Um passo para o precipício
"O Euro é um cancro que corrói a Europa"
A zona Euro, sob o efeito conjugado das políticas de austeridade,
afunda-se na crise. Contudo, nunca os debates sobre a política
económica foram tão intensos. No entanto, eles se chocam com um
imaginário dos dirigentes políticos, tanto na Alemanha como na
França ou nos outros países, que permanece profundamente
estruturado pelo discurso da austeridade. As fontes deste último eram
tomadas até o presente como irrefutáveis. Mas um trabalho recente
permite mostrar que, por trás da aparência da seriedade
universitária, havia muito de ideologia.
Recentemente o desemprego atingiu os 12% da população activa [em
França], mas com picos de mais de 25% na Espanha e na Grécia. A
actividade continua a regredir na Espanha, Itália e Portugal e,
doravante, é o consumo que começa a afundar em França,
anunciando, como fora previsto neste sítio
[1]
, uma nova deterioração da situação
económica a curto prazo.
Com efeito, como segundo país da zona
Euro, a França, pelo vigor do seu consumo, nestes últimos meses
havia evitado o pior para a zona Euro. Se o consumo francês continuar a
contrair-se ao ritmo verificado desde o mês de Janeiro, as
consequências serão importantes, tanto em França como nos
países vizinhos e em primeiro lugar na Itália e Espanha.
Uma política que conduz a Europa a um impasse
Esta deterioração geral da situação
económica coloca abertamente o problema da austeridade adoptada pelo
conjunto dos países desde 2011, na sequência da Grécia que
a isso fora constrangida pela União Europeia, depois de Portugal e da
Espanha. Mas a vontade alemã de prosseguir na via desta política
é inegável e ela foi reafirmada
[2]
recentemente. Por que, então, uma tal teimosia? Há em primeiro
lugar interesses evidentes que levam a Alemanha a defender esta política
"de austeridade".
A zona euro proporciona à Alemanha cerca de 3 pontos de PIB por ano,
quer através do excedente comercial, que é realizado 60% em
detrimento dos seus parceiros da zona Euro quer através dos efeitos
induzidos pelas exportações. Pode-se perfeitamente compreender
que, nestas condições, a Alemanha queira manter a
existência da zona Euro. Ora, se Berlim quisesse que a zona euro
funcionasse como devia, ser-lhe-ia preciso aceitar a passagem a um federalismo
orçamental extenso e a uma União de transferências.
É uma evidência conhecida pelos economistas
[3]
, mas também bem além. No mês de Outubro de 2012, no quadro
do Clube Valdaï, o presidente Vladimir Putin havia sublinhado que
não se podia fazer funcionar uma união monetária em
países tão heterogéneos sem um poderoso federalismo
orçamental
[4]
. Mas, se a Alemanha devesse aceitar este federalismo, ela deveria em
consequência aceitar transferir uma parte importante da sua riqueza para
os seus parceiros. Apenas para a Espanha, Grécia, Itália e
Portugal, as transferências necessárias para repor o nível
destas economias em relação ao da Alemanha e da França
representariam entre 245 e 260 mil milhões de euros, ou seja, entre 8 e
10 pontos de PIB por ano e isto durante pelo menos dez anos
[5]
. Montantes deste nível, e não é impossível que
sejam ainda superiores
[6]
, são absolutamente exorbitantes. A Alemanha não tem os meios
para pagar semelhante soma sem por em perigo o seu modelo económico e
destruir seu sistema de reformas. Ela deseja portanto conservar as vantagens da
zona euro mas sem pagar o preço. Eis porque ela, na realidade, sempre
recusou a ideia de uma "União de transferências".
Além disso, o problema não é tanto o que a Alemanha
"quer" ou "não quer"; é o que ela pode
suportar que importa. E ela não pode suportar uma punção
de 8% a 10% da sua riqueza. Deixemos pois de pensar que "a Alemanha
pagará", velha cantilena da política francesa que data do
tratado de Versalhes em 1919, e encaremos a realidade de frente.
A Alemanha tem desde já reticências importantes sobre a
União bancária, que ela havia aceitado a contra-gosto no Outono
de 2012. Pela voz do seu ministro das Finanças, acaba de declarar que
considerava que seria preciso modificar os tratados existentes para que esta
União bancária pudesse ver a luz do dia
[7]
. Certamente é possível modificar os textos fundadores, mas todos
estão conscientes de que levará tempo. Dito de outra forma, a
Alemanha atrasa para 2015 e mais provavelmente 2016 a entrada em vigor da
União bancária que ela, além disso, reduziu amplamente o
perímetro. Pode-se considerar que os argumentos da Alemanha sobre a
"constitucionalidade" da União Bancária são
pretextos. Talvez seja o caso, mas a Sra. Merkel tem algumas boas razões
para querer assegurar a perfeita legalidade dos textos. A criação
recente do novo partido eurocéptico "Alternativa para a
Alemanha", um partido que as sondagens colocam actualmente nos 24% das
intenções de voto, constitui uma ameaça crível para
os equilíbrios políticos na Alemanha
[8]
.
Nestas condições, compreende-se bem que não haja outras
opções para a Alemanha senão defender uma política
de austeridade para a zona Euro, apesar das consequências
económicas e sociais absolutamente catastróficas que esta
política engendra. Daí a pretender que a Alemanha desejaria
"expulsar" os países do "Sul" da Europa, há
apenas um passo. Simplesmente, ela não pode pagar por eles. Deste ponto
de vista, atribuir à Sra. Merkel um chamado "programa secreto"
a respeito, acreditar que vai travar uma luta heróica para manter estes
países na zona Euro, é uma destas asneiradas magníficas de
que certos políticos têm o segredo.
Mas há também uma dimensão ideológica,
pretensamente "fundamentada" na teoria económica.
A fonte da política de austeridade
A cantilena de que o peso da dívida compromete o crescimento e de
que só uma política de austeridade pode aliviar o peso desta
dívida faz parte destas evidências aparentes que enchem a
"sabedoria das nações". Esta dita evidência havia
encontrado uma forma de justificação num texto publicado por dois
autores muito conhecido (um deles foi o Economista Chefe do FMI), Carmen
Reinhart e Kenneth Rogoff
[9]
. As conclusões deste texto, publicado a seguir, eram que acima de um
rácio Dívida/PIB superior a 90% o impacto da dívida sobre
o crescimento era muito negativo. A conclusão era portanto evidente:
seria preciso desendividar-se se se atingissem tais níveis. Esta foi a
lógica adoptada em França pelo governo de Jean-Marc Ayrault que
desde o segundo semestre de 2013 reforçou a austeridade
orçamental e fiscal. Diga-se de passagem, isto ia contra toda uma
série de estudos indicando que a austeridade tinha consequências
dramáticas sobre o crescimento. Isto foi registado neste sítio
[10]
. Mas os partidários da austeridade extrema podiam sempre afirmar que,
quaisquer que pudessem ser as consequências da austeridade, o imperativo
do desendividamento era uma verdadeira prioridade para reencontrar o
crescimento. Este é, muito precisamente, o discurso mantido por
François Hollande e Jean-Marc Ayrault.
Contudo, aquele documento continha erros importantes que foram revelados num
contra-estudo redigido por três economistas
[11]
, o que provocou uma certa comoção no pequeno mundo dos
economistas
[12]
. Em primeiro lugar, Reinhart e Rogoff excluíram arbitrariamente certos
anos na amostragem que constituíram e que se supõe cobrir o
período 1946-2009. Três países importantes são assim
excluídos para os anos imediatos ao pós-guerra, a
Austrália, o Canadá e a Nova Zelândia. Ora, nestes
três países encontra-se em simultâneo um rácio de
dívida elevado e uma taxa de crescimento elevada. A seguir, os dois
autores do estudo ponderam seus dados de maneira muito curiosa, o que leva,
também aí, a diminuir a influência sobre os cálculos
de países onde há uma dívida pública importante e
um crescimento forte. Finalmente, a replicação dos dados do
estudo original que foi feita pelos três economistas mostra que se
verificou um erro não desprezível numa das páginas Excel
utilizadas por Reinhart e Rogoff
[13]
. O resultado é que Herndon, Ash e Pollin descobrem que os países
com um rácio de dívida em relação ao PIB de 90% e
mais tiveram historicamente um crescimento de 2,2% e não de -0,1% como
afirmavam Reinhart e Rogoff
[14]
.
O erro relativo ao ficheiro Excel foi certamente o que provocou mais
comentários, mas trata-se na realidade de um erro menor. Em
contrapartida, a omissão de certos países em certos
períodos assim como as ponderações utilizadas são
indícios bem mais graves de que Reinhart e Rogoff "arranjaram"
os seus dados para obter resultados conforme à sua ideologia. Isto
lança uma dúvida bem mais profunda e sobre o método de
certos economistas e sobre a seriedade das pessoas que os seguem.
As consequências desastrosas das políticas de austeridade
Todos os países, uns a seguir aos outros, lançaram-se em
políticas suicidas de desvalorização interna,
políticas que as equivalentes às políticas de
deflação dos anos trinta que levaram Hitler ao poder. Assim
acontece na Espanha e na Grécia, onde o desemprego e a austeridade
devastam a sociedade
[15]
. Mas as consequências não se limitam a isso. De facto, a
política de austeridade está em vias de levantar os povos uns
contra os outros. O paradoxo aqui é total. A Europa, no sentido da
União Europeia, que apresenta habitualmente como um factor de paz no
continente, demonstra doravante ser um factor de agravamento dos conflitos e do
despertar dos velhos ódios.
No caso da França, as consequências da austeridade são
claras. Se se quiser absolutamente reduzir o custo do trabalho para tentar
restaurar a competitividade da indústria sem desvalorizar, é
claro que será preciso baixar os salários e as
prestações sociais. Mas então será o consumo, que
já se reduz como vemos actualmente, que afundará. Inevitavelmente
veremos as consequências sobre o crescimento; hoje as estimativas mais
críveis indicam que para a economia francesa o ano 2013
traduzir-se-á na melhor das hipóteses numa
estagnação e mais provavelmente numa contracção de
-0,4% do PIB. As últimas projecções do FMI mostram
igualmente que as perspectivas de crescimento para 2013 se reduzem fortemente.
Um afastamento de -0,4% do PIB entre as previsões feitas em Janeiro e
aquelas feitas em Abril é na realidade muito significativo da
trajectória na qual estamos empenhados.
O resultado será, naturalmente, uma alta importante do desemprego. Se
quisermos que nossos custos baixem em 20%, será preciso provavelmente
aumentar o desemprego pela metade, ou seja, chegar a mais de 15% da
população activa, ou 4,5 milhões de desempregados no
sentido da categoria "A" da DARES e 7,5 milhões para as
categorias A, B e C incluindo todas as categorias de desempregados. Além
disso, na zona euro, a Espanha e a Itália já fazem
concorrência à França pela deflação salarial.
Seria preciso portanto fazer melhor que Madrid e Roma, deixar atingir
não 15% mas 20% de desemprego. Qual o homem político que
assumirá a responsabilidade? Quais serão as consequências
políticas?
No momento, nossos dirigentes, e em particular em França, resignam-se. O
Presidente da República, François Holland, põe todas as
suas esperanças numa hipotética retomada americana para aliviar o
peso do fardo da austeridade. Entretanto ele já teve de admitir que esta
não ocorrerá no 2º semestre de 2013, como havia anunciado
anteriormente, e atrasou a sua previsão para o princípio de 2014.
Mas, tal como o horizonte que se afasta diante do andarilho, a retomada
americana não cessa de se atrasar. É uma ilusão acreditar
que a procura externa virá hoje nos salvar das perdas. O crescimento
americano é bem mais fraco do que o previsto e o FMI reduziu em baixa
suas previsões a respeito. Quando ao crescimento chinês, ele
enfraquece-se de mês em mês. Hollande espera que seremos salvos
pela cavalaria, mas a cavalaria não virá, ou então, como
nas trágicas jornadas de Junho de 1940 "demasiado pouco, demasiado
tarde".
Mais do que nunca, a questão da sobrevivência da zona Euro
está colocada. As tendências para o seu estilhaçamento
amplificam-se. Vê-se que os problemas de países tão
diversos como a Grécia, a Espanha, Portugal e a Itália vão
convergir a curto prazo. É altamente provável que
experimentaremos uma crise violenta durante o Verão de 2013, o mais
tardar no começo do Outono. É tempo de saldar as contas. O Euro
não induziu o crescimento esperando aquando da sua
criação. Ele é hoje um cancro que corrói uma parte
da Europa. Se se quiser salvar a ideia europeia enquanto ainda é tempo,
é preciso rapidamente soar a dissolução da zona euro.
Notas
[1] J. Sapir, "Chômage: la marée noire qui nous menace",
billet publié sur le carnet Russeurope le 03/03/2013, URL:
http://russeurope.hypotheses.org/974
[2] AFP e Nouvel Observateur, " Merkel rejette toujours une politique de
relance ", 15 avril 2013,
tempsreel.nouvelobs.com/...
. Ver também:
www.huffingtonpost.fr/...
[3] Ver, por exemplo M. Aglietta,
Zone Euro: éclatement ou
fédération,
Michalon, Paris, 2012
[4] J. Sapir, "La diplomatie russe, entre Asie et Euro(pe)", nota
publicada no sítio Russeurope em 27/10/2012, URL:
http://russeurope.hypotheses.org/390
[5] J. Sapir, "Le coût du fédéralisme dans la zone
Euro", nota publicada no sítio Russeurope em 10/11/2012, URL:
http://russeurope.hypotheses.org/453
[6] P. Artus, " La solidarité avec les autres pays de la zone euro
est-elle incompatible avec la stratégie fondamentale de l'Allemagne :
rester compétitive au niveau mondial ? La réponse est oui ",
NATIXIS,
Flash-Économie,
n°508, 17 juillet 2012.
[7] Euractiv.fr, " Économie & finance Union bancaire: l'Allemagne
demande un nouveau traité ", 16 avril 2013, URL :
www.euractiv.fr/...
[8] I. Mouilleseaux, " Ce discret parti populiste allemand pourrait-il
avoir la peau de l'euro ? ", Atlantico.fr, 11 avril 2013, URL,
www.atlantico.fr/...
[9] C. M. Reinhart et K. S. Rogoff, " GROWTH IN A TIME OF DEBT ",
NBER WORKING PAPER SERIES, Working Paper 15639, janvier 2010 ,
http://www.nber.org/papers/w15639
[10] J. Sapir, "Le FMI et l'aveu de François Hollande sur la
croissance", nota publicada no sítio Russeurope em 20/02/2013, URL:
http://russeurope.hypotheses.org/895
[11] T. Herndon, M. Ash et R. Pollin, " Does high public debt consistently
stifle economic growth ? A critique of Reinhart et Rogoff ", Political
Economy Research Institute, 15 avril 2013, University of Massachusetts Amherst,
Boston.
[12] G. Vina e S. Kennedy, " Finance Chiefs Endorse Cuts as
Reinhart-Rogoff Challenged ", Bloomberg, 19 avril 2013, URL :
www.bloomberg.com/...
[13] J. Fox, " Reinhart, Rogoff, and How the Macroeconomic Sausage Is Made
", Harvard Business Reviex Blog, 17 avril 2013, URL :
http://blogs.hbr.org/fox/2013/04/reinhart-rogoff-and-how-the-ma.html
. Mike
Konczal, " Researchers Finally Replicated Reinhart-Rogoff, and There Are
Serious Problems ", Next New Deal, 16 avril 2013, URL :
www.nextnewdeal.net/...
[14] T. Herndon, M. Ash et R. Pollin, " Does high public debt consistently
stifle economic growth ? A critique of Reinhart et Rogoff ", po.cit..
[15]
www.metrofrance.com/...
20/Abril/2013
[*]
Autor de
Faut-il sortir de l'euro?
O original encontra-se em
http://russeurope.hypotheses.org/1158
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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