O sistema bancário ocidental é um castelo de cartas
– A estupidez das sanções contra a Rússia

por Valentim Katasonov

No final de 2014 Paul Craig Roberts, conhecido economista americano e cofundador da reaganeconomics, disse ao King World News que a Rússia podia reagir às sanções lançando aquilo a que chamou um "ultimato imprevisto" contra o Ocidente a fim de repelir o ataque e exercer retaliação. Uma das cartas de trunfo da Rússia é a sua pequena dívida externa.

Alguns dados sobre a dívida externa da Rússia (em milhares de milhões de dólares):

01-01-2013 636,42
01-01-2014 728,86
01-07-2014 732,78
01-01-2015 598,68

Segundo os padrões mundiais, um nível aceitável de dívida é da ordem dos 35% do PIB. Para comparação:   a dívida média externa excede os 100% nos países da União Europeia. É igual a 100% do PIB nos Estados Unidos. A dívida é muito mais alta nos países dos "milhares de milhões dourados". Ultrapassa os 400% na Suíça e na Grã-Bretanha.

A parte de leão da dívida russa cai no Ocidente (dívida pública, bancos, e setor não financeiro da economia). Os bancos norte-americanos e europeus são os maiores detentores de títulos russos. As sanções contra a Rússia foram impostas em março de 2014. Desde então, o estado russo, os bancos e as empresas russas têm pago regularmente os juros das suas dívidas. Segundo Paul Craig Roberts, a Rússia tem base legal e política para tomar a decisão de suspender os pagamentos numa situação continuada de força maior. A Rússia foi atingida por uma "força superior". Isso liberta-a da sua obrigação perante um acontecimento ou circunstância fora do seu controlo. De notar que não se trata de recusar o cumprimento das obrigações, mas de adiar os pagamentos. A base política é o facto de que foi desencadeada uma guerra económica contra a Rússia. Paul Craig Roberts diz que a prova recente dessa guerra em curso está na queda do rublo. Ele acha que a queda brusca do rublo não é uma coincidência fatal mas antes uma ação planeada enquanto se trava a guerra. A queda da divisa põe em causa o cumprimento das obrigações para com os prestamistas ocidentais. Roberts tem a certeza de que a queda do rublo pode e deve ser considerada como "força superior" para justificar a suspensão dos pagamentos, até que o rublo recupere a sua posição.

Segundo ele, "os russos nem sequer têm de entrar em incumprimento. Podem dizer apenas, "Este ano não pagamos. Pagamos depois. Pagamos quando o rublo estabilizar". "Podemos perceber qual o impacto no Ocidente dessa decisão dos russos", diz o cofundador da reaganeconomics. Ele acredita que o impacto será significativo, em especial no caso dos bancos europeus. Na sua opinião, "o sistema bancário europeu irá abaixo porque esses bancos estão terrivelmente descapitalizados. Alguns deles têm empréstimos à Rússia que quase absorvem toda a sua base de capital". E acrescenta, "Podemos entender o impacto no Ocidente dessa decisão dos russos, dadas todas as ligações e interligações – quando o Lehman Brothers foi abaixo teve o mesmo efeito adverso tanto na Europa como nos Estados Unidos". Os economistas americanos dizem, "Estive a ouvir as notícias hoje e havia toda aquela gente farisaica muito feliz por finalmente terem encostado a Rússia à parede, "a Rússia está feita" e a Rússia estava acabada e "em breve será um estado vassalo da América como lhe compete". E eu estava a ouvir estas parvoíces e comecei a pensar, "Como é que as pessoas podem ser tão absolutamente estúpidas?" Mas são, e são igualmente estúpidas em Washington. E enquanto isso, dentro deste processo, Eric, podemos ver a Rússia a lançar ações inesperadas que deitam abaixo o castelo de cartas ocidental…".

Acredito que o sistema bancário ocidental parece realmente um castelo de cartas. No final de 2014, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) em Basileia publicou os dados mais recentes apresentando a posição de bancos estrangeiros na Rússia e dos bancos russos no estrangeiro e lançando alguma luz sobre os possíveis prejuízos para as partes envolvidas (os sistemas bancários) caso a Rússia introduza uma moratória nos pagamentos da dívida externa.

Quadro 1
Indicadores do custo do risco para os bancos estrangeiros na Rússia
(a 1 de julho de 2014, em milhares de milhões de dólares)

País
Total de todos os riscos
Riscos principais
(crédito e outros empréstimos)
Outros riscos
EUA 109,6 26,1 85,3
França 59,1 47,8 11,3
Grã-Bretanha 45,2 14,3 30,9
Itália 34,0 18,4 6,3
Alemanha 20,8 17,7 3,1
Japão 20,3 18,4 1,9
Holanda 15,7 15,7 -
Suécia 9,1 9,1 -
Espanha 1,4 1,2 0,2
Outros países 48,0 31.4 16,6
  363,2 207,6 155,6

Como se vê no Quadro 1, os bancos norte-americanos detêm a quota principal de todos os riscos para bancos estrangeiros na Rússia, em 30 por cento. As percentagens para os bancos de outros países principais são: França – 16,2%; Grã-Bretanha – 12,4%; Itália – 9,4%; e Alemanha – 5,7%. No conjunto, os nove países listados no quadro acima detêm 86,6 por cento de todos os riscos. A grande maioria de todos os riscos para os bancos estrangeiros na Rússia é responsável pelo risco de prejuízos associados ao não pagamento dos créditos emitidos a bancos russos. A quota geral desses riscos eleva-se a 57,2 por cento. Os restantes 42,8 por cento caem na categoria de "outros riscos" (também chamados de "riscos potenciais" ou "passivos contingentes"). Estes incluem possíveis prejuízos para bancos estrangeiros que decorrem das suas obrigações ao abrigo de garantias bancárias e instrumentos financeiros derivados. Tomando apenas em consideração os prejuízos resultantes da suspensão dos pagamentos da dívida pela Rússia, os principais perdedores irão ser (do maior para o mais pequeno): a França, os Estados Unidos, a Itália, o Japão, a Alemanha, a Holanda, a Grã-Bretanha e a Suécia. Paul Craig Roberts tem razão quando diz que os bancos europeus são os que mais sofrerão. Os meios de comunicação mencionam os bancos europeus mais vulneráveis, incluindo o UniCredit italiano e o Société Générale francesa. Também são mencionados alguns bancos austríacos como, por exemplo, o Raiffeisen Bank International com o seu portfólio russo de 10,8 mil milhões de euros (no início de 2015).

Os bancos europeus não estão ameaçados apenas pela Rússia, mas também pela Grécia, pela Itália, pela Espanha, por Portugal e pela Irlanda. Os tesouros destes países emitiram títulos no valor de muitos milhares de milhões de euros. Estão a perder o seu valor de dia para dia. Isso está a corroer a estabilidade de bancos gigantescos. Segundo o Banco de Compensações Internacionais, os riscos potenciais dos bancos alemães no conjunto da Grécia, da Irlanda e de Portugal ultrapassam os 220 mil milhões de euros. Os bancos franceses correm riscos de 150 mil milhões de euros.

No Outono de 2014, o Banco Central Europeu publicou os resultados de um cuidadoso exame ao longo do ano sobre a resiliência e as posições dos 130 maiores bancos da área do euro. A análise abrangente – que consistiu na avaliação da qualidade de ativos (AQR) e um teste de stress dos bancos com vista ao futuro – encontrou uma escassez de capital de 25 mil milhões de euros em 25 bancos. Doze dos 25 bancos já tinham coberto a sua falta de capital, aumentando o capital em 15 mil milhões de euros em 2014. Os bancos com falta de capital têm de preparar planos de capitalização no prazo de duas semanas depois da publicação dos resultados. Os bancos terão até nove meses para cobrir a falta de capital. A verdade é que este relatório atraiu poucas atenções na Europa e no resto do mundo. O Banco Central Europeu e outras instituições da UE fazem o melhor possível para esconder o verdadeiro estado de coisas.

O problema é que os novos testes são muito suaves. O Centro para Gestão de Risco da Suíça, em Lausana, sugeriu estimativas mais rigorosas. Por exemplo, os seus especialistas colocam a falta de capital, apenas em 37 bancos, em quase 500 mil milhões de euros, em oposição aos 6 mil milhões de euros do relatório do BCE, na sua amostra de 130. Este teste mais rigoroso mostra como o valor do mercado de ativos se comporta sob tensão. Há outras estimativas mais próximas da que é dada pelos especialistas do Centro de Lausana. A falta de capital que os prestamistas enfrentam, desde o JPMorgan Chase & Co. ao HSBC Holdings Plc pode chegar aos 870 mil milhões de dólares, segundo as estimativas da Alliance Bernstein Ltd.

Resumindo tudo isto, podemos chegar à conclusão de que o sistema bancário da União Europeia é muito menos estável do que o sistema bancário dos Estados Unidos. Segundo a investigação do ano passado, feita pelo Fundo Monetário Internacional, só 30% de 300 bancos europeus têm uma estrutura e reservas que garantam lucros a longo prazo, em comparação com 80% nos Estados Unidos. O sistema bancário europeu está preso por cordelinhos. Como diz Paul Craig Roberts – pode ir abaixo como um castelo de cartas. Basta que os russos introduzam uma moratória sobre os pagamentos da dívida. Se a Grécia se juntar a isso – o colapso é inevitável. É preciso ter em atenção que no mundo da finança internacional essas situações normalmente dão origem a um efeito de dominó. Se o sistema europeu entrar em colapso, os bancos dos Estados Unidos vão a seguir.

Lembremos a Grande Depressão dos anos 30. O pânico na bolsa de valores de Nova Iorque em 1929 atingiu rapidamente outros bancos americanos. Houve alguma estabilização em 1931 até que se seguiu outro golpe, ainda mais poderoso. Veio da Europa. Nessa altura, o processo foi provocado pelo colapso de um só banco – o Creditanstalt austríaco. Hoje poderá ser o Raiffeisen Bank International. Não posso deixar de concordar com Paul Craig Roberts que disse na sua entrevista que as pessoas em Washington que desencadearam a guerra económica contra a Rússia são absolutamente estúpidas.

11/Abril/2015

Do mesmo autor:
  • US External Debt and its Largest Foreign Holders

    O original encontra-se em www.strategic-culture.org/... . Tradução de Margarida Ferreira.


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 23/Abr/15