A Grécia é ingovernável (e o descarrilamento do euro
continua)
A seguir às últimas eleições gregas, fui
entrevistado pelo 7:30 Report da ABC [TV da Austrália]. Na entrevista
(que pode assistir
aqui
), apresentei a visão triste, mas realista, de que realmente importa
pouco o que aconteça na Grécia. "A Grécia está
acabada", argumentei, enquanto o descarrilamento do sistema euro da Europa
prossegue imparável. Ler a transcrição:
Leigh Sales, apresentador: Juntando-se agora a nós, a partir de Atenas,
está o economista grego Yanis Varoufakis.
A pergunta óbvia é: o que acontece agora?
Yanis Varoufakis, Professor de Teoria Económica, Universidade de Atenas:
Bem, o descarrilamento do comboio que é a eurozona, o qual
começou com a Grécia e outros vagões já começou a
deixar os trilhos sequencialmente Irlanda, Portugal, agora a Espanha
e continua. E a votação de ontem não vai mudar nada
disso. Toda exuberância e celebrações são total e
absolutamente inapropriadas. Receio que a eurozona e a Europa continue ao longo
do caminho dos últimos dois anos, o de uma cascata de erros, uma
comédia de erros. Olhe para a Espanha, ao que está a acontecer
ali hoje. Olha para o que está a acontecer na Itália. A menos que
a lógica, ou o que passa por lógica, na abordagem europeia desta
crise se altere, e se altere rápido, muito em breve a eurozona
será história.
Leigh Sales: Bem, vamos ater-nos ao grande quadro por agora antes de tratarmos
da Grécia. O que pensa que podia acontecer então para impedir
esse desastre tal como o vê?
Yanis Varoufakis: Desculpe, não ouvi porque há um bocado de
ruído pode repetir a pergunta?
Leigh Sales: Sim. O que pensa que é preciso acontecer para impedir o
desastre tal como o vê?
Yanis Varoufakis: Três coisas, os passos muito simples que precisam ser
dados. Olhe, na Europa, seja na Grécia ou na Espanha, o que temos agora
são bancos insolventes que estão numa abraço mortal com
estados insolventes. Assim, os estados obtêm dinheiro emprestado do
centro da Europa a fim de dar aos bancos e os bancos tomam emprestado para dar
ao estado e tanto bancos como estados estão de certa forma atados num
abraço mortal com ambos a afundarem muito rapidamente. Então, o
que precisamos fazer é romper este nexo entre bancos insolventes e
estados insolventes. Assim, o modo de fazer isto é unificar o sistema
bancário, europeianizá-lo na União Europeia e tê-lo
a ser financiado directamente e não através de governos
nacionais. Trata-se de um passo muito simples, mas é um passo que parece
demasiado grande para a União Europeia.
Em segundo lugar, o que é preciso é uma
mutualização, uma espécie de dívida comum, como
temos na Austrália, como sabe, em que o Governo Federal tem a sua
própria dívida para além dos estados. E, terceiro,
precisamos uma política de investimento que abranja toda a eurozona.
Como há uma área de divisa [comum], é preciso ter uma
estratégia de investimento, um mecanismo de reciclagem para o todo. A
menos que tenhamos estas coisas, e a Alemanha não quer tais coisas,
receio que não haja absolutamente nada para impedir a
continuação deste movimento vagaroso de descarrilamento.
Leigh Sales: Agora, voltando especificamente à Grécia, os
políticos gregos não puderam se por de acordo sobre as
condições de um debate televisivo durante a campanha eleitoral.
Como irão eles comprometer-se sobre medidas para consertar a economia
grega?
Yanis Varoufakis: Eles não podem consertar a economia grega. A economia
grega está acabada. A economia grega está numa grande, grande
depressão. O crescimento da economia social está no seu longo
Inverno de descontentamento. Não há poder, não há
força, dentro da economia grega, com a sociedade grega que o possa
impedir. É como, imagine, se estivéssemos em Ohio em 1931 e
perguntássemos: o que podem os políticos de Ohio fazer para fazer
com que Ohio saia da Grande Depressão? A resposta é nada.
Leigh Sales: Então o que acontece à Grécia?
Yanis Varoufakis: Depende do que aconteça na eurozona. Assim como o que
aconteceu em Ohio dependeu da subida do Presidente Roosevelt e o do New Deal. A
menos que tenhamos um new deal para a Europa, a Grécia não
terá uma oportunidade. Mas isso não significa que se a Europa se
conserte a si própria a Grécia se conserte a si mesma. É
uma condição necessária que a eurozona descubra um plano
racional para si própria. Não é uma condição
suficiente. A Europa pode consertar-se e a Grécia, estando tão
frágil e doente, ainda pode ter enormes problemas e nunca recuperar. Mas
até e a manos que a eurozona descubra um plano racional para travar este
comboio arruinado por toda a União Europeia, por toda a eurozona, a
Grécia não tem de todo qualquer possibilidade.
Leigh Sales: Vi em algumas estatísticas hoje que sete em cada 10 gregos
querem emigrar. Como descreveria o estado de espírito nacional aí?
Yanis Varoufakis: Isto é a nossa Grande Depressão. Não
só num sentido económico como também num sentido
psicológico. Os gregos estão num estado catatónico. Num
momento, em estado de raiva, noutro em estado de depressão. Não
há perspectivas. Não há luz no fim do túnel.
Há sacrifícios, mas ninguém tem o sentimento de que estes
resultem em alguma espécie de investimento ali na esquina. Este é
o problema quando se está preso numa eurozona que está realmente
mal concebida, que está em colapso e que não dá
oportunidades para as suas partes mais frágeis escaparem através
de alguma espécie de crise redentora.
Leigh Sales: Yanis Varoufakis, percebemos quanto alvoroço há
aí. Muito obrigado por pelo tempo que gastou para falar connosco esta
noite.
Yanis Varoufakis: Obrigado.
26/Junho/2013
O original encontra-se em
yanisvaroufakis.eu/...
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
.
|