordena-se a requisição
de trabalhadores com desprezo pelo direito à greve e mesmo o tribunal
administrativo de Melun acha que o governo fez demasiado uma vez que deu
razão à CGT contra o governador da província anulando a
ordem de requisição.
A brutalização e a intimidação não
farão refluir o descontentamento. Preparemos a próxima grande
jornada de greve de manifestações de 26 de Outubro multiplicando
as acções inter-profissionais, apoiando os sectores em greve,
continuando as acções de bloqueio. Lutámos pela retirada
do projecto. Lutemos doravante pela retirada da lei. Em 2006, foi a lei sobre o
CPE
[3]
que acabou por lançada às urtigas, não o projecto.
Se o poder se encarniça face à revolta sem precedente que
provocou, se escolheu a brutalidade, é porque prossegue vários
objectivos que se completam.
Trata-se primeiro de impor medidas para fazer com que a maioria da
população pague a crise. E deste ponto de vista, a reforma das
aposentadorias é o acto I de um super plano de austeridade à
imagem do que faz a maior parte dos governos europeus. Na Grã-Bretanha,
por exemplo, o governo acaba de anunciar a supressão de 500 mil empregos
de funcionários.
Trata-se também de destruir o sistema de segurança social baseado
na solidariedade, para libertar os fundos que "dormem" de um ponto de
vista capitalista. Isto é verdade hoje para o dinheiro das
aposentadorias que vai permitir a multiplicação dos fundos de
pensão e amanhã para o dinheiro do seguro doença. Com o
que rejubilam os aproveitadores de toda espécie e em primeiro lugar o
irmão de sua majestade, o PDG
[4]
do grupo Malakoff Médéric, Guillaume Sarkozy. Os dois
irmãos operam em conjunto. O mais novo destrói o sistema de
aposentadoria por repartição enquanto o mais velho aproveita da
situação favorável para a explosão dos fundos de
pensão que o grupo que dirige pretende desenvolver maciçamente.
Trata-se finalmente de infligir uma derrota ao movimento operário que o
enfraqueça de forma duradoura. E inclusive os mais "moles",
como os dirigentes da CFDT, são tratados com o mais total desprezo.
É igualmente um dos factores que explique a solidez da unidade sindical
e a multiplicação dos apelos à mobilização,
mesmo que, da nossa parte, desejássemos apelos mais firmes e
unitários à greve geral prolongável.
Destruição dos direitos sociais, mentira, violência,
atentado ao direito de greve, negação da democracia,
colusão de interesses, saturação do sarkozismo. A
manutenção no poder desta equipe até 2012 é
totalmente insuportável. Este poder não é mais
legítimo, é preciso expulsa-lo. E quanto mais rápido
melhor.
Mas para além coloca-se a questão da alternativa. Os dirigentes
socialistas estão em todas as manifestações, e quanto mais
batem no mesmo prego, melhor. Mas de acordo com a própria
confissão de um dos seus porta-vozes, Benoit Hamon, a
posição do PS não se diferencia verdadeiramente daquela do
poder sobre a questão das aposentadorias. Inteiramente situado no quadro
da economia de mercado, o programa económico e social do PS é um
outro modo de fazer com que a maioria da população pague a crise,
uma outra solução para a burguesia de salvaguarda dos seus
interesses. Assim, apelamos àqueles e àquelas, muito numerosos,
que lutam sem concessão, que recusem a que a radicalidade do movimento
não encontre como desenlace senão a alternância em 2012 sob
a forma de uma coligação governamental com o PS. Propomos
reagrupar-nos em número cada vez maior para construir e impor a
alternativa anti-capitalista.
23/Outubro/2010
[1] CRS: compagnies républicaines de sécurité
[2] Flash-ball: Arma de mão destinada à utilização
policial em tumultos. Foi desenvolvida pela fabricante de armas francês
Verney-Carron. Uma das suas versões dispara balas de borracha com 44 mm.
[3] CPE: contrat première embauche, contrato de primeiro emprego
[4] PDG: Presidente director geral
O original encontra-se em
www.npa2009.org/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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