A União Europeia está morta
Brexit! Acontecimento literalmente histórico.
Para as elites mundializadas, ele ultrapassa os piores pesadelos e era, na
realidade, inconcebível.
Para aqueles que seguem atentamente a actualidade europeia, e estão
conscientes da crescente rejeição popular que a UE inspira com
muita razão, ele ao contrário era previsível.
Em primeiro lugar, uma constatação salta aos olhos. É
verdade que uma parte da burguesia inglesa apoiou a opção de
retirar o Reino Unido da União Europeia. Mesmo assim a clivagem é
gritante: de um lado, as elites institucionais e políticas (e sindicais,
com algumas louváveis excepções), a City,
os bancos
, os patrões das grandes empresas (1300 deles haviam lançado um
apelo final dois antes do escrutínio) e os meios urbanos
abastados; do outro, os bairros populares, as cidades operários e os
arrabaldes abandonados, as regiões desindustrializadas e no abandono.
É este fosso que acima de tudo determinou
o resultado
. Basta de resto ouvir as caçoadas odiosas que se jorram contra estes
"meios desfavorecidos" dotados de "um nível de
educação inferior", "irracionais e movidos pelo
ódio". Este desprezo de classe, aumentado pelo despeito da derrota,
diz muito sobre a natureza real do que estava em jogo.
O mesmo se diz da longa lista interminável dos membros da Santa
Aliança que, durante meses, tudo tentou em particular uma
incrível chantagem do caos para evitar o "cataclismo"
anunciado: G7, chefes de Estado e de governo, ministros, dirigentes de
multinacionais, banqueiros, agências de notação, OCDE,
FMI... Os EUA obtiveram a palma quanto a isto, com
uma visita especial a Londres do presidente Obama
...
Naturalmente, cada país tem a sua própria cultura
política. Mas esta oposição entre os "do alto" e
os "de baixo" da sociedade é uma constante que se reencontra
em todas as consultas sobre a Europa. Pois este manguito dirigido a Bruxelas
é o quarto em menos de um ano. Os
gregos (Julho 2015)
, os
dinamarqueses (Dezembro 2015)
e os
holandeses (Abril 2016)
já haviam pronunciado um Não atroador aquando dos referendos
quanto à Europa.
Esta geografia social da recusa da integração europeia fora
particularmente impressionando no referendo francês de Maio de 2005 que
rejeitou o Tratado Constitucional Europeu (TCE). Um escrutínio que
constituiu de certa forma um primeiro tremor de terra no seio da UE.
Na época, foram os operários, e mais geralmente o mundo do
trabalho, os explorados, os dominados, que se revoltaram contra o projecto
europeu de que se poderia resumir assim o objectivo mais essencial: retirar aos
povos ("povos" no sentido político e não étnico)
a liberdade de determinar as grandes escolhas que condicionam seu devir. A
expressão mesmo de "comunidade de destino" (como se definiu a
UE) diz tudo: proibição de fazer escolhas diferentes daquelas da
"comunidade" e, sobretudo, o "destino" ultrapassa a vontade
humana...
Deve-se notar de passagem que a mais alta distinção concedida
pela União Europeia se chamae "prémio Carlos Magno".
Uma escolha que diz muito sobre as ambições imperiais desta
"construção" que foi, no após-guerra imediato,
promovida activamente por Washington.
Esta vontade recuperar sua liberdade política colectiva o termo
jurídico é soberania, um conceito frequentemente caricaturado,
quando se trata do próprio quadro da democracia real tem a ver
mais habitualmente com a aspiração colectiva do que com uma
motivação explícita de cada cidadão. Verifica-se
que os eleitores britânicos sem dúvida não se esqueceram de
como foi espezinhado o Não francês ao TCE, assim como a maneira
humilhante como foram tratados os irlandeses aquando da sua exigência
efectuados duas vezes de recomeçar sua
votação porque eles não haviam dado a boa resposta da
primeira vez...
Um tal abuso de autoridade não foi possível com os ingleses.
Estes acabam de entregar uma mensagem simples: pode-se ir embora. A
consequência é certa: a União Europeia está morta.
Unicamente a forma e a data da agonia são desconhecidas.
Em 1989, a queda do Muro de Berlim abria uma era em que os dirigentes
ocidentais esperavam estender sua dominação sobre o mundo
inteiro, privar os povos da sua liberdade e aproveitar para impor recuos
sociais literalmente sem precedentes.
O que se segue não está escrito. Mas um formidável retorno
da correlação de forças esboçou-se a 23 de Junho de
2016. Sugere-se a todos os progressistas que meçam a sua amplitude.
E o sentido da mesma.
24/Junho/2016
[*]
Especialista em questões europeias, dirige a redacção de
Ruptures
. Anteriormente foi jornalista no diário
L'Humanité,
engenheiro e sindicalista. É autor de dois ensaios e um romance.
O original encontra-se em
francais.rt.com/opinions/22682-union-europeenne-morte
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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