Estaremos na antecâmara de uma ditadura financeira?
por Liliane Held-Khawam
[*]
Um grande número de financeiros já não sabe a que Nobel se
devotar. Os saques sobre as poupanças e portanto sobre as pensões
de reforma e seguros-poupança, elegantemente chamado de taxas de juros
negativos, têm gerado uma tempestade global, mas o silêncio
prevalece do lado dos eleitos que evitam desde há muitos anos qualquer
confronto com Alta Finança.
Vozes profissionais vieram juntar-se aos que na internet protestavam dando mais
crédito à tese de que um pequeno grupo que se considera
não representar mais que 1% da população possuiria 50% das
riquezas mundiais e estaria a preparar-se para assumir o poder político
global.
Uma riqueza ilimitada para uns graças a um direito de privilégio
soberano
O cálculo dos 50% da riqueza mundial detidos por aquela minoria é
questionável. Na verdade, ninguém realmente conhece a oferta
monetária criada pelos bancos comerciais. Estes detêm efetivamente
uma parte dos seus ativos fora do balanço. Isso é legal.
Legítimo seria outra questão
Ao lado dessa riqueza potencialmente ilimitada e desconhecida, descobre-se o
mundo desinteressante dos
"dark pool"
. Circuitos financeiros e bolsistas, cujo objetivo é garantir
simultaneamente o anonimato e contornar as regulamentações. As
operações fazem-se então entre amigos e no maior segredo.
Os montantes trocados são impressionantes. Em 2007, em plena crise
financeira dos
subprime
, as autoridades de vigilância do mercado financeiro europeu tornaram-nos
legais. Os
"dark-pools"
são o campo de predileção para programas
informáticos que permitem transações com grande rapidez e
frequência aumentando os benefícios.
Como foram então permitidos em plena estratégia de "dinheiro
limpo"
(Weissgeld)
como diria a ministra suíça das finanças? Se o
mistério é total em torno do assunto, nós convidamo-los a
descobrir dois criminologistas de talento: Jean-Daniel Garcia e
Alain Bauer
.
Rápida, ilimitada, poderosa, obscura e legal são alguns dos
qualificativos da Alta Finança
As autoridades de vigilância dos mercados financeiros próximos da
Alta Finança
A AMF ou a FINMA, as autoridades de supervisão do mercado financeiro
francês e suíço, são totalmente independentes. A
FINMA usa mesmo a palavra "soberania". Beneficiam de personalidade
jurídica própria e, portanto, de um conselho de
administração ou colégio que os gere como se fosse uma
empresa.
Aí podem ser encontrados os patrões da Alta Finança
internacional (banca e seguros designadamente). O facto é que uma
entidade como a FINMA define ela própria normas, decretos e leis. Tendo
também autoridade para aplicar sanções. É o garante
da boa gestão da poupança, fundos de pensões e seguros
(incluindo os de vida). No entanto, o silêncio da FINNA e dos eleitos
sobre as taxas de juro negativas aplicadas a títulos e
obrigações com rendimentos negativos é ensurdecedor!
Qualquer deles tolera o intolerável.
A impopularidade é a inimiga número 1 da Alta Finança
A Alta Finança sabe-se impopular. Tem dinheiro em abundância,
conseguiu impor suas próprias normas que lhe permitem assumir sempre
ascendente sobre os povos e os Estados. Mas eis que precisa de tornar
permanente a sua supremacia material por um poder político global.
Não pode permitir-se ter um contrapoder em qualquer parte. Um povo
demasiado forte constituiria uma ameaça.
Para instaurar a sua governança global e mundial da maneira que ela
crê definitiva, agarra-se atualmente a pelo menos dois valores -
há outros - com que dão o seu fundamento ideológico
às pessoas: a liberdade e a propriedade privada.
Confisco da propriedade privada
As
taxas negativas
poderiam, ao que parece, evoluir até 5% (!). Isto equivale a um claro
confisco, evidente, injustificado e ilegal. Ora, na medida em que um terceiro
não autorizado se serve fora de qualquer razão legal de um bem,
isso constitui uma violação dos direitos de propriedade tal como
definido no artigo 26 da
Constituição
(suíça].
As restrições colocadas pela Confederação em termos
de acesso ao capital das aposentações para
aquisição de uma residência principal foram já uma
violação dos artigos 108 e 111 da Constituição. Os
capitais para pensões de reforma também são propriedade
privada, uma vez que são nominativas. A menos que não tenham
mudado de natureza nestes tempos e se tenham tornado uma espécie de
imposto
O rendimento negativo dos títulos da
Confederação foi mais um passo em falso contra as caixas de
pensões e um roubo planificado das reformas.
Tudo isto afeta a credibilidade da "autoridade" do Estado, mas
também seu papel de garante da Constituição e do interesse
público. Num país democrático, isto é, onde o povo
é soberano, esta autoridade é uma garantia da
proteção dos direitos dos cidadãos contidos na
Constituição. Quando um grupo privado, ou seja, os fundos de
investimento, os banqueiros privados e centrais assumem direitos
constitucionais sem reação do Estado ou da Justiça,
podemos dizer que algo falha, falta aos seus deveres.
Confisco do direito à vida privada e portanto das liberdades
Um segundo elemento que está na mira da alta finança
internacional é
a supressão do cash
(o dinheiro primário, moedas e notas)
. Ao fazê-lo, desfere um golpe em pelo menos duas coisas:
1- Atentado às prerrogativas do Banco Central
O dinheiro primário é emitido apenas pelo Banco Central.
Livrar-se dele
conduz a aumentar ainda mais o peso da moeda criada pelos bancos privados (mais
de 90% da massa monetária conhecida) ou moeda bancária.
A supressão do dinheiro primário
significa a morte a mais ou menos curto prazo do próprio conceito do
Banco Central. Existem já atualmente junto dos
dark pools
plataformas, designadamente a T2S, que dispensam o Banco Central. O
tráfego é feito banco a banco em direto.
Eliminar o dinheiro primário conduz a dispensar um pouco mais o banco
central emissor desta moeda e, portanto, enfraquecer as prerrogativas
teóricas do Estado. Para que conste, por exemplo a Suíça
decidiu delegar aos banqueiros privados a gestão pura e simples de TODO
o tráfego de pagamentos dentro e fora da Suíça.
O Banco Central suíço criou mesmo um banco
SECB
Swiss Euro Clearing Bank
com sede em Frankfurt e que pode guardar e gerir as
"transferências excedentárias". Pode até
razoavelmente supor-se que é através deste banco que a
Suíça, não membro da zona euro, participou do programa
Target2
em apoio da
Alemanha
para compensar os défices de alguns países.
Estas transferências em excesso são, provavelmente, o excedente da
balança de pagamentos da Suíça que o SECB em consenso com
o Banco Nacional Suíço manteve fora do país correndo o
risco de agravar a deflação por falta de liquidez no país
e favorecer a prazo uma recessão.
2 - Atentado ao direito à vida privada dos cidadãos
O cash suprimido permite aos "nossos amigos" da Alta
Finança seguir todas as despesas e ganhos dos cidadãos.
O controlo é facilitado.
A gestão dos dados financeiros dos
indivíduos poderia então tornar-se um centro de custo e lucro
controlável da mesma forma que qualquer colaborador de uma empresa.
É sabido que a contabilidade analítica e os programas
informáticos permitem atualmente localizar cada valor monetário
que é imputado direta ou indiretamente como custo ou ganho a cada
cidadão.
A Suíça criou uma nova forma de análise
das suas estatísticas, que considera a habitação familiar
como "centro de produção". Pouco tranquilizador...
Pondo em questão o direito à privacidade garantida pelo artigo 13
da Constituição
(suíça)
a supressão do dinheiro primário permitirá aos banqueiros
acompanhar todas as transferências de cada pessoa, mas também
saber exatamente através do código de barras os produtos
comprados. A base de dados de cada pessoa incluiria a totalidade das compras,
lugares, datas, gostos.
Alimentar uma grande base de dados permitirá ter acesso ao comportamento
pessoal de cada pessoa como consumidor. Comercializar esses dados tem um
preço. Os serviços de marketing adoram esse tipo de
informação que os impede de errarem no cliente-alvo. Pensa-se que
este tipo de dados é o ouro negro do futuro...
Podemos então dizer que a Alta Finança captura diretamente as
nossas liberdades e o nosso direito à propriedade privada. Ao
fazê-lo, impõe seus próprios critérios
societários, justificando a tutela sobre os seres humanos com as
necessidades de um mercado decididamente insaciável e a lógica
tecnocrática...
Atualmente, os representantes do Estado não parecem chocar-se por
práticas que são um sistema repressivo e desumano sobre os
indivíduos e o seu bem-estar. Dois pilares dos direitos do
cidadão e de uma Constituição dita democrática
tremem na sua base. Irão cair?
Última questão: o Estado já está morto, ou finge
estar?...
[*]
Economista, suíça e libanesa, ver
bio
.
O original encontra-se em
lilianeheldkhawam.wordpress.com/...
e em
www.legrandsoir.info/...
. Tradução de DVC.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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