Sair da aflição
As moedas são sobretudo preços relativos. Na essência,
são a medida do valor intrínseco de um economia em
relação a outra. Nesta base o mundo não têve
objecções em amortizar o valor dos Estados Unidos durante os
últimos anos. O dólar desceu uns 20 por cento desde o seu ponto
mais alto em 2002 em comparação com as moedas da maioria dos
sócios comerciais dos Estados Unidos. Nos últimos tempos atingiu
novas baixas frente ao euro e ao pujante dólar canadiano, provavelmente
um presságio de que se enfraquecerá ainda mais.
Infelizmente nada disto é surpreendente. Como os estado-unidenses
não têm estado a poupar o suficiente, os EUA devem importar
poupanças do exterior para poder crescer. Além disso têm
que manejar balanças de pagamento e défices comerciais para
atrair capital estrangeiro. O défice de transacções
correntes dos Estados Unidos, o maior indicador do desequilíbrio deste
país em relação ao resto do mundo, em 2006 chegou a um
nível record de 6,2 por cento do produto interno bruto antes de diminuir
ligeiramente neste ano. Os EUA ainda devem atrair cerca de três mil
milhões de dólares de capital estrangeiro a cada dia útil
a fim de manter o crescimento da sua economia.
As ciências económicas são muito claras a respeito das
consequências de desequilíbrios tão enormes: as entidades
creditícias precisam receber compensação pelo envio de
capital escasso a qualquer país com défice. Quanto maior for o
défice, maior será a compensação. A moeda do
país com défice habitualmente sofre as maiores
consequências da compensação. Enquanto os Estados Unidos
não enfrentarem os seus problemas de poupança o seu grande
défice na balança de pagamentos persistirá e o
dólar continuará a cair.
A única coisa positiva até agora foi que estes ajustes da moeda
realizaram-se de maneira ordenada, o que indica uma diminuição
anual do valor do dólar de um pouco menos de uns quatro por cento ao ano
desde princípios de 2002. Contudo, nestes momentos aumenta a
possibilidade de uma correcção desordenada, com
consequências potencialmente grave para a economia estado-unidense e para
a economia mundial.
RISCO DE RECESSÃO AUMENTA
Uma razão fundamental é o risco crescente de uma recessão
nos Estados Unidos. O apogeu da bolha do mercado secundário de
hipotecas (onde são revendidas as hipotecas com maior risco de
não serem pagas), surpreendentemente semelhante aos excessos das
empresas ponto.com da década de noventa, poderia perfeitamente
constituir um aviso. Em ambos os casos, os mercados financeiros e os
encarregados de conceber as políticas negavam-se a reconhecer os riscos.
Contudo, as lições dos ajustes realizados após a bolha
imobiliária são claras. Pergunte-se ao Japão,
economicamente estagnado. Os EUA, naturalmente, haviam caído na sua
própria recessão pós-bolha em 2000 e 2001.
Por desgraça, o final de tudo isto poderá ser ainda mais adversos
para os Estados Unidos do que o que se verificou há sete ano. Em grande
parte porque nestes momentos o consumidor estado-unidense se encontra em
perigo. Os gastos de consumo actualmente representam 72 por cento do produto
interno bruto, um número sem precedentes na história moderna de
qualquer país.
A dissipação quanto às compras tem sido cada vez mais
apoiada por bolhas imobiliárias e creditícias. Contudo, os
preços das casas caíram e provavelmente continuarão a cair
durante anos, e as sequelas da crise que resulta do não pagamento das
hipotecas de risco elevado danificou seriamente o refinanciamento das hipotecas
internas. Com um débil crescimento quanto aos postos de trabalho, o que
também pressiona os rendimentos, os dias do consumismo estado-unidense
provavelmente estão a chegar ao fim. Devido a isto será mais
difícil evitar uma recessão.
Temerosos dessa possibilidade, os investidores estrangeiros tornam-se cada vez
mais inconstantes quanto à compra de activos cujo valor esteja cotado em
dólares. Os efeitos indirectos derivados da crise hipotecária
dentro de outros mercados de activos, especialmente os activos referidos a
hipotecas e às promissórias negociáveis apoiadas por
activos, enfatizam estas preocupações. É provável
que o apetite estrangeiro pelos instrumentos financeiros dos Estados Unidos
seja reduzido consideravelmente nos próximos anos. Isso interromperia
um importante caminho de fluxo de capital e pressionaria ainda mais o
dólar para a baixa.
Os ventos políticos também sopram contra o dólar. Em
Washington, a retórica agressiva contra a China é o desporto
bipartidário da moda nestes dias. É muito possível que
novas leis imponham sanções comerciais à China, a menos
que esta realize ajustes importantes na sua moeda. Isso não só
seria um grande erro político tentar consertar um défice
multilateral com mais de quarenta países forçando ajustes na taxa
de câmbio com um país como também implicaria que
Washington pressionasse um dos prestamistas mais importantes dos Estados Unidos.
Isto, sem dúvida, reduziria o desejo da China de obter activos dos
Estados Unidos e, a menos que outros comprador estrangeiro intervenha, o
dólar sofrerá pressões ainda maiores. Por outro lado,
quanto mais o sistema da Reserva Federal sob a direcção de Ben
Bernanke continuar o método do dinheiro fácil de Alan Greenspan,
maior será o perigo para o dólar.
Por que a preocupação com um dólar mais fraco? Os Estados
Unidos em 2006 importaram mais de 2,2 mil milhões de dólares em
bens em serviços. Uma queda abrupta do dólar encarece de maneira
considerável estes artigos, o equivalente na prática a um aumento
de impostos para os consumidores. Isto também poderia espicaçar
o medo à inflação, e aumentaria as taxas de juro a longo
prazo e incrementaria mais a pressão nos mercados financeiros e na
economia, o que exacerbaria os riscos de que se verificasse uma
recessão. Os optimistas poderiam reconfortar-se com a ideia de uma
renovação impulsionada pela exportação que partisse
de um dólar mais competitivo. Contudo, a história demonstra
claramente: nenhum país conseguiu a prosperidade através da
desvalorização.
Até agora o enfraquecimento do dólar não foi grande coisa.
Isso deve estar a ponto de mudar. Em relação ao resto do mundo,
os Estados Unidos brilham dolorosamente como pouco confiáveis. Assim
acontece também com a sua moeda.
25/Setembro/2007
[*]
Presidente da Morgan Stanley Asia.
O original encontra-se em
www.nytimes.com
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|