Mrs. Janet Yellen não piscou
por Fábio Magalhães e José Martins
[*]
A taxa básica de juros do planeta continua inalterada. Os capitalistas
de todo o mundo respiram aliviados. Mas, ao contrário do que imagina a
vã economia vulgar, o capital não vive só de demanda. Os
sinais de que a produção industrial está claudicando
já são mais do que evidentes. A lei da gravidade, quer dizer, do
valor trabalho, não falha. A hora de tempestuosa aterrissagem se
aproxima.
Em
nossa matéria
escrita alguns dias antes da reunião desta quarta-feira (26 de julho) do
Federal Reserve Bank (Fed, banco central dos EUA) para definir a nova taxa
básica de juros do planeta já antecipamos que ela não
seria alterada. Não houve surpresa. Ficou mantida no baixíssimo
patamar entre 1% e 1,25% ao ano.
Antes que algum aventureiro lance mão, a Crítica reafirma que a
taxa deverá permanecer assim para os próximos doze meses. Se
houver alguma alteração, será tão insignificante
quanto as duas realizadas nos últimos doze meses. Só para
inglês ver. Para dizer que o Fed ainda existe.
Não se trata aqui de palpite ou de expectativas sobre decisões
voluntárias dos responsáveis pela política
monetária do banco central do planeta. Trata-se da
observação de inabaláveis condições
materiais contrárias a uma elevação da sua taxa
básica de juros. Os bancos centrais terão que obedecê-las.
Não é só a taxa de juros que permanece inalterada neste
final de ciclo econômico. Mais além desta volúvel criatura,
são os fundamentos da economia que já não se mexem mais. E
quando se mexem é para baixo. Enxergar e levar em conta essa realidade
foi a grande virtude de Mrs. Yellen na recente reunião do Fed. É
uma boa economista.
É justamente por causa dessa realidade e por ser uma boa economista que
ela não faz nenhuma aventura com a única coisa que ainda segura
(ou prorroga, melhor dizendo) a pesada aterrissagem cíclica da economia
de ponta do sistema em qualquer ponto dos próximos trimestres.
Ao não elevar a taxa básica de juros do planeta na última
reunião do Fed, Mrs. Yellen optou por manter em níveis elevados
as condições de demanda da economia. Tenta-se evitar a maior
explosão dos últimos setenta anos em todas as outras economias do
sistema, grandes e pequenas.
O Fed faz o que pode para garantir pelo menos a demanda individual de bens e
serviços. A baixa taxa de juros e a elevada oferta de moeda e de
crédito se espalham como tsunamis cambiais para as demais economias e
mantém tremulamente a demanda pelos meios de consumo e serviços
de uma claudicante produção industrial em todo o mundo. Mas essas
providências anticíclicas, além de não alterar a
demanda por novos meios de produção, têm prazo de validade
muito curto.
Providências exógenas de política econômica (fiscal
ou monetária) nunca corrigem o curso das condições
endógenas do processo de reprodução ampliada do capital.
Apenas prorrogam a próxima explosão do processo cíclico.
Mesmo assim têm alto custo. O atual desbragamento de moeda e
crédito será drasticamente cobrado mais na frente.
Efeitos colaterais mais evidentes nos mercados de ações e de
commodities já prenunciam atualmente a natureza do problema.
Neste momento, por exemplo, a destrambelhada "exuberância
irracional" da segunda metade dos anos 1990 repete-se nas principais
bolsas de valores do mundo. Em Nova York, as ações
tecnológicas da Nasdaq já superaram os 6000 pontos. Novos
recordes são batidos diariamente. A correção será
cruel. Muitas vezes mais destrutiva do que o ocorrido na crise de 2000/2001.
Não se trata de se descrever meramente a formação e
explosão de "bolhas especulativas" e outras espumas do
processo que povoam a cabeça da vã economia. O que há que
se observar nestas atuais explosões de preços de ativos
financeiros e de commodities é a tênue fronteira entre
deflação e hiperinflação.
Essa fronteira será liberada no próximo choque periódico.
Em nenhum ciclo dos últimos setenta anos presenciou-se uma devastadora
metamorfose dos preços e do valor das propriedades capitalistas como
esta que ora se prenuncia.
As bases desta hiperinflação planetária inédita nos
últimos setenta anos estão sendo lançadas pela atual
política monetária e de crédito dos maiores bancos
centrais do mundo.
Os seus responsáveis sabem disso. Mas não conseguem agir para
evitá-las. Ao contrário, só agem para aumentar ainda mais
o potencial de uma coisa muito parecida com a germânica
hiperinflação dos anos 1920. Só que agora ela se
espalhará imediatamente pelas principais praças financeiras do
mundo. Muito mais devastadora.
Esse é o atual ovo da serpente dos capitalistas: como interromper essa
política monetária de criação da futura
hiperinflação que já se prenuncia no avassalador
renascimento da "exuberância irracional" dos mercados
sem ser engolido pelas pressões atuais da deflação?
Só aumentando a taxa de juros.
Mas dá para elevar agora a taxa básica de juros dos bancos
centrais? Não dá. No mundo do capital, mais além do
automatismo dos bens e serviços produzidos, existe uma inabalável
pedra no meio do caminho de qualquer tentativa desesperada dos bancos centrais
neste sentido no desenrolar de determinado
business cycle
a evolução das condições monetárias de
realização da taxa geral de lucro acabam sempre sendo reduzidas
às suas condições de produção. Esse é
o limite da política econômica dos governos.
Desde as polêmicas de Jean Baptiste Say ("Lei de Say"), Malthus
e David Ricardo, no início do século XIX, os economistas
não ultrapassaram, até hoje, a fronteira da
produção de bens e serviços ( ou "produto") e da
sua respectiva circulação simples da "oferta" e
"demanda". Não avançaram um milímetro acerca do
problema da realização da taxa geral de lucro em determinado
ciclo econômico.
Os condicionantes da dinâmica econômica é um verdadeiro
mistério para a economia vulgar. Na hora do vamos ver, ela acaba sendo
obrigada a aprender no chão de batalha do business cycle que os sagrados
juros que seus economistas de carteirinha imaginam que poderiam regular ou
estabilizar a economia são dramaticamente subordinados ao lucro gerado
na produção, nunca o contrário.
Os economistas da economia vulgar neoclássica, keynesiana, e suas
incontáveis variantes neomarxistas aprendem a contragosto que
não se pode imaginar a economia capitalista apenas como um processo de
circulação de bens e serviços.
Com essa limitação não se pode vislumbrar a possibilidade
de crise de superprodução de capital. A acumulação
e as modernas crises capitalistas só podem ser observadas no processo de
conjunto da circulação e produção de capital.
Isso foi muito bem explicado por Rosa de Luxemburgo e muito pouco entendido
pelos epígonos marxistas cem anos depois neste pobre mundo
teórico do Estado popular democrático plenamente realizado do
início do século 21.
Mrs. Yellen é uma simpática senhora totalmente refém dessa
realidade onde as possíveis alterações das taxas de juros
são estritamente enquadradas pela flutuação da taxa geral
de lucro embutidas nos preços de produção, no desenrolar
de determinado ciclo econômico. Os presidentes do Banco Central Europeu e
do Banco do Japão também se encontram nesta incômoda
situação de reféns do capital propriamente dito.
Assim, além das ilusões da macroeconomia da
regulação e da estabilização, o que ora se observa
em todo o mundo são as condições de uma claudicante
produção industrial. Os dados estampados nos mais recentes
relatórios sobre a economia dos EUA são bastante ilustrativos
desta fragilidade produtiva de valor e de mais-valia que caracteriza o final de
mais um
business cycle.
Estaremos proximamente atualizando esses números do mundo turbulento da
produção de capital, produtividade, preços e taxa de lucro
na economia reguladora do sistema capitalista mundial.
31/Julho/2017
[*]
Economistas.
O original encontra-se em
criticadaeconomia.com.br/mrs-janet-yellen-nao-piscou/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|