As infelicidades do Leste Europeu
por
The Economist
Nunca antes o Leste Europeu atravessou uma fase tão boa. A maior parte
da região está ancorada na NATO e na União Europeia;
está próspera, estável, democrática e segura. O
crescimento do PIB surpreende todos. Mesmo um lugar supostamente atrasado como
a Macedónia cresce a 4%, muito mais rápido do que a "velha
Europa". Na maior parte dos países, o crescimento está acima
dos 5%; as estrelas do Báltico, Estónia e Letónia, crescem
acima dos 10%.
Ainda assim o ambiente é surpreendentemente sombrio. Por toda a
região, milhões emigram para trabalhar no exterior, provocando
aumentos salariais, ameaçando a competitividade e preocupando os
investidores. Países que ainda não estão na UE temem que
mesmo reformas rápidas possam não ajudá-los na
adesão. Nos dez países ex-comunistas que já estão
no clube, as reformas estagnaram. Na Roménia, a disciplina
política que antecedeu a entrada acabou de forma espectacular. Tal como
em relação ao euro, nenhum lugar na região parece prestes
a seguir o exemplo da Eslovénia e adoptar a moeda.
O medo imediato, alimentado pelos mercados inconstantes e pelas
lembranças das crises financeiras no Leste Asiático em 1997 e na
América Latina mais constantemente, é de um crash
económico. Ele poderia começar no Báltico. Na semana
passada, a agência de classificação de risco Fitch advertiu
a Letónia de que o país enfrentaria um rebaixamento se não
colocasse a economia sob controle. Em 2006, o défice em conta corrente
do país foi de 20% do PIB, o maior da UE. Isso reflecte um
inchaço dos empréstimos hipotecários dos bancos
estrangeiros aos bancos locais, denominados sobretudo em euro, o que
impulsionou o boom imobiliário. A história na Estónia e na
Lituânia é semelhante e parece igualmente
insustentável. Apesar de todo a sua brilhante arquitectura, é
difícil entender por que as capitais do Báltico deveriam ter
imóveis mais caros do que Berlim, Viena ou Frankfurt.
É fácil imaginar como a bolha imobiliária pode estourar.
As empresas construtoras estão a descobrir que é cada vez mais
difícil contratar a mão-de-obra de que precisam para terminar os
apartamentos já pagos pelas companhias imobiliárias, que
utilizaram dinheiro dos seus clientes, os quais por sua vez tomaram emprestado
do estrangeiro. Num sinal bizarro de superaquecimento, algumas construtoras
estonianas estão a importar trabalhadores da Finlândia. Uma
questão mais difícil é o que pode acontecer a seguir. Os
bancos bálticos são em grande parte controlados por
sólidos bancos escandinavos. Eles podem suportar prejuízos das
suas subsidiárias locais, se necessário. Apenas a Letónia
tem um grande banco nacional, o Parex, mas este tem sido um tomador
relativamente cauteloso.
Os três países têm taxas de câmbio fixas (
currency board
na Estónia e Lituânia e
currency peg
na Letónia), apoiados por reservas em divisas estrangeiras. É
tranquilizador que nenhum deles tenha grande dívida externa e que as
suas moedas e títulos sejam pouco comerciadas, o que deixa pouco
espaço para um ataque especulativo. Entretanto seus regimes de taxas de
câmbio deixam pouca margem para um aperto monetário. E
coligações políticas fracas minam as esperanças de
uma política fiscal dura ou de reformas económicas estruturais
que mantivessem a competitividade quando os custos aumentam.
Edward Parker, da Fitch, diz que um crash no Báltico pode significar
que alguns países tenham de seguir o exemplo de Portugal, o qual tem
estado atado a altos custos e baixo crescimento após um boom
insustentável.
[1]
Seria triste para os bálticos. Mas teria isso de ser estendido a outros
países do Leste Europeu?
Aparentemente, não. Só a Eslováquia tem um crescimento
estilo báltico (uma taxa anual de 9,6% no quarto trimestre de 2006, com
uma produção industrial que em Janeiro cresceu 17,4% num
período de 12 meses). Este é mais flexível (com taxa de
câmbio flutuante) e o seu BC é administrado de modo
saudável. Mas alguns na área do euro resmungam que a baixa
inflação da Eslováquia será considerada
insustentável com o decorrer do tempo.
A Hungria é uma grande preocupação. O governo tenta
recuperar o controle das finanças públicas após uma
ostentação destinada a ganhar a eleição do ano
passado. Os húngaros tomaram enormes empréstimos em moeda
estrangeira, supondo que o euro é uma certeza. Isso cria todas as
condições para um terrível esmagamento, com
desvalorização e possivelmente incumprimento e recessão.
Após alguns perigosos estremecimentos no ano passado, o programa de
austeridade do governo ganhou aplausos dos banqueiros. Mas as reformas
planeadas dos gastos públicos ainda têm de concretizar-se, e o
governo tem sido tímido ao conceder pagamentos mais elevados ao sector
público.
A falha subjacente são governos fracos e não decididos em toda a
região, a qual precisa de anos de bom governo se quiser alcançar
[a Europa ocidental]. A Roménia, o segundo maior membro da UE no leste
europeu, está paralisada por uma quezília política entre o
primeiro-ministro e o presidente. Em consequência, a câmara alta
do parlamento votou pela demissão da ministra da Justiça,
Mónica Macovei. Num clima ensolarado, tais peripécias
políticas seriam meros pormenores. Num clima mais gelado, elas tornam o
futuro do leste europeu mais preocupante.
13/Março/2007
[1]
Sublinhado de resistir.info.
O original encontra-se em
http://www.economist.com/world/europe/displaystory.cfm?story_id=8820521
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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