Banco Central dos EUA, o parceiro silencioso nos banhos de sangue
por Mike Whitney
A economia de um país é um espelho de água que nos
reflecte. A face que nos olha da água é a da cultura e das
características prevalecentes. Não é diferente com a
América. Os comissários do sistema económico
estado-unidense Paulson e Bernanke estão
inextricavelmente ligados a um establishment político/militar totalmente
impregnado na cultura da violência e da corrupção.
O "Plano Marshall" de Paulson destinado aos
proprietários de habitações subprime é apenas a
mão enluvada do déspota. A outra mão ainda está
ocupada a arrancar olhos
em Guantanamo, ou a moer de pancada cidadãos estrangeiros nos
sítios negros da CIA, ou a despejar bombas incendiárias sobre
escolas de crianças em Faluja. Isto é tudo igual. A cultura de
guerra e
demagogia tem suas raízes no sistema económico. Os seus
líderes financeiros são tão culpáveis quanto
qualquer GI de baixa patente em Abu Ghraib.
O plano Paulson nada tem a ver com salvar pessoas da classe trabalhadora das
devastações dos arrestos. Ah, não. A
administração Bush opõe-se ideologicamente a ajudar
pessoas em estado de necessidade. Já sabemos isto. Basta olhar para o
Katrina. A finalidade real da proposta "salvação de
emergência"
("bailout")
é permitir que bastantes pessoas continuem a fazer pagamentos
mínimos das suas hipotecas de modo a que o sistema bancários
não se estilhace em um milhão de pedaços. É isso.
Não preciso chamar um génio para ver que o desespero tomou conta
do Federal Reserve. A última vez que o governo orquestrou uma
salvação de emergência desta grandeza foi na década
de 1930. E o que mais? George Bush não é Franklin Dellano
Roosevelt.
A verdade é que o sistema está em erupção e o
botão de pânico do Fed está a "piscar vermelho".
É óbvio. Eles estão a fazer tudo o que podem para manter
o comboio sobre os carris, mas não estão a conseguir.
Estão a cortar taxas, a aceitar colaterais dúbios (como papel
comercial e tremulantes títulos apoiados por hipotecas) como
reposição, e estenderam o período das
reposições indefinidamente, o que equivale a
"monetizar" a dívida. Paulson tentou estabelecer um Super SIV
[1]
para ajudar os grandes bancos de investimento a descarregarem o seu lixo
apoiado por hipotecas sobre o público desconfiado, mas isto tão
pouco está a funcionar. Nada está a funcionar. Enquanto isso,
os ventos contrários continuam a ficar mais fortes, as ondas continuam a
esmagar-se sobre a proa, e o navio do Estado continua a declinar perigosamente
de lado. Ele está numa confusão.
Os bancos são o canal para o papel-moeda inescrupuloso emitido pelo
Federal Reserve. É um negócio torto dirigido pelas mesmas
pessoas que enviam nossos filhos para a guerra enquanto premeiam-se a si
próprios com cortes fiscais. Agora o sistema está em horrendas
dificuldades. Deveríamos sentir-nos mal por isso?
Bancos centrais estrangeiros e investidores estão a livrar-se dos seus
dólares e dos seus activos denominados em dólar, os Estados do
Golfo ameaçam desligar o petróleo do dólar, e investidores
por toda a parte sabem que foram roubados por uma burla ordinária de
lavagem de hipotecas que obteve o "sinal verde" dos reguladores dos
Estados Unidos. O cenário em torno de nós é mau. E agora
as galinhas voltam a casa para se empoleirarem.
CÓ-CÓRÓ-CÓ
O colapso no mercado imobiliário continua a enviar tremores a toda Wall
Street. Milhões de milhões de dólares em títulos
complexos (CDOs e MBSs) estão a ser degradados quando aumentam os
arrestos e os inventários de casas sobem. Bancos, companhias de
seguros, fundos de pensão, títulos de companhias de seguros,
hedge funds, todos eles estão entre a vida e a morte. Muitos já
insolventes e muitos mais os seguirão. É apenas uma
questão de tempo. Os fundamentos dos mercados financeiros estão
a esfarelar-se. O esquema de transformar os passivos dos candidatos a
empréstimos com mau crédito numa fonte confiável de lucros
gordos fracassou. A alquimia não funciona. Nunca funcionou.
A crise subprime e o (subsequente) esmagamento do crédito teve origem no
Federal Reserve. O Fed disparou um frenesim especulativo ao baixar taxas de
juros abaixo da taxa de inflação durante mais de 31 meses entre
2002 e 2004. Milhões de milhões de dólares alimentaram
então o sistema bancário criando a maior bolha equity da
história. Agora que a bolha imobiliária está a
estraçalhar-se na terra e milhões de milhões de
dólares em títulos tremelicantes estão destinados ao
aterro sanitário o Fede está a tentar distanciar-se de
qualquer responsabilidade. Mas nós sabemos a verdade. O plano foi
concebido e executado pelo Fed e é nele que reside a culpa. Todos os
outros são apenas "pequenos actores".
O que importa é que o sistema está a entrar em colapso.
Está a ser vagarosamente esmagado pelo peso acumulado da sua
própria corrupção. Quando o sistema cair, a bandeira
será arriada na Baía de Guantanamo, a actual oligarquia de
extorsionários
(racketeers)
será removida do gabinete, e as tropas no Iraque voltarão para
casa. Por vezes resultados positivos decorrem da tragédia.
Poderia haver anarquia ou tirania ou lei marcial ou campos de
detenção. Quem é que sabe, realmente? É
compreensível que o público esteja preocupado quanto "ao que
poderia acontecer" no futuro próximo. Mas, considere-se isto:
podemos nós continuar a derramar o sangue de pessoas inocentes por todo
o planeta enquanto afirmamos possuir o mundo e todos os seus recursos? Podemos
nós ignorar desafios que ameaçam as espécies, como o
aquecimento global
[2]
, o pico petrolífero e a proliferação nuclear?
Não.
Bem, nesse caso, haverá qualquer probabilidade de que os media, o
congresso, os tribunais, ou o presidente cheguem a cair em si, a traçar
uma rota diferente, a restaurar liberdades civis, a parar o abuso de direitos
humanos e a retirar as tropas?
Não
Então, caro leitor, diga-me que esperança há de
mudança senão através de um colapso económico de
todo o sistema?
Sistemas políticos não têm de ser perfeitos para serem
aceitáveis. Não sou ingénuo. Mas para muitos de
nós há critérios morais básicos que
têm de ser cumpridos para merecer o nosso apoio. A
administração Bush elevou a matança, a tortura e o
sequestro a um nível de política de Estado. Isto é
inaceitável por qualquer padrão e, com isso, todas as alavancas
do poder são controladas por pessoas que apoiam a doutrina actual.
NÃO É ASSIM?
Os Estados Unidos não são um foco de esperança ou uma luz
no mundo. São, sim, uma ameaça, e cada vez maior, para a
sobrevivência na Terra. A política da América e a
beligerância militar constituem apenas uma extensão de um sistema
económico dominador que serve unicamente aos interesses dos ricos e
poderosos. O Banco Central desempenha um papel crítico neste paradigma.
O país não vai à guerra sem a bênção
das suas principais instituições financeiras. Os sujeitos do
"big money" são os parceiros silenciosos nas pilhagens e nos
banhos de sangue.
Os homens que possuem e fiscalizam o sistema financeiro dos EUA criaram o
cancro que actualmente está a devorá-lo por dentro. Agora o
tumor entrou em metástases e espalhou-se através de todo o
organismo. A situação é irreversível. A economia
está nos seus últimos passos e destinada a uma queda. Os
líderes políticos estado-unidenses terão de aceitar um
mundo no qual a América será apenas um entre muitos Estados de
igual poder e significância. O financiamento militar reduzir-se-á
a umas gotas. A matança acabará. Finalmente.
07/Dezembro/2007
[NT1] SIV:
Structured Investment Vehicles
.
[NT2] Pelo menos este podemos seguramente ignorar, pois é um desafio
fictício. O autor deixou-se influenciar pela enxurrada desinformativa
acerca do
suposto "aquecimento global". Para uma informação
rigorosa ler, por exemplo, Rui G. Moura:
A fabricação do pânico climático
e
A paranóia do dióxido de carbono
.
O original encontra-se em
http://www.informationclearinghouse.info/article18850.htm
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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