Euro: Questões frequentemente perguntadas (I)
por Jacques Sapir
O debate sobre uma saída, ou sobre a dissolução, do Euro
provoca um certo número de questões que retornam de modo
recorrente. Na nota que se segue abordam-se algumas delas a fim de clarificar o
debate.
1- Diferença entre depreciação e
desvalorização da moeda.
Estas duas palavras são hoje empregues como sinónimos. No
entanto, elas remetem a realidades um pouco diferentes.
1- Uma desvalorização é um termo empregue quando a moeda
tem uma cotação fixa, quer em relação a um metal (o
ouro, a prata, mesmo os dois) ou em relação a uma moeda (a Libra
Esterlina, o Dólar, etc). A paridade é garantida pelo Estado, que
se compromete a trocar uma certa quantidade da sua moeda contra uma certa
quantidade da referência, quer seja metálica quer seja uma outra
moeda, a uma taxa de câmbio dada. Diz-se que há uma
desvalorização quando esta taxa é reduzida
administrativamente. A desvalorização foi praticada nos sistemas
monetários de taxas fixas (Bretton Woods, por exemplo). Por analogia, se
um governo se compromete a garantir uma paridade da sua moeda nos limites
conhecidos (+ ou 5%) em relação a uma taxa de câmbio
e se ele anuncia que a sua moeda poderá flutuar para além dos
antigos limites, fala-se de desvalorização ou de
revalorização em função dos movimentos quando eles
excedem estes limites.
2- A depreciação é a baixa da taxa de câmbio de uma
moeda constatada num mercado de câmbios na ausência de
intervenção directa do Estado ou do Banco Central para fixar a
cotação. O Estado ou o Banco Central podem entretanto continuar a
intervir por "actuações de mercado" (compra ou venda
das outras divisas), por intervenções na taxa de juro, ou mesmo,
pelo Banco Central, pela decisão de comprar grandes quantidades de
dívidas (pública ou privadas).
2- A depreciação do Euro poderia substituir a
dissolução da zona Euro, o retorno às moedas nacionais e a
depreciação de cada moeda?
Esta questão é apresentada regularmente cada vez que as
tensões se acumulam na zona Euro. Considera-se que uma alternativa
à dissolução do Euro seria a sua depreciação
em relação ao Dólar. Mas, fazendo isto, tem-se a
tendência a esquecer:
1- O facto de que num processo de depreciação do Euro a paridade
implícita de cada país em relação ao Euro
não se modifica. Ora, o problema reside nas diferenças de ganhos
anuais de produtividade e as diferenças de inflação no
interior da zona Euro. Decorre que não se pode encontrar uma taxa de
câmbio única que satisfaça países que têm
economias estruturalmente muito diferentes.
2- O facto de todos os países não terem o mesmo grau de
integração na zona Euro. A França é um dos menos
integrados, ao passo que a taxa de integração da Espanha ou da
Itália é claramente mais elevada. Numa depreciação
do Euro, a França ganharia assim claramente mais que os seus vizinhos do
Sul. Defender a ideia da depreciação do Euro em
relação ao Dólar é, num certo sentido, pretender a
morte dos países do "Sul" da zona.
3- Para realizar uma tal depreciação, seria preciso que o Banco
Central Europeu comprasse maciçamente (entre 700 e 1400 mil
milhões) da dívida pública emitida pelos diferentes
Estados. Ora, se o sr. Mario Draghi evocou esta possibilidade (OMT, outright
monetary transactions), foi para montantes bem menores. Não se vê
o BCE a lançar-se numa política que seria rapidamente julgada
anti-constitucional aos olhos da Constituição alemã.
3- Uma depreciação da moeda seria favorável à
economia francesa?
Uma corrente de ideias pretende que, actualmente, a concorrência no
mercado dos produtos se faça não nos preços mas sim nos
elementos das suas qualidades. Isto invalidaria a ideia de uma
depreciação. Uma outra corrente sustenta que se pode chegar aos
mesmos resultados por uma desvalorização interna, ou seja, uma
baixa os preços e dos salários num país considerado.
É preciso então olhar os resultados destas diversas
políticas.
1- Uma depreciação da moeda (do Euro neste caso) tem efeitos
positivos sobre a economia, como é mostrado num estudo recente do CEPII
[1]
. Diferentes estudos que têm sido efectuados por centros de
investigação públicos ou privados indicam que a
competitividade preço permanece em grande medida dominante no caso dos
produtos fabricados em França. Notemos que este estudo não encara
senão uma depreciação de 10%. É sabido que as
elasticidades mudam se se deprecia a moeda em 20% ou mais. O estudo do CEPII na
realidade subestima o impacto positivo de uma depreciação.
2- O citado estudo do CEPII também indica que uma
desvalorização interna teria resultados equivalentes. Contudo,
indica que a manifestação destes resultados seria bem mais lenta.
Ora, neste caso, seria preciso levar em conta a baixa do consumo interno no
país considerado.
3- De facto, uma desvalorização interna não é outra
coisa senão aquilo a que nos anos 1930 era chamado uma política
de deflação, como praticada por Ramsay Macdonald na
Grã-Bretanha, Pierre Laval em França ou o chanceler Brünning
na Alemanha. Tendo em conta a presença de rigidezes nominais diferentes
acompanhando os preços
[2]
e o facto de que os custos financeiros são constantes em valor nominal,
estas políticas traduziram-se todas por desastres sociais
E
económicos. Esta política é amplamente responsável
pelo aumento para além dos 26% da taxa de desemprego na Espanha e na
Grécia.
4- Os exemplos recentes da Grã-Bretanha e sobretudo do Japão
mostram todo o interesse de uma depreciação da moeda, que foi
maciça no caso do Japão.
Uma desvalorização interna não é uma alternativa a
uma política de depreciação da moeda como mostram todos os
exemplos históricos.
4- A depreciação da moeda opõe-se à via do
esforço encarnada numa política de reformas estruturais.
É uma questão frequentemente colocada, cujo subentendido é
que só o esforço, e portanto o sofrimento, compensa em economia.
Reconhece-se aqui a base cristã do raciocínio. É preciso
acrescentar que nada se diz sobre
quem
deveria fazer esses esforços... No fundo, isso suscita as seguintes
observações:
1- Há que precisar de que reformas estruturais se fala. Na realidade,
é quase sempre das reformas que resultam numa baixa dos direitos sociais
e da protecção social. Outras reformas, referentes à
direcção da política industrial, aos esforços de
investigação e educação, que são verdadeiras
reformas estruturais, não são mencionadas senão muito
raramente.
2- Uma depreciação da moeda e colocando-se a
hipótese de um retorno ao Franco acompanhado de uma
depreciação sensível em relação ao
Dólar e ao DeutschMark implicaria um forte crescimento durante um
período de 3 a 5 anos. Este crescimento proporcionaria os recursos
orçamentais e fiscais que são necessários à
realização de verdadeiras reformas estruturais. Na realidade,
longe de se opor, a depreciação monetária sempre foi o
melhor meio de realizar estas reformas estruturais. Isto é mostrado
pelos resultados do cenário pró-investimento no quadro de uma
saída do Euro
[3]
.
3- Se se proceder a uma depreciação forte da moeda, ao cabo de
três anos é obtida uma forte baixa do desemprego (de 1,5
milhão a 2,5 milhões). Isto implicaria um equilíbrio
(mesmo um saldo positivo) do seguro-desemprego. De facto, a melhor das reformas
estruturais, quer seja na questão do subsídio de desemprego ou na
das reformas, é o retorno rápido ao crescimento forte.
5- A depreciação da moeda implicaria uma explosão do
endividamento da França com consequências desastrosas.
É um dos argumentos mais utilizados e dos mais mentirosos. Recorda-se
aqui o estado exacto do problema.
1- Em Direito internacional o que conta não é a nacionalidade do
prestamista mas a nacionalidade dos contratos. Quando uma dívida,
pública ou privada, é emitida em direito francês, sua moeda
de regularização é a moeda com curso legal em
França, qualquer que seja esta moeda (Euro ou Franco). Isso tem um nome,
a
Lex Monetae.
2- Para a dívida pública, os contratos emitidos em direito
francês passaram de 85% do montante da dívida para 97% em 2013.
Portanto, unicamente os 3% residuais seriam afectados por uma
depreciação da moeda.
3- A dívida das famílias é maciçamente (em mais de
98,5%) em contratos em direito francês. Isso quer dizer que haveria uma
conversão instantânea das dívidas e dos haveres detidos em
Euro para o Franco, a uma taxa de 1 por 1.
4- Para as empresas não financeiras, o problema da natureza do direito
não se coloca senão para aquelas, em geral os grandes grupos, que
tomaram emprestado em Dólar, em Libra ou em Yen. Mas estes grandes
grupos realizam uma grande parte da sua facturação fora da
França e nestas moedas. O impacto da alta do seu endividamento seria
coberto pela alta da sua facturação em outra moeda que o Franco.
5- Para as sociedades financeiras (bancos e seguros) um estudo do BRI [NT] da
Basileia mostra que o sistema bancário francês pode perfeitamente
digerir este choque, cujo montante agregado não ultrapassaria os 5 mil
milhões de Euros. Para as companhias de seguros, elas reorientaram
maciçamente seus activos para a França. Se uma ajuda do Estado
fosse necessária, ela deveria ser limitada e será amplamente
digerível no quadro de um forte crescimento engendrado pela
depreciação.
6- Se a França saísse do Euro e depreciasse a sua moeda, todos os
países a imitariam o que resultaria em anular o benefício da
operação.
Este constitui o segundo argumento mais habitual contra uma
dissolução da Zona Euro. Mas ele não considera as
realidades da economia.
1- É muito difícil para um país com uma balança
comercial maciçamente excedentária ver a sua moeda depreciar-se.
Para isso seria preciso que o seu Banco Central injectasse maciçamente
moeda na sua economia (provavelmente até 500 a 600 mil milhões).
Ora, a Constituição alemã proíbe-o formalmente.
É portanto irrealista ver a Alemanha depreciar a sua moeda.
2- Uma depreciação da Lira italiana e da Peseta espanhola
é, em contrapartida, certa. Ela deveria ser ligeiramente mais importante
que a do Franco francês.
3- Esta situação foi testada
[4]
e revelou-se favorável à França, mas também
à Itália e à Espanha (assim como a Portugal e à
Grécia). Em contrapartida, a constituição de um bloco
monetário alcunhado Euro-Sul seria muito desfavorável para estes
países.
7- Muitos dos nossos problemas são anteriores à
criação do Euro. Pretender sair do Euro não os resolveria.
Terceiro argumento frequentemente levantado, em geral por economistas situados
à esquerda do tabuleiro político, mas que repousa num mal
entendido.
1- É efectivamente verdadeiro que os problemas estruturais da economia
francesa são em parte anteriores a 1999. Mas também é
claro que estes problemas foram consideravelmente agravados pela
criação do Euro.
2- Estes problemas foram provocados pela política dita do "Franco
forte" que a França havia adoptado nos anos 1990 para se preparar
para o Euro. Deve-se portanto logicamente ligá-los à
existência do Euro, que deu um certo sentido a esta política. Se a
França houvesse depreciado maciçamente a sua moeda (-20%) em 1994
ou 1995, uma parte destes problemas não se teriam manifestado.
3- Fundamentalmente, a França experimentava uma crise latente, com
períodos de remissões, desde que foi feita a "viragem"
pró europeia de 1983 e adoptada uma política de
financiarização das actividades económicas (1987).
É esta política que deve ser por em causa.
4- Portanto uma depreciação do Euro não tem sentido
senão fôr acompanhada de uma outra política, de uma ruptura
com certo número de medidas que tem sido tomadas desde há 30 anos
e se não for acompanhada de uma política de
"des-financiarização" de que um dos principais
instrumentos será um controle dos movimentos de capitais a curto e muito
curto prazo. Neste sentido, uma saída do Euro pode ser uma oportunidade
histórica de pôr em execução esta "outra
política" que obceca a França desde há trinta anos.
8- Qual seria o impacto de uma depreciação sobre a
inflação?
É claro que será preciso efectivamente esperar um aumento da
inflação na sequência de uma forte
depreciação da moeda. Mas este avanço da
inflação será na realidade muito moderado e bem inferior
às estimativas loucas feitas por alguns.
1- Pode-se estimar a inflação importada total, ao longo de um
período de dois anos, em 7% a 9%, ao que será preciso acrescentar
a inflação residual. É portanto um total de 10% a 12% de
inflação que a França deveria ter ao longo dos dois anos
seguintes à depreciação do Franco. Esta estimativa foi
voluntariamente pessimista. Na realidade, o contexto económico
está mais próximo da deflação que da
inflação.
2- O preço dos carburantes, considerando o montante dos impostos,
não deveria aumentar mais de 5% a 7%.
3- Taxas de inflação do nível que se acaba de evocar
terão em contrapartida o efeito de tornar as taxas de juros reais
negativas. Isto deveria ter, como se viu nos anos do pós guerra, um
efeito muito positivo sobre a actividade económica e o investimento.
9- Uma dissolução da zona Euro e uma forte
depreciação da moeda provocaria a hostilidade dos Estados Unidos
e dos outros países.
De facto, isto não considera, mais uma vez, certas realidades.
1- Uma depreciação que se situasse no quadro dos cálculos
que têm sido feitos não provocaria uma baixa do valor agregado da
produção da zona Euro senão em 7% (essencialmente devido a
uma reavaliação da moeda alemã). Isso equivaleria a passar
de 1 Euro por 1,365 USD a 1 Euro por 1,27 USD. É inteiramente
aceitável tanto para os Estados Unidos como para o Japão
[5]
.
2- Tem sido dito frequentemente que o Euro nos "protegia" contra o
Dólar (sem nunca o demonstrar). De facto o Euro não pôde
ser criado senão com o acordo dos Estados Unidos
[6]
.
3- O fim do Euro concentraria as pressões especulativas sobre o
Dólar e levaria o governo americano a aceitar uma nova conferência
monetária internacional.
26/Janeiro/2014
[1] La Lettre du CEPII, n°340, janvier 2014.
[2] B.C. Greenwald et J.E. Stiglitz, "Toward a Theory of Rigidities"
in
American Economic Review,
vol. 79, n°2, 1989, Papers and Proceedings, pp. 364-369. J.E. Stiglitz,
"Toward a general Theory of Wage and Price Rigidities and Economic
Fluctuations" in
American Economic Review,
vol. 79, 1989, Papers and Proceedings, pp. 75-80.
[3] Sapir J., P. Murer et C. Durand, Les scénarii de dissolution de l'
Euro, Fondation ResPublica, Paris, septembre 2013.
[4] Sapir J., P. Murer et C. Durand, Les scénarii de dissolution de l'
Euro, op. cit.
[5] Cálculos realizados a partir do PIB dos diferentes países.
Sapir J., P. Murer et C. Durand, Les scénarii de dissolution de l' Euro,
op . cit..
[6] Sapir J., "La fin du duopole", Russeurope, 6 octobre 2013,
russeurope.hypotheses.org/1585
O original encontra-se em
russeurope.hypotheses.org/1933
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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