Se a Itália sair do Euro
A possibilidade de a Itália sair do Euro, algo que poderia
acontecer no fim da Primavera de 2015, é cada vez mais frequentemente
mencionada na imprensa internacional, a italiana naturalmente mas também
a alemã, americana
[1]
e britânica
[2]
. O silêncio da imprensa francesa
[NT]
é ensurdecedor... É preciso compreender porque o
processo de destruição do Euro poderia muito bem começar
pela Itália e quais seriam as consequências para a França.
Uma situação tornada insustentável
Daqui por diante, fica claro que a situação da Itália se
tornou insustentável no quadro da moeda única. A Itália
está mergulhada numa situação de estagnação
do seu PIB desde a crise de 2008, a qual parece ainda mais grave do que a
experimentada pela Espanha.
A situação é particularmente crítica se se
examinarem os ganhos de produtividade da Itália, em
comparação com os seus concorrentes da zona Euro, desde 1999.
Constata-se que a Itália está a reboque, não só em
relação à Alemanha e à França mas
também em relação à Espanha. Neste país,
entretanto, o encerramento de numerosas empresas implicou o desaparecimento das
menos produtivas e, aqui, o ganho de produtividade pode ser explicado
directamente pelo efeito da contracção da produção.
Com efeito, discussões com conselheiros económicos do governo
Renzi mostram que estes últimos doravante estão muito pessimistas
quanto ao futuro económico do país. Consideram que, salvo haja
uma viragem importante na política económica alemã neste
Inverno, a Itália dificilmente terá outra opção
senão a de abandonar o Euro no Verão de 2015. Notemos que um
partido, o
Movimente 5 Stelle
de Beppe Grillo, apela a um referendo sobre o Euro e que esta ideia está
em vias de ganhar terreno nos meios políticos italianos.
A Itália faz grande parte do seu comércio exterior (55% do
comércio de bens e cerca de 64% contando o serviços) com os
países da zona Euro. Compreende-se desde logo que a baixa, relativa, do
Euro frente ao Dólar dificilmente a beneficia. A economia italiana sofre
de um problema de competitividade no interior da zona Euro.
As consequências para a França
Se a Itália tiver de tomar esta decisão, as consequências
seriam importantes para a economia francesa. Devido a uma
especialização comparável à da economia italiana,
dificilmente será possível para a França permanecer na
zona Euro se a Itália sair (e reciprocamente). Mas esta realidade
económica arrisca a chocar-se com a teimosia de um governo que
está paralisado pelo medo de ver a sua estratégia política
entrar em colapso neste momento. Há que repetir aqui que nada seria pior
para a França do que permanecer numa zona Euro que se reduziria
então a uma zona Marco, se um dos grandes países e a
Itália constitui a terceira economia da zona Euro tiver de sair.
O choque adverso de competitividade certamente seria muito catastrófico
para a indústria francesa.
A partir de agora, é preciso pensar num tal caso e perguntar-se se ele,
na realidade, não apresenta uma importante oportunidade para a economia
francesa. Se a França e a Itália saírem juntas da zona
Euro, isso implicará uma saída a curto prazo da Espanha, de
Portugal, da Grécia e da Bélgica. Com efeito, compreende-se
imediatamente que a Espanha, que está enfraquecida por tensões
políticas profundas, não poderia permanecer no Euro se a
Itália e a França saíssem. Ora, uma saída da
Espanha implica a de Portugal e, depois destes quatro países, a
manutenção da Grécia no Euro não se justifica mais.
Tendo em conta suas ligações com a economia francesa, é
muito provável que a Bélgica devesse seguir-se após
algumas semanas de hesitações. Uma saída da Itália
provocaria certamente a deslocação da zona Euro e a Alemanha,
muito provavelmente, retomaria a sua moeda. Mas este cenário, longe de
ser uma catástrofe, abriria imediatamente novas oportunidades e em
particular a possibilidade uma vez estabilizadas as paridades das moedas
destes países de reconstituir um bloco comercial. Este
último não deveria fundamentar-se sobre uma moeda única
(um "Euro-Sul"), pois como já foi dito isso implicaria um
forte empobrecimento da Itália e da Espanha, mas deveria antes
fundamentar-se sobre regras de co-variação das taxas de
câmbio, sendo certo que as paridades respectivas dos países deste
bloco poderiam ser revistas de maneira regular (todos os anos) a fim de ter em
conta movimentos diferentes da produtividade.
Convém portanto acompanhar de perto a evolução do debate
na Itália nos próximos meses e sobretudo a maneira como a
imprensa francesa acerca da qual, infelizmente!, já não
há ilusões dela dará conta.
18/Novembro/2014
[1] Baker D., "Italy's Stagnation: The Need to Share the Pain" in
INSIGHT, Center for International SocialStudies,
www.insightweb.it/web/content/italy's-stagnation-need-share-pain
[2] "Lira looks set for a comeback",
The Guardian,
16/11/2014,
www.theguardian.com/world/2014/nov/16/lira-looks-set-for-comeback/print
[NT] O silê:ncio da imprensa portuguesa também é
ensurdecedor.
[*]
Economista. Ver
Wikipedia
.
O original encontra-se em
russeurope.hypotheses.org/3036
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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